quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

31 de dezembro de 2008

Ainda não disseram coisa melhor que a Rita Lee, aniversariante do dia, sobre 31 de dezembro. "Os últimos serão os primeiros".

[Feliz ano novo! Que possamos nos abraçar com sinceridade em 2009!]

domingo, 21 de dezembro de 2008

Imprensa marrom & o rock da Madonna

Veri: Tô lendo seu texto sobre o show da Madonna.
Renata: Ah é? E aí?
Veri: Engraçado que ela beija quem ela quer e ninguém fica questionando se ela é bissexual. Nessas horas até a imprensa marrom respeita!
Renata: E ainda por cima, pegou Jesus!
Veri: Néam?
Renata: Hahahahahahahahah!

5 minutos depois...

Veri: É, pensando bem, ela tinha essa veia roqueira no começo da carreira.
Renata: Ah, mas isso porque o visual dos anos 80 era aquela mistura bagaceira dela no próprio clipe de Borderline.
Veri: Pode crer. Rock mesmo, de verdade, devia ser apanhar do Sean Penn!
Renata: Hahahahahahahahahahaha!

O código oculto da parafernália

Não rolou "bunda suja". Em 120 minutos, Madonna pulou corda, fez pole dancing, conversou com a galera, beijou a bailarina na boca [tivemos a impressão de que dessa vez foi mais "nasty": sabe como é, país tropical...], destilou um repertório de antigos hits com novíssima roupagem e de novas músicas que todo mundo já sabia de cor, rodeada por uma baita produção. Desafinou um pouco, é verdade, mas ninguém estava preocupado com isso. Até aí, nenhuma surpresa: tudo dentro dos conformes técnicos obsessivos da Sticky & Sweet Tour. Só não dava pra escapar da atração arrebatadora que aquele corpinho extremamente definido exalava de qualquer ponto do palco.

Sábado, 20 de dezembro, foi dia de lavar a alma com capas de chuva vagabundas. Especialmente se você desse a sorte de passar o tempo inteiro com a tchurma mais engraçada do mundo para assistir shows. Ou pelo menos a um show da Madonna. A começar pelos cinco [belos] cavalheiros [gays] dispostos a levantar mocinhas pequenas para ver a tal da mulher de 50 anos que se contorcia e quase virava cambalhotas na pontinha do palco, lá do outro lado.

Deve haver algum desastre químico na minha cabeça gorda, mas vou dizer que o mais importante de tudo foi avistar Madonna no centro da parafernália, tocando a velha Borderline meio desajeitada, com uma guitarrona em punhos. [Breve pausa para sorrir]. É mais ou menos como encontrar um código oculto & gracioso no meio desse gigantesco emaranhado pop, e depois guardar no bolso um pedaço embrionário da teia a que pertencemos desde os primeiros ídolos que imitamos quando crianças, e que nunca deixamos para trás [porque nunca tivemos coragem para isso].

sábado, 20 de dezembro de 2008

Enquirer-escória

Recebi hoje um pacote de revistas gringas. Sempre peço aos meus amigos que vivem fora do país para que me enviem umas revistas de vez em quando. Como estou de folga até o começo do ano, resolvi tirar a leitura da miséria. Não sei bem se consegui...

8 DE DEZEMBRO DE 2008 - DESTAQUES DE CAPA DA REVISTA [AMERICANA] NATIONAL ENQUIRER:

1) Michael J. Fox entra em colapso - veja fotos exclusivas [do astro agonizando com Mal de Parkinson].
2) Médica do E.R. está grávida.
3)Leia aqui sobre as discussões e os gritos entre Sarah Palin e John McCain, que deixaram a governadora do Alasca aos prantos.
4)Um novo bebê para Michelle & Barack [Exclusivo: Michelle dividiu o quarto com uma lésbica por dois anos na faculdade! A roomate, no entanto, afirma que a futura primeira-dama e ela nunca foram muito íntimas].
5) O DRAMA DA TENTATIVA DE SUICÍDIO DE OPRAH [Família conta tudo em novo livro: a batalha contra o peso e as drogas, a grande mentira sobre o relacionamento dela com Stedman].

E você achava que só a imprensa brasileira era suja e sensacionalista?

domingo, 14 de dezembro de 2008

E aí, bunda suja?

Madonna no Brasil, até que enfim! Alguém aí lembra do Melô da Bunda Suja? Aconteceu em 1993.

A história é a seguinte: a Rainha veio cantar no Morumbi e depois no Maracanã. Em São Paulo, ficou hospedada no antigo Caesar Park da Rua Augusta, lado centro [aos não paulistanos, saibam que o endereço há tempos é ponto de prostitutas, sendo que nos arredores ficam baladas gays, inferninhos e lugares para gente "descolada"; mas nos anos 90 tinha mais prostitutas mesmo]. Rapidamente, o lugar foi tomado por uma multidão de fãs assustadoramente enlouquecidos.

Eu tinha 9 anos e me lembro bem da imagem de um peludão vestido com botas e uma sunga de couro [numa viagem meio Mapplethorpe/meio aquele documentário Sex da própria Madonna], que subiu nos ombros de uma segunda pessoa e começou a esfregar suas partes íntimas diante do hotel, e das câmeras de TV. Mulheres mostravam os peitos e berravam sem parar. Uma patota de drag queens encabulava a polícia. A própria Madonna depois revelou ter ficado tão apavorada que nem conseguiu dormir com aquela balbúrdia debaixo da janela.

Durante a passagem de som no estádio [coisa que até hoje, meticulosamente, ela faz antes de cada show] o protocolo foi quebrado e os portões foram abertos aos fãs que já estavam acampados [and horny] por lá. Glória Maria & seu respectivo cinegrafista da Globo acabaram conseguindo entrar com uma câmera escondida.

Foi ali que a tal da megastar, aos 35 anos, um metro e sessenta de altura e cabelinho oxigenado modelo "touca de natação", pediu aos fãs que ensinassem a ela alguns palavrões em português para que pudesse compor uma musiquinha e cantar mais tarde. Foi aí que surgiu a pérola, uma de nossas piadas internas mais queridas, cuja letra consistia na repetição dos belíssimos versos "Oi galera! Oi Brasil! E aí, bunda suja? Como vai? Que gostoso! Muy gostoso!". [Se alguém encontrar o vídeo na íntegra, avise a tia por favor. O vídeo abaixo tem um trechinho].

Peraí, peraí. A história é muito da bonitinha. Mas preciso dizer também que há controvérsias sobre a autoria do "bunda suja". Na época circulou a versão de que o autor da proeza foi na verdade um bailarino ou coreógrafo [xarope] que participava da The Girlie Show. Será que a donna Madonna topa fazer um tira-teima?

Em tempo: estou tentando convencer meus amigos [também histéricos] a protelarem um pouco nossa chegada ao estádio, no próximo dia 20, sob pena de ficarmos surdos ou no mínimo estressados com animosidade de plantão. Na televisão tudo isso é engraçado. Mas na pista do estádio, debaixo do sol a pino [ou de chuva], com a garrafa d´água custando 6 Reais, acho que não vai ser tão bacana o esforço. Ou vai? Ajudaí, tia Madonna!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Pollock´s dream is also mine (and yours, now)


Jackson Pollock
"She-Wolf", 1943
41 X 67
Collection: MOMA, NYC

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ok, rapaz, você tem uma voz enorme!

Sorrisinho diante do novo. O novo-velho, ainda revigorante. Deve ser porque a década de 80 não tem nada de perdida. Madame Satã, Rose Bom Bom, a vanguarda do Lira Paulistana, camisetas dos Smiths [pro pessoal do rock inglês], e vá lá, a ascenção do rock nacional... tudo é lindo demais. E além do mais, eu estava lá. O único porém é que em vez disso tudo eu estava ouvindo Trem da Alegria.Eu e toda a turminha banguela do Jardim Escola Raio de Sol.

Talvez tenha sido culpa da distância geracional. Coisas de Saturno, Netuno, Plutão & as efermérides. Se bem que eu nunca liguei muito pra isso. Mas o fato é que tanto as forças óbvias quanto as ocultas andaram me pressionando a ouvir com mais cuidado o pessoal da Lira, a começar por Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e especialmente o Grupo Rumo.

Os vídeos selecionados abaixo fazem parte de um DVD do Rumo gravado ao vivo no SESC Pompéia em 2004. Foi naquele mês de junho que um amigo, hoje casado e mudado, me convidou para assistir ao tal show de Luiz Tatit, Ná Ozzetti & companhia, mas eu não fui.

[E desculpaí pessoal do Rio, do Circo Voador ou coisa que o valha, mas aqui falamos especificamente sobre a paulicéia desvairada].

Enterrando a cabeça de bagre em algum lugar, estou gostando muito desse resgate. E seja lá qual for o efeito posterior disso, tem aí um tipo de irreverência tão tipicamente paulistana e intrínseca, que torna a identificação imediata. Também tem um tipo de sentimento bitter-sweet-sour, às vezes. A voz de Ná é, como sempre, refinadíssima no seu hesitar milimétrico. [E eu gosto de seguir os olhos de quem canta com eles abertos].

- Delírio, Meu!

- Está faltando alguma coisa.

- Essa é pra acabar

domingo, 7 de dezembro de 2008

100 + voices

A Rolling Stone americana publicou a lista dos 100 cantores mais importantes da era do rock. Isso significa que devemos pensar "os" e "as" maiores desde a segunda metade da década de 1950, certo?

A missão difícil ficou por conta de críticos, produtores musicais e grandes astros do rock n´roll ainda em atividade. Sobre Bono, Billie Joe [do Green Day] começa assim: "A voz dele é 50% Guinness, 10% nicotina, e o resto é religiosidade".

Patrick Stump, do Fall Out Boy, resume Michael Jackson: "Um dos elementos chave do estilo dele é o uso da voz como instrumento musical". E completa: "Diante de alguém tão grande, é comum perdermos a noção do quão vanguardista e revolucionário essa pessoa é, mas Michael Jackson definitivamente ultrapassou todas as fronteiras do R&B". Verdade, Patrick. O negro leve da foto abaixo era realmente "o cara".



Há controvérsias na listinha. Entre os homens, Steven Tyler, Morrissey e Joe Cocker também ficaram lá pra trás. O barítono elegante e inconfundível de Dave Gahan nem sequer entrou na dança. Não sei dizer se a qualidade de Chris Robinson, do Black Crowes, foi corretamente deixada de lado porque, afinal de contas, os pais espirituais do moço [nitidamente teletransportado dos anos 70], estão por ali. Segundo meu amigo Daniel Faria, faltou Michael Stipe.

