domingo, 27 de dezembro de 2009

O último meme do ano

1 – onde está seu celular?
Jogado em cima de um livro, ao lado do óculos, na banquetinha entre a poltrona e o sofá da sala.

2 – cor do cabelo?
Loiro escuro. Natural, viu?

3- o que mais gosta de fazer?
Papear, rir, comer, beber, sexo, ouvir música, ficar de papo pro ar.

4– o que você sonhou na noite passada?
Tenho sonhado um monte de coisas que parecem esparsas. Vou começar a anotar.

5 – onde você está?
Em casa, na sala.

6 – onde você gostaria de estar agora?
Aqui mesmo, de boa.

7 – onde você gostaria de estar em seis anos?
Numa deliciosa casa cheia de amigos, comendo bem, bebendo bem, com o amor em dia, trabalho em dia e a conta bancária idem. Não sei se no Brasil. Talvez já matriarca ou ensaiando o matriarcado...

8 – que carro você tem?
Eu ando de metrô e no carro da mamis. Mas tô indecisa entre um Ka novo e um Celta.

9 – onde você estava há seis anos?
Acho que eu estava de férias do estágio, viajando pra passar o reveillon na praia com amigos, ao final do 1º ano de faculdade. Aê!

10 – onde você estava ontem?
De madrugada, na casa da família após a ceia de Natal. De dia, almocei na casa do pai da minha amiga Dan. Risadas, comida boa e bebida ótima, do jeito que eu gosto!

11 – o que você não é?
Burra.

12 – o que você é?
Bonitona. Aê!

13 – objeto do desejo?
Uma casa própria grande, decorada com as coisas que eu curto, num bairro legal e com uma mesa bem bonita no quintal. (Só penso em comida)

14 – o que vai comprar hoje?
Um celular.

15 – qual sua última compra?
Um jogo americano de jantar, pro meu irmão.

16 – a última coisa que você fez?
Uma massagem nos meus pés. Revigorante!

17 – o que você está usando?
Uma regata branca, um short jeans, descalça.

19 – seu cachorro?
A Galinha, um poodle.

20 – seu computador?
Véio bagarai, porém valente.

21 – seu humor?
Piadista, as always.

22 – com saudades de alguém?
Sim.

23 – que perfume está usando?
Nôa, de Cacharrel.

24 – que livro está lendo?
"Billy Wilder - e o resto é loucura, de Hellmuth Karasek". É do Welington, juro que devolvo em 2010.

25 – última coisa que comeu?
Pizza de atum.

26 – vontade de quê?
Descansar numa prainha agora nas férias. Logo mais é hora!

27 – preguiça de… ?
Cortar o cabelo. Juro que vou ao salão antes do ano novo.

28 – viagem nacional/internacional que você precisa fazer?
Viagem nacional: Lençóis Maranhenses
Viagem internacional: Cruzar a Califórnia de carro.

29 – seu verão?
Verão é ouvir Men At Work num final de semana de sol, a caminho do mar.

30 – ama alguém?
Claro que sim!

31 – quando foi a última vez que deu uma gargalhada?
Agora à noite.

32 – quando chorou pela última vez?
Me emocionei com algo essa semana, não lembro o dia.

33 – para que time torce?
São Paulo Futebol Clube.

34 – Um homem bonito, desejo de consumo?
Só um? Eu cito qualquer delegação esportiva italiana, inteirinha. E mais alguns moços sexies e talentosos: Daniel Day Lewis, os irmãos Ralph e Joseph Fiennes e Clive Owen.

35 – Uma mulher bonita?
Juliette Binoche e Penelope Cruz. No Brasil, a Cristiane Torloni sozinha bate todas as popozudas & menininhas Malhação da vida.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Balanço

Comecei 2009 sem um puto no bolso, desempregada, com um livro incerto para oferecer a editores que não me conheciam, sem saber se moraria por muito tempo aqui ou ali, negociando dívidas altas em gordas prestações que pareciam intermináveis. Sobre o amor, não preciso dizer: é uma constante, por mais inconstante que seja.

Durante o ano, arrumei um emprego, fiz freelas e contatos profissionais, vendi o almoço para comprar a janta, me equilibrei na corda bamba, nadei pelada, bebi menos, parei de fumar, sonhei muito, fiquei ansiosa com novos projetos, consegui assinar um contrato para publicar meu livro, engordei, emagreci, me viciei no Twitter, perdi Michael Jackson, conheci gente engraçada, não perdi as esperanças e consegui pagar as minhas dívidas, equilibrar as contas e abrir uma pequena empresa jornalística com clientes bacanas with a big big help from my friends.

Costumam dar a isso o nome de "volta por cima". Pois bem.

Em 2010, quero paz de espírito, amor, confiança, saúde e sorte: que a gente tenha fôlego pra correr atrás e conseguir!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O triste fim de Policarpo Quaresma

Nova York, segunda-feira, 30/11/2009. O ator Robin Williams foi ao programa do David Letterman. Foi anunciado, dirigiu-se ao palco, sentou-se ao lado do apresentador e mandou: “Espero que Oprah não esteja chateada com as Olimpíadas. Chicago enviou a Oprah e a Michelle (Obama). O Brasil mandou 50 strippers e meio quilo de pó. Não foi uma competição justa”. A piada foi parar nas homes dos principais sites noticiosos daqui. "Babá Quase Perfeita diz que no Brasil só tem puta e cheirador de cocaína". "Dr. Patch Adams fere a honra e os princípios morais do nosso país varonil". No Jornal da Globo, Christiane Pelajo treme e finaliza a nota coberta com um adendo: "O ator já passou por duas clínicas de desintoxicação por causa do vício em cocaína". O comitê do Rio 2016 avisou que vai processar.

Eu achei a piada ruim. O texto da Pelajo foi mais engraçado. Mas generalizando os Estados Unidos como um país de zumbis do Thriller versão obesa, não entendo o porquê de tamanha despeita. Aqui não é o país do sexo fácil? Nossos traficantes não são de dar inveja aos gângstas americanos? E traficante vende o quê, bijouteria? Nós somos os primeiros a pagar de paraíso sexual e vender nossas mulheres-bunda, boleiros, praias e festas como as maiores maravilhas do mundo. Segundo a D´Elia Research Inc. , pelo menos metade dos consumidores de bundas fáceis é muito bem criado, consome cocaína, e vive debaixo do mesmo teto dessa galera que achou um absurdo a piada da Babá (sic).

Eu não consumo cocaína nem strippers. Acho até que uma bela stripper traz muito mais prazer do que qualquer droga. Desconfio que os EUA tenham mais strippers e cocainomaníacos que o Brasil. E tudo leva a crer que nossas strippers & drogas são muito mais interessantes que as deles. E então, qual é a encrenca? Ponto para nós. What´s hapenning, brother?


terça-feira, 24 de novembro de 2009

O que eu não vi e o que preciso ver


Nessa onda de listas que não acaba mais -- e vocês sabem que eu adoro listas --, resolvi botar num papel imaginário chamado Microsoft Word uma lista com todas as bandas e artistas que eu vi, ao vivo, nos palcos daqui e de minhas raras viagens pra fora dessa pátria amada. Mas contar vantagem é fácil. Difícil é assumir que você comeu bola. Ou que nasceu na época errada. Ou que perdeu... você perdeu, playboy!

Doloroso é tomar nota da quantidade de coisas que você daria um dedinho para assistir, mas não vai rolar nessa vida. Deliciante, no entanto, é planejar, fazer figuinhas e mentalizar a glória: ver aquele show daquele artista que você ama e que não pode morrer ser ver - nem esperar que ele morra pra ficar viuva & frustrada.

Além da minha listinha, convidei alguns amigos pra responder às questões. Já dá um termômetro. Grandões & grandonas do entretenimento: façam uma forcinha pra trazer os vivos!. E que os mortos sejam deixados em paz.

Renata D´Elia, jornalista, São Paulo
O que eu preciso ver: David Bowie, PJ Harvey, Pixies, Portishead, Depeche Mode, Peter Gabriel, Stevie Wonder, Nick Cave, Lou Reed, Morrissey, Bryan Ferry, Paco de Lucía
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Queen, Marvin Gaye, Janis Joplin, Miles Davis, James Brown, Ray Charles, Serge Gainsbourg, Elis Regina [e bônus pro meu querido Michael Hutchence].

