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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ingressos para shows: acabou a farra do boi?

                                Madonna e Lady Gaga: turnês têm demanda abaixo do esperado no Brasil

Para evitar um fiasco de vendas, a produtora Time For Fun decidiu reduzir drasticamente os preços dos ingressos que restam para os shows de Madonna no Brasil em dezembro, conforme informações do jornal O Estado de S. Paulo. E bem, ainda restam muitos ingressos. Só não sei o que acontece com quem comprou antes a preços mais caros. É possível que vigore a lógica da liquidação comum às calças jeans & eletrodomésticos. Mas isso é assunto do Procon. Vamos aos fatos que interessam. 

O show de Lady Gaga no Morumbi, no último dia 11 de novembro, tinha de fato muitos espaços sobrando. A razão entre o copo meio cheio e o copo meio vazio depende de outras variantes. A julgar pela política de "pague 1, leve 2" que vigorou por iniciativa do patrocinador master quando os ingressos encalharam, o pior foi evitado. Consideremos também a baciada nos sites de compras coletivas e os cambistas desesperados vendendo ingresso de R$300 por R$40 na porta do estádio.

Boa parte do público comemora com "bem feito!" frente aos produtores que, até 2011, esgotavam ingressos a preços caros com direito a confusão nos postos de vendas e reclamações sobre panes nos sistemas de e-commerce, além de uma versão peculiar das pistas VIPs com serviços bem mais chinfrins do que seus equivalentes europeus/americanos.

Mas trata-se de dois big shows que, pelo menos em partes, aglutinam os mesmos consumidores. E eles desembarcam no Brasil com intervalo de menos de 30 dias e durante a baixa temporada do hemisfério norte, onde se concentra o faturamento grosso das turnês. Madonna tem quase 30 anos de vantagem sobre sua nova rival, com uma marca mais consolidada, dezenas de clássicos musicais e imagéticos do pop, maior influência cultural e comportamental, além de um público fidelizado nos moldes massivos da indústria do disco.

Apesar dos hits e da forte influência de Gaga nos últimos 5 anos, seus "little monsters" têm média de idade inferior. Boa parte concentra-se entre colegiais e universitários com menos autonomia e poder aquisitivo, dependendo dos pais para comprar ingresso e viajar  para assistir shows. Conforme apurei em reportagem para o Valor Econômico, o share de turistas nos grandes shows internacionais pode ultrapassar 40% do público em cidades como São Paulo, Recife e Rio de Janeiro.   

A Time For Fun representa com exclusividade no Brasil a promotora Live Nation, maior do mundo. A Live Nation possui contratos para gerir as turnês de Lady Gaga e Madonna, além de nomes mega-rentáveis e ultra-lucrativos como o U2. No caso de Madonna, um contrato "360°" com vigência de 10 anos foi firmado em 2007.  Inclui seus álbuns, singles, licenciamento de produtos, merchandise oficial e turnês. As turnês são superproduções. Superproduções são caras. E no fim das contas, a Live Nation morde 10% do que Madonna arrecada. Mas deve pagar US$120 milhões à cantora ao longo destes 10 anos independente do que ela arrecadar.

Apenas em 2012, estima-se que a Rainha já tenha recebido entre US$30 e US$40 milhões pela parceria. Fazendo uma conta de quitanda, é como se ela tivesse virado uma "empregada de luxo": precisa cumprir a agenda de shows estipulada pela Live Nation para atingir suas metas de lucro. Em sua última turnê, a "Sticky & Sweet" (2 shows no Rio e 3 em São Paulo, 2008), Madge se estafou com o calendário abarrotado de apresentações.

Acontece que apesar da apresentação triunfal de Madonna no intervalo do Superbowl (evento de maior exposição e receita publicitária dos EUA), em fevereiro, o kickoff das vendas do disco ficou abaixo do esperado pela Live Nation. Aí você pensa: "ok, ninguém vende mais discos". Só que a perna da turnê "MDNA" numa Europa em recessão também não rendeu o suficiente. O empresário dela, Guy Oseary, chegou a pressionar a Live Nation para reduzir os preços e aumentar a venda de ingressos. Tanto Madonna quanto Lady Gaga não fizeram shows na Austrália, com um mercado de entretenimento habitualmente forte, mas saturado nesta temporada. A suposta má fase do setor em todo o mundo foi uma das justificativas da diretoria da Time For Fun para a baixa procura neste fim de ano.

