domingo, 5 de dezembro de 2010

Quero meu set list!


Alô você, fã do U2 que, assim como eu, não aguenta mais o Bono chamando garotinhas desesperadas ao palco durante With Or Without You. Que não suporta mais os fãs de coletânea pedindo Sunday Bloody Sunday. Que não faz questão do repeteco do eco do povo cantando "ô-ôôô-ôôô-ô-ô-ô-ôô" em Pride, In The Name Of Love. Que aproveita para ir ao banheiro nos discursos de meia hora do Bono. Que preferia se poupar da geraçãozinha All That You Can't Leave Behind e todo o seu chororô vergonha alheia. Junte-se a mim nesta militância quixotesca em prol de um set list customizado do U2 para os old fans!

Enquanto U2 não faz como The Cure e monta um Trilogy com três álbuns matadores -- que pra mim, podiam ser Boy, October e War -- vou montar aqui minha personal set list e mandar uma pombinha entregar pro Larry Mullen Jr lá na Irlanda. Afinal, o chefe da banda é muito mais ele do que o Bono. Adam Clayton & The Edge vão adorar, tenho certeza.

Algumas eu já vi nos shows de 1998 e 2006. Mas quero repeteco e coisas novas. Vamos lá?

1) I Will Follow
2) Another Time, Another Place
3) Stories For Boys
4) Gloria
5) Tomorrow
6) New Year's Day
7) Surrender
8) The Unforgetable Fire
9) A Sort of Homecoming
10) Exit
11) Spanish Eyes
12) In God's Country
13) Where The Streets Have No Name
14) I Still Haven't Found What I'm Looking For (em pegada forte, anos 80)
15) Mothers Of The Disappeared
16) Even Better Than The Real Thing
17) Until The End Of The World
18) Ultra Violet
19) Zoo Station
20) The Fly
21) Lemon
22) Stay
23) Gone
24) One (momento chororô)
25) The Ground Beneath Her Feet (momento chororô)
26) Beautiful Day
27) Electrical Storm
28) Miracle Drug
29) No Line On The Horizon
30) Magnificent
31) Fes/Being Born
32) Scarlet (pra fazer o bota fora e o "goodnight são paulo")











quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

U2 na Irlanda tropical



Faz 30 graus celsius em São Paulo no exato momento em que uma gigantesca população de pulgas gordas & piolhos mastigadores parte em direção às barbas e cabelos de nossos hipsters universitários, nossos riquinhos hypes, nossos indies de xadrez e nossas garotas hippie-chics: todos se coçam, todos se ouriçam -- elas arrancam as peles, eles arrancam os pelos --, e o motivo não era um pássaro, não era um avião, eram somente os indefectíveis sinais da mesma grande banda que eles juram detestar.

Nada como um show do U2.

Se fosse o Morrissey, gritar e rasgar-se era pouco. Mas hipster que é hipster, despreza U2. Eles preferem idolatrar 99% das bandas lideradas por riquinhos hypes e indies de xadrez que idolatram U2. Ou então, ficam quietinhos no armário, caprichando na pose de cocô-blasé. [Discutiremos a sutil dicotomia entre assumidos e enrustidos numa próxima oportunidade]. Mas para todos eles, qualquer definição é fácil: Bono é só um tiozinho chatão, The Edge é um guitarrista bundão e foda-se se eles fazam um baita showzão. Pronto, resolveu-se o teorema.

Enquanto isso, pulgas gordas & piolhos mastigadores seguem saltitando em direção ao hype. E de repente, hipsters universitários, riquinhos modernosos, indies de xadrez e garotas hippie-chicks quase se estapeiam pelo show de Amy Winehouse. Eles adorariam frequentar a Rehab. Mas nem tudo é possível para os hispters. "Alô, mãe, tô aqui na Pista Vip! A Amy rolou no chão, deu bafón, quase morreu e vomitou na minha cara. Tirei foto!" Cinco minutos depois, toda a glória da Rehab cai por água abaixo no estacionamento do Anhembi.

Em todo caso, se Amy der um treco, levo no bico Janelle Monae e Mayer Hawthorne.

Mas aí vem o show do U2.
E o fã de U2 que não quer ouvir Pride está para Paul McCartney como quem cagou para Hey Jude. Se você também faz parte do clube, encoste aqui sua mãozinha na minha, e vamos ao banheiro químico para nos poupar do discurso humanitário e dos classicões clichês, que já perderam vigor ao vivo, mas seguem no set list para agradar amadores e salseiros. [Mentira, a gente no máximo bebe uma água e poupa a garganta para berrar mais no bloco seguinte].

Os hipsters já nos mandaram ao limbo das massas. Os ressentidos já reclamaram de tudo. Os super críticos a postos nos chamam de otários com propriedade e convicção. Duas coisas nos restam: comprar um ingresso e chorar na rampa em abril de 2011 com mais uma bela história para a coleção.

Aos desavisados
Mal começou a pré-venda exclusiva para o fã-clube e os primeiros corvos já babaram no anúncio de um setor "privilegiado", a Red Zone, com ingressos a R$1.000. Também acho loucura e só pagaria essa grana pra ver o espírito de Michael Jackson dançando Billie Jean exclusivamente pra mim. Mas nessas horas a gente precisa ser didático. Vamos lá:

1) A Red Zone não é uma pista premium como a de Paul McCartney, Madonna, e de festivais como o SWU, em que se paga mais caro para ficar em frente ao palco, criando um clima de Israel X Palestina entre os setores da plateia. Trata-se de um camarote lateral próximo ao palco, com comes & bebes à vontade, produtos do merchandising oficial grátis e outros mimos. É um modelo de setor muito praticado fora do Brasil.

2) O valor líquido de cada ingresso, descontando impostos e a taxa da T4Fun, será revertido para um fundo global contra a Aids. Informações aqui:
www.joinred.com

3) O camarote não impede que os fãs da pista comum cheguem à grade e permaneçam na frente.
Muito pelo contrário. Procurem os vídeos, fotos e mapas de palco da 360° Tour e entendam: dentro do snakepit, estão os fãs que pagaram pista comum e chegaram primeiro. Isso é praxe nos shows do U2. Foi assim em 2006, quando eu estive no Morumbi dois dias seguidos.

4) O palco é enorme, redondo, centralizado na arena e cercado por uma garra gigante e um telão giratório que tornam possível uma boa experiência sensorial até para quem está longe. Quero dizer, isso é o que diz quem já assistiu a 360° Tour na Europa ou EUA.

5) Não é barato trazer uma parafernalha dessas pra América do Sul, que entrou na rota dos big shows outro dia. Mesmo assim, a média de preço dos ingressos dos U2 para todos os setores não é superior às de Madonna, Paul McCartney e Bon Jovi, que trabalham com estruturas menores de palco. Além do mais, nas pistas premium israelitas destes shows, não havia comida, bebida, produtos oficiais e outros mimos grátis. Muito menos renda revertida para salvar criancinhas, baleias ou coisas do tipo.

6) Fácil culpar as bandas pelo preço dos shows. Mas é preciso fazer uma apuração inteligente e aprofundada
pra ver como essa conta fecha e de quanta gente esse dinheiro de ingressos vai molhando a mão até chegar nos véios magnatas do rock.

Não, ninguém é obrigado a aguentar chatice politicamente correta ou apoiar o que alguns dizem ser "o U2 fazendo cortesia com o chapeu dos outros". Tampouco alguém é obrigado a comprar Red Zone, ou muito menos a ir ao show.

Informações sobre ingressos: www.ticketsforfun.com.br

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Seu beatle preferido era Michael Philip Jagger

foto: G1

Seu cabelo já era: você toma chuva sem parar há mais de duas horas, as nuvens carregadas desabam na cidade inteira e suas mãos congelam coladas numa lata de cerveja aguada enquanto as filas se desdobram ao redor do estádio. É segunda-feira, estava calor até agora, e você já meteu as canelas em meia dúzia de póças d'água de procedência duvidosa, desejou que seus óculos de grau tivessem para-brisas e desembaçadores, e não consegue enxergar direito o palco do alto do seu metro e sessenta.

Enquanto isso, Paul McCartney atravessa a Marginal Pinheiros na contramão.

Obrigada Senhor pelos sapos engolidos e haja dinheiro pra financiar tanto escapismo. Não importa. Quando você menos espera, um velho baixo com formato de violino e um beatle modelo original 1942 estão em cima do palco. Nunca um divisor de águas da música pop te fez tanta diferença.