Ary França, ator, São Paulo
O que eu preciso ver: Zeca Pagodinho
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson

Fabio Carbone, controller, São Paulo
O que eu preciso ver: Decemberists, Andrew Bird, Of Montreal, Pavement completo
O que nessa vida não dá mais: Pink Floyd, Beatles, Led Zeppelin, Doors

Silmara Ferreira, publicitária, São Paulo
O que eu preciso ver: David Bowie, Depeche Mode, Morrissey, The Cure, Bon Jovi
O que nessa vida não dá mais: INXS com Michael Hutchence, The Doors, Jeff Buckley, Nirvana

Daniela Dolme, estudante, São Paulo
O que eu preciso ver: Foo Fighters
O que nessa vida não dá mais: Marvin Gaye, Cazuza, Ray Charles.

Rodrigo Kurtz, designer gráfico, Florianópolis
O que eu preciso ver: Gotan Project e Bajofondo
O que nessa vida não dá mais: Moloko e No Doubt

Marcelo "Billy" Comodoro, músico, São Paulo
O que eu preciso ver: Quens Of The Stone Age e Rage Against The Machine
O que nessa vida não dá mais: Led Zeppelin e Beatles

Marcelo LaFarina, jornalista, São Paulo
O que eu preciso ver: Misfits, Billy Talent
O que nessa vida não dá mais: Lupiscinio Rodrigues

Patris Rocha, musicista e publicitária, Belo Horizont
e
O que eu preciso ver: Talvez a Beth Gibbons...
O que nessa vida não dá mais: Todo mundo já mudou de lado! Nem preciso falar que queria ver Michael Jackson´s This Is It, versão heaven!

Larissa Rodrigues, professora, Porto Alegre
O que eu preciso ver: Stevie Wonder. Aretha Franklin? Sei que nem vou ver, mas ter esperança é bonito. Ah, eu queria ver a Alicia Keys antes dela se chegar pros lados dos manos do gueto-milionário.
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Beatles, Elvis Presley, Frank Sinatra, Elis Regina.

William Bernal, estudante, São Paulo
O que eu preciso ver: Elvis Costello, Caetano, Stones, Gal, Bob Dylan, Tom Waits, Luiz Melodia, The Who, Pixies, White Stripes, Herbie Hancock
O que nessa via não dá mais:
Beatles, Ray Charles, Tim Maia, Billie Holiday, Johnny Cash, Tom Jobim, Miles Davis, Frank Sinatra, Joy Division, Serge Gainsbourg.

Tiago Andrade, blogueiro e podcaster, São Paulo
O que eu preciso ver: Pearl Jam
O que nessa via não dá mais: Frank Zappa

Bruno Lofreta, jornalista, São Paulo
O que eu preciso ver: Flogging Molly, Yo La Tengo e Michael Hurley
O que nessa vida não dá mais: John Coltrane e Elliott Smith

Danilo Gomes, técnico em informática, Campinas
O que eu preciso ver: Stevie Wonder, Alicia Keys, Prince, Raphael Saadiq, Maxwell, Brian McKnight, Beyoncé, Quincy Jones & convidados.
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Chic, Luther Vandross, The Carpenters, ABBA, James Brown, Queen, Os 3 Tenores.

Fabiana Schiavon, jornalista, São Paulo
O que eu preciso ver: Metallica (tá quase), Beck e Foo Fighters.
O que nessa vida não dá mais: Quero morrer porque eu não vi os Ramones (não consegui comprar o ingresso do último show que eles fizeram por aqui). Inconsolável.

Miguel Bandeira, publicitário, São Paulo

O que eu preciso ver: Pixies
O que nessa vida não dá mais: Jimi Hendrix

Rita Squillace, relações públicas, São Paulo
O que eu preciso ver: Paul McCartney
O que nessa vida não dá mais: De Elvis Presley a Vinicius

Rogério Marques, historiador, Rio de Janeiro
O que eu preciso ver: Depeche Mode, Peter Gabriel, Tears For Fears, Pearl Jam, White Stripes, Duran Duran
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Queen, Oingo Boingo

Renato Limão, músico e relações públicas, São Paulo
O que eu preciso ver: Ninguém que eu não tenha visto. O Paul McCartney vem ano que vem. Mas veria BB King, novamente.
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Ray Charles, Stevie Ray Vaughan

Lanna Morais, jornalista, São Paulo
O que eu preciso ver: Depeche Mode, New Order, David Bowie, Bob Dylan,Paul Simon, Chico Buarque
O que nessa vida não dá mais: Serge Gainsbourg, Legião Urbana, Michael Jackson, Dead Can Dance, Beatles, Miles Davis

Augusto Facundo, professor universitário, São Paulo
O que eu preciso ver: Van Halen, Depeche Mode, Dire Straits, Pink Floyd, Jorge Benjor
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Frank Sinatra, Tim Maia, Allan Parsons Project, Art Of Noise, Jimi Hendrix, The Beatles







quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Cinema 2000´s



O The Times elegeu semana passada os 100 melhores filmes da década. Acho um pouco precoce. O problema, queridinho (a), é que eu não vou perder meu tempo fazendo uma crítica pedante e pretensiosa de cada um deles: se você quer resenhas para caçar argumentos e gastar com os deslumbrados, vá ler os grandes nomes, que dão muito mais status do que eu. Só quero agora me divertir e participar da trívia.

Aqui a proposta é pegar uma cervejinha, pedir umas batatas fritas, e dar pitacos nas mesinhas da calçada -- afinal, faz um calor e tanto em São Paulo--, enquanto eu descrevo os que considero mais importantes, pelo que acompanhei de cinema e também pelos meus gostos e filtros emocionais. Você vai perceber que deixei alguns mexicanos medalhões [mexicano + medalhão = mexilhão?] de fora. Não citei os infantis, mas Deus salve a Pixar e a visão de Alfonso Cuarón para Harry Potter. Também não liguei muito para os asiáticos. E nem fui ponto a ponto em cada item da lista. Mas, relaxa, cara: ficará longe dos 100 títulos.

Na ordem cronológica:

1) Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2000)

2)
O Pântano (Lucrecia Martel, 2000)
Não entendi como nem o porquê de terem deixado um dos melhores da década de fora. E eu que colocaria pelo menos mais 1 dos 3 longas de Lucrecia nesse bolo, o grande La Niña Santa (2004) já que La Mujer Sin Cabeza (2008) segue inédito em alguns países, inclusive esse aqui. Além de trabalhar a decadência, as relações muito loucas entre catolicismo, família, sexualidade e o mal estar com ironia, Lucrecia Martel é talvez a cineasta mais auditiva e olfativa do circuito mundial. Quero dizer: assista os filmes, escute cada detalhe, e sinta o cheiro das piscinas sujas e dos atritos entre as peles dos personagens.

3) Quero ser John Malkovich (Spike Jonze, 2000)

4) O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (Jean Pierre Jeunet, 2001)
Saia perguntando: bata nas portas, toque as campainhas, acorde as mulheres na faixa dos 25 aos 30; pergunte nos bares, mire as moças de saia, as garotas distraídas pelas vitrines das livrarias, as estudantes nas estações do metrô: qual delas não é, não foi e nunca vai ser Amelie Poulain? Quem é que nunca mergulhou as mãos e braços pelos feijões na quitanda, até tocar o pozinho guardado abaixo dos grãos? Quem é que nunca fez uns tricky games como aquele para ...[ops! paremos por aqui].

Jean Pierre Jeunet penetrou fundo no lúdico e na beleza da memória afetiva, com a mesma facilidade do braço num saco de feijões: primeiro num puta over narrativo de abertura, depois nas projeções de uns personagens nos outros, e por fim no amparo da incrível trilha sonora de Yann Tiersen, também uma das melhores da década. Apareceu Tatou, Audrey: um ícone. Já basta de motivos.

5) Os Excêntricos Tenenbaums (Wes Anderson, 2001)


E até a mala da Gwynith Paltrow se deu bem: seu melhor papel está aqui.

6)
O Filho da Noiva (Juan José Campanella, 2001)
Não está na lista do The Times. Mas eles não sabem nada da Sudamérica. Nem de Ricardo Darín, Hector Alterio e Norma Aleandro. O clichê-dramalhão que tantos temem amar não é tão clichê e não tem nada de ofensivo. Vale também pelo peso da chamada "buena onda" do cinema argentino (que fim teve a "buena onda"?), vale pelo rabo do foguete de La Quiebra, como vale pelo humanismo do belo Kamchatka, de Piñeyro, que cito logo abaixo.

7)
A Professora de Piano (Michael Henake, 2001)
Uma das melhores atrizes do mundo está escondida na cabine de um cinema pornô e eu não vou estragar a surpresa para quando você abrir a cortinininha.