Enquanto isso, o Rock In Rio comemora a venda de 80% dos ingressos para sua edição 2013 já na largada e sem confirmar todo o lineup, mas tendo como headliners nomes rentáveis do rock n' roll, como Bruce Springsteen e o Metallica, com público fiel. Capitaneada pelo Pearl Jam e agendada para março de 2013, em São Paulo, a segunda edição do festival Lollapalooza ainda não esgotou nenhuma de suas 3 datas com ingressos R$330 por dia, mas esgotou o primeiro lote com rapidez.

Alguém aposta que os preços dos ingressos cairão nos próximos anos? Que os festivais ganharão protagonismo e a era dos megashows solo pode estar no fim? Que a cauda longa gerará cada vez menos artistas com tamanho suficiente para as superproduções e grandes arenas? Um mapeamento inicial para fomentar a discussão foi publicado na New Yorker em 2009, mas ainda é válido. Leia aqui.

Leia também:

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

The big rock & pop in 2010


No rock n´roll existe um consenso de que banda boa é banda média: nem tão obscura e ainda semi-profissional -- tocando pra 100 pessoas num inferninho qualquer --, nem grande a ponto de lotar estádios e se acomodar na fórmula consagradora, abusando de palcos gigantescos e turnês ambiciosas, milhas distante das ousadias e de qualquer experimentalismo que afaste as massas.

Por isso me admirei com o No Line On The Horizon, do U2, lançado em março desse ano. Pelo menos arejaram a sonoridade, ainda que com os mesmos ares de The Joshua Tree [1987] e Achtung Baby [1991], também produzidos por Brian Eno e Daniel Lanois. Mas ao contrário das guitarrinhas inofensivas e das melodias chorosas de All That You Can´t Leave Behind [2000] e How to Dismantle An Atomic Bomb [2004], No Line pelo menos convida o ouvinte a levantar a bunda do sofá e levar seus sentidos pra dar uma voltinha.

Quem não curtiu foi o público: o disco mal vendeu 1 milhão de cópias, segundo o The Guardian. Podem culpar a cauda longa da internet ou a crise econômica. Podem culpar o Michael Jackson que, depois de morto, roubou quase toda atenção do showbizz e vendeu 6 milhões de discos em 4 meses só com a coletânea Number Ones. Mas basta reparar no público dos shows da 360° Tour, ou mesmo das duas turnês anteriores, se você esteve em algum deles: quantos discos do U2 você acha que esse povo tem? E quais serão os preferidos desse público? Não devem ser Boy [1980], War[1983] ou Unforgetable Fire [1984].

Veja bem: o U2 toca em estádios há pelo menos 25 anos. Tem cara de banda grande. Sonoridade de banda grande. Atitude política de banda grande. Você imagina hinos como Pride ou Where The Streets Have No Name executados em caverninhas habitadas por gente triste, pseudo-intelectuais e alternativinhos de plantão? Como é que se pega uma canção cheia de camadas climáticas como The Unforgetable Fire e se toca em outro lugar que não seja um estádio, pra milhares de seres dispostos a encarar uma catarse coletiva e cantar pra vizinhança toda ouvir? Não entendo, portanto, a crítica à grandeza.

O Brian Eno entende. Em excelente entrevista publicada pelo Pitchfork, o mitaço foi logo quebrando alguns sensos comuns. "Eles [U2] já fizeram várias mudanças significantes em vários pontos da carreira. Eles são, na verdade, uma banda muito experimental, mas por causa da forma da música deles, muita gente não reconhece. Se fosse alguma banda indie obscura, as pessoas provavelmente pensariam: 'Deus, eles são demais! Continuam surgindo sempre com coisas novas!'. Mas porque venderam milhões de discos, os experimentos passam batidos' (...) E eles não são exatamente o tipo de banda que quer perder adeptos durante a caminhada".