Você sorri em Jet
Você liga para sua mãe ouvir All My Loving na secretária eletrônica
Você delira em My Love
Você abraça amigos em Blackbird
Você observa amigos emocionados em Eleonor Rigby
Você canta de olhos fechados em Something
Você sorri sem parar em Band On The Run
Você toca uma guitarra imaginária em Day Tripper
Você expia demônios em Live And Let Die
Você quase morre em Helker Skelter
Você suporta até Ob-la-di-Ob-la-Da

Tanta gente blasé, com baldes de água fria sempre a postos. Para todos estes, caga-se e anda-se com desenvoltura.

Paul is life.

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Rápidas & rasteiras


fotos: Fernando Niero [private] e G1

1. Comprovado: camisa xadrez é o novo abadá. O novo Fusca azul calcinha. A nova elanca escolar. Válida como cédula de identidade indie tanto em shows de jazz-pop ao ar livre quanto na fila da Monga do Playcenter. A constatação foi feita durante pesquisa de campo da D'Elia Inc. & Consultores Associados no festival Planeta Terra, botecos da Rua Augusta e no concerto da cantora Norah Jones no Parque da Independência, em São Paulo, no mês de novembro. Assim como nas tribos indígenas sul-americanas, o grau de iniciação e hierarquia do membro em sua patota pode ser medido pela combinação da indumentária e com cortes de cabelo, aneis, tatuagens, alargadores de orelha, rostinhos blasé e óculos Ray Ban com lentes transparentes.

2. Viva a micareta indie!

3. Palmas para Norah Jones com banda entrosada, voz perfeita e repertório baseado em seu disco mais recente. Vaias pra quem reclamou disso. Até porque, hits de novela como Come Away With Me e Don't Know Why também figuraram no set list. Som com pequenos delays, mas ainda bom dentro dos padrões deste tipo de evento.

4. Tem indie jurando que o show do Hot Chip foi melhor que o do Pavement ou Smashing Pumpkins no festival Planeta Terra. Não, queridos. Arroz, feijão e umas aulinhas pra vocês. Billy Corgan tocando com o Karatê Kid na bateria e os sósias de James Iha e D'Aarcy é mais profissional e certeiro que quase o resto do festival junto. Take note.

5. Planeta Terra
é, neste momento, o melhor festival de música do país. Pelo menos in Saint Paul Of The Rain. A começar pela ideia muito louca de se realizar no Playcenter, com os brinquedos todos funcionando. Vaias para a falta de táxis na saída, preço da cerveja e lotação nos bares. Ideias sustentáveis e astutas como a do festival Coachella, em que é possível trocar 10 copos descartáveis sujos por 1 cerveja geladinha, ainda não são aproveitadas por essas bandas.

6. Um carinha no bar tentou me convencer de que o aluguel da Chácara do Jockey não é mais barato do que o do Anhembi e outros espaços do gênero. Disse que não se pode culpar a produção dos shows pela "inacessibilidade" de determinados lugares; é tudo culpa do transporte público precário e ponto. E aí eu respondo: não, não e não, amigão. O transporte público, de fato, é ruim. Mas se a Chácara do Jockey não é mais barata que o Anhembi, o que justifica repetidas escolhas de um lugar barrento e cercado por vias estreitas e escuras em detrimento ao sambódromo, cercado de vias largas e de fácil acesso ao centro e marginais, próximo ao metrô e à rodoviária, com estacionamento suficiente para o público de eventos do porte do Carnaval à Fórmula Indy? Aluguel para outros eventos, licenças e alvarás, lobbys e outras questões até podem explicar.

7. Lou Reed com a banda do Metal Machine... passo pra quem viu e amou.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

E sempre foi assim com os festivais no Brasil...

Jornal Artes, edição 25, 1971. Texto de Carlos Von Schimidt.

domingo, 10 de outubro de 2010

Gavin Friday


Você conhece Gavin Friday. Mesmo que não se dê conta. Na fria Dublin da década de 1970, Gavin era um punk louco maquiado e vestido de mulher à frente do The Virgin Prunes, um grupo anárquico, performático e enlouquecido no oposto da crueza limpa e meio séria demais do Feedback, que depois virou virou U2. À frente do U2 estava Bono, melhor amigo de Gavin. Na banda de Gavin estavam Dik Evans -- irmão de David Evans, vulgo The Edge -- e Guggi, que emprestou ao U2 seu irmão caçula como modelo das capas de Boy (1980) e War (1983).

Sim, você conhece Gavin Friday. São dele um par de olhos etílicos azuis, uma enorme porção de nicotina vocal e um belo falsetto anasalado. Reconheceu? Existe um Gavin pagão & undergound em Bono, e um Bono de vanguarda art-rock em Gavin. Impossível dizer quem é quem. Após o fim dos Virgin Prunes, em 1986, Gavin limitou-se a pintar, Guggi também seguiu carreira nas artes plásticas e o U2 tornou-se uma das maiores bandas do mundo. Somente em 1989, Gavin voltou repaginado em seu primeiro disco solo, Each Man Kills The Thing He Loves, iniciando parceria duradoura com o arranjador Maurice "The Man" Seezer. No lugar do espírito punk, chegaram os pianos de cabaré, a poesia de Oscar Wilde e uma sofisticada paleta de cores noturnas.

Bono quer a luz, Gavin a penumbra.

Mas quer saber de onde mesmo você conhece Gavin Friday? Da trilha sonora de Em Nome do Pai (Jim Sheridan, 1993), toda composta em parceria com Bono e Maurice Seezer. Com Daniel Day-Lewis no papel de um delinquente irlandês injustamente acusado de terrorismo pelo governo da Inglaterra, o filme conta com a pungente canção-tema You Made Me The Thief Of Your Heart, imortalizada na interpretação de Sinead O'Connor. O PIB da Irlanda deve muito a essa turma. Gavin também está nas trilhas sonoras de Missão Impossível, Basquiat e Moulain Rouge -- outra vez com Bono -- além do hit Angel, da trilha de Romeu + Julieta, sucesso entre o público jovem nos anos 1990.

O que você precisa ouvir são as 12 luxuosas e excêntricas faixas de Adam N' Eve (1992), cheio de climas imprevisíveis, -- produzido pelo Flood, que o U2 tomou mais tarde para a produção de Pop (1998)--; um pouco de Shag Tobaco (1995) e aquela pinceladinha básica pelo trabalho do cara, que é bissexto em matéria de lançamentos.






sexta-feira, 8 de outubro de 2010

New Jersey





No mundo dos frontmen carismáticos, Mick Jagger é Lúcifer, Bono é o Messias, Dave Gahan é Dioniso e Jon Bon Jovi é um anjinho de cera. Jagger excita, Bono hipnotiza, Gahan machuca e Bon Jovi sorri. Com sorriso Colgate. Ininterruptamente. Por 3 horas consecutivas. Animando menininhas entre os 15 e os 50 anos, empolgando alguns marmanjos, fingindo lagriminhas nas manjadas canções de amor noventistas. Sérios indícios bregas, e daí? Eu ali, na arquibancada azul; e o Bon Jovi no país da escova com laquê. Gigantesco no telão, ele, sua calça colada, sua tatuagem de Superman no braço esquerdo.

São trutas. Se comprimentam com aperto de mão entre as músicas. Tudo vai bem. Guitarrista competente, Richie Sambora sola previsivelmente. Tico Torres, modelo tchuby 2010, completava 57 anos naquela noite de 6 de outubro, suando e se matando de tanto bater [a cada pratada, um frio na barriga: "vai infartar, porra!"]. No teclado, um David Bryan discreto como uma ovelha & suas notas pasteurizadamente românticas, com cara de made in Miami. Sem ele, metade do clima vai pro chão. Mas a plateia nem tchuns. Todos estão envelhecidos, menos Jon, que vive no formol. Ele empunha um violão, depois guitarra, e até sola de vez em quando.

Num palco em que Jagger grita, Bono mia e Gahan sussurra, Jon Bon Jovi geme. E rebola. Faz biquinho. Bota a mão no peito. Faz que sofre. E depois sorri. Sorriso Colgate. A mulherada grita. E depois chora pra valer. Uma delas só de sutiã. A outra taca um pedaço da roupa no palco. Jon Bon Jovi pisca. E depois vira. A bundinha faz a festa no telão. E o estádio todo canta You Give Love a Bad Name [num dos raros momentos saltitantes do show], depois Always e These Days, tudo igualzinho ao que a gente ouvia no CD, voltando da escola. Jon no pôster da Bizz pendurado na porta. Jon de todos os tamanhos, em cristal líquido, em milhões de polegadas.