8) As Horas
(Stephen Daldry, 2002)

Foi a primeira vez que prestei atenção em Julianne Moore, a primeira vez que escutei uma trilha de Phillip Glass, a primeira vez que ouvi falar em Virginia Woolf, a primeira vez que vi Nicole Kidman efetivamente trabalhar, e que Ed Harriss e Meryl Streep efetivamente me convenceram. Geracionalmente importante.

9) Kamchatka (Marcelo Piñeyro, 2002)

10) Fale com Ela (Pedro Almodóvar, 2002)

11) Tiros em Columbine (Michael Moore, 2002)


12) Kill Bill (vol. 1 e 2, 2003 e 2004, by Quentin Tarantino)
Alguma outra coisa foi tão pop quanto Hattori Hanzo, Beatrix Kiddo, Green Mamba, Pai Mei, Bill, matanças gore e trilha sonora de filme pornô italiano dos anos 70 misturada com black music vintage? Nem o próprio Quentin Tarantino.

13) Dogville (Lars Von Trier, 2003)


14) Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Michel Gondry, 2004)
Para além do exercício autoral criativo e xaropado de Quero ser John Malkovich e Adaptação, ambos dirigidos por Spike Jonze, o roteirista Charlie Kauffman realizou aqui um tipo de roteiro quebra-cabeças em que passado, futuro, memória e destino se misturam de um jeito tão epifânico nas vidas de Jim Carrey e Kate Winslet, que quando eu e minha amiga Evelyn saímos do cinema na Avenida Paulista, em absoluto silêncio, era como se vivêssemos uma autêntica despersonalização: as luzes da cidade se embaralhavam nas pupilas, os corpos caminhavam inertes e, naquela mesa de bar, ao lado do Trianom, não se ouviu muito mais que umas baforadas de Marlboro. Fumar era lindo e fazia parte da experiência estética.

Muita gente diz que Charlie Kauffman ficou preso à própria fórmula a partir de então. Só não ficou mais preso do que a patota de imitadores que pipocam aos montes atrás dele, nem dos estudantes de audiovisual que cultuam, todos os dias, as mesmas imagens de Spike Jonze e Michel Gondry.

16) Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2004)
What´s So Funny About Peace, Love & Understanding? Só de pensar que tem gente que ainda não entendeu Sofia Coppola, me dá um sono e tanto. E uma vontade enorme de pegar essa trilha sonora inteira e gastar em fichas num karaokê japonês.


17) O Segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005)


18) A Pequena Miss Sunshine (Johnatan Dayton & Valerie Farriss, 2007)

19)
Persépolis (Vincent Paronnaud, Marjane Satrapi, 2007)

20) Michael Jackson´s This Is It (Kenny Ortega, 2009).
Eu vou votar nesse documentário musical meio epitáfio/meio making off por todos os motivos -- emotivos, políticos, musicais, históricos -- que já foram tão bem exemplificados tanto aqui quanto em tantas outras resenhas, que você já leu, tenho certeza. Se a década precisa ter um musical, esse é o musical.

E você? Quais são os seus pitacos?

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

The big rock & pop in 2010


No rock n´roll existe um consenso de que banda boa é banda média: nem tão obscura e ainda semi-profissional -- tocando pra 100 pessoas num inferninho qualquer --, nem grande a ponto de lotar estádios e se acomodar na fórmula consagradora, abusando de palcos gigantescos e turnês ambiciosas, milhas distante das ousadias e de qualquer experimentalismo que afaste as massas.

Por isso me admirei com o No Line On The Horizon, do U2, lançado em março desse ano. Pelo menos arejaram a sonoridade, ainda que com os mesmos ares de The Joshua Tree [1987] e Achtung Baby [1991], também produzidos por Brian Eno e Daniel Lanois. Mas ao contrário das guitarrinhas inofensivas e das melodias chorosas de All That You Can´t Leave Behind [2000] e How to Dismantle An Atomic Bomb [2004], No Line pelo menos convida o ouvinte a levantar a bunda do sofá e levar seus sentidos pra dar uma voltinha.

Quem não curtiu foi o público: o disco mal vendeu 1 milhão de cópias, segundo o The Guardian. Podem culpar a cauda longa da internet ou a crise econômica. Podem culpar o Michael Jackson que, depois de morto, roubou quase toda atenção do showbizz e vendeu 6 milhões de discos em 4 meses só com a coletânea Number Ones. Mas basta reparar no público dos shows da 360° Tour, ou mesmo das duas turnês anteriores, se você esteve em algum deles: quantos discos do U2 você acha que esse povo tem? E quais serão os preferidos desse público? Não devem ser Boy [1980], War[1983] ou Unforgetable Fire [1984].

Veja bem: o U2 toca em estádios há pelo menos 25 anos. Tem cara de banda grande. Sonoridade de banda grande. Atitude política de banda grande. Você imagina hinos como Pride ou Where The Streets Have No Name executados em caverninhas habitadas por gente triste, pseudo-intelectuais e alternativinhos de plantão? Como é que se pega uma canção cheia de camadas climáticas como The Unforgetable Fire e se toca em outro lugar que não seja um estádio, pra milhares de seres dispostos a encarar uma catarse coletiva e cantar pra vizinhança toda ouvir? Não entendo, portanto, a crítica à grandeza.

O Brian Eno entende. Em excelente entrevista publicada pelo Pitchfork, o mitaço foi logo quebrando alguns sensos comuns. "Eles [U2] já fizeram várias mudanças significantes em vários pontos da carreira. Eles são, na verdade, uma banda muito experimental, mas por causa da forma da música deles, muita gente não reconhece. Se fosse alguma banda indie obscura, as pessoas provavelmente pensariam: 'Deus, eles são demais! Continuam surgindo sempre com coisas novas!'. Mas porque venderam milhões de discos, os experimentos passam batidos' (...) E eles não são exatamente o tipo de banda que quer perder adeptos durante a caminhada".

Enquanto isso, na cultuada nuvem do Radiohead, Thom Yorke coça o nariz e todos dizem que é arte.

A dupla de grafiteiros osgemeos vai aos poucos se transformando num fenômeno pop Romero Brito [em breve canecas e reproduções na Tok & Stok]. Começa a contagem regressiva para que os alternativos procurem outra alternativa.

Voltando à Irlanda. Se o dilema do U2 é descobrir se vai 1) sentar a bunda 2) ousar e perder adeptos 3) descobrir como ousar sem espantar os aderentes da dieta pop-easy nesse novo e muito louco modelo de negócios da música, restará, de fato, saber pra onde vai o rock de massas num cenário cada vez mais segmentado.

Pelo menos com shows, que seguem lotados e muitíssimo bem produzidos, Bono & cia podem sossegar. Ou não. O que se vê, na 360° -- de forma ainda mais evidente após assistir ao This Is It de Michael Jackson -- é uma banda que faz um puta show, mas se acomoda no set-list , sob medida para o público de ATYCLB e HTDAAB, com músicos que se cansam por saracotear num palco monstruoso, enquanto tocam, cantam e interagem com o público.

Faz parte do conceito mega-pop. Mas me parece cruel para uma banda de rock. Mais cruel ainda para um fã de música, cercado por gente greatest hits, que prefere o telão. [É claro que eu também vejo o telão, mas péra lá]. Michael Jackson, nos ensaios de TII, não parecia menor que a infra-estrutura. Tudo bem que essa pergunta já foi feita outras vezes, mas pra onde é que o U2 vai depois de um palco giratório e uma garra gigante? Onde estará o U2 no meio da próxima parafernália?

A colunista Sônia Racy, do jornal O Estado de S. Paulo, confirmou essa semana 3 shows do u2 com a turnê 360°C em São Paulo e 1 no Rio de Janeiro, em novembro de 2010. Guarde grana e chegue cedo para garantir o seu lugar na fila. Vá com fé.

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Donna Madonna vem ao Brasil semana que vem prestigiar a terra de seu iluminado gigolô nazareno. Essa é outra que ficou escrava do padrão pop que criou. Mas o que a gente faz? O que se viu ano passado na etapa brasileira da Sticky & Sweet Tour foi estilo Madonna: cronometrado, bem feito, valendo a pena, mas sem um pingo de mágica. Se eu fosse ela, aos 51, daria um basta nas cadelas do telão e apostaria no minimalista: uma boa banda, com arranjos modernizados -- mais rústicos e menos plastificados -- e, acima de tudo, gogó. Será que a burocrata topa? Recorte a apresentação de Bad Girl ao vivo no Saturday Night Live back in the 90´s e cole na boa versão de Ray Of Light by Snow Patrol. Me diga o que acha.