Entre as mulheres, a desmerecida presença de uma Christina Aguilera acaba deixando de fora a inegável relevância de Chrissie Hynde, principalmente se o critério for a influência nas novas queridinhas, como Lilly Allen. Deixar uma Annie Lenox pro rabo da lista é descosiderar não somente um primoroso e único vocal, mas o peso geracional por trás disso. A força e a sigularidade de uma Sinéad O´Connor nem ao menos é citada. Onde estarão kd lang e Beth Gibbons? Ofuscadas pela gritaria over de Mariah Carrey?

O que eu vou deixar aqui é a minha listinha dos 10+, só pra variar. Como sempre, o critério é o desbunde, a permanência no dial, a admiração pessoal, e claro, uma consideração pela técnica [ou o total despojo da falta dela]. Vamos tratar também de reparar algumas injusticinhas, embora seja meio impossível escapar do clichê na categoria testosterona.

LITTLE GIRL´S ROOM

1) Janis Joplin
2) Nina Simone
3) Tina Turner
4) Aretha Franklin
5) Sinéad O´Connor
6) Beth Gibbons
7) Chrissie Hynde
8) Patti Smith
9) kd lang
10) Siouxsie Sioux [outra que ficou de fora]
Bonus choice: 11) Björk


LITTLE BOY´S ROOM

1) Freddie Mercury
2) Robert Plant
3) Mick Jagger
4) Marvin Gaye
5) Michael Jackson
6) Stevie Wonder
7) Jim Morrison
8) David Bowie
9) Bono
10) Jeff Buckley/Thom Yorke [serei obrigada a dividir a posição entre os dois]
Bonus choice: 11) Dave Gahan

Nacionalistas, não se preocupem: ano que vem, provavelmente, a Rolling Stone brasileira dará suas cartas na lista tupiniquim. Quando isso acontecer, a gente comenta por aqui, com uma porção de tremosos & umas cervejinhas.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Necessito ver-te

Sigo pelos cantos dos olhos até o traço na testa. Da linha dos dentes à cor da gengiva, observo o gracejo hipnótico da língua. Da largura dos ossos à farta massa corpórea, percorro tua pele ibérica de península. Reparo em ti no piscar das luzes, pelas frestas & beiradas do tempo, nas pausas do respiro nessa mágica incessante dos nossos encontros circulares: sempre necessito ver-te.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Rapid state of mind

We are so friendly
Li no [ótimo] site Diversidade Global, da amiga Liliane Rocha: o negó$$io [sic] agora é ser gay friendly. Isso porque o Governo do Estado de São Paulo acaba de lançar o Selo Paulista da Diversidade, que premiará as instituições que incorporarem essas práticas. O selo, é claro, visa "agregar valor" às marcas cidadãs. Uau! Quer dizer então que respeitar o próximo virou rentável? Adote já um colega gay e comprove!

Medalha, medalha,medalha!
Escuta aqui, seu José Serra: cadê o meu selo de "garota sustentável"? Cadê a minha fitinha, estrelinha, selinho ou bandeirinha do valor agregado? Eu sou uma moça bacana, reciclo lixo, ando de metrô, crio cachorros, vivencio a diversidade e faço doações às vítimas de Santa Catarina. Também quero ser rentável!

Olhos de ressaca
Impressão minha ou transformaram o Bentinho machadiano num purgantezinho-retardado-afetado? Dêem uma olhada nas vinhetas e nos capítulos da tal da Capitu, nova minissérie da Globo e façam um tira-teima.

O sapo Liu-Liu
Mallu Magalhães, a nossa mais nova "grande artista", "mulher do ano" e "garota do Fanatástico" [sic], gravou um LivroClip sobre Hilda Hilst, numa iniciativa que visa aproximar a leitura do universo dos adolescentes brasileiros. Minha pergunta vai para o Marcelo Camelo: será que a Mallu sabe da história do sapinho que queria tomar sol no cu?

sábado, 29 de novembro de 2008

E-bow the letter

Estava comentando o show do REM com um amigo e me lembrei da velha canção. Pelo que me consta, a letra de E-Bow The Letter na verdade reproduz uma carta escrita por Michael Stipe para River Phoenix, que nunca chegou a ser enviada. Patti Smith topou fazer os backing vocals na abertura do disco New Adventures In Hi-Fi [1996]. Sem ela seria de uma opacidade só.

Escolham aí entre as duas versões. Não gosto muito do clipe, mas segue a versão ao vivo com Patti no palco. Também achei uma entrada ao vivo no Tibetan Freedom Concert com participação do Thom Yorke. Eu prefiro Patti Smith...



quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O mundo sempre pode ser nosso

Eu e Camila Hungria devemos agradecer a Miguel de Almeida, Joca Reiners Terron e Daniela Ramos pelo brilhantismo da argüição, pela perspicácia das críticas e sugestões, pelo domínio que demonstraram sobre o tema e o respeito que deram a nós nesta noite de quarta-feira [26/11], durante banca examinadora de nosso trabalho de conclusão de curso em jornalismo na Faculdade Cásper Líbero.

É realmente muito gratificante saber que acertamos na escolha. Que entregamos um trabalho apaixonado nas mãos de três especialistas. Um privilégio maior ainda é saber que fizemos por merecer a nota máxima.

Coisa que não tem preço é estarmos cercadas de amigos e familiares, recebendo telefonemas de sorte, mensagens de apoio, e muitos abraços sinceros na hora do gol: que delícia! Agradecemos também [essa parte já consta no livro, mas aqui vai novamente] a Andressa Zanandrea, Carlos Franco, Kleber Nascimento, Mônica Brincalepe, Wagner Lopes Pires e Welington Andrade pela ajuda & gentileza de cada um durante o processo.

Hora de deixar claro [à meia dúzia de carniceiros-sanguessugas de sempre]: nunca tive tanta certeza do que fiz e do que faço. "Os Dentes da Memória - Uma Trajetória Poética Palistana" foi feito do jeito que quis, na hora que quis, e a minha marca está nele. A minha e a de Camila. E isso ninguén nunca vai nos tirar. [Agora botem os cotovelos na salmoura pra ver se resolve a dor].

Estou absolutamente feliz, e ainda quero mais. Eu quero ver o mundo pela perspectiva do Aleph. Vou mergulhar no espelho de Alice. A nossa hora já chegou. Nós temos a força. Estamos no topo do monte. E daqui de cima é assim: o mundo sempre pode ser nosso.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

1,2, 3, agora!

“De olhos fixos no futuro, jamais voltaremos”, Liv Ullmann.

(Obrigada, Welington).

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

domingo, 9 de novembro de 2008

O sal da cura

O polegar de um pé vive encostado no calcâneo do outro. Eu me arrisco calculadamente, mas dou trabalho ao santo protetor. Sorrio nos momentos de tontura. Surfo no balanço da vertigem. Sou da fé cega, faca amolada. Boto primeiro a cara. E depois eles querem meu sangue. Me guio para um norte particular e tenho absoluta certeza do que virá por fim. Por isso sigo a me perder intensamente pelos meandros, sujeita às dores, delícias e aos gostos exóticos das beiradas do planeta. Eu às vezes como paredes. Eu habito as águas turvas onde existe o sal da cura.

sábado, 8 de novembro de 2008

Descobri que os fãs do Skank são felizes

Uau, onde estão todos os jovens modernosos, os neo-hippies e os hype-indies de classe média-alta? Onde estão todos os olhares blasé, todas as roupitchas da Galeria Ouro Fino, todos os All Stars, todas as costeletas e os cabelos milimetricamente desarrumados, as mulheres propositalmente bissexuais, onde estão as tintas vermelhas nos cabelos e sobretudo aquela velha depressão amiga, muita tristeza, muita melancolia, muito rock inglês?

Puxa! Quer dizer que os pós-modernos paulistanos não são os donos do mundo? Quer dizer então que as baladinhas do Baixo Augusta (é o baixo-high-society-oh-yeah!) não são o centro do mundo? Existe vida fora da matéria?

Existe, minha gente. No show do Skank de ontem, realizado no Citibank Hall no comportado & bastante beautiful bairro de Moema, zona sul da cidade, se reuniram garotas bem nascidas com todas as canções e onomatopéias de Samuel Rosa na ponta da língua, mulheres de salto alto - que dançaram felizes da vida por duas horas -, casais de namorados jovens, casais de meia idade se divertindo pra caramba, vestibulandos de 17 anos com transgressores copinhos de cerveja nas mãos, e egressos rebeldes da classe média da zona norte, como yo, achando tudo aquilo "legal".

Legal em termos. Legal sem emoção. Legal, mas cansativo depois de meia hora. Pelo menos não ofende. O Skank do show Estandarte não mudou nada. O Skank e a classe média limpinha, conservadora e bem comportada se dão bastante bem. É o pessoal do amigo secreto no Fridays. Mas eles têm todo o direito. "Samuel Rosa é alto astral", disse a bela quarentona atrás de mim. Eu também acho, dona. Simpático moço, sorridente e dedicado,animando a galera. Ele é charmosinho - e eu nunca tinha reparado nisso, que bom que agora eu percebi. Tem belas guitarras. Ele coleciona, né?

Henrique Portugal faz cara de bancário com sono, indo embora da pizzaria. Toca teclado e [finge que] toca violão. Lelo Zanetti é um bom baixista, discreto, na dele. Haroldo Ferreti está mais na dele ainda. E assim, tudo fica meio burocrático. Previsível. Mas o público nem liga.

O público não sabe cantar Helter Skelter. O público gosta de Skank mas não conhece Beatles. O público tem preguiça de buscar as referências musicais que os próprios músicos sublinham. A emblemática canção dos Beatles foi executada com a presença de Andreas Kisser do Sepultura, e membros ensebados daquela banda Cachorro Grande (...zzzzzzzzzz, atitude rock n´roll!, zzzzzzzz....). A emblemática canção dos Beatles terminou o show. O show não foi emblemático. Mas não tem problema. O Skank sabe fazer seus fãs felizes. Eu apenas não estou entre eles.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

El Diniz

Não faz muito tempo que meu amigo Diniz Gonçalves Júnior resolveu limpar as gavetas, arejar os ambientes de casa, destrancar as portas e soltar os cachorros. O resultado é seu primeiro livro, que reúne parte de sua produção poética desde 2001. Decalques já saiu do forno. E eu ganhei meu exemplar autografado há algumas semanas. Só não me debrucei sobre ele antes por cautela & zêlo com a minha própria criação de palavras. Na minha leitura de hoje, resolvi separar uns poemas.