Ele ergue os braços. Há duas pizzas na camiseta azul. Imagino: deve ter chulé! Perto dos Rolling Stones, do U2 e do Depeche Mode, um show do Bon Jovi é meio brega, meio água com açúcar, meio produção pobrinha. Mas e daí? Lá vamos nós cantando outra vez.

Não faltaram hits. Bad Medicine deve ter tido uns 20 minutos, entrecortados até por uma cover de Pretty Woman. O público agindo como nas arquibancadas do vôlei masculino: gralhas e mais gralhas, felizes e contentes, ecoando para além do Hospital Albert Eistein. Poucas músicas novas. Uma pausa com cara de fim. E os pobres trabalhadores subindo a rampa, desesperados com a meia-noite. Veio ainda Bed Of Roses: nem Zezé di Camargo faria melhor. Mas e daí? Quem pagou, foi embora feliz.

"Toca Hey God!", eu gritei, em vão. E sumi na multidão 5 minutos mais cedo, para evitar a muvuca. Testemunhas dão conta de que Jon Bon Jovi sorriu até o fim.

domingo, 12 de setembro de 2010

Das grandes viradas sobre-humanas



URUBU EM CARNE VIVA

Por Roberto Bicelli, em 1983

Em 63, quando Roberto Piva lançou “Paranóia” (Massao Ohno) todos se deram conta de que havia algo de novo em todas as frentes. Fosse possível captar numa Polaroid Anímica as caras e bocas que se fizeram então, imagino a galeria Lombroso Futurista que teríamos a examinar...Para poucos foi o Satori. A certeza que ele vinha como divisor de águas da poesia.

Se Oswald de Andrade/Dr.Pilatos dizia-se ironicamente "um Virgílio um pouco mais nervoso no estilo", Piva nos devolvia a poesia Sucuri-Cascavel. Aquela capaz de cair sobre nós da árvore da imaginação, de colear pelo asfalto paulistano, de triturar a cidade em seu amplexo de Titã e sua baba venenosa.

Os turistas intelectuais tinham razão de acreditar que cobras rolavam pelas ruas, que o diabo estava à solta.

Zilco Ribeiro disse-me, então, que pessoalmente Piva era uma pessoa dulcíssima. Recusei-me a acreditar, mas, na verdade, como o Brasil ainda era uma democracia, nosso herói só bebia guaraná e ninguém reclamava. Piva preparava a goela para talagar todo mel e toda merda que viriam a seguir.

Em 64, sai “Piazzas”, outra edição de Massao Ohno com enorme mudança! Onde estavam as fotos e ilustrações do genial Wesley Duke Lee? E os versos longos que exigiam o retângulo, os braços longos do Homem de Borracha?

“Piazzas”, livro simples, fran-cis-cano: uma capa P&B com dois grampos sustentando um conteúdo próximo da poesia grega.

Depois, onze anos sem publicar e sem que nos déssemos conta disso! Tanta poesia em torno do homem... Piva onipresente, farejando, vivendo dionisiacamente para comer, beber, trepar, ler, instigar e arrebentar alguns focinhos que não lhe agradavam. Ou seja, fazendo poesia o tempo todo.

Quando, finalmente, escreve um livro “abra os olhos & diga ah” empresta os originais para um Amor cuja mãe, vendo aquela maçaroca de hieróglifos, encaminha-os para o destino que os críticos Karetas mais apreciariam: a lata de lixo! Tudo bem se perdeu um livro, escreve-se outro: “abra os olhos & diga ah”(novamente Massao Ohno), 1976.

Em seguida, uma sucessão de títulos; “Coxas”, “20 poemas com brócoli” e “Quizumba”. Deste cumpre-nos falar: editado pela Global, com capa e ilustrações do extraordinário Hélio de Oliveira, arte final de Levi Leonel e com todos os direitos reservados a quem tiver a poesia como cúmplice.

Ao observarmos um grande mestre de Tai Chi Chuen em ação, temos a impressão de que ele está brincando, que aqueles movimentos jamais poderiam ser mortais. Na verdade, ele engole etapas, insinua possibilidades, negaceia... É o que sinto ao percorrer esta Quizumba que vai do conflito ao rififi: Piva assimilou a Poética Universal e aprontou com tranqüilidade de mestre seu destranque, seu bafafá, seu angu-de-caroço.

Poesia que vai do Heavy Metal à Bossa Nova, do Maracatu à Valsa Vienense.
Interessa observar a limpidez que Piva atinge em meio a esse estrupício todo. É o poeta no meio do Caos brilhando na cintilância estelar de seus poemas.

“Raça irritadiça”, Piva capta a geléia geral deste tempo e “só acredito na geléia genital”.

Depois de ter estoicamente permanecido oito anos sem sair de São Paulo, ele prega o retorno à Agricultura...

Profeta que sou acho que a primeira lufada da guerra atômica levará uma cama-de-gato do poeta, curvado no simples ato de plantar alecrim.

Este “Quizumba” -escrito em 81- encontra-o na maior exacerbação urbana, já com toques de roça total: “queria tomar pico, mas na roça/ queria virar mico sem a coça/ queria ouvir Chico lá na choça”...

Em Quizumba, Roberto Piva dá claros sinais de estar em pleno processo de iniciação, que leva o poeta-voyeur ao poeta-vidente. Reivindico o trocadilho e pontuo com versos de “Quizumba”: “mas o caminho de volta eu só conto/ a esse urubu em carne viva/ que grasna na sacada.”

Texto originalmente publicado no jornal da UBE - União Brasileira de Escritores - e cedido pelo autor após sua leitura na última homenagem realizada ao poeta Roberto Piva, na Casa das Rosas (SP), em julho.

sábado, 28 de agosto de 2010

E o Top 10 virou Top 20!

Ok. No mundo das melhores cenas românticas até que eu botei mais decepções do que beijos apaixonados. Beleza, a ideia era essa mesmo. Mas depois da lista das 10 Mais me vieram tantos filmes à cabeça e tantas dicas de amigos -- coisas que eu tinha esquecido completamente -- e as duas únicas que eu quis deixar de fora foram a do Marlon Brando passando manteiga na Maria Schneider em O Último Tango em Paris e o super clichê do vaso entre Patrick Swayze e Demi Moore em Ghost.



Esqueça a ordem das coisas. O resto é resto e eu não gosto de excesso de mel. O puro erotismo, o desajuste e o desgosto também podem ser romantismo. How about you, mate?

11) Traídos Pelo Desejo (Mike Leigh, 1991)
No meio de uma trama irlandesa, um homem heterossexual descobre que sua amante tem um brinquedo erótico.


12) Morte em Veneza (Luchino Visconti, 1971)
Tadzio e o maestro. Gosto da cena da janela.


13) Violência e Paixão (Luchino Visconti, 1974)
Helmut Berger pagando de peladinho. Todo mundo pagando de peladinho! Silvana Mangano e Burt Lancaster são os velhinhos da casa (ela devia estar dormindo). E a música é Testardo Io, versão da Iva Zanicchi para um velho clássico brega do Robertão...


14) As Mil e Uma Noites (Pier Paolo Pasolini, 1971)
A melhor cena erótica -- e são muitas -- aparece nesse filme com o personagem do Ninetto Davoli, que usa um arco e flecha gigante, com um falo na ponta, para acertar o alvo da musa deitada no chão.


15) As Corças (Claude Chabrol, 1968)
Ela era amante da outra. Mas aí a outra encontrou um bonitão na cidade e a história virou um triângulo amoroso bissexual em alta voltagem erótica, cheio de vinho e de França. Uma bela transa... uma mulher atrás da porta... e uns bons ódios vingativos. Viva Chabrol!


16)Perdas e Danos (Louis Malle, 1993)
Eu gosto muito desse filme do Louis Malle. As cenas dispensam apresentações. O que precisa ser dito, pra quem não conhece o filme, é que Jeremy Irons faz o papel de um político que inicia um romance tórrido com a noiva do filho, interpretada pela Juliette Binoche.


17) A Professora de Piano (Michael Hanake, 2001)
Outro filme que dispensa apresentações. As cenas em questão começam a partir dos 4 minutos, mas é bom assistir tudo para entender o contexto.