Quero dizer, e só um chute. Um devaneio. Não custa imaginar.




domingo, 1 de novembro de 2009

The beautiful fade out


Foi um belo sábado de sol em São Paulo.

E você queria que eu fizesse o quê, uma resenhinha metida à besta sobre um filme da Mostra?

Eu assisti This Is It.
E no mundo de Michael Jackson, você abraça um amigo, escolhe uma poltrona, e viaja inquieto num poderoso mosaico artístico extra-sensório pelas câmeras distantes que o registravam como sempre foi: um corpo genial preenchendo os espaços vitais entre luz e sombra, estranheza e beleza, mágica e música.

Ponto para Kenny Ortega, que a partir de 100 horas de ensaios gravados para o acervo pessoal do cantor, dirigiu um documentário leve e honesto sobre a criação artística de um grande. O filme alterna depoimentos dos músicos, dançarinos e figurinistas do espetáculo com as performances de cada canção e a obsessão de Michael sobre cada detalhe: a nota, o passo, o efeito especial, a modernização dos arranjos -- "mais groove", ele pede --, a releitura dos vídeos clássicos. "It´s all for love: L.O.V.E."

Você nem precisa escolher. Pode passar 2 horas ao mesmo tempo rindo, cantando, dançando na poltrona, imitando o som do baixo com a boca, fazendo air guitar para os fenomenais Tommy Organ e Orianthi Panagaris, deixando o corpo tremer com o groove -- "quero mais funk" -- do baixista que obedece, batendo palmas, estalando os dedos e repetindo "puta que o pariu!, puta que o pariu!".

Bom também para se conhecer melhor. Que raio de mulher eu sou, afinal? Uma pessoa que chora aos primeiros sinais de Wanna Be Startin Something não vai aguentar 5 minutos de um trabalho de parto nessa vida.

Tem Human Nature, a dona da bola, num excelente trabalho vocal. Tem Michael se divertindo numa grua que passeia sobre o auditório. Tem vídeo de Thriller repaginado brilhantemente alá Tim Burton, e toda a graça de MJ versão gânsgter contracenando com Rita Hayworth em Gilda; direto do caldeirão das referências pops: the kitch is beautiful. Uma aranha lúdica invade o palco antes que as telas mostrem um vídeo sobre a devastação ambiental para Earth Song. E eu que achava que Earth Song parecia com abertura de olimpíada. [O Kenny Ortega já dirigiu uma].

É o fim das criancinhas em cima do palco de mãozinhas dadas e o começo das dançarinas semi-nuas fazendo pole dancing! Novos arranjos e uma bela negona a temperar a cena The Way You Make Me Feel. Tem um bloco Jackson 5 com direito a Shake Your Body, há quanto tempo! Tem uma contralto japonesa dando vida ao belo dueto I Just Can´t Stop Loving You.

Fãs vestidos a caráter, adolescentes descobridores, casais de meia idade, curiosos filhos de Deus: o cinema todo aplaude, como se estivesse no Staples Center.

E pouca coisa é tão bonita quanto um Michael Jackson, aos 50, levar ofegante, até o fim, sua performance apaixonada de Billie Jean, cheio de fúria, e dizer assim: "acho que deu pra sentir". Depois um longo fade out.

O cinema em silêncio.

E os olhinhos todos, como pequenos faróis, vidram-se na tela quando ele, nos ensaios, aponta um público imaginário e diz: "electric eyes are everywhere".

Esse mundo é cheio de gente anódina, vivendo de canapés e pose, que mal sente o sangue esquentar e sequer enxerga o mundo de olhos fechados, ouvindo música.

Em This Is It, quando você fechar os olhos, enxergará Michael Jackson dono de si.


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Watch more TV

,
Minhas histórias com o U2 começaram há mais ou menos 13 anos, quando comprei meu primeiro exemplar do álbum WAR e também de Zooropa e, quase em seguida, de Pop. Até que chegou 31 de janeiro de 1998 para uma Renata de rabo de cavalo & cheia de espinhas adolescentes na testa, portando um ingresso mágico comprado por R$60 [inteira] , impresso em papel azul, e algum dinheiro para gastar em tranqueiras como a bóia amarela gigante oficial da Pop Mart Tour e, finalmente, assistir a banda ao vivo, a muitas cores, direto do anel superior do estádio do Morumbi.

Duas semanas depois de balançar e ser alçada feito mola para todos os lados de uma geleia humana completamente deslumbrada -- e aquelas roupas de músculo? e aquela azeitona pendurada num palito que ficava ponta do palco? e aquele bigodinho mexicano pilantraço, hein The Edge? e aquele limão prateado que abria em Discotheque? puta que o pariu, o que era Discotheque? -- iniciei a prática de cabular aulas para visitar, clandestinamente, cada um dos andares da Galeria do Rock.

Funcionava assim: minha avó me dava uns 2 ou 3 Reais por dia para gastar no lanche. E eu usava um uniforme Capitão América. E também guardava uns passes de ônibus na carteira. A tática era guardar todo o dinheiro do lanche de segunda a sexta e, no extremo caso de fome, filar umas coxinhas da galera no recreio [deu certo por um tempo, até que as pessoas começaram a fugir]. Então chegava a sexta-feira e eu, sorrateiramente, me fingia de morta no busão para passar direto pelo ponto da escola e descer na Praça da República, avançar pelos mijódromos municipais do centrão, e grudar feito uma rã nas vitrines daquele buraco. Era uma oferta enorme: coisas oficiais novas e usadas, importados, bootlegs piratas, produtos japoneses com encartes malucos, fitas VHS copiadas das cópias com shows das minhas bandas preferidas em mil novecentos e bola, concertos filmados com aparelhos semi-profissionais.

Mas eu só tinha 10 Reais. E não podia falhar. Quem tem só 10 contos não vai gastar no disco da nova bandeca islandesa que viu no Lado B da MTV com Fabio Massari, né? E assim, foram comprados Boy, October, Rattle and Hum, The Joshua Tree e também uma fita pirata chuviscada com um vídeo de um show do U2 em Berlim, 1981, para não mais que 300 pessoas. O almoço vinha sempre no dogão do boliviano da frente, que aceitava passe de ônibus, e que nunca me matou com uma infecção alimentar [deve ser porque minha mãe me abastecia com anti-vermes anualmente; eram pílulas azuis e vermelhas, como as de Matrix]. Sem passes e sem dinheiro para a volta, o Capitão América versão feminina passava por baixo da catraca do busão e sentava no banco mais alto, felicidade total.

Foi numa madrugada de domingo pra segunda, janeiro de 2006, que São Paulo virou praia. Como se fossemos um bando de vagabundos irresponsáveis -- e provavelmente éramos -- nos alinhamos, centenas, numa fila que dava voltas no quarteirão do Pão de Açucar de Santana onde, um dia, alguém teve a genial ideia de vender ingressos para os shows do U2 no Brasil. Sacolas de feira, cadeiras de piscina, cangas -- quiçá, até bóias --, esteiras, cobertores, travesseiros, baralhos, rádios com caixinhas de som, e algumas baratas que nos visitavam por ali. Histórias sobre o show do U2 em Milão, a política de promoção dos concursados do Banco do Brasil, trepadas ilustres entre famosos em aviões da Varig, a crise na Varig, será que vai dar certo esse show dos Rolling Stones em Copacabana?, o Rio de Janeiro não tem jeito, eles nem têm show do U2, CHUPA RIO DE JANEIRO!, o Marcelo Tas falou que fã do U2 é tudo idiota, foda-se o Marcelo Tas, ela fez uma tatuagem do U2 no braço, é minha amiga, mas não acho que ela é doida não. O lance é trazer de casa pão com patê: esse mercado é muito caro e os funcionários não gostam da gente.

Em fevereiro de 2006, vi Rolling Stones e U2 num intervalo de 3 dias.

Mas era madrugada de domingo pra segunda, outra vez, quando eu nem precisei pagar ingresso. O set list foi meio bunda -- muito rockinho-pop 2000´s pro meu gosto --, as politicagens do Bono me dão brechas para estourar pipocas, botar mais gelo nessa coca-cola meio choca, e voltar pra tela porque não tem I Will Follow, mas tem Ultra Violet, e Ultra Violet é sempre tão bonita, você não acha? O u2 não está na TV, mas está no Youtube, nessa megalomania muito louca & brilhante ao mesmo tempo que começou com ZOO TV, foi pros caroços das azeitonas gigantes, depois para um palco em forma de coração, e depois pra uma ferradura [eu vi, eu vi!], e agora numa garra, num palco redondo, no meio do estádio: ninguém sabe pra onde olha.