Ifá


não apague a passagem do tempo
flor de ventanias colhidas no dia
lago de narciso, beira do abismo
nas contas do colar; ifá


Ísis

na teia dos cílios
ábacos contavam segundos
pausas entre a fala
e o movimento da íris



reflexos mínimos
rascunhos, barcos
ilhas nas entrelinhas

milhares de sóis
rompem o claustro
de mirestrelas

Absurdos que o povo fala e acha que a gente acredita, parte 1

"Lucrecia Martel? Cineasta, grande figura! Vive aqui com a rapaziada, conheço o marido dela e as crianças, grande amiga minha!" [da série "Grandes Amigos"].

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

America

MLK (MARTIN LUTHER KING), U2

Sleep
Sleep tonight
And may your dreams
Be realized
If the thunder cloud
Passes rain
So let it rain
Rain down on me
Mmm...mmm...mmm...
So let it be
Mmm...mmm...mmm...
So let it be
Sleep
Sleep tonight
And may your dreams
Be realized

If the thundercloud
Passes rain
So let it rain
Let it rain
Rain on me


Salvar as baleias? Instituir áreas de nudismo nas grandes cidades? Salvar o planeta do aquecimento global? Terminar todas as guerras, acabar com todas as injustiças sociais? Resolver o problema da escassez de comida e da fome na África? Perdoar a dívida externa dos países pobres? Tornar os corações dos homens menos maldosos? Corrigir todos os erros brutais do capitalismo, acabar com todos os ecos da crise financeira mundial em 4 anos? Distribuir toda a renda? Nada disso, na verdade. Mas uma mudança de mentalidade e de concepção é necessária pela América profunda e pelo mundo afora. E talvez o novo presidente americano possa dar esses primeiros passos. Talvez já tenha dado. Tomara.

sábado, 1 de novembro de 2008

Sobre Mulher Gato & Gretchen

No orkut:

Veri:
Bicha, vou ler teu livro todinho esse fim de semana. UI!
Renata: Pois leia, gátam. E como diriam Michael Jackson e Frank Aguiar - o cãozinho dos teclados: "AU"!
Veri: MEAU!


No telefone:
(...)
Renata: De onde você tirou isso de "etíope". Eu não sou etíope!
Paul Henry: Sei lá, de que país você gostaria de ser?
Renata: Mmmmmm, vejamos. Do Congo!
Paul Henry: Então, você é a conga. Conga la conga... conga, conga, conga...

sábado, 25 de outubro de 2008

That´s life

Acabo de escrever um livro. Agora só falta ter um filho e plantar uma árvore.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Adeus, Telefônica!

O serviço Speedy, prestado por essa empresa completamente displicente e irresponsável (a pior do país, será?) chamada Telefônica, tem mais de 4 mil reclamações registradas no site Reclame Aqui e somente 71 respondidas. Esse descaso é o mesmo tratamento que você recebe quando fica sem resposta escutando musiquinhas num labirinto de menus ineficientes, atendentes despreparados e dúvidas acumuladas a cada vez que precisa de uma assistência técnica ou fazer uma reclamação sobre uma conta.

A Telefônica também é recordista de reclamações no Procon. Acumula casos de pane inexplicada em bairros da cidade de São Paulo, e até mesmo aquela pane geral que afetou os negócios de diversas empresas e trabalhadores autônomos como eu. Mas com os poderes da big corporation e um belo cacife na Anatel, eles se saíram bem, afinal, a indenização foi dinheiro de pinga, não paga nada do estresse que todo mundo passou, do dinheiro que alguns perderam.

Após 2 meses de problemas com serviços contratados, pagos e não prestados, e mais 7 dias de internet inoperante em casa, resolvi me libertar. Reclamei na Folha de S. Paulo, reclamei no Procon e mesmo que eles me devolvam o que paguei (é bom que o façam), passarei a surfar pela web utilizando um outro serviço de banda larga. O problema é que com as poucas opções de de serviços para uma enorme demanda descontente, o jeito, em breve, vai ser mudar de país. Deve dar certo. Mas em último caso, mudemos de mundo. Se eu fosse uma publicitária ruim, diria "mude você também", mas temo que ninguém mova a pança, como sempre.

domingo, 19 de outubro de 2008

O diário de uma noite inusitada


Sábado

15:30. O telefone toca na mansão D´Elia: "Renata? É Jorge Mautner. Como está? Vocês ainda têm tempo de me entrevistar para o livro, ou já fecharam? Estou em São Paulo, farei um show hoje à noite na Associação Judaica... Centro de Cultura Judaica, isso mesmo! Você está convidada, aliás. Pode encontrar a mim e a Nelson Jacobina às 21:30? O carro vai nos apanhar às 22, de lá vamos para o hotel e terminamos lá, se não tiver dado tempo. Ok? Espero você".

16:00. O telefone toca na mansão grega do Bom Retiro, atende Paula Dume: "D´Elia? E aí? Bar? Vamos sim. Só depois das 21? O metrô vai funcionar até mais tarde? Ah, horário de verão? Você vai pagar? Ok. Eu vou. Vamos. Que horas no metrô?"

20:00. Na catraca de uma estação do metrô: "Paula, é o seguinte: você vai comigo fazer a última entrevista do livro, que já está em negociação há meses, mas estava difícil de acontecer até hoje à tarde. Vamos encontrar Jorge Mautner no Centro de Cultura Judaica e às 22 horas estaremos livre para ir à Mercearia São Pedro. Ok? Good".

22 horas, no Centro de Cultura Judaica: "Renata! Prazer em vê-la. Vamos então jantar próximo ao hotel em que estou? Washington, Carlos, vocês podem levar Renata e Paula no carro de vocês? Ótimo, nos vemos em meia hora".

22:45. Cantina do Sargento: Novos conhecidos comem, tomam cerveja e conversam sobre as eleições no Rio e em São Paulo, Barack Obama, bairros paulistanos, Ilhas Gregas, Portugal, a barbaridade do sequestro das meninas em Santo André,bruschettas de gorgonzola, pães de alho, e a cena cultural paulistana dos anos 60 e 70. Chega o ator Renato Borghi e rola um assunto sobre o Teatro Oficina, o Teatro de Arena, uma peça proibida em 1970 e a cerveja nem sequer subiu um pouquinho. A chuva cai forte do lado de fora, começou o horário de verão, já é domingo e são 2 da manhã. "Renata, foi um imenso prazer, agora nos falaremos com frequência e toda vez que você precisar me achar, basta telefonar, irei atendê-la prontamente". Um táxi, para a Vila Madalena. "Muito bacana que eles sejam tão agradáveis e educados assim, né D´Elia? Guardar boas impressões das pessoas é sempre prazeroso. Mas esquecemos de tirar ao menos uma foto da mesa toda pra guardar!"

Domingo

02:30, porta da Mercearia São Pedro:
20 Reais de táxi. "Estamos fechando, meninas. Uma cerveja? Ah, uma cerveja sim. Mas estamos fechando". Cadeiras sobre as mesas. Bebuns barbudos. Pessoas combinando a baladinha até as 7 da manhã. Um ruivinho fofo. A fila no banheiro. A chuva lá fora. "Que merda, Paula. Pra quê vir até aqui? Porque não ficamos ali pela Augusta, pela Paulista? Agora a gente vai ter que andar na chuva até algum outro bar. Não, não tenho cash, só cartão. Não tem banco 24 horas, os caixas eletrônicos fecham às 22. Chama ´Banco 24 horas´ porque sim, mas não funciona a noite toda. Não funciona porque não funciona, oras. Vou pedir pro Marquinhos passar meu Redeshop e trocar com dinheiro vivo, assim podemos pegar um táxi pra outro lugar. Quê? Ligar pro fulano? Ah, vamos ver se ele está por aqui..."

Nesse momento, Renata telefona para um amigo bêbado, que promete buscá-las e levá-las ao Astronete: "Hello girl. Yeah, I can pick you up. Where am I gonna take you? To heaven...hahahaha... well, I´m gonna take you both to another bar. But listen, I got a partner. Yeah, I just met her and we´re gonna do that things all night long. Of course it´s not a problem, huh? Right, I´ll be there in a few minutes. Yeah, we´re going to the bar all together and then, I´ll take the girl to my place".

03:30, na porta fechada do bar: "Chega, Paula. Vamos pra outro lugar, não vou ficar aqui esperando porque ele está completamente bêbado. E posso jurar que o vi passar por aqui de carro com a tal ´partner´, sem estacionar. Ou está bêbado, ou desistiu. Mas podia ter ligado aqui, né? `Hello, girl, I´m not going anymore cause I need to fuck my partner´. OLha, um táxi! Táxi? Olá, moço, quais bares ficam abertos até de manhã aqui perto"?

05:30, no Filial: "Eu vou bater nesse garçom se ele não parar de tacar copos de chope na minha frente sem requisição. Ele tirou meu caldinho de feijão sem eu terminar! E Paula, por favor, pare de tirar fotos com esse celular. Estou acabada. Quero dormir. Vamos embora de táxi porque não aguento mais sacolejar. A gente saca dinheiro num caixa eletrônico. Não, não é 24 horas mas abre às 6 da manhã. Quem está ganhando a corrida é o Hamilton? Que coisa mais chata essa Vila Madalena! A suuuuuper descolada e moderna Vila Madalena. Olhe ao seu redor: todos esses homens sentados, levantando copos e olhando as mulheres. O-L-H-A-N-D-O as mulheres! Eles me brocham. Eu vou encontrar a Raquel amanhã. Quer dizer, hoje. Se tivéssemos ido à despedida dela às 3 da manhã, teríamos dado com as caras na porta. Essa cidade sucks. Olha o preço dessa conta! Assim não dá. Desse jeito não dá pra ficar nesse lugar. Desse jeito e com mais 4 anos de Kassab, I give up. Eles vão instaurar a lei "cama limpa", por um sexo mais asséptico, livre de impurezas. Mas pra esses caras aqui não deve fazer diferença nenhuma. Assim não dá. Peguem essa cidade pra vocês. Eu vou para a praia! Mas primeiro, vou pra casa dormir. Vamos então? Táxi!"

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Isso aqui também é poesia marginal

Língua de rua, sangue quente, sotaque paulista, cinema falado, roteiro perfeito:

Qué apanhá sordado?
—O quê?
— Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada.


Oswald de Andrade, O Capoeira.

domingo, 5 de outubro de 2008

O oportunismo em tempos de crise

O empresário carioca Ricardo Bellino, ex-sócio de John Casablancas na Elite Models Brasil, e atual representante dos negócios escovados [sic] de Donald Trump pelas bandas "luxuosas" da terra tupiniquim, está com novo empreendimento, colado na crise imobiliária americana.

Trata-se da campanha "Eu amo Miami", que a exemplo da velha conhecida "I love New York", conta com logotipia e agressivo material de marketing para lançar uma nova moda: declarar amor à cidade mais forçadamente latina e deslumbrada do planeta.