18)Esse Obscuro Objeto de Desejo (Luis Buñuel, 1977)
O balde de água fria na beira do trem é exatamente o que eu queria fazer com todas as pessoas que não sabem se ficam ou se vão. #vingança Uma das principais fontes de Pedro Almodóvar. O filme vale por cada segundo.


19) A Um passo da Eternidade (Fred Zinnemann, 1953)
Burt Lancaster & Debora Kerr ensinam ao mundo o que é romantismo.


20) Bonequinha de Luxo (Bçake Edwards, 1961)
Porque Audrey Hepburn e George Peppard na adaptação da novela de Truman Capote formam um dos mais clássicos dos clássicos. O tipo de coisa sem prazo de validade, para além de todos os clichês e de todas as imagens que parecem sempre ter existido.


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Top 10 - Cenas românticas do cinema

Eu andava muito distante de qualquer laudinha por essas bandas. Mas aí me encontrei virtualmente com o Bruno Lofreta e, depois de algumas horas de conversa sobre geleias, goiabadas e rock n' roll, lembrei de uma cena da Avenida Paulista, em frente ao escadão da gloriosa Fundação Cásper Líbero, dias antes do Natal de 2005. Final de tarde. Era um casal terminando um relacionamento: um homem alto, magro e de expressão anestesiada, frente a uma mulher branquela & pequenina, de cabelos curtos, que chorava histérica ao som dos primeiros trovões antes da tempestade de verão. Ela se agarrou às mãos dele. Ele se soltou, disse alguma coisa, e deu no pé. Ela permaneceu aos prantos por cerca de, sei lá, um minuto e meio. Depois usou a bolsa para cobrir a cabeça no meio da enxurrada e se mandou no sentido contrário.

Milhões de filmes projetados na memória naquele intervalo.

O Bruno então me pediu, de cabeça, uma lista de 3 cenas românticas do cinema. E como eu sou teimosa, resolvi fazer uma lista das 10 que mais me marcaram, do pop ao clássico, do brega ao cult. Depois o Bruno deu a dele, certamente mais econômica e, acho eu, tão certeira quanto a minha. O problema é que nem tudo na vida -- de verdade ou de mentira -- é feito de milk & kisses. E daí que tudo isso não passa de um clichê? Quando os finais não são felizes, o que vale passa a ser a travessia e seus melhores recortes. Não é?

1) Body Heat (Lawrence Kasdan, 1981)
William Hurt usa uma cadeira para quebrar a porta e invadir a casa de Kathleen Turner antes de lhe dar um beijo, literalmente, cinematográfico. Amor bandido, paixão desgraçada!


2)Um Homem, Uma Mulher (Claude Lelouch, 1966)
Jean Louis Trintignant é um piloto de automobilismo. Anouk Aimée é uma linda mulher. Eles se aproximam e se apaixonam, totalmente à francesa. A trilha tem Francis Lai em arroubos bossanovistas, inclusive versões para Vinicius de Moraes e Baden Powell. Jean Louis e Anouk deitam-se na cama. A trilha sonora cede ao silêncio. Minutos depois, os olhos dela a transportam para outro lugar, por cima dos ombros dele. Por falta da cena na internet, contentem-se com o trailer ou comprem o DVD. Vale a pena.


3) Paris, Texas (Wim Wenders, 1991)
Clássica e insubstituível. Natassja Kinski é Jane, uma stripper que se prepara para satisfazer os desejos voyerísticos de mais um cliente numa cabine de sacanagem. O que ela não sabe é que do outro lado do vidro está Travis, seu ex-marido, que fora encontrado sem memória numa estrada deserta americana e, aos poucos, começa a juntar os cacos do passado em sua memória.
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4)9 e 1/2 Semanas de Amor (Adrian Lyne, 1986)
Momento fetiche-clichê. Mickey Rourke e Kim Basinger, dentro e fora da pele de seus personagens, eram provavelmente as pessoas mais sexies do mundo em 1986. Bryan Ferry -- na trilha sonora -- continua sendo um baita coroa. Na maratona sexual do casal super poderoso, além da clássica cena do strip-tease ao som de Joe Cocker, a bela trepada no maquinário do relógio público é digna das melhores fantasias coletivas, aposto e ganho.


5)Não Amarás (Krysztoff Kislowski, 1988)
Nas mãos de qualquer outro diretor, a história do garoto solitário e obsessivo, que cultiva um amor platônico pela mulher promíscua do apartamento vizinho, a qual espiona diariamente com um telescópio, se tornaria piegas e banal. Acompanhado pela trilha sonora de Zbigniew Preisner, por dentro de um distrito comunista da Polônia, Kieslowski constrói uma narrativa poética sobre solidão e incompreensão acima de qualquer moralidade. Acredite: mostrar a cena final não estragará em nada seu prazer de assistir a este puta filme.


6) Hannah & Suas Irmãs (Woody Allen, 1986)
Elliott (Michael Caine) é casado com Hannah (Mia Farrow), mas cultiva uma paixão secreta pela cunhada April (Carrie Fisher), que aguenta um casamento neurótico com um artista plástico insuportável (esqueci e não procurei o nome do ator). Elliott e April encontram-se numa rua em Nova York e adentram uma livraria. Ele a presenteia com um livro de e.e.cummings e pede para que leia o poema da página 112. O resto é só uma cena epifânica, como pede um poema excepcional. "Nada/nem mesmo a chuva/tem mãos tão pequenas". Viva Woody Allen!


7)Nosso Amor de Ontem (Sydney Pollack, 1975)
A militante esquerdista Katie (Barbra Streisand), cá entre nós, é bem da desleixada, mas consegue arrebatar o bonitão popular Hubbel (Robert Redford) e levá-lo bêbado pra casa.


8) A Primeira Noite de Um Homem (Mike Nichols, 1967)
Uma noiva roubada no altar. Quantas comédias românticas e novelas da Globo tentaram copiar! Mas eles não têm a audácia de Dustin Hoffmann, nem a música de Simon & Gurfunkel tampouco a casualidade de um ônibus suburbano nos Estados Unidos dos anos sessenta.


9) Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2002)
É proibido incorporar, mas não assistir. E dessa vez eu não explico nada.
10) Simplesmente Amor (Richard Curtis, 2003)
Momento comédia romântica: Mark bate à porta de Juliet, que está prestes a se casar. Ele faz uma declaração de amor com cartazes, em silêncio. Incorporação desativada, veja aqui.

sábado, 31 de julho de 2010

Subúrbios melancólicos & funerais coloridos


Quando o álbum Funeral despontou como a novidade musical mais amada de 2004, foi como se finalmente percebessemos os sinais de um lirismo mais ensolarado no mundo do rock. Alta carga emotiva trabalhada criativamente em texturas sobrepostas de percussão, violinos, guitarras, baixo, pianos, acordeões, sopros, coros e até xilofones numa sonoridade grandiosa e de cores fauvistas. Art-rock. A banda havia produzido novas atmosferas sob influência do que de melhor Brian Eno & Daniel Lanois fizeram junto ao U2 [entre outras coisas]. Poderia ter sido piegas, mas passou longe. Funeral, do Arcade Fire, é tudo o que Viva La Vida, do Coldplay, pretendia ser e não conseguiu.

Em 2005, no palco do Tim Festival em São Paulo, os 7 integrantes da banda se revezaram entre os instrumentos. Eles preenchiam todos os espaços possíveis. Wake Up foi eleita como deixa para a abertura dos shows da Vertigo Tour, do U2. A melancolia de Funeral é particular. Não há dores pontiagudas, como no BlocParty, ou astrais soturnos, como no TV On The Radio: no Arcade Fire, a tristeza é uma lagriminha que escorre ao visitarmos o passado numa velha esquina.

Veio Neon Bible, gravado numa igreja comprada pela banda, em 2007. É curioso como os canadenses cantam preces para diferentes deuses. Neil Young, Leonard Cohen, Joni Mitchell: religião não se discute. No Arcade Fire as coisas são apolíneas. Não há dentes podres, olhos roxos ou expressões de ressaca: todo mundo é limpinho e tem cara de nerd. São músicos pragmáticos e de extrema sensibilidade.

Assim parece outra vez em The Suburbs, que já rola por aí. O álbum mistura simpáticas melodias de piano com produções mais minimalistas sobre o violão e momentos de maior euforia em 16 faixas que parecem concebidas como uma sequência perfeita, uma trilha sonora de filme ou coisa assim. Além da faixa-título, canções como Empty Room devem emplacar com facilidade. Mas a novidade fica por conta dos timbres mais noturnos e sintéticos em canções como Month Of May e Deep Blue. Em We Used To Wait, algumas passagens lembram Depeche Mode, enquanto um piano segue pontuando uma nota infinita. Resquícios do rock inglês oitentista transparecem em City With No Children, momento mais dark do disco.