É o Bono com essa jaqueta horrorosa outra vez. Errando a letra, rodando sem parar num microfone redondo, por todos os lados. Larry Mullen, bonito que nem Ultra Violet. Adam Clayton tem um baixo rosa-choque & branco. E o The Edge tem uma verruga no braço direito, que não passou no Youtube, mas eu vi. Eu vi o U2 na TV, que não era bem uma TV, era só uma tela. E no fim, não teve frio na barriga nem nada, mas deu pra sorrir. Também não teve The Fly mas eu, que já sou bem grandinha, continuo achando tudo isso muito cheio de cor, de música, e das emoções pessoais & coletivas que eu ainda preciso pra viver.

*U2webcast, transmissão ao vivo via satélite pelo Youtube para 1 milhão e meio de pessoas, do show realizado ontem em Los Angeles, no estádio Rose Bowl. 360º Tour.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

This is Shit*

This Is It não era inédita. Mas chegaram a publicar que a nova música de Michael Jackson era roubada. Como diria Paulo Maluf, "é mentira". Ninguém até agora se retratou.

Deu merda, Brasil. This Is It, canção inédita do finado Michael Jackson lançada ontem pela Sony Music, de olho na promoção do documentário homônimo sobre a preparação para os últimos shows do ídolo pop, não era tão inédita assim. E a confusão em torno dela não para por aí.

A música foi divulgada como composição vintage de Michael Jackson; a produção da faixa ocorreu após a morte do cantor, em duas versões: radio e orchestra, com backing vocals dos Jackson 5 remanescentes. A gravadora não havia fornecido detalhes sobre o ano de gravação. Também não se sabia em que ponto estava: teria Michael gravado somente uma demo em piano e voz, como de costume? Ou a faixa estava pronta e só recebeu um tapa?

A bomba chegou horas após o lançamento oficial, à meia-noite do dia 12, no site oficial do cantor. Segundo o The New York Times, a composição data de 1983, numa parceria de Michael com o crooner Paul Anka, que alegava não ter recebido créditos e royalties pela faixa. E tampouco era inédita: inicialmente, figuraria num álbum de Anka, mas acabou sendo gravada pela cantora portorriquenha Safire, no começo dos anos 1990, sob a alcunha de I Never Heard. Na época, foi devidamente creditada aos dois compositores.



Resultado: a versão de Safire, redescoberta, ganhou mais elogios de parte da crítica do que a ultra-anunciada "inédita" de Michael Jackson, que dessa vez não teve culpa de nada e, depois de morto, quase se queimou na rodinha por culpa do espólio e da Sony. E embora a Mediabase -- companhia que mensura o airplay das principais rádios americanas -- contabiliza 741 execuções em 24 horas [número bastante alto], as insatisfações do público são muitas e vêm de todos os lados.

1: Fãs e críticos reclamam da produção pobre da versão rádio. Parece até que alguns graves não batem. O crítico Jon Pareles, do New York Times disse em seu blog que "não vai figurar na lista das melhores canções do cantor, mesmo que seja uma lista comprida", e espera que nos baús de músicas inéditas por Michael Jackson [mais de 100, segundo o espólio] haja material melhor.

Fico com a versão orquestrada, mas pra mim, a de rádio está longe de ser ruim.



2: Se havia mais de 100 inéditas gravadas, por que escolheram essa? Ninguém sabia até agora, apesar dos chutes de alguns fãs espertos em comunidades da internet: "A canção foi escolhida porque a letra era apropriada, devido ao nome que Michael deu à série de concertos que faria", disse um dos executores da herança hoje de manhã, à Reuters.

3: Pataquada do espólio. Idiotice da Sony, que só tem direito de lançar as canções que Michael Jackson gravou até 2004. Pra que mentir sobre a procedência e o inedismo da da canção? Pra que passar o Paul Anka pra trás? Por que fazer esse marketing de fundo falso? Em plena era da internet, eles ainda achavam que ninguém descobriria?

4: Terá sido descuido ao checar as questões legais? Paul Anka disse ao New York Times [reproduzido pela Folha de S. Paulo] que tudo não passou de um grande equívoco, que já foi resolvido. Ele receberá 50% dos lucros sobre a canção, além dos devidos créditos. A Sony até agora não se retratou. Quem veio a público desfazer a confusão foi espólio de Jackson.

Estranho. Até porque, os executores são John McClain e John Branca, macacos velhos na indústria da música. McClain é braço direito de Janet Jackson, a outra mina de ouro do clã. Branca foi o responsável pelos tramites da compra dos direitos das músicas dos Beatles por Michael Jackson, num leilão no meio dos anos 1980. Algum deles é burro? Só faltava serem sonsos.

5: A Sony, tão bonitinha, tomando um pau atrás do outro da pirataria. Pudera: lançaram a faixa em duas versões para comercialização APENAS no álbum This Is It, já em pré-venda pela Amazon. Não vai ter single nem download legal via iTunes: se você quiser comprar a faixa, vai ter que levar junto um CD duplo com as músicas do documentário em versão de estúdio [que já saíram em outras coletâneas] , e mais algumas demos pra fingir que vale a pena. Se o material dos ensaios prestou pra fazer documentário, por que não produzi-los adequadamente e montar um produto fonográfico mais atrativo?

6. Depois das brigas judiciais que culminaram no rompimento do contrato entre Michael Jackson e a Sony, em 2005, difícil acreditar que a gravadora não está de má vontade com a imagem do cantor e com os herdeiros.

7. Tem uma tal de Hold My Hand que Michael Jackson gravou com o tal do Akon, musiquinha de dar vergonha; tanto que até o Michael ficou com vergonha e mandou banir das rádios em 2008. Gostaria que alguém me explicasse por que raios essa música está tocando em rádios brasileiras à esta altura do campeonato, conforme relataram alguns fãs.

8: Globo, como sempre, dá show de reportagem preguiçosa e tendenciosa, colada nas agências internacionais, além da edição engana-trouxa. Ainda por cima, botam a correspondente pra gravar a passagem em NYC, na cara de pau. Como se tivessem apurado mais do que qualquer pessoa com inglês razoável acessando a página da Associated Press.

No Jornal da Globo de 12/10, deram a entender que MJ havia plagiado Paul Anka, roubando a versão original e compondo a nova.

Novamente, no Jornal Hoje de 13/10, foram tendenciosos ao não oferecer o contexto original da história. Questão de edição: manter o essencial. Mas o essencial deles é ironizar a coisa para o lado da quitação das dívidas do cantor a ponto de quase culpar o Michael Jackson por ter sacaneado Paul Anka, diretamente do túmulo. E mesmo assim, não havia um só repórter na porta do Cemitério Forest Lawn.



Acima, versão promo de Human Nature, direto dos ensaios da This Is It. Como se pode ver, nenhum sinal de falta de honestidade e paixão.

* Com informações postadas na comunidade Michael Jackson Brasil, do velho, bom e demodé Orkut. Grata a colega @lannamorais que deu a sacada do título.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Almas chuvosas, céus tristes

Deve ter sido o Baga Defente, agora há pouco, no twitter, o segundo ou terceiro ser a levantar as coincidências psicológicas -- quiçá quânticas -- entre os temporais elétricos de dentro e as desaguadas de fora enquanto São Paulo segue nervosa e lenta pelas marginais dos rios .

Raios e trovões contra essa imensa bola azul imantada, habitadas por bonecos feitos de hormônio & energia, a girar como idiotas sob influência maior da lua e do sol; partículas ambulantes de poeira cósmica, vivendo de trepar, brigar, sorrir e choramingar.

Já explicitei aqui minhas teorias sobre as canções de sol e de chuva. E resolvi publicar uma lista colaborativa de canções com jeito de chuva, garoa e temporal; cheiro de terra molhada, asfalto escorregadio, faça noite ou faça dia, reflexão, saudade, exílio ou alívio.

Vale brega e chique, difícil ou fácil, ontem, hoje e amanhã, nas línguas & bocas que tu quiser, meu caro, tendo ou não a palavra 'chuva'; só precisa mesmo é ter som, mágica, ou somente a simplicidade dos pingos atingindo a janela, devagar.