"Quero fazer por Miami, o mesmo que já foi feito pela cidade de Nova York", disse o empresário à Gazeta Mercantil. A campanha "I Love NY" foi lançada justamente quando a cidade passava por uma séria depressão, nos anos 70, e acabou simbolizando a prosperdade e o glamour que vieram depois. Com Miami no epicentro da crise das hipotecas nos Estados Unidos, por que não ganhar uns trocados com a tentativa de reerguê-la?

Bestas somos nós, o Bellino é realmente um cara muito esperto e habilidoso. Se os imóveis de luxo em Miami antes da crise eram oferecidos pelo dobro do preço pelo qual estão colocados à venda no desespero de agora, por que não aproveitar a pechincha? O empresário resolveu então mirar a cabeça dos milionários brasileiros recém chegados ao breguíssimo high-society local e intermediar a venda desses imóveis de luxo a preços de galinha morta. Automóveis e pacotes de viagem também vão entrar na festa das sacoleiras neo-madames.

O tal do Romero Britto [o cara que faz essas gravurinhas alegres e reproduz em canecas que todo neo-sofisticado compra] também está nessa, além de empresários americanos do setor imobiliário, o Banco Rendimento, a rede de lojas de objetos de decoração Artefacto, a Rede TV - por onde a campanha será veiculada - e [tchananam!]o tio Amaury Jr. "Há muito tempo alguém já havia dito que crise é o outro lado da moeda da oportunidade", concluiu o mestre da jogada.

If only we had stomach enough to make money...

O voto mundial


Fui obrigada a ir até ali na esquina votar contra o Kassab, e já voltei prá casa. Obviamente, fico irritada de pensar que nem enconstar num barzinho e beber uma cervejinha nessa agradável tarde de domingo eu posso. Mas tampouco conseguiria transitar pela cidade, hoje pior do que nos dias úteis, e também não estou feliz com as montanhas de papel desperdiçado para entupir a minha garagem de santinhos eleitorais [quando eu era pequena, guardava um santinho de cada candidato e depois pintava sorrisos e desenhava bigodinhos neles].

Mas hoje também conheci a simulação de voto mundial promovida pela conceituada publicação britânica The Economist para presidente dos Estados Unidos da América. É simples: basta acessar o site especial da revista , escolher entre o republicano John McCain e o democrata Barack Obama [considerando os vices, claro] e pressionar o botão "vote now". Para que o voto seja computado, você terá de fazer um cadastro básico, rápido e indolor a partir desse ponto.

O especial é bastante completo, traz informações consistentes e a possibilidade de conhecer as estatísticas de voto de todos os países do mundo. Na França, 90% dos "eleitores" votam Obama. Na Indonésia, 95%. Em todos os países do mundo, inclusive no Brasil, pelo menos 70% dos eleitores preferem Obama, execto na Colômbia e na Venezuela, em que o candidato republicano ganha crédito de 7% de pessoas a mais do que nos demais territórios.

Os leitores americanos da The Economist também dão larga vantagem ao democrata: 80% dos votos contra 20% de McCain. Pena que, na prática, as pesquisas indiquem que os números das intenções de voto permaneçam mais equilibradas, mesmo com a crescente vantagem de Obama diante do atual colapso da economia americana, justamente atribuído ao desastre republicano chamado George W. Bush & toda sua trupe.

montagem fotográfica: the new york times

sábado, 4 de outubro de 2008

meme.meme.meme.meme.meme

Meu amigo Juan Trasmonte me deu de presente um meme. Eu não sei muito bem o que é um meme, mas recebendo as instruções, achei muito bacana e resolvi repassar a brincadeira, que consiste em listar nossas 7 canções preferidas no blog e depois repassar a cinco amigos.

Logo de cara deixo a brecha para meus cinco eleitos:Felipe Vilasanchez, João Carvalho ,Alvaro Andrade,
André Raboni ,Daniel Faria .

O problema é que, assim como o Juan, eu também vivo fazendo listas que geralmente vêm de baciada e o grande martírio costuma ser escolher apenas 10 canções em temáticas bem específicas. Agora, escolher as 7 + de todos os tempos de mi corazón? Impossível.

Resolvi tentar (com êxito duvidoso) nomear as 7 canções que SEMPRE comandaram meu barquinho de papel ao sabor da travessia oceânica, sem distinção de cor, credo, raça, idade, e localização geográfica. Procurei ser honesta com o meu histórico, quero dizer, com algumas das minhas bases num tempo distante, tempo de sensações descomprometidas e leves.

1) Michael Jackson - "Human Nature"
2) U2 - "I Will Follow"
3) The Cure - "A Night Like This"
4) Secos & Molhados - "Rosa de Hiroshima"
6) Elis Regina (Chico Buarque) - "Atrás da Porta"
7) David Bowie - "Heroes"

Bônus track: 8) The Rolling Stones - "Sway"

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

All the beauty in the sky


May God bless Paul Leonard Newman(1925-2008), now in the sky.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Diálogo da semana

Renata: Nossa, sério mesmo que o fulaninho voltou com a ex-namorada chatinha e bobinha?
Aline: Faz tempo! Você não sabia?
Renata: Ué, mas há três semanas eles estavam separados.
Aline: É um termina e volta sem fim. Ela faz dele gato e sapato.
Renata: Quanta falta de credibilidade!
Aline: Tem gente que pede pra se dar mal na vida...
Renata: É mesmo. Esses homens não se dão valor!
Aline: Um bando de homem mole, isso sim.
Renata: Eu prefiro homens duros. Du-ros!
Aline: Hahahahahahahaha!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O bolo da vez

Revisar 400 sinopses e comentários sobre filmes, fichas técnicas e códigos HTML; em breve virá a redenção. Gastar duas horas, um cartucho de tinta e 250 folhas de papel sulfite para atender às burocracias do Estado, e só depois pagar para ver. Fila no correio, fila no restaurante self-service. Entrevista no Itaim. Entrevista na Santa Cecília. Ônibus,táxis,trânsito, trem e metrô: o pior de São Paulo é o individualismo (mea culpa pelo meu comportamento de Marte em Escorpião). Lavar a louça de ontem, lavar o quintal, regar as plantas. Decupar fitas, revisar decupagens, checar informações, inventariar material, scannear documentos e fotos, despachar e-mails, fazer ligações e marcar algumas datas importantes: dor na coluna. Preparativos para os demais preparativos: pé quente & cabeça fria. Editar uma revista eletrônica é aproveitar conteúdos inemagináveis. E ainda fazer um trabalho de Jornalismo Econômico atrasado, que serve como a cereja do bolo da vez. Um brinde, com Guaraná!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

King Crimson

Faz mais ou menos dois anos que eu me devia alguns dias para ouvir King Crimson; com calma, como manda o figurino de todas as primeiras vezes na vida. Não foi por falta de aviso, pelo contrário, pequei por excesso de indicações. Sou cabeça dura e costumo deixar alguns conselhos de lado, até que a insistência me estraçalhe o telhado. Culpa do Xinho, this time. O momento perfeito chegou.

Comecei com "Red", álbum lançado em 1974, e de cara descobri duas formas alternativas (ou auxiliares - estou falando sério) de chegar ao orgasmo: "One More Red Nightmare" e "Starless", com uma baita progressão em bateria, baixo, saxofone [sem NADA de brega] e as guitarras em overdubs de Robert Fripp, que segundo Sir Marcos Sposito "não é malabarista, é gênio; isso metaleiro não entende".

Verdade, Marcos. Metaleiro não entende nada, a começar por cortes de cabelo & penteados, uso de cores e caimento de calças masculinas. De música, talvez precisemos mais ouvir do que entender. E sentir, claro.

sábado, 27 de setembro de 2008

O Imperador

Verte água sobre ti; e serás uma fonte para o universo.
Descobre-te a ti mesmo em cada estrela, e conquista
a impossibilidade do possível.

Alesteir Crowley, "O Livro de Toth".

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Móbile

Um móbile. Tudo que posso fazer é imaginar um móbile pendurado no teto de uma sala vazia e de uma janela quadrada de madeira antiga, completamente aberta para um dia branco, emoldurada por cortinas claras e leves que também se movimentam ao sabor de um hesitante vento que nem é vento e que nem é memória, que não é nada. É como sobrevoar um espaço familiar, durante uma temporada íntima, planejando finais felizes para daqui a alguns dias e seguir vivendo dos poucos sonhos que nunca acontecem depois que a gente acorda. No final das contas, são essas as nossas verdadeiras histórias.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Miguxês

Os amigos da gente devem pensar dentro de um código de ética e moral parecidos com os nossos. Porque na hora que apertar, não vai dar certo se for de outra maneira. Talvez seja mesmo um fator de caráter e educação familiar aliado à experiência, mas deve estar rolando por aí algum tipo de porralouquice-hedonoista-miguxa, que seja lá o que for, não é a minha praia. Meu anarquismo-individualista termina quando eu me preocupo com alguém ou apóio as decisões de qualquer pessoa. Descer do muro é preciso. Se não, melhor parar por aqui.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Cala a boca, Sarah Palin!

Àqueles [poucos, porém muito inconvenientes] que ainda proliferam na boca pequena das comunidades internéticas que um novo governo republicano nos Estados Unidos faria bem ao Brasil, segue o link supremo, com provas absolutas e irrefutáveis sobre a limitada capacidade intelectual e política da candidata à vice-presidência americana Sarah Palin, e suas tradicionais apelações a todos os argumentos sectários dos quais até uma ameba desconfiaria.

A entrevista acima foi concedida ao experiente e muito bem preparado repórter Charles Gibson, da rede de TV ABC. O êxito está justamente na capacidade dele em argumentar com os dados de uma profunda e abrangente pesquisa, com perguntas incisivas, sem perder a educação. [Capítulo 1 do manual "Como Indagar um Candidato", ainda não disponível na biblioteca da sua faculdade de jornalismo].

O furor e a glamourização de uma figura patética como Palin não poderia dar pior sinal dos tempos. Por via das dúvidas, declaro meu voto na chapa Tina Fey e Amy Poehler!

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Fresh intelligence

Sim sim, é verdade, eu juro. Não digo isso pra amenizar o impacto de uma piada ruim, mas de fato, eu estava sentada em frente ao computador muito bem acompanhada de um pratão de batatas fritas McCain[!] quando me deparei com a imagem da [espero] próxima primeira-dama estadunidense, Michelle Obama, estampando a capa de uma revista que tenho lido e acompanhado pela internet. Trata-se da Radar, provavelmente a publicação mais inteligente e carregada de sacadas irônicas a que tive acesso nos últimos tempos.

Não vou seguir rasgando seda, até porque não recebo um centavo prá isso, tampouco faço aqui apologia ao estrangeirismo. Mas realmente não dá pra ser feliz num país onde as opções de semanários de circulação nacional, por exemplo, vão de Veja à Carta Capital, que configuram duas espécies de pensamentos únicos dos quais tenho procurado me desvencilhar [com medo da máquina de moer cérebros e podar libido].