Não se trata de um álbum irrepreensível, tampouco surpreendente. Nada que mereça a pecha de "incrível" ou "magnânimo", como o disco de estreia. Mas The Suburbs triunfa em cima da competência e aplicação do grupo ao agregar novos elementos a uma identidade já inconfundível. E o que interessa, no fim das contas, é que estamos em 2010 e um novo pedaço de arte respira entre tantas banalidades instantâneas. A viagem do Arcade Fire tem, atualmente, algumas das paisagens mais bonitas do rock.




domingo, 18 de julho de 2010

1 poema, 10 livros e 10 canções para um inverno em SP


RAYMOND CARVER

(tradução CIDE PIQUET, publicado hoje na Folha de S. Paulo)

MEDO

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado.
Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice, e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.

Já disse isso.

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1) Henri Michaux - "Um Bárbaro na Ásia"
2) Sandor Ferenczi - "Thalassa"
3) Gay Talese - "O Reino e o Poder"
4) Camille Paglia - "Personas Sexuais"
5) Joca Reiners Terron - "Do Fundo do Poço Se Vê a Lua"
6) Jorge de Lima - "Anunciação e Encontro de Mira-Celi"
7) Paul Eluárd - "Últimos Poemas de Amor"
8) Antonio Lobo Antunes - "O Esplendor de Portugal"
9) Nabokov - "Lolita" (é, eu ainda não li)
10) Nick Hornby - "Febre de Bola"

Se eu já li tudo isso? Não. Mas o inverno segue até setembro.

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1) Cássia Eller - "Sonhei Que Viajava Com Você" (Itamar Assumpção)
2) Antony Hegarty - "If It Be Your Will" (Leonard Cohen)
3) Tom Waits & Crysal Gale - "This One´s From The Heart"
4) Bettye Lavette - "No Time To Live"
5) Dusty Springfield - "The Look Of Love"
6) The Velvet Underground - "Pale Blue Eyes"
7) Elvis Costello - "Alison"
8) Prince - "Crimson & Clover"
9) The Police - "Does Everyone Stare?"
10) PJ Harvey - "A Place Called Home"

terça-feira, 13 de julho de 2010

Top 10 - Homens & Mulheres do Rock


Você vai dizer que eu sou a menininha paga-pau de guitar hero, duvidar do meu gosto, da minha formação musical; vai dizer que aposta e ganha: "você, Renata, guarda todos os discos do Bon Jovi nos porões do Jaçanã", vai falar que não gosto de banda que não tem homem bonito. Mentira. Tá certo que meus Backstreet Boys sempre foram Bono & Larry Mullen Jr, que eu tive amor platônico por Michael Hutchence, que Jim Morrison e suas calças de couro iluminaram meus sonhos por anos a fio e que Elvis não morreu (estou falando do Costello).

Sim, eu tive um pôster do Bon Jovi -- cabelos ao vento, anos 1990 -- colado na porta do quarto e só tirei de lá quando a velha Bizz encartou James Hatfield & sua guitarra fálica, de regata branca e tatuagem no braço. É isso aí. Não vou pular os óbvios, mas vou listar aqui um Top 10 com bônus dos meus sex symbols do rock. E pra homarada se divertir com todas as hipóteses do mundo, listarei também as mulheres. Hoje é Dia Mundial do Rock e eu vou acabar com aquela listinha frouxa da Rolling Stone Brasil, que conseguiu a façanha de enquadrar a Pitty como uma mulher sexy num universo povoado por Debbie Harry, PJ Harvey e Rita Lee, em diferentes tempos. Eles não sabem nada. Nós sabemos tudo.


TOP 10 MEN

1) Michael Hutchence
Pra não dizerem que eu repeti tudo que já disse.

2) Mick Jagger
Que é símbolo absoluto de tudo que é rock e tudo que é sexy. E foda-se se é clichê.

3) Jim Morrison
Que é pai espiritual do Michael Hutchence. E que berrava com aquelas calças de couro...

4) Elvis Costello
Se você não entendeu o porquê de Elvis Costello estar nessa lista é porque você não entendeu nada.


5) Jeff Buckley
O garoto prodígio que todas nós queríamos pegar no colo, mas não conseguimos.


6) David Bowie
Em todas as fases e todas as poses.

7) John Taylor (Duran Duran)Mesmo já na casa dos 50, o tiozinho ainda me arranca suspiros. Mais que o Simon Le Bon.

8) Bryan Ferry
Observem e aprendam com qualquer vídeo dele: isto é charmoso e sexy.

9) Brett Anderson (Suede)
O famoso hétero (ou bi?) com jeito de gay que pega todas e todas adoram. Do glam ao grisalho: indispensável.

10) Bono (U2)
De 1987 a 1997 temos aí uma baita fase boa. Mesmo chuby-chuby.

TOP 10 WOMEN

1) Kim Gordon (Sonic Youth)
Corta pro show do Sonic Youth no Claro Q É Rock! em São Paulo, 2006. Passava de meia-noite na enlameada Chácara do Jockey. Homens e mulheres, gays, héteros, bissexuais e assexuados: todos se aglomeravam frebte ao palco e tremiam feito garotinhas virgens diante de um galã da Malhação. Depois gritavam, murmuravam, assoviavam e promoviam um festival de dança burra e mini-transes nos intervalos dos comentários sobre as pernas, o vestido, o salto e a indefensável pose de Kim Gordon -- meio velha, descabelada, com a maquiagem gasta-- com o baixo nas mãos e, de vez em quando, cantando e dançando. Isso é o rock n´roll.

2) Kim Deal (Pixies/Breeders)
Kim & Kelley. Kelley & Kim. A doida e a lésbica. A presidiária e a baladeira. Gêmeas, desleixadas, têm os olhos azuis e são sensacionais.

3) PJ Harvey
Não quero decidir de Polly Jean é bonita ou feia. Pouco importa. Polly Jean com ou sem batom, com ou sem guitarra, no piano, de pé, submersa: é muito mais sexy que todas as bundas assassinas do domingo à tarde.

4) Debbie Harry (Blondie)
Todas nós queremos ser Blondies, com esse cabelo fantástico, rodando uma echarpe no palco.

5) Rita Lee
Um amigo do meu pai disse que, nos anos 70, o macho adolescente da mão peluda tinha duas tentativas por dia: Sônia Braga e Rita Lee.

6) Dolores O´Riordan (Cranberries)
Aos que curtem as mignons, especialmente as que berravam nas catedrais de Belfast.

7) Alanis Morrissette
É mala, já teve a fase hipponga e só fez 1 disco que preste (eu acredito em Jagged Little Pill). Mas vale a indicação.

8) Cat Power
Alô, macho moderno com cacoete indie! Concordo contigo, a magrelona estilosa é das mais sugestivas.

9) Nico (Velvet Underground)
Nico Icon to All Tmorrow´s Parties.

10) Patti Smith
Porque até Robert Mapplethorpe já curtiu se encostar nesse corpinho ossudo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Mala na mão & asas pretas

PD & RD: Mala na Mão & Asas Pretas para quem?
ROBERTO PIVA: É uma forma de dizer que você está em trânsito no planeta.

PD & RD: Você se considera em trânsito, sempre?
ROBERTO PIVA: Estou em trânsito e quando morrer não voltarei jamais.

O trecho acima foi retirado da primeira entrevista que fiz com o Roberto Piva, em 2007, acompanhada pela jornalista Paula Dume. Publicada pelo Cronópios. Foi meu primeiro encontro com o Piva e, fazendo agora uma rápida releitura, não me vem à cabeça por que raios fizemos essas perguntas. Mala na Mão & Asas Pretas é o título do segundo volume das obras reunidas do poeta pela Editora Globo.

Como bem disse a Paula no abre do texto, "o planeta acusa que estar em trânsito é um bom sinal para os tempos". Mas mesmo que Massao Ohno, Alberto Guzik, Roberto Piva e Ezequiel Neves, por conta dos cânceres malditos, já tivessem dado os sinais da passagem, a morte bem que podia nos dar folga por longos tempos enquanto a gente se conforma com o imenso buraco que ficou. Chega de obituários nesse blog! E vamos todos seguir em frente.