1) Pino Daniele - "Quanno Chiove"
2) Madonna - "Rain"
3) U2 - "Sateless"
4) kd lang - "If I Were You"
5) The Rolling Stones - "Out Of Tears"
6) Michael Hucthence - "Possibilities"
7) Portishead - "Silence"
8) Hooverphonic - "Eden"
9) Prince - "Purple Rain"
10) Led Zeppelin - "Rain Song"
11) Ozzy Osbourne - "Changes"
12) Caetano Veloso - "Lua e Estrela"
13) The Doors - "Riders on The Storm"
14) Coldplay - "Yellow"
15) Thelonious Monk - "Ruby, My Dear"
16) Al Green - "How Can You Men A Broken Heart?"
17) Michael Jackson - "Stranger In Moscow"
18) Eurythmics - "Here Comes The Rain Again"
19) Harry Belafonte & Miriam Makeba - "Chove Chuva" (de Benjor)
20) Blondie - "One Day Or Another"
21) Neil Sedaka - "Laughter In The Rain"
22) King Crimson - "Starless" [abaixo com outra banda].
23) Fernanda Takai & Rodrigo Amarante - "O ritmo da chuva"
24) Billie Holiday - "Fool To Want You"
25) Elis Regina - "Atrás da Porta" (by Chico Buarque)
26) Ella Fizgerald & Joe Pass - "Stormy Weather"
27) Ray Charles - "I Wonder Who´s Kissing Her Now"
28) 10.000 Maniacs - "Hey Jack Kerouac"
29) Cranberries - "Zombie"
30) Bauhaus - "Bella Lugosi Is Dead"
31) The Cure - "Lullaby"
32) Morrissey - "East, West"
33) Soda Stereo - "1990"
34) Lou Reed - "Walk On The Wild Side"
35) Red Hot Chilli Peppers - "Soul To Squeeze"
36) FleetFoxes - "Red Squirrel, Sun Rises"
37) Pearl Jam - "Betterman"
38) Lobão - "Me Chama"
39) Annie Lenox - "Ev´ry Time We Say Goodbye"
40) Curtis Mayfield - "Think"
41) Nuno Mindelis - "Castles Made Of Sand" (by Jimi Hendrix)
42) REM & Patti Smith - "E-Bow The Letter"
43) Gotan Project - "Queremos Paz"
44) Interpol - "Pioneer To The Falls"
45) Chet Baker - "Embraceable You"

Colaboraram: Fred Seigneur, Xinho, Felipe Salomão, Veridiana Marques, Diniz Gonçalves Jr., Gina Dantas Vieira, Marcelo La Farina, Flavia Galindo, Mirella D´Elia, Eduardo Fragata.












sábado, 3 de outubro de 2009

Ayrton Senna & as Bestas Selvagens: o índie é pop

Mal subiu o cheiro de chuva e aquele respeitável barulho de natureza pelas janelas de vidro do Jaçanã nessa madrugada de sábado, e eu, antes de querer o sol, tratei de clicar em duas dicas musicais do site gringo Pitchfork; coisas shiny, happy, people, cheias de vibração pop, e também peças de pequeno lirismo, que é pra a gente achar o mundo mais bonito, menos banal.

As amadas novidades de 2009 são totalmente 1980´s. Depois que o Justice tacou Michael Jackson em peso no som e no clipe de D.A.N.C.E., vieram os Friendly Fires -- cultuados por toda a patota moderna que acha Remember The Time breguinha -- e falaram no Guardian que eles gostam mesmo é de Madonna. E adoram batidas brasileiras.

Chupem, bigodes alternativinhos & garotas cor-de-abóbora!

Reparem nas perninhas do moço dançando: com calças curtas e charmosas meias brancas em contraste com os sapatos pretos. And so?



Mas eu falava de coisas bonitas e das dicas do Pitchfork. A começar pelo Wild Beasts e seu segundo álbum, Two Dancers. Misture guitarras e teclados alá The Edge, Daniel Lanois & Brian Eno, com uma abordagem digna das fine arts, como faziam os Cocteau Twins. Agora bote uma bela pitada de Kate Bush [no Brasil, diríamos Tetê Espíndola] e falsettos que às vezes lembram Prince. Depois coloque uns traços do barítono de Antony Hegarty. Os vocais em falsetto são feitos pelo guitarrista, Hayden, e os barítonos pelo percussionista, Bert. Velha escola inglesa de baixo e bateria. Velha e boa terra da Rainha.

Tudo bem que os caras devam ter se entupido de Stereolab e Arcade Fire, e por osmose, todo o caldeirão de referências dessas duas bandas, só pra citar o que é mais evidente, fazendo um resuminho do que dá pra sacar. Mas o som aqui é quase... minimalista. Classy. E que belo vídeo!



Ayrton Senna é o nome do EP, pra fazer brasileiro sorrir. Quero confessar que só cliquei por causa disso. O Delorean é de Barcelona. E já que falamos de Cocteau Twins, quem quiser ouvir a faixa Seasun, vai sacar logo de cara. O resto do EP tem outro espírito, mais having fun, com cara de balada, de luzes da cidade, ou de praia com badalação. Dance music total, na cara dura. [alguém lembra desse rótulo 90´s?] Vocais femininos. Só não toca na Jovem Pan, porque não tem jabá nem remix tosco: tem tudo pra molecada gostar, com um pouco mais de refinamento nas orelhinhas. Coisa rápida de fazer. E nem dá câncer de pulmão.

Clique em Moonsun, sonzinho abaixo.

Não tem nada de maravilhoso, é só uma banda legal, que pode virar o Snap de amanhã, e ninguém mais ouvir. Mas e daí? Let´s party all night!


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Rainha pagã de Hollywood*


"(...)Elizabeth Taylor é, em minha opinião, a maior atriz da história do cinema. Ela entende intuitivamente a câmera e suas intimidades não verbais. Abrindo os olhos violeta, conduz-nos ao reino líquido da emoção, que habita por intuição pisciana. Richard Burton disse que ela o ensinou a atuar para a câmera. Economia e contenção são essenciais. Em sua melhor forma, Elizabeth Taylor simplesmente é. Uma carga elétrica, erótica, faz vibrar o espaço entre o rosto dela e a lente. É um fenômeno extra-sensório, pagão.

Meryl Streep, à maneira protestante, entusiasma-se com as palavras; exibe sotaques inteligentes como uma máscara para suas deficiências mais profundas. (E não sabe dizer uma fala judia; destruiu o cáustico diálogo de Nora Ephron em A difícil arte de amar.) O trabalho de Meryl não vai longe. Tentem dublá-la para cinemas indianos: não restará nada, só aquele rosto ossudo, cavalar, movendo os lábios. Imaginem, por outro lado, atrizes menos técnicas como Heddy Lamarr, Rita Hayworth, Lana Turner: essas mulheres têm um apelo internacional e universal. Seriam belas no Egito, Grécia, e Roma antigos, na Borgonha medieval ou na Paris do século XIX. Susan Haywad fez Betsabé. Tentem imaginar Meryl Streep num épico bíblico! Ela é incapaz de fazer os grandes papéis legendários ou mitológicos. Não tem poder elemental, não tem aquela sensualidade tórrida.(...)

Elizabeth Taylor é uma criação o show business, dentro do qual ela tem vivido desde que começou como atriz infantil. Ela tem a hiper-realidade de uma visão de sonho. Meryl Streep, com seu chato decoro, é bem-vinda à sua pose de atriz esforçada e despretensiosa. Eu prefiro a velha Hollywood lixo, cafona, a qualquer hora. Elizabeth Taylor, entusiasticamente comendo, bebendo, no cio, rindo, xingando, trocando de maridos e comprando diamantes aos montes, é uma personalidade em escala grandiosa. É uma monarca numa época de tristes liberais. Como estrela, ela não tem, ao contrário de Greta Garbo, Marlene Dietrich e Katharine Hepburn, qualquer ambiguidade sexual em sua persona. Terrena e sensual, apaixonada e voluntariosa, mas terna e empática. Elizabeth Taylor é a mulher em suas muitas fases lunares, admirada por todo o mundo".

Trecho de Rainha Pagã de Hollywood, texto de Camille Paglia, publicado na Revista Penthouse em 1992, parte da coletânea Sexo, Arte e Cultura Americana (Companhia das Letras).