Enquanto isso, na cultuada nuvem do Radiohead, Thom Yorke coça o nariz e todos dizem que é arte.

A dupla de grafiteiros osgemeos vai aos poucos se transformando num fenômeno pop Romero Brito [em breve canecas e reproduções na Tok & Stok]. Começa a contagem regressiva para que os alternativos procurem outra alternativa.

Voltando à Irlanda. Se o dilema do U2 é descobrir se vai 1) sentar a bunda 2) ousar e perder adeptos 3) descobrir como ousar sem espantar os aderentes da dieta pop-easy nesse novo e muito louco modelo de negócios da música, restará, de fato, saber pra onde vai o rock de massas num cenário cada vez mais segmentado.

Pelo menos com shows, que seguem lotados e muitíssimo bem produzidos, Bono & cia podem sossegar. Ou não. O que se vê, na 360° -- de forma ainda mais evidente após assistir ao This Is It de Michael Jackson -- é uma banda que faz um puta show, mas se acomoda no set-list , sob medida para o público de ATYCLB e HTDAAB, com músicos que se cansam por saracotear num palco monstruoso, enquanto tocam, cantam e interagem com o público.

Faz parte do conceito mega-pop. Mas me parece cruel para uma banda de rock. Mais cruel ainda para um fã de música, cercado por gente greatest hits, que prefere o telão. [É claro que eu também vejo o telão, mas péra lá]. Michael Jackson, nos ensaios de TII, não parecia menor que a infra-estrutura. Tudo bem que essa pergunta já foi feita outras vezes, mas pra onde é que o U2 vai depois de um palco giratório e uma garra gigante? Onde estará o U2 no meio da próxima parafernália?

A colunista Sônia Racy, do jornal O Estado de S. Paulo, confirmou essa semana 3 shows do u2 com a turnê 360°C em São Paulo e 1 no Rio de Janeiro, em novembro de 2010. Guarde grana e chegue cedo para garantir o seu lugar na fila. Vá com fé.

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Donna Madonna vem ao Brasil semana que vem prestigiar a terra de seu iluminado gigolô nazareno. Essa é outra que ficou escrava do padrão pop que criou. Mas o que a gente faz? O que se viu ano passado na etapa brasileira da Sticky & Sweet Tour foi estilo Madonna: cronometrado, bem feito, valendo a pena, mas sem um pingo de mágica. Se eu fosse ela, aos 51, daria um basta nas cadelas do telão e apostaria no minimalista: uma boa banda, com arranjos modernizados -- mais rústicos e menos plastificados -- e, acima de tudo, gogó. Será que a burocrata topa? Recorte a apresentação de Bad Girl ao vivo no Saturday Night Live back in the 90´s e cole na boa versão de Ray Of Light by Snow Patrol. Me diga o que acha.

Quero dizer, e só um chute. Um devaneio. Não custa imaginar.




domingo, 21 de dezembro de 2008

Imprensa marrom & o rock da Madonna

Veri: Tô lendo seu texto sobre o show da Madonna.
Renata: Ah é? E aí?
Veri: Engraçado que ela beija quem ela quer e ninguém fica questionando se ela é bissexual. Nessas horas até a imprensa marrom respeita!
Renata: E ainda por cima, pegou Jesus!
Veri: Néam?
Renata: Hahahahahahahahah!

5 minutos depois...

Veri: É, pensando bem, ela tinha essa veia roqueira no começo da carreira.
Renata: Ah, mas isso porque o visual dos anos 80 era aquela mistura bagaceira dela no próprio clipe de Borderline.
Veri: Pode crer. Rock mesmo, de verdade, devia ser apanhar do Sean Penn!
Renata: Hahahahahahahahahahaha!