A quem interessar, posto abaixo as páginas scanneadas do breve perfil de Alberto Guzik que fiz para a revista EnCena, ano pasado. A primeira entrevista que fiz com Massao Ohno, para o site da Faculdade Cásper Líbero, também em 2007, será reproduzida em breve, assim que eu encontrar um jeito. O conteúdo do antigo site não foi migrado para o novo portal da instituição.

sábado, 3 de julho de 2010

O último heroi magnético

Roberto Piva, 1937 -2010

“Trouxe algumas coisas pra você. Não posso esquecer, são muito importantes. Espere um pouco, está tudo aqui, anotado num papel, no meu bolso”, afirma esbaforido o poeta Roberto Piva, pouco mais de 70 anos, enrolando-se por completo com o cinto de segurança do carro em que acaba de entrar, em frente ao prédio onde mora, no centro de São Paulo. “Achei, é João do Rio: A Alma Encantadora das Ruas. Absolutamente genial. Ele era jornalista como você e escrevia sobre as coisas da cidade. Estou impressionado. Se eu tivesse lido isso há cinqüenta anos, o Paranóia não seria exatamente o Paranóia, e muitas coisas não seriam como são”.

O senhor em questão deve medir cerca de um metro e setenta, mas o corpo, ainda robusto, indica o passado colegial de halterofilista. Veste bermuda verde, camiseta e meias brancas, calça tênis de caminhada e estampa no rosto os óculos de armação preta emendados por um esparadrapo do lado esquerdo. Pede pra tocar pro Jardim Botânico. Seu pedido é uma ordem. Em seguida, dispara três outras sugestões literárias. Algo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa e dois volumes de História sobre o III Reich. Parece animado em pleno domingo, às 9 da manhã; pede logo para abrir os vidros e, apoiando na janela o braço direito, reclama do barulho dos bares vizinhos e diz que o prefeito prometeu “caçar os alvarás desses cafajestes”, mas não cumpriu.

Atravessamos a cidade. Basta estacionar o carro para ouvir do porteiro que ontem choveu forte e parte do parque virou lama. Mas Piva não desiste do passeio. Ele passa os dias praticamente restrito a seu apartamento repleto de poeira, livros, pôsteres de jazzmen e quadros de artistas como Wesley Duke Lee e Rodrigo de Haro. Por isso aproveita para marcar as entrevistas que concede no meio do verde. Mas não serve qualquer pracinha. “O Parque do Ibirapuera é terrível”. Tem que ser em Jarinu - cidade interiorana próxima à Jundiaí -, no Parque Estadual da Cantareira, no Templo Budista Zu Lai ou, pelo menos, no Jardim Botânico. Por ali, ele caminha em direção a um lago, escolhe uma árvore para se deitar à sombra e pede que a gente tire um cochilo de meia hora antes de ligar o gravador.

Obviamente, não consigo pregar os olhos e fico o tempo todo observando uma imensa gansa choca caminhar ao nosso redor. Roberto Piva acorda sozinho. Diz que os animais nos procuram porque nossas energias são amigáveis, aponta algumas espécies de pássaros e avisa que mais adiante será possível escutar o ronco dos bugios. A atração pelas forças da natureza começou na infância, quando morava com os pais numa fazenda em Analândia, interior de São Paulo, onde afirma ter sido iniciado no xamanismo por um velho caboclo. “Eu tinha 12 anos. Ele me mandava olhar para o fogo e descrever tudo que via; depois interpretava. Era um empregado da fazenda e tinha essa dimensão cósmica. Era um poeta intuitivo, um xamã”.

Estou diante de alguém que declara acreditar na vida como celebração, no Baco, na poesia em função das estações. Do mesmo poeta que, em 1969, cursou uma espécie de mini-faculdade sobre Dante Alighieri com o então Adido Cultural da Itália em São Paulo, Eduardo Bizzarri. De um homem que afirma que os primeiros poetas eram xamãs cuja inspiração se ligava às técnicas arcaicas do êxtase. “Em Dante, por exemplo, estão lá todas essas características: os 3 reinos, a ligação mágica que ele tem com o número 9. Ele passou 9 dias com febre e, durante esses tempo, teve a intuição de A Divina Comédia”, conta.

Trata-se do mesmo poeta que escandalizou a literatura paulistana em 1963, ao lançar Paranóia, seu primeiro livro, que sumiu do mapa em circunstâncias jamais esclarecidas. Em comum com João do Rio, o Piva sessentista tem a verve e a paixão pelas ruas. São poemas hipnóticos, delirantes, no vulto apocalíptico que a metrópole paulistana ganharia décadas depois. “Eu tive uma visão mágica da cidade, como uma grande carniça apodrecendo. Estava sob efeito das minhas leituras dos futuristas, dos surrealistas, de Murilo Mendes, Jorge de Lima, da beat generation, das andanças, das orgias, das vivências e tudo isso. E então, o Wesley Duke Lee, grande artista plástico, me procurou e quis fazer umas fotografias da cidade dentro dessa enorme alucinação. E o editor Massao Ohno topou fazer o livro mesclando as fotografias e os poemas”. Desde 1963, Piva lançou 10 livros de poemas e uma antologia poética. São pérolas como o erótico Coxas (1979) e o místico Ciclones (1997). Sua obra completa foi publicada em três volumes pela Editora Globo entre 2005 e 2008.

Formado em Sociologia e Estudos Sociais, Piva foi professor ginasial durante as décadas de 1970 e 1980, quando deixou crescer os cabelos e o bigode e passou a usar calças boca de sino por influência do movimento hippie da Praça da República. Foi produtor de shows de rock. “Nunca me liguei naquelas canções de protesto, tudo aquilo era um lixo”, diz. Produziu concertos para milhares de pessoas e alavancou bandas pioneiras como a Made in Brazil. Em entrevista concedida à Revista Rolling Stone, em 1972, revelou como conseguia juntar tanta gente. “Eu vou de bairro em bairro e pela vibração descubro os hambúrgueres, os botecos, as sinucas onde a garotada daquele bairro se junta. Chegando a esse boteco, eu sigo o princípio de Platão, escolho o garoto mais bonito, entrego os lembretes impressos do show e digo: você tem que levar todo mundo no meu show. Aí eu consigo o que nenhum veículo de massa vai conseguir, o toque pessoal da comunicação. Aquilo que o Fourier chamou de autoridade da atração1”. Na lembrança do baterista Duda Neves, um dos músicos descobertos por Piva, o poeta ainda impõe respeito. “Ele parecia um cacique, um índio. O espírito dele deve ter vindo desse lado, dos guerreiros indígenas. Tinha uma puta de uma autoridade sobre a gente. E estava sempre muito bem vestido e elegante, não era um hippongo sujo. Foi um grande mentor. Era muito bem informado musicalmente não apenas sobre rock, mas sobre o jazz. E era homossexual. Isso numa época em que qualquer cabeludo era chamado de bicha nas ruas de São Paulo”.

Piva treme um pouco. Sofre de Mal de Parkinson há quase 10 anos, mas resolve driblar as restrições e beber uma cerveja gelada no restaurante do Jardim Botânico. Observa meu pescoço girar enquanto reparo nos casais de mãos dadas em seu jogging semanal. Comenta sobre as meninas. Diz que elas estão cada vez mais bonitas, cercadas por homens cada vez mais feios. “Se você disser que ele gosta de mulher, ele nega. O Piva é o primeiro homossexual que eu conheço que depois dos 60 começou a olhar mulher na rua. Ele é praticamente um heterossexual enrustido”, aponta, aos risos, o poeta e amigo Roberto Bicelli. Exageros à parte, Piva parece evitar os rótulos. Quase todos. Rejeita a esquerda e a direita, mas se diz monarquista desde 1968. “Percebi que a maioria da população brasileira é aristocrática. E além do mais, este é o único regime que, devido à extrema verticalização da cúpula, permite maior anarquia das bases, como já dizia o Salvador Dali”.

Roberto Piva reclama do preço do condomínio. Vive de palestras pagas por centros culturais e prefeituras. Tem lapsos de memória ou simplesmente prefere dizer que não lembra das coisas. Está mais interessado em jogar conversa fora. O que a essa altura, me parece bom. Ele mostra um gavião no céu. Depois esfrega cuidadosamente as mãos nas plantas aromáticas do jardim. Até que se cansa do passeio e decide ir embora. “O Parkinsoniano não gosta que fiquem ao lado dele, tentando amparar. Vá andando que eu te alcanço”. Não sei. É como se estivéssemos presos por um elástico invisível nas cinturas: por mais que eu me afaste, sigo arriscando a meia volta, implacavelmente atraída pelo balanço hesitante desse corpo que caminha. A cada passo, praticamente lhe escuto dizer: “eu sou uma alucinação na ponta dos seus olhos2”.