Imagens: Elizabeth Taylor, por fotógrafo não identificado e Andy Warhol. Mas esse post todo só vai fazer sentido se você clicar aqui e assistir ao curta Puce Moment, de Kenneth Anger, cuja incorporação foi proibida.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Mais Polanski

Saiu na Folha de S. Paulo, caderno Ilustrada, de hoje:

Vítima tentou retirar a acusação

DA REPORTAGEM LOCAL

Samantha Geimer, a modelo com quem Roman Polanski fez sexo em 1977, escreveu um artigo para o "Los Angeles Times", em 2003, quando o franco-polonês estava prestes a ganhar um Oscar por "O Pianista", e contou sua versão da história.
Ela era uma jovem modelo de 13 anos e fazia uma sessão fotográfica para uma revista francesa na casa do ator Jack Nicholson, na Mulholland Drive, em Los Angeles. "Ele [Polanski] me deu champanhe e um pouco de Quaalude [droga de efeito sedativo]. E depois tirou vantagem de mim. Não foi consensual de maneira alguma", escreveu.
"[Hoje, 25 anos depois] eu não tenho de fato nenhum ressentimento por ele, nem simpatia. Ele é um completo estranho para mim."
Polanski teria feito sexo oral e anal, após tirar fotos dela nua numa banheira.
Mesmo assim, ela dizia em seu artigo que o júri do Oscar devia julgar Polanski por seu filme e não o homem.
Neste ano, Geimer, que é casada, tem três filhos e mora no Havaí, fez um pedido formal para que promotores de Los Angeles retirassem as acusações contra Polanski. "Toda vez que esse caso volta à tona, um grande foco se volta para mim, minha família e outros. Essa atenção não é nada agradável", disse na época. O caso, no entanto, não foi retirado.

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Para informações do Los Angeles Times, clique aqui. Para o artigo original de Samantha, escrito em 2003, veja aqui.

Há erro de tradução no texto da Folha. Quem ler no LA Times verá que a menina de 13 estava ali, à toa, na festa de adultos hollywoodianos, e que Polanski pediu que ela se despisse e fosse para a banheira fazer fotos para a Vogue francesa, desencadeando o tal do "ato sexual ilícito". O ruim é que tanto nas TVs americanas quanto nos jornais brasileiros, falta contexto. Fui saber pelos meus pais que a história original também tinha uma mãezinha bem filhadaputinha, dessas que entregam as filhinhas ao matadouro em troca da terra prometida: money, success, fame, glamour.

Na época, Polanski confessou o ato. Os advogados dele e da vítima fizeram um acordo para diminuição da pena. Segundo boatos, a família da menina teria recebido cerca de 200 mil dólares para topar a plea bargain. Mas o fato é que, de última hora, por motivos não explicados, o acordo foi negado pelo júri. Com medo de apodrecer na cadeia, Polanski aproveitou a condicional e fugiu dos EUA. Soma-se ao crime original a chamada "obstrução de justiça". Como os crimes não prescrevem, vem o pedido de extradição, mesmo pelo segundo crime, mesmo que a vítima retire a queixa.

Por outro lado, o artigo de Samatha no LA Times termina assim: "O que me incomoda é que o que aconteceu comigo em 1977 continua a acontecer com as garotas todos os dias, mas as pessoas se interessam por mim porque o Sr. Polanski é uma celebridade. Isso não me parece justo. Faz com que eu me sinta culpada por receber a atenção que seria muito mais útil a outros casos".

E enfim: o que fazer? Se um cara me dopasse para tirasse esse proveito de mim -- com 13 ou 33 anos -- eu não iria deixar barato. É uma violação. É bem diferente de uma situação consensual.
Mas a mulher quer retirar a queixa, já faz 32 anos que isso aconteceu, e o vulto do escândalo acabou se tornando maior do que o crime e parece que nenhuma solução é justa.

Lamentável notar que o corporativismo e a politicagem -- tanto a favor quanto contra Polanski-- tornam o crime a coisa menos importante da história toda.

Alguém mais, além de mim, quer ouvir Jack Nicholson e Angelica Houston a respeito?

Free Polanski (?!)

Deve ser porque o Nuno Leal Maia está dando um malho danado na morenona da pornochanchada que o Canal Brasil exibe nessa madrugada de terça. Pode ser também que eu esteja menos interessada em trabalhar do que em pegar carona nas excelentes páginas de Gay Talese em A Mulher do Próximo, resultado de 8 anos de apuração jornalística sobre os hábitos e costumes sexuais da tal da sociedade americana. Ou talvez seja só perplexidade diante da noção politicamente correta esquizofrênica em que um cartaz de cinema erótico no centro de São Paulo se torna mais obsceno -- e passível de multa -- do que a tonelada de lixo que se acumula nas ruas da cidade. Mas não digeri essa história da prisão de Roman Polanski, 76, na Suíça, esse fim de semana.

Para quem estava na lua, não custa dizer que o cineasta foi preso, no domingo, por ter mantido relações sexuais com uma garota de 13 anos, num caso que se tornou público em 1978. Na época, Polanski confessou o tal crime mas conseguiu fugir para a Europa antes de ser julgado pela corte da Califórnia. Não botou os pés nos EUA nem para receber o Oscar de Melhor Diretor por O Pianista [2002], drama que remonta o surgimento do Gueto de Varsóvia, durante o nazismo. Polanski também é judeu polonês; sobreviveu ao holocausto. E foi figura central de um outro crime famoso em 1969, quando 7 pessoas, entre elas sua então esposa, a atriz Sharon Tate, foram assassinadas pelos membros da seita de Charles Manson. Polanski só escapou porque não estava em casa na hora do massacre. Chegou a ser tratado como suspeito. Tate estava grávida de 9 meses. Manson & sua trupe estão presos até hoje, com exceção de Susan Atkins, morta dois dias antes dessa nova prisão do diretor.

Ainda não sei o que eles consideram como abuso sexual nessa lei da Califórnia. Não sei o que a lei dizia em 1978 e não sei o que ela diz em 2009. O Gay Talese -- que comentou coisa parecida sobre a irresponsável cobertura midiática sobre as acusações de pedofilia sofridas por Michael Jackson -- também não deve saber. A imprensa e a justiça, mais uma vez, fizeram muito escândalo e deram poucas explicações. Quando Michael Jackson foi acusado pela primeira vez, em 1993, acabou aproveitando a turnê mundial para se manter longe dos EUA por uns meses e chegou a internar-se em uma clínica de reabilitação na Inglaterra para tratar do vício em analgésicos enquanto a poeira baixava. A Pepsi [do acidente com fogo, dez anos antes] cancelava contratos publicitários com o cantor. E a imprensa americana apostava num exílio eterno de Jackson, carinhosamente apelidado de "Polanski 2".

O final da história, todo mundo sabe.

Trata-se da mesma América de sempre: tapando o sol com a peneira, em busca de um inimigo número 1 para combater. Na falta de pistas sobre Bin Laden ou de soluções sobre a saúde pública no rabo da crise, está aberta a caça aos pervertidos. Foi assim com Bill Clinton e também com Woody Allen. 31 anos depois, mandaram prender e extraditar Polanski, aproveitando sua passagem pelo país-puta-mor da Europa, a gloriosa Suíça. A França não gostou. E a queda de braço diplomática continua.

Biógrafos dão conta que Elvis Presley começou a ter encontros íntimos com Priscilla quando a moça tinha 14 anos. Jerry Lee Lewis casou com a prima quando ela tinha 13. Com Elvão, a América fez vista grossa: passou um pano para seu superstar branco & belo para exportação, que serviu o exército e foi uma verdadeira máquina de propaganda americana com suas dezenas de filmes em Hollywood. Jerry Lee Lewis -- que vivia bêbado, tacando fogo no piano -- , só se ferrou (lembram do filme com Dennis Quaid?): foi escandalizado e chegou a perder as rédeas sobre a carreira.

Conheço histórias de velhinhas que, aos 12 ou 14 anos, pularam o portão para fugir com homens bem mais velhos. Escândalos sexuais muito bem acobertados por enlaces matrimoniais arranjados a tempo de esconder as barrigas. Há casos célebres de artistas pederastas & seus amantes adolescentes, pintores & concubinas púberes. E ninguém precisa apelar para nenhum estudo histórico ou antropológico sobre a sexualidade para dar conta de como a moral cristã, assimilada por Estados teoricamente "laicos e livres", alimentou essa enorme máquina de controle social às custas da repressão do desejo. Basta lembrar que, até 2003, a sodomia e o sexo oral ainda eram crimes em estados americanos como o Texas.

Aos 13 anos, minhas amigas e eu éramos tontas, ingênuas & virgens. Já passamos dos 25, não temos mais nada de virgens e, em muitos quesitos, somos até mais tontas do que antes. Aos 13, no entanto, já nutríamos belos desejos. Uma parte de nós preferia os robustos professores de educação física aos molequinhos espinhudos da sétima série. No geral, nossas vidas sexuais começaram pouco depois dessa fase e, salvo raras exceções, todas nós praticamos os tais "atos ilícitos" com barbudões mais velhos quando ainda éramos menores de idade. E todas sabíamos exatamente o que estávamos fazendo.