O código oculto da parafernália

Não rolou "bunda suja". Em 120 minutos, Madonna pulou corda, fez pole dancing, conversou com a galera, beijou a bailarina na boca [tivemos a impressão de que dessa vez foi mais "nasty": sabe como é, país tropical...], destilou um repertório de antigos hits com novíssima roupagem e de novas músicas que todo mundo já sabia de cor, rodeada por uma baita produção. Desafinou um pouco, é verdade, mas ninguém estava preocupado com isso. Até aí, nenhuma surpresa: tudo dentro dos conformes técnicos obsessivos da Sticky & Sweet Tour. Só não dava pra escapar da atração arrebatadora que aquele corpinho extremamente definido exalava de qualquer ponto do palco.

Sábado, 20 de dezembro, foi dia de lavar a alma com capas de chuva vagabundas. Especialmente se você desse a sorte de passar o tempo inteiro com a tchurma mais engraçada do mundo para assistir shows. Ou pelo menos a um show da Madonna. A começar pelos cinco [belos] cavalheiros [gays] dispostos a levantar mocinhas pequenas para ver a tal da mulher de 50 anos que se contorcia e quase virava cambalhotas na pontinha do palco, lá do outro lado.

Deve haver algum desastre químico na minha cabeça gorda, mas vou dizer que o mais importante de tudo foi avistar Madonna no centro da parafernália, tocando a velha Borderline meio desajeitada, com uma guitarrona em punhos. [Breve pausa para sorrir]. É mais ou menos como encontrar um código oculto & gracioso no meio desse gigantesco emaranhado pop, e depois guardar no bolso um pedaço embrionário da teia a que pertencemos desde os primeiros ídolos que imitamos quando crianças, e que nunca deixamos para trás [porque nunca tivemos coragem para isso].

domingo, 14 de dezembro de 2008

E aí, bunda suja?

Madonna no Brasil, até que enfim! Alguém aí lembra do Melô da Bunda Suja? Aconteceu em 1993.

A história é a seguinte: a Rainha veio cantar no Morumbi e depois no Maracanã. Em São Paulo, ficou hospedada no antigo Caesar Park da Rua Augusta, lado centro [aos não paulistanos, saibam que o endereço há tempos é ponto de prostitutas, sendo que nos arredores ficam baladas gays, inferninhos e lugares para gente "descolada"; mas nos anos 90 tinha mais prostitutas mesmo]. Rapidamente, o lugar foi tomado por uma multidão de fãs assustadoramente enlouquecidos.

Eu tinha 9 anos e me lembro bem da imagem de um peludão vestido com botas e uma sunga de couro [numa viagem meio Mapplethorpe/meio aquele documentário Sex da própria Madonna], que subiu nos ombros de uma segunda pessoa e começou a esfregar suas partes íntimas diante do hotel, e das câmeras de TV. Mulheres mostravam os peitos e berravam sem parar. Uma patota de drag queens encabulava a polícia. A própria Madonna depois revelou ter ficado tão apavorada que nem conseguiu dormir com aquela balbúrdia debaixo da janela.

Durante a passagem de som no estádio [coisa que até hoje, meticulosamente, ela faz antes de cada show] o protocolo foi quebrado e os portões foram abertos aos fãs que já estavam acampados [and horny] por lá. Glória Maria & seu respectivo cinegrafista da Globo acabaram conseguindo entrar com uma câmera escondida.

Foi ali que a tal da megastar, aos 35 anos, um metro e sessenta de altura e cabelinho oxigenado modelo "touca de natação", pediu aos fãs que ensinassem a ela alguns palavrões em português para que pudesse compor uma musiquinha e cantar mais tarde. Foi aí que surgiu a pérola, uma de nossas piadas internas mais queridas, cuja letra consistia na repetição dos belíssimos versos "Oi galera! Oi Brasil! E aí, bunda suja? Como vai? Que gostoso! Muy gostoso!". [Se alguém encontrar o vídeo na íntegra, avise a tia por favor. O vídeo abaixo tem um trechinho].

Peraí, peraí. A história é muito da bonitinha. Mas preciso dizer também que há controvérsias sobre a autoria do "bunda suja". Na época circulou a versão de que o autor da proeza foi na verdade um bailarino ou coreógrafo [xarope] que participava da The Girlie Show. Será que a donna Madonna topa fazer um tira-teima?