O que a Radar faz ao promover abertamente apoio à candidatura de Barack Obama é o oposto da falsa imparcialidade. E também muito diferente de oferecer espaço para que os portadores de opiniões sectárias opostas se execrem publicamente como fizeram Luciano Huck e o escritor[?] Ferrez via Folha de S. Paulo no ano passado, num pseudo-debate sobre a segurança pública no país.

Mas o mais importante é que a linha editorial prima por desancar as vacas sagradas. Aqui, pelo jeito, continua proibido. Brincadeira besta? Não, os novos ares, aliás, fazem muito bem prá tosse. Dessa vez a presa foi Patti Smith .

Mas a nota 10 fica mesmo prá capacidade da revista em rir da cultura pop e do cenário político americano. Qual revista brasileira é capaz de especular "em qual candidato Jesus votaria?" [A pergunta que não cala: se Deus é Fiel, será que Jesus é Mancha?] E que tal a versão do 11 de setembro de 2001 para crianças?

Em todo caso, dê uma olhadinha no site, tome uma meia hora de leitura e tire suas conclusões. Se o slogan "fresh intelligence" não colar com você, mesmo que não seja 100%, não brinco mais. Devolva a minha bola que eu vou brincar sozinha!

PS: Recebi de um amigo a indicação para leitura desse blog aqui, mantido pelo jornalista Vitor Angelo. A temática dos últimos posts vêm a calhar, com destaque para a palavra falada de Laurie Anderson e seu brilhante diagnóstico sobre a América.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Representando a quem?

A Câmara Municipal de São Paulo está movendo uma representação contra a vereadora e cadidata à prefeitura da cidade, Soninha Francine [PPS] por quebra de decoro, assinada por um dos líderes do DEM na casa, Carlos Apolinário.

Tamanha revolta se deve ao fato de Soninha ter afirmado, durante a sabatina do Grupo Estado, que alguns vereadores recebiam propina em troca de votos. O corregedor Wadih Mutran, outro membro do DEM, avisou que vai marcar um novo encontro para dar continuidade às investigações, já que não houve quórum para indicar um relator.

É no mínimo paradoxal que um político envolvido na máfia das ambulâncias atue como corregedor na câmara. E realmente ridículo que um vereador que se coloca contra o beijo gay e propõe uma lei que institui o Dia do Orgulho Hétero - e cujas bandeiras destoam das diretrizes de um estado laico, e da defesa de um ideal público, já que o político está ligado sectariamente aos anseios da comunidade evangélica - atue como um líder legislador. Ou você espera alguma justiça num lugar onde as leis são aprovadas por essas pessoas?

domingo, 7 de setembro de 2008

A contadora de histórias

"No início, só existiam pássaros. Os pássaros viviam no ar. Eles voavam sem parar, pois não havia terra para que pousassem. Certa vez, uma cotovia perdeu seu pai. Ele morreu e não havia terra para sepultá-lo. Então, a cotovia decidiu deixar que o corpo dele repousasse eternamente na parte de trás de sua cabeça. Esse foi o princípio da memória". [The Lark]

ps: a letra de "the lark" não foi encontrada na internet. trata-se de uma faixa inédita do novo trabalho de laurie anderson, "homeland", que será lançado no ano que vem. o fragmento da letra traduzido neste blog está, portanto, baseado na memória desta escriba sobre o show realizado sábado, no sesc pinheiros, em são paulo. neste link aqui, a própria laurie comenta o trecho, adaptado da peça grega "os pássaros", de aristófanes.

sábado, 6 de setembro de 2008

As flores de plástico não morrem

Desde que ganhei meu primeiro gravador de CDs - há cerca de 8 anos, no final do colegial - passei a cultivar o hábito de gravar seleções musicais específicas para meus amigos. Com ou sem ocasião especial: basta que eu queira compartilhar um pouco dos meus gostos. Até hoje costumo entregar os CDs junto de uma carta com comentários faixa a faixa, pequenas historietas sobre as canções e fragmentos de letras.

Existe uma avalanche de inovações tecnológicas anti-românticas avançando em minha direção, mas eu corro pra que nada me acerte. Por sorte, ainda tenho alguns amigos que valorizam essa minha forma de oferecer flores. Recebo pedidos. O último aconteceu há um mês, encomenda especial para o aniversário de Madame Hungria. Gravei uma coletânea de viagem que vai de Paco de Lucía a Rolling Stones.

De tempos em tempos, costumo mergulhar na música latina. Recordando as coletâneas "latinas" que já fiz, cada pessoa deve ter uma paixão d´eliniana diferente, por mais pop que seja. Engraçado encontrar esses registros, por acaso, nas prateleiras da casa de alguém. É sempre um exercício benéfico de nostalgia. "Você ainda guarda isso????". De repente dá um frio na barriga e então eu me redimo pelas vezes em que, ridiculamente, ofereci flores em vão.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Black magic on weekends

Ok, mais um capítulo de listas. Dessa vez não temos tempo para rodeios. A listinha abaixo pretende reunir pérolas encantadas da música negra mundial, para diversos fins. Em vez de uma nova série, vamos destilar várias listas de uma vez. Acompanhem, crianças, fará bem para a saúde. Black power, black magic! Enquanto isso eu vou dar uma de bamba e sacodir o esqueleto logo ali.

Dez mandracarias negras para um início de festa:

1) Marcos Lobo + Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz - "Alafia" [Brasil]
2) Fela Kuti - "Intro/Ololufe Mi/Trouble Sleep Yanga" [Nigéria]
3) Mulatu Astatke and his Ethiopian Quintet - "Konjit" [Mali]
5) Buena Vista Social Club - "Candela" [Cuba]
6) Sun Ra - "Saturn" [EUA]
7) Elmore James - "Talk To Me" [EUA]
8) Otis Redding - "Wonderful World" [EUA]
9) Herbie Hancock - "Chameleon" [EUA]
10)Stevie Wonder - "Sir Duke" [EUA]

Dez feitiços negros para acordar tranquila e alegremente no dia seguinte, mesmo de ressaca, sem dispensar uma leve melancolia inspiradora:

1) Ali Farka Touré & Ry Cooder - "Soukora" [Mali]
2) Salif Keita - "Madan" [Mali]
3) Cesaria Evora - "Xandinha" [Cabo Verde]
4) Ray Charles - "A Fool For You" [EUA]
5) Robert Johnson - "Walking Blues" [EUA]
5) Sun Ra & His Myth Science Arkestra - "The Blue Set" [EUA]
6) Thelonious Monk - "Nutty" [EUA]
7) Bola de Nieve - "Dejame Recordar" [Cuba]
8) Noel Rosa [que não era black] - "Palpite Infeliz" [Brasil]
9) Fela Kuti - "Monkey Banana" [Nigéria]
10)Youssou N´Dour - "Fenene" [Senegal]

[foto:fela kuti]

Dez magias negras populares para ninguém botar defeito: faça bom uso em seu automóvel, cante sozinho no metrô e imite o passo da lua no chuveiro!

1) Michael Jackson - "Billie Jean" [EUA]
2) Sade Adu - "Paradise" [Nigéria]
3) Stevie Wonder - "Isn´t She Lovely?" [EUA]
4) Marvin Gaye - "Mercy Mercy Me" [EUA]
5) Jackson 5 - "I Want You Back" [EUA]
6) Prince - "Kiss" [EUA]
7) Massive Attack - "Daydreamin" [Inglaterra]
8) Sandra de Sá - "Olhos Coloridos" [Brasil]
9) Jorge Ben - "Magnólia" [Brasil]
10)Des´Ree - "You Gotta Be" [Inglaterra]

Dez feiteceiras negras com poderes universais [acompanhadas por seus bruxos ou não lembrando ou não do bofe da balada]:

1) Ike & Tina Turner - "Proud Mary" [EUA]
2) Billie Holiday - "Strange Fruit" [EUA]
3) Nina Simone - "I Put A Spell On You" [EUA]
4) Ella Fitzgerald - "Stormy Weather" [EUA]
5) Aretha Franklin - "Don´t Play That Song For Me" [EUA]
6) Sarah Vaughan - "My Funny Valentine" [EUA]
7) Omara Portuondo - "Siboney" [Cuba]
8) Ethel Waters - "Harlem on My Mind" [EUA]
9) Elza Soares - "Mas Que Nada" [Brasil]
10) Miriam Makeba - "Chove Chuva" [África do Sul - com direito à letra em português e tudo mais]

[foto: ike & tina turner]

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Habemus ingressum!

Consegui comprar meu ingresso para um dos shows de Madonna no Brasil após 12 horas de tentativas no precário site Tickets For Fun no dia de ontem, e mais 4 horas de tentativas por telefone entre ontem e hoje, além de contar com o "fator amigo", já que o Felipe Salomão fez o favor de tentar a sorte por mim quando eu não já aguentava mais.

Ótimo. Estou feliz, afinal de contas, fiz tudo isso só pra ver a Madonna. E já prometi a mim mesma que não faço nunca mais. É muito chato saber que várias pessoas de boa fé se deram mal. Minha amiga Júlia Hilsdorf teve o valor do ingresso debitado de seu cartão, mas não obteve o tíquete. Outros amigos estão tentando até agora pelo call center, toda vez que dá uma brecha no serviço. [E ninguém aqui é desocupado, embora seja bastante cômodo aos donos da razão atribuir essa pecha aos "bobocas" da fila].

A professora Evelyn Vavassori, habitual frequentadora de shows, considerou o desrespeito tamanho logo de início, que nem tentou comprar ingressos. "Eu não vou porque está bem claro que nós passaremos muito estresse e pagaremos caro, mais uma vez, pelo privilégio de uma meia dúzia de convidados. Não trouxeram a Madonna pra a gente, não querem a gente lá. As coisas aqui acontecem sempre desse jeito porque a gente não boicota. Eu não tenho mais paciência", desabafou, por telefone.

Na Folha Online, especialistas em marketing e relações públicas afirmam que os danos à imagem da incompetente Time For Fun devem, no máximo, afastar alguns clientes. "Alguns clientes" é muito pouco. Por ironia, a relações públicas Raquel Arroyo, é mais uma das que já se afastaram do enrosco. "Por causa do preço e do desgaste, não tenho mais pique de ir a shows assim. Até porque devem ter sobrado pouquíssimos ingressos disponíveis para venda, já que antes vem o privilégio dos patrocinadores e da mesma panela de sempre".

Era de se esperar que funcionasse assim, aqui no país do Zé Carioca. "Eles que se danem".