Por isso, vem a pergunta: o Polanski afinal estuprou, fez algo à força com a moça, ou simplesmente manteve relações sexuais consentidas por ela? Essa coisa do doping foi comprovada? Como é que, 30 anos depois, poderá haver algum tipo de julgamento sobre isso? Eu ainda não entendi. E o Gay Talese, provavelmente, também não.

*Acima, Roman Polanski e Sharon Tate em 1968; reprodução da capa de edição americana de A Mulher do Próximo, de Gay Talese.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Hora da saída

"Manokú, viado! [buf...buf...buf....] Seu filho-da-puta! Cuzão do caraio! [buf...buf...] Porra!", grita solitário o menino moreno, magrelo & suado, batendo os pés com toda força nas poças d´água suja, desafiando o oponente de uniforme surrado que caminha devagar pela calçada estreita, do outro lado da rua.

É primavera no limite norte de São Paulo.

As meninas caminham em bandos de meia dúzia, gargalhando em voz alta. Futuras grandes matronas pardas, de bochechas ruborizadas e cabelos crespos amarrados em fitas rosa-choque. Uma delas derruba um fichário. As outras reagem em bando, "Êêêê, Marcelá!"; quando já dá pra ver as camisetas amarradas, improvisando a sedução pelo nó acima do umbigo.

Lindos homens e mulheres do futuro, correndo riscos e farejando limites pelos códigos sociais do antigo bairro.

E durante o dia todo só se viu no céu uma pequena fenda de sol.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Quando a cultura pop emociona



* "A tribute like no other to a performer like no other", promo da MTV americana para o VMA 2009, citando a chuva de sapos de "Magnolia", filme de Paul Thomas Anderson (1999).

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Ponto de vista


Renata D´Elia, by Tiago Andrade (@madmaxandrade)
*com base em foto by Camila Hungria, nos arredores do Templo Budista Zu Lai. Cotia - SP, 2008

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Penso

Sabe, Gabriel, é como se você fosse nuvem. Você passa por cima, e eu tento te alcançar. Gosto de te ver distante, caminhando devagar, sussurrando bom dia pelos arredores do prédio. Eu faço qualquer coisa enquanto você observa as meninas: viver uma verdade e omitir outra. Você finge mal, mas pelo menos eu sei. Acho engraçado quando me observa ruminar a comida nesse fetiche absurdo de me ver engolir coisas. E nem pilantra direito você é, embora tenha lá suas idiossincrasias. Você sorri por coisas bestas & se irrita devagar, cerrando os punhos e resmungando palavrões como os meninos contrariados fazem [tão bonitos nos filmes & nos quintais, sempre meio sujos e rasgados]. Você levita na hora do gol. Você vive leve, que nem pipa. Voando torto e belo, no meio do meu céu. Você tem qualquer coisa de paz, homem azul, quando me observa calmo. Ou então não é você, foi só o feitiço.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Mãos frias


O que mais gostava de fazer era meter a mão esquerda com leveza por dentro da braguilha e passar os dedos pela entrada da cavidade úmida, de contornos finos, afastando sem pressa os dois lados do elástico da roupa de baixo, e lambuzando as pontas dos pêlos bem pretos a proteger o recorte rosado da pele; mais branca impossível. Fazia questão que as mãos estivessem frias, pois quando as pontas dos dedos se escondiam nas encostas quentes, uma pequena contração despejava leve mais um pedacinho de líquido, sem cor. Depois de tirar os dedos, brincava de separá-los para observar a textura, e levava-os ao nariz e à boca num ritual de respeito & elegância consigo para balbuciar mentalmente, antes de sorrir: ninguém cheira tão bem quanto eu.

Acontecia em todos os lugares, inclusive quando perigava ser vista. Sentada na poltrona, diante da TV, debaixo das cobertas, à mesa de canto no restaurante chique, à beira do lago nos domingos de sol, debaixo das árvores com livros nas mãos; a hora era o risco. Resguardava-se somente no transporte público. Havia atingido tamanho grau de expertise que certa vez arriscou fazê-lo numa mesa de debates. Os nobres professores discursavam coléricos, enquanto ela repetia o ritual com discrição, protegida pela fórmica da mesa bastante acima dos joelhos, levando os dedos à boca como se roesse devagar os cantos das cutículas. Depois agarrou o microfone num asco silencioso pelo suor das mãos dos outros [além de inexplicável pavor a germes]. E falou.

Outra coisa que gostava de fazer era passar as mãos espalmadas sobre os pêlos pubianos, despida da cintura para baixo, no chão do banheiro. Sempre com música. Gostava de como os pêlos pinicavam masculinos nas palmas macias. Desfazia os caracóis da raíz para as pontas, para erguer um pequeno moicano na linha da pélvis, e depois se mexia para provocar a própria sombra e encontrar a melhor luz antes de apará-los. Os mais finos caíam pelo capacho branco ou pelas toalhas no chão. Deixava seu rastro. Gostava também do próprio suor, especialmente nas dobras das pernas; da prontidão dos fluídos, sempre alerta & bem-vindos, no ar da graça fisiológico da virilidade feminina. Levantava os braços e acomodava bem a cabeleira farta observando o desenho das mamas com o queixo encostado no colo, antes de alcançar as cavidades falsas das axilas com o nariz e a língua. Banhava-se com paixão.

Gabriel não sabia, aquele homem azul. Era o primeiro a chegar e sentar-se de costas do outro lado do escritório; agindo entre lapsos. Silencioso. Caracóis na cabeça & dentes tão brancos. Ela gostava do calor, quando as janelas entreabertas agitavam persianas, numa dança lenta de luz & sombra pelas frestas na direção de pescoço e orelhas, lindo homem azul. Gostava de como ele arregaçava as mangas -- observava nos braços os pêlos bem pretos protegendo a pele branca -- e de quando voltava da chuva, num banho gelado de susto: mãos frias. E ninguém cheirava tão bem quanto ela. Gostava do cheiro curtido no final do dia, a subir devagar quando descruzava as pernas, da umidade na costura das calças finas, e de meter a mão esquerda por dentro da braguilha, clandestina, enquanto Gabriel caminhava ansioso pela sala. Evitava olhar diretamente as mãos dele, para não desistir pelo transpiro.

Fotos: Catherine Deneuve em "Repulsa ao Sexo", de Roman Polanski; e Isabelle Huppert em "A Professora de Piano", de Michael Heneke (2001).

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Canções de chuva na cidade proibida

Algumas canções me lembravam chuva. O som da chuva - silêncio & exílio. Eu tinha medo, tinha sombra e também solidão quando as tardes desaguavam repentinas, e por isso me comunicava no idioma secreto de Tar - embora eu nunca tenha estado em Tar - cercada de pernas gigantescas & pessoas com muita seriedade na vida. Depois fui saber que toda chuva é feita de saudade ou de memória do futuro, como a maioria das canções: você só precisa escolher a sua chuva e guardar pra ela uma canção. Desde então, passei a colecionar saudades & memórias, além de guardar canções para diferentes chuvas.

Eu sou daquelas com facilidade de fundir e separar. Primeiro eu junto tudo. Aí separo as roupas por cores, os sonhos por estações, os filmes por gênero e as canções em duas categorias mundiais: "sol & grama" e "grama & chuva". Odores acompanham. De toda a classe dos cheiros, os mais fáceis de guardar são das flores de cemitério, limonada de garrafa térmica, grama, e chuva. Por isso mesmo é muito fácil sonhar. Basta ouvir a primeira nota, e pronto: o cheiro vem fácil. A grama, como sempre, gruda no corpo e traz consigo um país de formigas.

Não basta ter canção & chuva, tem que saber filmar. Já guardei canções para tempestades londrinas, gotas frias de Moscou e ano novo em Paris: sempre à noite. Tem também uma que eu guardei pra contar até 15 de olhos fechados no meio do viaduto vazio, e uma para se equilibrar na guia [em fase de testes desde 1995]. E claro, já escolhi também a do momento exato em que que o espermatozóide corre feito um raio, triunfante, até fecundar o óvulo e fundir-se, exausto, numa célula mágica, enquanto eu brinco de nado sincronizado nos lençóis e cortinas do quarto azul. Estaremos vagabundos e radiantes, num hotel fantasma à esquerda do portal para a cidade proibida. Nos olharemos pelo breve instante que antecede uma pequena explosão do outro lado da rua. Fade out.