Em tempo: estou tentando convencer meus amigos [também histéricos] a protelarem um pouco nossa chegada ao estádio, no próximo dia 20, sob pena de ficarmos surdos ou no mínimo estressados com animosidade de plantão. Na televisão tudo isso é engraçado. Mas na pista do estádio, debaixo do sol a pino [ou de chuva], com a garrafa d´água custando 6 Reais, acho que não vai ser tão bacana o esforço. Ou vai? Ajudaí, tia Madonna!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Habemus ingressum!

Consegui comprar meu ingresso para um dos shows de Madonna no Brasil após 12 horas de tentativas no precário site Tickets For Fun no dia de ontem, e mais 4 horas de tentativas por telefone entre ontem e hoje, além de contar com o "fator amigo", já que o Felipe Salomão fez o favor de tentar a sorte por mim quando eu não já aguentava mais.

Ótimo. Estou feliz, afinal de contas, fiz tudo isso só pra ver a Madonna. E já prometi a mim mesma que não faço nunca mais. É muito chato saber que várias pessoas de boa fé se deram mal. Minha amiga Júlia Hilsdorf teve o valor do ingresso debitado de seu cartão, mas não obteve o tíquete. Outros amigos estão tentando até agora pelo call center, toda vez que dá uma brecha no serviço. [E ninguém aqui é desocupado, embora seja bastante cômodo aos donos da razão atribuir essa pecha aos "bobocas" da fila].

A professora Evelyn Vavassori, habitual frequentadora de shows, considerou o desrespeito tamanho logo de início, que nem tentou comprar ingressos. "Eu não vou porque está bem claro que nós passaremos muito estresse e pagaremos caro, mais uma vez, pelo privilégio de uma meia dúzia de convidados. Não trouxeram a Madonna pra a gente, não querem a gente lá. As coisas aqui acontecem sempre desse jeito porque a gente não boicota. Eu não tenho mais paciência", desabafou, por telefone.

Na Folha Online, especialistas em marketing e relações públicas afirmam que os danos à imagem da incompetente Time For Fun devem, no máximo, afastar alguns clientes. "Alguns clientes" é muito pouco. Por ironia, a relações públicas Raquel Arroyo, é mais uma das que já se afastaram do enrosco. "Por causa do preço e do desgaste, não tenho mais pique de ir a shows assim. Até porque devem ter sobrado pouquíssimos ingressos disponíveis para venda, já que antes vem o privilégio dos patrocinadores e da mesma panela de sempre".

Era de se esperar que funcionasse assim, aqui no país do Zé Carioca. "Eles que se danem".

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Madonna & Laurie

Acabo de reler um capítulo do professor americano Douglas Kellner em seu livro A Cultura da Mídia. Trata-se de um pequeno ensaio comparando Laurie Anderson e Madonna, dois grandes ícones da cultura pop e do chamado pós-modernismo, cada qual em seu estilo de reivenção. Fica bastante vago comentar o texto todo aqui, mas deve fazer algum sentido no fim das contas.

A grossíssimo modo, podemos resumir assim: as performances artísticas de Laurie [figura ligada à vanguarda novaiorquina dos anos 70 e 80] dialogam com as artes plásticas, promovem uma experimentação musical mais profunda e causam perplexidade - sem oferecer conclusões prontas - enquanto Madonna faz um pastiche de referências, centraliza todas as atenções e aposta em personagens carregadamente estereotipados para provocar o choque, em canções estritamente radiofônicas.

Toda a caracterização de Madonna é afirmativa e autocrática - mesmo quando se trata de ambiguidade e sexual. Por outro lado, a androginia dos clones de Laurie denota "fragilidade na identidade pessoal e sexual": uma imagem comercialmente inviável.

"Laurie é uma artista performática e vanguardista. Madonna é a rainha do pop", como diz o próprio Kellner. A primeira desconstrói a expressão, fragmenta sigificados, implode estilos musicais e produz significados que não significam muito mais do que si mesmos - é pós-moderna na gênese. Mas não investe em comentário social e não profere uma mudança de comportamento ou define qualquer tendência nesse sentido.