*Roberto Piva faleceu hoje, após quase 30 dias de internação no Incor-SP. O corpo será velado a partir das 22:30 no Cemitério do Araçá e será cremado às 11 da manhã no Crematório da Vila Alpina.

** Renata D´Elia, autora deste perfil (de maio de 2009), escreveu o livro-reportagem “Os Dentes da Memória – Uma Trajetória Poética Paulistana”, licenciado para publicação, que remonta 50 anos da história conjunta dos poetas Roberto Piva, Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Futebol de prosa e futebol de poesia





O texto é do meu cineasta favorito. O assunto é um dos meus favoritos: o futebol de Copas. E claro, também o jornalismo. Li pela primeira vez no recém-extinto caderno Mais! da Folha de S. Paulo, em algum lugar dos anos 2000. Foi escrito, no entanto, meses após a final da Copa de 1970.

Futebol de prosa e futebol de poesia

Por Pier Paolo Pasolini (Tradução: Mauricio Santana Dias)

Em meio ao debate atual sobre os problemas linguísticos que separam de forma artificial literatos de jornalistas e jornalistas de jogadores, fui indagado por um gentil repórter do Europeo; mas minhas respostas saíram cortadas e depauperadas no tabloide (por causa das exigências jornalísticas!). Porém, como o assunto me interessa, gostaria de voltar a ele com mais calma e com a plena responsabilidade sobre aquilo que digo. O que é uma língua? “Um sistema de signos”, responde hoje do modo mais exato um semiólogo. Mas esse “sistema de signos” não é apenas, necessariamente, uma língua escrita-falada (esta que usamos agora, eu escrevendo e você, leitor, lendo).

Os “sistemas de signos” podem ser muitos. Vejamos um caso: você, leitor, e eu estamos numa sala onde também estão presentes Ghirelli e Brera [1], e você quer me dizer algo sobre Ghirelli que Brera não deve ouvir. A situação impede que você me fale por meio do sistema de signos verbais, e então é preciso recorrer a outro sistema de signos, por exemplo, o da mímica; aí, você começa a revirar os olhos, a entortar a boca, a agitar as mãos, a ensaiar gestos com os pés etc. Você é o “cifrador” de um discurso “mímico” que eu decifro: isso significa que possuímos em comum um código “italiano” de um sistema de signos mímico.

Outro sistema de signos não verbal é o da pintura; ou o do cinema; ou o da moda (objeto de estudo de um mestre nesse campo, Roland Barthes) etc. O jogo de futebol também é um “sistema de signos”, ou seja, é uma língua, ainda que não verbal. Por que digo isso (que em seguida pretendo desenvolver esquematicamente)? Porque a “querelle” que contrapõe a linguagem dos literatos à dos jornalistas é falsa. E o problema é outro.

Vejamos. Toda língua (sistema de signos escritos-falados) possui um código geral. Tomemos o italiano: usando esse sistema de signos, você, leitor, e eu nos entendemos porque o italiano é um patrimônio nosso, comum, “uma moeda de troca”. Entretanto, cada língua é articulada em várias sublínguas, e cada uma delas possui, por sua vez, um subcódigo: os italianos médicos se compreendem entre si – quando falam o jargão especializado – porque todos eles conhecem o subcódigo da língua médica; os italianos teólogos se compreendem entre si porque detêm o subcódigo do jargão teológico etc. etc.

A língua literária é também uma língua de jargão, com um subcódigo próprio (em poesia, por exemplo, em vez de dizer “speranza” é possível dizer “speme”, mas não estranhamos essa coisa engraçada porque se sabe que o subcódigo da língua literária italiana demanda e admite que, em poesia, sejam usados latinismos, arcaísmos, palavras truncadas etc. etc.).

O jornalismo nada mais é que um ramo menor da língua literária: para compreendê-lo, valemo-nos de uma espécie de subsubcódigo. Em palavras pobres, os jornalistas são apenas escritores que, a fim de vulgarizar e simplificar conceitos e representações, se valem de um código literário, digamos – para ficar no campo esportivo –, de segunda divisão. Assim, a linguagem de Brera é de segunda divisão se comparada à linguagem de Carlo Emilio Gadda e de Gianfranco Contini.[2] E a língua de Brera é, talvez, o caso mais bem qualificado do jornalismo esportivo italiano.

Portanto, não existe conflito “real” entre escrita literária e jornalística: o problema é que esta, coadjuvante como sempre foi, agora exaltada por seu uso na cultura de massa (que não é popular!), encampa pretensões um tanto soberbas, de “parvenu”. Mas vamos ao futebol. O futebol é um sistema de signos, ou seja, uma linguagem. Ele tem todas as características fundamentais da linguagem por excelência, aquela que imediatamente tomamos como termo de comparação, isto é, a linguagem escrita-falada.

De fato as “palavras” da linguagem do futebol são formadas exatamente como as palavras da linguagem escrita-falada. Ora, como elas se formam? Formam-se por meio da chamada “dupla articulação”, isto é, por infinitas combinações dos “fonemas” – que, em italiano, são as 21 letras do alfabeto.

Os “fonemas” são, pois, as “unidades mínimas” da língua escrita-falada. Se quisermos nos divertir definindo a unidade mínima da língua do futebol, podemos dizer: “Um homem que usa os pés para chutar uma bola”. Aí está a unidade mínima, o “podema” (para continuar a brincadeira). As infinitas possibilidades de combinação dos “podemas” formam as “palavras futebolísticas”; e o conjunto das “palavras futebolísticas” constitui um discurso, regulado por normas sintáticas precisas.

Os “podemas” são 22 (mais ou menos como os fonemas): as “palavras futebolísticas” são potencialmente infinitas, porque infinitas são as possibilidades de combinação dos “podemas” (o que, em termos práticos, equivale aos passes de bola entre os jogadores); a sintaxe se exprime na “partida”, que é um verdadeiro discurso dramático. Os cifradores dessa linguagem são os jogadores; nós, nas arquibancadas, somos os decifradores: em comum, possuímos um código.

Quem não conhece o código do futebol não entende o “significado” das suas palavras (os passes) nem o sentido do seu discurso (um conjunto de passes).

Não sou nem Roland Barthes nem Greimas, mas, como diletante, se quisesse, poderia escrever um ensaio sobre a “língua do futebol” bem mais convincente do que este artigo. Aliás, penso que se poderia escrever um belo ensaio intitulado “Propp [3] aplicado ao ludopédio”, já que, sem dúvida, como qualquer língua, o futebol tem seu momento puramente “instrumental”, regulado pelo código de forma rígida e abstrata, e o seu momento “expressivo”. Há pouco, disse que toda língua se articula em várias sublínguas, cada qual com um subcódigo.

Pois bem, do mesmo modo, com a língua do futebol é possível fazer distinções desse tipo: o futebol também possui subcódigos, na medida em que, de puramente instrumental, se torna expressivo.

Há futebol cuja linguagem é fundamentalmente prosaica e outros cuja linguagem é poética. Para explicar melhor minha tese, darei – antecipando as conclusões – alguns exemplos: Bulgarelli joga um futebol de prosa, é um “prosador realista”; Riva joga um futebol de poesia, é um “poeta realista”. Corso [4] joga um futebol de poesia, mas não é um “poeta realista”: é um poeta meio “maldito”, extravagante.

Rivera joga um futebol de prosa: mas sua prosa é poética, de “elzevir”. Também Mazzola [5] é um prosador elegante e poderia até escrever no Corriere della Sera, mas é mais poeta que Rivera: de vez em quando ele interrompe a prosa e inventa, de repente, dois versos fulgurantes.

Note-se que não faço distinção de valor entre a prosa e a poesia; minha distinção é puramente técnica. Entretanto nos entendamos. A literatura italiana, sobretudo a mais recente, é a literatura dos “elzevires”: os escritores são elegantes e, no limite, estetizantes; a substância é quase sempre conservadora e meio provinciana... Em suma, democrata-cristã. Todas as linguagens faladas em um país, mesmo as mais especializadas e espinhosas, têm um terreno comum, que é a cultura desse país: sua atualidade histórica.