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Bundalelê para Caetano

EJECT - Caetano Veloso X crítica
"Ele xingar críticos de "provincianos" é como Bin Laden acusar alguém de "terrorista". Tem espelho em casa, CV?". Alvaro Pereira Jr, no Folhateen de hoje. (Obrigada, Alvaro).

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O Escafandro e a Borboleta

Jean Dominique Bauby acaba de acordar após três semanas em coma, decorrência de um grave AVC. Aos 42 anos, ele está deitado na cama de um hospital, sem conseguir se mexer e bradando forte por entendimento; mas ninguém pode ouvi-lo. Jean Do por sua vez, pode ouvir, imaginar e raciocinar mas não consegue usar a boca, a língua e as cordas vocais. Está completamente paralisado, exceto por seu olho esquerdo.

Jean Do prefere morrer do que viver trancafiado em seu próprio corpo. Por insistência de suas terapeutas, resolve se submeter a uma espécie de treinamento para que consiga se comunicar: conforme lhe ditam o alfabeto, ele pisca para indicar as letras e formar palavras. Forma frases, parágrafos e textos. Resolve então usar o método para "ditar" um livro narrando sua experiência.O Escafandro e a Borboleta foi lançado em 1997, uma semana antes de sua morte.


O pintor e cineasta Julian Schnabel topou transformar a história em filme no ano passado, por insistência dos produtores, após refletir sobre a morte do pai. Sua equipe filmou no hospital francês onde Jean Do ficou internado, com Mathieu Amalric no papel principal. O cineasta arrebatou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes (2007), entre outras honrarias.

Schnabel está acostumado a transpor aos filmes sua impressão sobre histórias reais bastante comoventes. Foi assim com Basquiat (1996) e Antes do Anoitecer (2000), baseado na auto-biografia de Reinaldo Arenas, escritor cubano perseguido pelo regime de Fidel Castro. O papel rendeu a Javier Barden sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator.

O Escafandro e a Borboleta é, no entanto, seu trabalho mais bem realizado na linguagem cinematográfica. A começar pelo hábil roteiro de Ronald Harwood, que promove uma incursão nas aflições, memórias e reflexões do personagem principal. O texto valoriza o riquíssimo mundo da imaginação em que agora vive Jean Do, com uma bem sacada narrativa em off. Mas o grande trunfo do filme é mesmo a fotografia de Janusz Kaminski, cheia de truques artesanais (sem efeitos de pós-produção), com a câmera partindo quase sempre da perspectiva do olho esquerdo de Jean Do.

Há certo exagero em afirmar, como fez a revista The New Yorker, que se trata do "renascimento do cinema". Mas o filme é "inspirador e impressionante" sim, como disseram no New York Times. Criativo o suficiente para atribuir a Julian Schnabel um importante papel no cinema autoral americano. O próximo passo dele, aliás, é o longa Lou Reed´s Berlin. Sugestivo nome...

sábado, 23 de agosto de 2008

Gold Medal Point

Era um domingo de agosto, em 1992, quando amanheci com a seleção masculina de vôlei medalhista de ouro nas Olimpíadas de Barcelona; meu avô contou a notícia. No dia seguinte, recortei o Tande da foto de capa do jornal, grudei nas pautas do caderno e me mandei para a escola (estalava no ídolo uns beijinhos marotos em segredo: as paixões piscianas costumam respeitar o movimento das cortinas pelo lado de fora da janela). Também ganhei um tênis especial e uma bola oficial da Penalty, que logo sumiu misteriosamente, pois estragava as plantas da minha avó no quintal.(Sorriso). É renovador perceber, dezesseis anos depois, que a vitória feminina em Pequim traz à tona algumas belas e tão importantes emoções.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Madonna & Laurie

Acabo de reler um capítulo do professor americano Douglas Kellner em seu livro A Cultura da Mídia. Trata-se de um pequeno ensaio comparando Laurie Anderson e Madonna, dois grandes ícones da cultura pop e do chamado pós-modernismo, cada qual em seu estilo de reivenção. Fica bastante vago comentar o texto todo aqui, mas deve fazer algum sentido no fim das contas.

A grossíssimo modo, podemos resumir assim: as performances artísticas de Laurie [figura ligada à vanguarda novaiorquina dos anos 70 e 80] dialogam com as artes plásticas, promovem uma experimentação musical mais profunda e causam perplexidade - sem oferecer conclusões prontas - enquanto Madonna faz um pastiche de referências, centraliza todas as atenções e aposta em personagens carregadamente estereotipados para provocar o choque, em canções estritamente radiofônicas.

Toda a caracterização de Madonna é afirmativa e autocrática - mesmo quando se trata de ambiguidade e sexual. Por outro lado, a androginia dos clones de Laurie denota "fragilidade na identidade pessoal e sexual": uma imagem comercialmente inviável.

"Laurie é uma artista performática e vanguardista. Madonna é a rainha do pop", como diz o próprio Kellner. A primeira desconstrói a expressão, fragmenta sigificados, implode estilos musicais e produz significados que não significam muito mais do que si mesmos - é pós-moderna na gênese. Mas não investe em comentário social e não profere uma mudança de comportamento ou define qualquer tendência nesse sentido.

Enquanto isso, "Madonna está sempre promovendo sua versão de feminismo, de liberação sexual e de autocriação", além de trabalhar com maestria a pluralidade de significados nos videoclipes, por exemplo.

Ainda bem que nada é tão simples ou dicotômico. Mas na verdade, é muito curioso que essas duas se apresentem no Brasil com intervalo de apenas dois meses. Primeiro a genial Laurie [no vídeo abaixo em Language is a Virus], uma das melhores contadoras de histórias do planeta. Depois Madonna, a referência pop absoluta.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Vaia de bêbado não vale

Vaia de bêbado vale sim. E ninguém vive de unanimidade. Também ninguém é obrigado a concordar que João Gilberto canta bem. Até porque, apesar da técnica, a supremacia do gosto acaba por prevalecer neste tipo de julgamento. João Gilberto é um mestre da composição, e não seremos nós, esses idiotinhas excêntricos que mal saíram das fraldas, a retirar-lhe os méritos. Eu não gosto de O Pato, quero mais é que O Pato se afogue na lagoa e pare de me atazanar. Prefiro Corcovado e Bim Bom, especialmente na voz de Astrud. Mas e daí? Quem sou eu? Eu sou a Renata e ele é o mito. Ótimo. A única coisa que não dá pra engolir e fazer cara de contente é o fato de João Gilberto atrasar o início de uma aprsentação em 99 minutos simplesmente porque saiu de casa uma hora atrasado. Excentricidade é uma coisa, desrespeito com o público é outra. "Ah, mas ele é o João Gilberto!" Os fervorosos defensores de vacas sagradas que me perdoem, mas não faz a menor diferença ser Madonna, U2, João Gilberto ou os espíritos de Tom Jobim & Frank Sinatra in concert via Zíbia Gasparetto: respeito é bom e todo mundo gosta.

sábado, 2 de agosto de 2008

Teenager habits, back to the good old 90´s

1) Gastei todo o meu dinheiro ontem, que merda. Então, vou caminhar no Ibirapuera. Almoço um pacote grande de salgadinho Fofura sabor cebola e asssito a um show do Lulu Santos, de graça. [Lição 1: aprender a selecionar melhor meus programas].

2) Um verdadeiro guia de ruas. É isso que me tornei. Cabulo aulas sentada no banco alto do busão, aproveitando para dormir com a cabeça encostada no vidro - acordo no ponto final, do outro lado da cidade. Desço do ônibus, compro uma coca-cola e então adentro de novo o mesmo veículo para voltar, ouvindo música no walkman.

3) De uniforme azul marinho, eu sou a versão feminina do Capitão América. Tenho 16 anos e estou fazendo hora no Mc Donald´s da Avenida Morumbi. Então, eu tomo coragem: caminho firme por dois quarteirões e enxergo a ruazinha; viro à direita, número 90, portão de alumínio. Toco a campainha. Mas antes que ele atenda, eu corro!

4) Volto à casa dele, conheço os pais. Uau, o mundo gira.

5) Um Palio cinza e um Gol vermelho estão alinhados, parados no trânsito noturno da Rua da Consolação. Sexta-feira, 1 da manhã. Duas garotas de um lado, dois rapazes do outro. Plimmmm! Dias depois, um deles atravessa a cidade de madrugada mas só me beija de leve, pelo portão - se alguém aqui em casa acordar, já era. [A.J. tinha os olhos azuis e media quase dois metros de altura].

6) Esfriou pra caramba. Estou congelada com um moletonzinho mequetrefe. Ganhamos capas de chuva da MTV. Escrevo um bilhete pedindo 1 real para Marina Person. Ela gargalha, mostra o bilhete para todo mundo, mas isso não me ajuda em absolutamente nada e continuo com fome, na Avenida Paulista, esperando o show acabar.

7) Cazé Peçanha tem um carrinho de churros em frente à MTV Brasil. Dan decide gritar "aí Massari, barraca de churros, hein?". Cazé não responde, afinal, ele não é o Massari.



8) Não sei por que raios o João acha legal gastar os passes escolares em cachorro quente e depois passar por baixo da catraca do busão. Ah, isso eu também faço, e passo mais fácil ainda porque sou mais magra. Viu? Besta. Então,vamos ao cinema?

9) Saímos da escola. E ficamos 2 horas sentados em frente a uma padaria num bairro nobre da zona norte, comendo pães de queijo. Uma vez a Thais ficou doente e pediu que eu levasse um pra ela, em casa. Então eu tive meu momento Chaves e comi 3/4 do pão de queijo. Aí fiquei com muita vergonha da gula e comi o resto no elevador. Depois, disse que esqueci de comprar. Pedimos umas esfihas no Habib´s e pronto.

10) A Carol mentiu. A gente não foi só numa baladinha. A gente foi até o sítio do Edson em Embu-Guaçu por uma estrada de terra. Fizemos uma baita festa e tomamos baita porre! Tinha um interiorano de Santa Catarina, que falava que era DJ, e que fez um strip-tease prá Fabiana, em cima da mesa. Voltamos às 7 da manhã, completamente acabadas e passamos mal o dia inteiro, enquanto a mãe de Carol e Fabi fazia waffles recheados numa maquininha.

11) Júlia e eu somos inseparáveis. Ficamos até agora paquerando num Açaí. Conhecemos o fulano e o beltrano. Ótimo para a Veri (Júlia´s sister) - que é mais velha e está louca pra dar um perdido na gente. Dito e feito, ela pega o carro e some por 2 horas com o garçom do lugar. E quando ela volta... nós também estamos sumidas! Calma, Veri, a gente só foi até ali...

12) Carla, Denis e eu pasamos o reveillon na casa dela em Maresias. Mas essa história fica pra outra vez.