Enquanto isso, "Madonna está sempre promovendo sua versão de feminismo, de liberação sexual e de autocriação", além de trabalhar com maestria a pluralidade de significados nos videoclipes, por exemplo.

Ainda bem que nada é tão simples ou dicotômico. Mas na verdade, é muito curioso que essas duas se apresentem no Brasil com intervalo de apenas dois meses. Primeiro a genial Laurie [no vídeo abaixo em Language is a Virus], uma das melhores contadoras de histórias do planeta. Depois Madonna, a referência pop absoluta.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Another vision of sex

Acabo de assistir a um filme estranho. Não costumo dizer isso sobre quase nada e a conotação aqui não chega a ser negativa. Ganhei o DVD de presente de um amigo americano, o que endossa a hipótese de que a discussão em torno já descambou pro lado mais chato: o do problema de comportamento, o feminismo versus machismo & babaquismos afins.

Cavuquei por aí e só achei em português uma filmografia incompleta da diretora Catherine Breillat - que dirige longas do time "metafísica ou putaria das grossas?", e andou trabalhando com a Asia Argento, em filme que concorreu em Cannes ano passado. Mas as mostras de cinema daqui esse Anatomie de l´enfer/Anatomy of Hell[2004] não deve ter frequentado. Talvez não tenham conseguido enquadrar a produção no circuito de cinema experimental nem no segmento pornô.

Só pra constar, o filme tem atuação do Rocco Siffredi [ele mesmo, minha gente, o ator pornô mais famoso do planeta, que inspirou o nome do filho da Madonna]. O par é formado com a atriz britânica de expressão francesa Amira Casar, de beleza sóbria, descoberta pelo grande Helmut Newton, e que já posou também para Peter Lindbergh e para as inusitadas lentes de Terry Richardson.

Pois bem. Após tentar cortar os pulsos no banheiro de uma boate gay, uma mulher é salva por um homossexual,que depois caminha com ela pela cidade. Faz então uma proposta a ele: todo o dinheiro que ele quiser por quatro noites de observação. Mas o acordo não é tão simples assim. Ele tem que observá-la onde ela é "inobservável". Todos os ângulos, todos os pontos escondidos de seu corpo. "Já que você não gosta de mulheres, poderá ter uma visão imparcial sobre mim".

O que sucede na próxima hora e mais alguns minutos é uma total quebra de padrões morais e convenções estéticas sobre a beleza, o corpo, a genitália, o sexo e o senso comum sobre a pornografia. Uma desconstrução crua [e nua] dos jogos lascivos culturalmente aceitos. Peraí, mas ele não era homossexual? A diretora, em entrevista disponível nos extras do DVD americano, explica diretamente. "Questionar a homossexualidade dele é algo estritamente sociológico. O filme não trata disso, mas sim da origem do mundo. É como se eles fossem o primeiro homem e a primeira mulher confrontando suas naturezas e a diferença absoluta entre os sexos, o que pode ser uma violação assustadora, que eles vivenciam de formas distintas".

Existe uma tentaiva meio rasteira de explorar essas naturezas e atitudes de forma filosófica e metafísica. Isso através dos diálogos, pretensiosos mas irregulares. Tampouco se trata de erotismo - no sentido fantasioso e imaginativo. Além desta outra nudez, o foco está no total ressentimento de um pelo outro, mesmo que os dois personagens tenham sido totalmente desconhecidos até então. Eles aliás, não se tratam por nome [desconhecem a "identidade" do outro], vivenciando ali uma exploração paradoxalmente íntima e impessoal.

Sem meio nem fim a contar, nem mais discussões sobre a validade desse projeto ousado. Os curiosos que procurem aí, pela estrada afora, um torrent para baixar. Só não se deixem levar pelo extremo mau gosto da capa americana com fundo preto e letras garrafais brancas, envolvendo uma cena completamente fora de contexto. O trailer segue aqui embaixo.