Assim, justamente por razões de cultura e de história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente de prosa, seja ela realista ou estetizante (este último é o caso da Itália); ao passo que o futebol de outros povos é fundamentalmente de poesia.

Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos de gol. Cada gol é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada gol é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética. O artilheiro de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano. Neste momento, Savoldi [6] é o melhor poeta. O futebol que exprime mais gols é o mais poético.

O drible é também em essência poético (embora nem sempre, como a ação do gol). De fato, o sonho de todo jogador (compartilhado por cada espectador) é partir da metade do campo, driblar os adversários e marcar. Se, dentro dos limites permitidos, é possível imaginar algo sublime no futebol, trata-se disso. Mas nunca acontece. É um sonho (que só vi realizado por Franco Franchi [7] nos Mágicos da bola, o qual, apesar do nível tosco, conseguiu ser onírico à perfeição).

Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto, o futebol deles é um futebol de poesia – e, de fato, está todo centrado no drible e no gol. A retranca e a triangulação é futebol de prosa: baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo coletivo e organizado, na execução racional do código. O seu único momento poético é o contra-ataque seguido do gol (que, como vimos, é necessariamente poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individual (drible e gol; ou passe inspirado).

O futebol de prosa é o do chamado sistema (o futebol europeu). Nesse esquema, o gol é confiado à conclusão, possivelmente por um “poeta realista” como Riva, mas deve derivar de uma organização de jogo coletivo, fundado por uma série de passagens “geométricas”, executadas segundo as regras do código (nisso Rivera é perfeito, apesar de Brera não gostar porque se trata de uma perfeição meio estetizante, não realista, como a dos meio-campistas ingleses ou alemães).

O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da “prosa coletiva”): nele, o gol pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o gol são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia. Sem fazer distinção de valor, mas em sentido puramente técnico, no México a prosa estetizante italiana foi batida pela poesia brasileira.

[1] Antonio Ghirelli (1922), jornalista e porta-voz do futuro presidente italiano Alessandro Portini; e Gianni Brera (1919-1992), jornalista esportivo. [N. do E.]
[2] Carlo Emilio Gadda (1893-1973), escritor; e Gianfranco Contini (1912-1990), crítico literário. [N. do E.]
[3] Vladimir Propp (1895-1970), crítico estruturalista russo que analisou as narrativas populares. [N. do E.]
[4] Giacomo Bulgarelli (1940-2009), meio-campista; Luigi Riva (1944), atacante; e Mario Corso (1941), armador. [N. do E.]
[5] Gianni Rivera (1943), meio-campista; Sandro Mazzola (1942), atacante. [N. do E.]
[6] Giuseppe Savoldi (1947), atacante italiano. [N. do E.]
[7] Franco Franchi (1922-1992), um dos principais nomes do cinema cômico italiano. [N. do E.]

sábado, 26 de junho de 2010

Talk about pop muzik

The thrill is gone
Deu no site da Vanity Fair essa semana um texto sobre a história de Thriller. A autora é Nancy Griffin, repórter que cobriu a gravação do clipe em 1983 para a revista Time e até fez uma ponta como a garota na bilheteria do cinema. Bom ler o jornalismo cultural de bastidores, em que o repórter trabalha como testemunha ocular, observa detalhes, entrevista personagens e dialoga com anônimos: enfim, trabalha. 27 anos depois, Nancy também entrevistou o diretor John Landis e a mocinha do clipe, Ola Ray [que pela primeira vez admite ter tido um pequeno affair com o então belo negão de sexualidade ambivalente, vejam só que coisa].

Thriller tem todas as euforias lunares. É como uma noite de sol.

E eu não havia prestado tanta atenção, mas o Marco Aurélio Canônico, da Ilustrada, levantou uma bola: a tradução do arremate do texto de Nancy Griffin. "Para mim, Thriller parece ter sido a última vez em que todo mundo no planeta ficou excitado ao mesmo tempo, pela mesma coisa: não importa onde você fosse no mundo, as canções [do disco] estavam tocando, e você podia dançar ao som delas. Desde então, a fragmentação da cultura pop destruiu nosso senso de euforia coletiva, e eu sinto falta disso". Na minha memória, o último delírio pop coletivo foi a estreia de Black Or White, em 1991, simultânea em TVs do mundo todo e, no Brasil, pelo inevitável Fantástico. O revival disso tudo foi visto há exatos 365 dias, numa histeria coletiva mundial que serviu para enfileirar os carros abertos, em plena madrugada de neón paulistana, ao som de Smooth Criminal e Billie Jean.

Eu também sinto muita falta disso tudo. [A Copa do Mundo mais brochada desde 1990 não tá servindo nem pra brincar de alegria coletiva]. No resto do tempo, afinal, pagamos contas e somos como barquinhos que boiam em ilhas inidivuais. Num mar de isopor. Ou de bytes. De música fria e impessoal, disfarçada de super-segmentação deslumbrada.

Em tempo: qualquer pessoa com o mínimo senso lúdico deve assistir Michael Jackson´s This Is It. Brilhante até no brega. Vai ao ar essa semana em vários canais.



Genialidade, isolamento & alienação
Ainda no texto da Vanity Fair: em 1983, Michael Jackson desconhecia a existência do U2. E não tinha nem ideia do que era Duran Duran, conforme afirma em entrevista histórica e impagável a Andy Warhol na Interview. By the way, acho que meus pais não sabem ainda quem é Lady Gaga.

Quem é Lady Gaga?
Falando em fragmentação da cultura pop, um dia vou escrever sobre Lady Gaga [depois do Xinho, que pensou primeiro e pode fazer isso melhor do que eu]. Mas vou matutar bem antes, pra não ser mala como de costume. O que posso dizer é que Lady Gaga é uma moça triste. E sardônica, cara-de-pau. Uma big máquina regurgitadora de toda a cultura imagética do pop, chutando a canela de Madonna como uma menininha travessa. O problema é que Lady Gaga não tem meio traço de infância. Está no oposto do sonho, com os restos do lúdico e do exagero abominável. E, caramba!, ela não sabe nem quem foi Clóvis Bornay ou Elke Maravilha. Lady Gaga faz alegoria niilista. Será que ela sabe?


Grace Jones
Taí mais uma mãe espiritual da Lady Gaga. Ou melhor, madrasta: andou acusando a carcamana de impostora e culpou a imprensa musical por ingorância & memória curta [vamos combinar que ela acertou pelo menos no segundo alvo]. Eu adoro a Grace Jones, principalmente porque ela fala de homem e, ainda por cima, é doida de pedra. Num dos posts anteriores, você pode ler um trecho de uma crítica na velha Bizz sobre um disco dela. O que estou ouvindo é o Island Life, coletânea dos tempos na tal gravadora com o símbolo da ilhazinha [é de 1985]. Mas por enquanto, vai o clipe de My Jamaican Guy. Aos que não conhecem, cavuquem mais coisas: não é performance vazia e tem uma bela banda por trás da produção.



Laurie´s stories
Vejo muitas semelhanças com a Grace Jones e não apenas como vanguardistas oitentistas, embora Laurie estivesse muito mais longe das massas do que a negona extravagante. Mas depois explico. E já que o foco está na imagética pop, vale lembrar que laurie -- esta observadora mordaz, grande contadora de histórias & genial escultora de canções imprevistas -- é quem melhor trabalhou com os conceitos de gênero nesse cenário todo. Há inclusive um brilhante texto comparativo com Madonna, do filósofo Douglas Kellner em A Cultura da Mídia. O fato é que nem todo mundo entendeu o show de Laurie Anderson no SESC Pinheiros, em São Paulo, setembro de 2008: era praticamente um mantra de ruídos precisos, com som de harpas e do indefectível violino [viva o engenheiro de som!] numa atmosfera reflexiva e minimalista, visualmente sóbria e sonoramente distante do que a consagrou nos anos 80. A graça dos experimentalistas é essa.

Eu estive lá para ouvir o repertório deste só agora lançado Homeland e a impressão que fica é ainda mais visual do que clássicos como Big Science. Faz muito mais sentido assim a beleza de The Lake ou The Beginning of Memory, com prólogo de Aristófanes. A ironia de Only An Expert é a mesma de From The Air [1982]. Mas do disco em si, essas boas resenhas do blog do Los Angeles Times e do New York Times [e para ler uma boa matéria, clique aqui] falam muito melhor do que eu. A terra deles está em voga.