Foto, da esq. para dir: Gabi, Danilo, Marcel, Gustavo, Aline, Pamela, Eu e o Zé, no segundo colegial (os dois últimos se tornariam, no futuro, jornalistas do ninho casperiano).

78 rotações por minuto

Perdemo-nos pelas vias públicas. Adentramos as ruas erradas, viramos à direita antes da esquerda, quando deveríamos ter feito o contrário. Pegamos o caminho de volta sem querer e fomos parar novamente no centro de São Paulo, que saco. Estamos com fome.

Vou atrás, sentada na ponta do banco [quase escorrego toda vez que passamos por lombadas] e me agarro aos encostos de cabeça à direita e esquerda, pra me aproximar e manter o fio da prosa com meus dois interlocutores sem ter que gritar. De vez em quando me enxergo no retrovisor, e realmente não sei onde eu estava com a cabeça ao comprar esses óculos maiores que a minha cara.

A motorista de Rayban me acha parecida com ele, no jeito. O carona de bermuda e tênis às vezes fica meio amoadinho, mas é vulcão ativo. Eu realmente gosto dele. Mesmo quando está de mau-humor. Ele diz que gosta da gente. Eu gosto quando ele conta histórias. Tipo a do cara que usava calcinha e gostava de apanhar, a da amante ruiva que gostava de assistir, e também a da judia que fantasiava com garotos nazistas. Eu gosto quando ele solta frases nonsense pra a gente rir enquanto almoça. "O gato chôco do abismo".

É bom fazer as vontades de alguém, sentir-se à vontade com alguém. Sair por aí para falar besteiras muito importantes. Comprar salgadinhos de isopor e uma cerveja num posto de conveniência. A motorista de Rayban pagou uns chicletes pra uma menininha engraçadinha que sorriu pra a gente. O carona de bermuda acha que eu devo insistir na tática que comentamos outro dia. Eu tenho 24 anos e acho tudo isso muito legal. Mas onde é que foi mesmo que a gente errou o caminho? Eu quero almoçar!

Mimos repartidos

Meu amigo Juan Trasmonte, de Buenos Aires, repartiu comigo alguns selinhos fofos que recebeu de outra amiga. As regras de etiqueta dizem que devo repassar a outros 15 blogues, por isso, além de dispor o mimo escolhido para que meus contemplados salvem, deixo abaixo, meio desajeitada no layout, a lista deles com meu abraço:

1)Algum Departamento, by Gui Scarpa
2) Descompassada, by Paul Henry
3) Blog do Editor, by Marcus Cardoso (Revista Paradoxo)
4) Noise Annoys, by João Carvalho
5) Camila, fica quieta!, by Madame Hungary Made
6) Voando de guarda-chuva, by Felipe Vilasanchez
7) Poeta Menos, by Xinho
8) Life in a Glass House, by Aline M.
9) O Homem dos Mil Nicks, by Nicolau
10) El corazón del bosque, by Ariel Ledesma Becerra
11) Desterritório, by André Raboni
12) Veículo Voador, by Alvaro Andrade
13) Causadoria, by Johnny Martins
14) Funziona Senza Vapore, by Pedro Keppler
15) Antropoesia, by Wagner Pires

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Paz

Garabato

Con un trozo de carbon
Con mi gis roto y mi lapiz rojo
dibujar tu nombre
el nombre de tu boca,
el signo de tus piernas
en la pared de nadie.
En la puerta prohibida
grabar el nombre de tu cuerpo
Hasta que la hoja de mi navaja
sangre
y la piedra grite
y el muro respire como un pecho.

Octavio Paz

domingo, 20 de julho de 2008

Coincidências astrais

Akira Kuroswa e eu temos a lua em Virgem, o ascendente em Escorpião e o meio do céu em Leão. O escritor Victor Hugo e o compositor Maurice Ravel, além dessas características astrais, também eram piscianos como eu.

A coincidência cósmica entre ascendente e meio do céu se extende entre eu e Aretha Franklin, Charles Chaplin, Giovanni Casanova, Katherine Hepburn e Sigmund Freud, Clint Eastwood, Nicole Kidman, Marc Chagall, Napoleão Bonaparte, Julio Iglesias, Richelieu, Michel Focault, Sathya Sai Baba, Henri Toulouse Lautrec, Cary Grant, Diane Keaton, Edgar Allan Poe, Natassja Kinski, Margareth Tatcher, Tom Jobim, e Nijinski.

O maestro Quincy Jones também é pisciano com o meio do céu em Leão, e casou-se com Natassja Kinski. Peter Fonda nasceu em 2 de março e também tinha a lua em Virgem. Frank Sinatra e Eric Clapton têm o mesmo signo que eu no meio do céu, porém mapas atrais bem diferentes. O mesmo vale para Barack Obama, Edith Piaff, Grace Kelly e Friederich Nietzche, só que para o signo ascendente.

Desconfio que existam excentricidades comuns a todos nós.

Long live, Dercy!

"Minha avó materna viveu 113 anos. Acho que vou até os 140", Dercy Gonçalves [we love you], 101 anos, ainda esta semana.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Frase da semana

Nenhuma situação é tão complicada que uma mulher não possa piorar. [Daniel Faria]

terça-feira, 8 de julho de 2008

Atalho

No Parque Rodrigues Alves o comércio de bibocas, os botecos sujos com mesas de sinuca - habitados por aposentados barrigudos - os portões enferrujados, fachadas improvisadas e pinturas desgastadas, denunciam as ruas estreitas e tortuosas, por onde passeiam cães mais livres do que as pessoas. Os meninos ignoram o século chutando bola e empinando pipas, enquanto a rapaziada domina as calçadas devorando amendoins e gargalhando em voz alta num fim de tarde qualquer. O emaranhado de fios caídos à mostra e os postes pichados de branco e preto no cinza predominante denotam as cores da anti-paisagem. Próximo ao número 222 da Rua Borges, começa e termina uma travessa curta, escura & caótica chamada Simone de Beauvoir.

We could be pregnant, just for one day

Tudo começou na lista de uma sala de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, com a chuva de e-mails sobre a formatura. Até que a primeira mensagem fofa apareceu e desencadeou nossas veias familiares:

Ana Paula: Gente, já sei que não vou poder participar da festa (meu filho estará com 1 mês!). Mas é possível participar somente da colação, sem aderir ao resto?

Camila H.: Você está grávida? Que máximoooooooooooooooooooooooooo!

Guilherme P.: Quando eu falei que seria pai, semana retrasada, a reação foi contrária. Por que esse feminismo?

Bruno F.: Eu te apoiei quando você tentava fabricar um filho, Gui. Só disse que para isso você precisa começar a gostar de mulheres.

Renata D.: Eu também tô grávida.

Bruno F.: E o filho não é meu!

Guilherme P.:
Brochas não fazem filho, Bruno.

Ana Luiza: Rê, acho que seu filho já vai nascer falando!

Renata D.:
Em três idiomas, for sure! Federico ou Emanuel se for menino; Rafaela se for menina.

Guilherme P.: Isso me lembra um parto normal que aconteceu dentro de um presídio masculino no Kansas. Os nomes agora me fogem. Ela tentava passar pela vigilância com um radio de três idiomas. Disparou na frente dos guardas. Em japonês.

Renata D.: No meu caso, foi assim: eu estava de saco cheio dessa vida de assassina profissional e já estava afim de dar um pé na bunda do Bill. Ficava meio enjoada após as refeições e, durante um encontro profissional com o grande editor-samurai Massao Ohno, passei muito mal, depois fui embora.

Então decidi comprar um exame de gravidez na farmácia; fiz e deu positivo. Aí foi aquela correria toda. Quatro segundos depois eu tive que render a pistoleira coreana e convencer a capanga a desistir de me atacar... mas o fato é que estou viva e agora vou embora do Brasil pra criar meu filho em paz, longe daqui.

PS: Parei de fumar, inclusive.


VINTE MINUTOS DEPOIS, NO MESSENGER, surge uma amiga ligada a outros companheiros de classe...


Patricia: D´Elia! Me contaram que você tá grávida!

Renata:
Mas já?

Patricia:
Você não tava tomando pílula pra controlar hormônio?

Renata: Eu tava, mas tipo...

Patricia: Como é que você me faz uma coisa dessas agora?

Renata:
Uai, do jeito que todo mundo faz. Você tem outra sugestão de como fazer?

Patricia: Eu não acredito D´Elia, você é louca!

(Silêncio. Janela ociosa por 3 minutos).

Patricia: Mas tudo bem, meu ... tô feliz por você, mesmo não aprovando a sua relação com ele.

Renata: Ele quem?

Patricia: Como assim? Não é dele?

UMA HORA DEPOIS, POR E-MAIL, SURGE UM EX-COLEGA DE FACULDADE QUE SE MUDOU DO PAÍS...

Thiago: Parabéns, Rê! Achei que você ia viajar depois da faculdade! Mas agora acabou a boemiaaaaaaaa!!! rs rs rs (...)

Renata: Ah, menino, eu já não sou boêmia faz um tempinho. Sabia que as grávidas podem - e devem - tomar cerveja preta todos os dias? Ademais, parei de fumar e me matriculei na hidroginástica. Comprei um maiô azul royal e tudo.

TRINTA MINUTOS DEPOIS, DE VOLTA AO MSN MESSENGER...

Camila H.: Meu, você tá grávida?

Renata: Tô, cara. E vou embora do Brasil assim que nascer.

Camila H. [frenética, numa enxurrada de mensagens]: Meu! Como você é estranha, Renata! Como é que você esconde isso de mim? De quem é essa criança?

Renata: Fica calma, Leãozinho. É do Bill.

Camila: E VOCÊ DÁ ESSA NOTÍCIA PRA MIM NO E-MAIL DA CLASSE????
QUEM É BILL?

Renata: O Bill, do Kill Bill.

Camila: Pára de zoar, mano!

Camila: A pílula falhou? Você falhou a pílula, sua louca!!??

Renata: Ah, sei lá, fiquei sabendo hoje e tenho comido que nem um elefante...

Camila: Enjôo?

Renata: Minha barriga tá crescendo...

Camila: Não acredito, meu!

(3 longos minutos depois)

Renata: Então, Camis, é tudo verdade. Quase tudo. Só não estou grávida.

Camila: Caralho Renata, não me mata do coração!

Renata: Pensa, Camis. Sou brasileira e tenho o direito de enganar o país uma vez na vida sem ser presa por isso, pô.

Camila: Ai Re...sinceramente... não sei o que se passa nessa sua cabeça...

Renata: Calma, criança. Foi só uma estratégia para conseguir uma licença remunerada, cursar as matérias em regime especial na Cásper, sentar no banco cinza do metrô e arrumar uma pensão alimentícia - não quero casar.

Camila: Pensão de quem?? Quem é esse idiota desse Bill???

Renata: Mas vocês só pensam no cara? Além do mais, é mentira.

Camila: Mentira a gravidez ou o nome do cara?

Renata: Aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

DOIS DIAS DEPOIS, VIA MSN MESSENGER, APARECE UM AMIGO DO RIO DE JANEIRO...

Lucas B.: Afinal, você está ou não está grávida? (coração pulando)

Renata: Hahahahahahahahahahahahaha!

Lucas B.: Não né? (Ufa!) Você é estranha, Renata. Mas no final, eu gosto de você. Só que agora perdeu a credibilidade, sua zuretinha! E pode me chamar de egoísta, mas eu não queria que você engravidasse agora.

Renata: Não fala assim comigo, criatura! E pensa bem, eu sou brasileira e tenho o direito de...

(História baseada em fatos reais)

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Festa do caqui

"O evento de Paraty, não por acaso chama Festa Literária Internacional de Paraty. Porque todo mundo ganha em Paraty. As 12 pousadas ganham, os restaurantes ganham, pra ver a palestra no telão tem que pagar e pra entrar na Tenda dos Autores também. A Cia das Letras ganha. Até o vendedor de queijadinha ganha. O engraçado é que eu cruzei com o Christopher Hitchens em 2006 e perguntei pra ele, na cara dura: how much? E ele deu risada, porque tava ganhhando também. Os únicos que não ganham e que vão lá a custo de ticket refeição, estadia e traslado grátis são os brasileiros."

Marcelo Mirisola em entrevista à TV Cronópios.

domingo, 6 de julho de 2008

Das canções renascentistas

¿Con qué la lavaré
la flor de la mi cara?
¿Con qué la lavaré
que vivo mal penada?

Lávanse las casadas
con agua de limones;
lávome yo cuitada,
con penas y dolores.

(Villancico espanhol do século XV, autor desconhecido)

sábado, 5 de julho de 2008

O mundo anacrônico de Martel

Aconteceu ontem, em Paraty, a aguardada mesa com debates entre a cineasta Lucrecia Martel e o romancista João Gilberto Noll, na FLIP. Sob o título genérico de Ficções, já dava pra perceber que qualquer tentativa de aproximação entre os diferentes mundos dos dois ficcionistas cairia por terra. A mediação de Samuel Titan Jr foi competente, mas eram mesmo distintas as vibrações entre os convidados.

A libido talvez servisse como ponto de intersecção. Mas a famosa escrita provocante de Noll, nos trechos lidos de Acenos e Afagos [2008] - em que narra episódios da paixão de uma vida inteira de um homem por seu colega de infância - soaram por demais distantes da intensidade de Martel.[Impossível entender como é que tem gente que enxerga frieza e distância nesse cinema de câmeras que captam sensações e até o suor dos personagens].

Tensão e intensidade estão presentes em O Pântano [2001], A Menina Santa [2004] e aparentemente também na mais nova realização da diretora, A Mulher Sem Cabeça [2008], que tem sua primeira exibição pública pós-Cannes nesta FLIP.

Lucrecia não encara esses três filmes como uma trilogia. "Tudo isso é muito recente para que eu elabore uma teoria sobre eles, mas sinto que um ciclo se fechou". O roteiro de A Mulher Sem Cabeça, aliás, começou a ser escrito em paralelo com O Pântano, mas ficou em suspenso até que A Menina Santa, também engatilhado, se realizasse por completo.

Filmados em Salta, sua província natal, próxima à fronteira da Argentina com a Bolívia, seus filmes têm uma exótica relação com o tempo. São épocas anacrônicas. Histórias que podem se passar em qualquer parte das últimas décadas; exceto no último filme, em que os telefones celulares indicam proximidade com os dias de hoje.

São narrativas que recusam a linearidade, e onde não há a menor premissa de resolução objetiva ou reconforto para o expectador. A arte de Martel é um cinema de iminência, em que o mal estar anuncia algo por vir, mas os acontecimentos se espalham caótica e visceralmente em diferentes escalas temporais.

"Existe um poder nos verbos. O passado é como uma erva daninha que vai tomando o presente. No exercício da montagem é que eu consego misturar passado e presente, remontando os fatos a partir da memória. A memória é que dá o tom", afirmou Lucrecia. E certamente, trata-se da própria memória da autora. A diretora revela que seu estilo narrativo vem da infância, da cultura e da convivência familiar no interior. Principalmente na estrutura dos diálogos.

"A estrutura da fala, da linguagem, da forma. Isso vem de um tipo de conversa cativante que permeou minha infância. De quando as amigas de minha avó, mesmo doentes, fofocavam sobre a vida dos outros num tom curiosamente leve", conta a cineasta, para quem o cinema parte sempre da experiência física e emotiva de uma pessoa. "Por isso mesmo, minha narrativa remete a histórias imprecisas, mas que são extremamente relevantes para as pessoas. E à sensualidade emanada por todas essas pessoas juntas, no mesmo lugar".

O cinema, no entanto, faz menos parte dessas memórias de infância do que os vídeos caseiros produzidos em família. Em Salta não havia cineclubes. Lucrecia via filmes pela televisão, especialmente os westerns - os bons e os ruins. "Gosto quando sou convidada a participar de júris internacionais porque isso me força a assistir filmes. Não tenho cultura cinéfila. Não me sinto parte da comunidade nesses termos".

Lucrecia Martel aprecia filmes que não assumem a realidade como algo dado. Indagada a citar seus preferidos, vai de Bergman, Cronenberg e John Woo. E acha engraçado como ela mesma se tornou referência num tempo presente definido. "Não conheço muito de cinema brasileiro. Mas conversar com estudantes de cinema em São Paulo, aqueles que fazem agora seus primeiros curtas,tem sido muito bom. São Paulo tem uma ressonância em mim".

foto: divulgação/flip

segunda-feira, 30 de junho de 2008

No vacas, yes mockery!

A dica é do Álvaro Pereira Jr, no Folhateen de hoje. Saiu nos Estados Unidos a revista Radar. Uma versão aperfeiçoada e moderna da antiga Spy, famosa revista do contra que acabou tempos atrás. O editor-chefe já foi soltando pérolas no editorial, com o lema da publicação: "Enfrentar as vacas sagradas, divertir as pessoas, e regularmente dar uma bela chacoalhada no status quo." Too pretentious? Não sei, vamos ver. Por enquanto, dê uma clicada gostosa no link deles, e solte um sorrisinho sarcástico, se precisar.

Nostalgia midiática do "autoral"

Esbarrei numa entrevista que o pessoal da Caros Amigos fez com o reverendo Fabio Massari, em 2004.

Não acompanhei o Massari no rádio, mas cresci absorvendo a memória enciclopédica dele na MTV, desde os 9 ou 10 anos. Informações preciosas, produção artesanal e grandes entrevistas. Foi primeiro no Clássicos, depois no Lado B e no Mondo Massari, de onde garimpei, por exemplo, os clipes dos italianos do Litfiba - e depois escrevi à mão uma listinha com dez CDs para a minha mãe trazer de viagem. [Houve uma grande tortura quando ela me pediu pra escolher um só].

E como faz falta esse tino afiado do jornalista autor, mentor e realizador de projetos. Do cara que banca a pauta e a matéria. Do cara que dá legitimidade ao desconhecido. Qual "doido" escreveria um livro sobre a Islândia e o rock de lá? Onde é que a gente ganha dinheiro por investir em projetos substanciosos?

Os programas do Massari carregavam uma bagagem de viajante, pelo tempo ou pelo planeta afora. A gente grudava na televisão naqueles horários [e nas vinte mil reprises] para ver, rever e tomar notas, juntar referências e impressões, ligar os pontos. Eram fitas e mais fitas no vídeo cassete, extendidas para seis horas de gravação, que eu qualquer dia digitalizo e depois distribuo as pérolas.



foto: massari com frank zappa/acervo pessoal.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Jornalismo diário

"Devo dizer, logo de início, que não tenho de que me queixar. É como estar em um asilo de lunáticos com permissão para masturbar-se pelo resto da vida.

Neste mundo ctoniano a única coisa importante é ortografia e pontuação. Não importa qual a natureza da calamidade, mas apenas se está escrito certo. Tudo fica no mesmo nível, seja a última moda de vestidos para noite, um novo encouraçado, uma epidemia, um alto explosivo, uma descoberta astronômica, uma corrida nos bancos, um desastre ferroviário, um mercado em alta, uma aposta maluca, ... uma execução, um assalto, um assassínio ou o que quer que seja".

Henry Miller, Trópico de Câncer. Trad. Aydano Arruda. São Paulo, Nova Cultural, 1987.

* por indicação do amigo Johnny Martins, que faz aniversário hoje.

domingo, 22 de junho de 2008

Indigestão

Ultimamente tenho trombado com gente mais vaidosa que a bruxa malvada da Branca de Neve. Trabalho extra para as enzimas epáticas e velhas paredes estomacais. Mas nada que um anti-ácido não resolva. Afinal, nunca se viu carne viva passar ilesa pela digestão; acordate que no soy vegana y tu tampoco. É o rito antropofágico. Só não vale carne de segunda & salmonela no churrasco. Vamos brincar de bomba de gás: um arrotinho aqui, outro mais barulhento acolá. Guardemos espaço para o nosso regurgito blasé depois da sobremesa, pois sobraremos.

Um tanka pra ti

Como se houvesse uma escuta
clandestina do pensamento
afastei o estetoscópio do peito.

Takuboku Ishikawa, 1910.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

That´s why I like Costello

Quando pela primeira vez encontrei Elvis Costello, ele media pouco mais de onze centímetros por nove, numa foto de revista. Prazer, Renata. Desde então, temos flertado quase que diariamente.

Quando fumou seu primeiro baseado, já não atendia mais por Declan Patrick MacManus. Há testemunhas. A esta altura seu primeiro disco, My Aim Is True [1977], já havia causado algum estrondo no círculo ampliado do punk rock, embora Elvis fosse um bom rapaz de cara lavada.

Certa vez ouvir dizer que suas canções não tinham catarse, apenas tensão. Só não entendo o que há de errado com isso. Quando finalmente consegui tocá-lo, ele já pertencia ao hall dos fascinantes homens que empunham guitarras Fender Telecaster há quase 30 anos, pelo bem da face irônica mais calibrada & bêbada da Terra.

Elvis is a cool guy. Faz parte do clã do charme intrínseco. E do grupo dos amantes obcecados, verdadeiros baluartes do determinismo hormonal. É assim que eu gosto. "I don’t want to check your pulse/I don’t want nobody else/I don´t want somebody new/I don’t want to go to Chelsea".