sábado, 3 de julho de 2010

O último heroi magnético

Roberto Piva, 1937 -2010

“Trouxe algumas coisas pra você. Não posso esquecer, são muito importantes. Espere um pouco, está tudo aqui, anotado num papel, no meu bolso”, afirma esbaforido o poeta Roberto Piva, pouco mais de 70 anos, enrolando-se por completo com o cinto de segurança do carro em que acaba de entrar, em frente ao prédio onde mora, no centro de São Paulo. “Achei, é João do Rio: A Alma Encantadora das Ruas. Absolutamente genial. Ele era jornalista como você e escrevia sobre as coisas da cidade. Estou impressionado. Se eu tivesse lido isso há cinqüenta anos, o Paranóia não seria exatamente o Paranóia, e muitas coisas não seriam como são”.

O senhor em questão deve medir cerca de um metro e setenta, mas o corpo, ainda robusto, indica o passado colegial de halterofilista. Veste bermuda verde, camiseta e meias brancas, calça tênis de caminhada e estampa no rosto os óculos de armação preta emendados por um esparadrapo do lado esquerdo. Pede pra tocar pro Jardim Botânico. Seu pedido é uma ordem. Em seguida, dispara três outras sugestões literárias. Algo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa e dois volumes de História sobre o III Reich. Parece animado em pleno domingo, às 9 da manhã; pede logo para abrir os vidros e, apoiando na janela o braço direito, reclama do barulho dos bares vizinhos e diz que o prefeito prometeu “caçar os alvarás desses cafajestes”, mas não cumpriu.

Atravessamos a cidade. Basta estacionar o carro para ouvir do porteiro que ontem choveu forte e parte do parque virou lama. Mas Piva não desiste do passeio. Ele passa os dias praticamente restrito a seu apartamento repleto de poeira, livros, pôsteres de jazzmen e quadros de artistas como Wesley Duke Lee e Rodrigo de Haro. Por isso aproveita para marcar as entrevistas que concede no meio do verde. Mas não serve qualquer pracinha. “O Parque do Ibirapuera é terrível”. Tem que ser em Jarinu - cidade interiorana próxima à Jundiaí -, no Parque Estadual da Cantareira, no Templo Budista Zu Lai ou, pelo menos, no Jardim Botânico. Por ali, ele caminha em direção a um lago, escolhe uma árvore para se deitar à sombra e pede que a gente tire um cochilo de meia hora antes de ligar o gravador.

Obviamente, não consigo pregar os olhos e fico o tempo todo observando uma imensa gansa choca caminhar ao nosso redor. Roberto Piva acorda sozinho. Diz que os animais nos procuram porque nossas energias são amigáveis, aponta algumas espécies de pássaros e avisa que mais adiante será possível escutar o ronco dos bugios. A atração pelas forças da natureza começou na infância, quando morava com os pais numa fazenda em Analândia, interior de São Paulo, onde afirma ter sido iniciado no xamanismo por um velho caboclo. “Eu tinha 12 anos. Ele me mandava olhar para o fogo e descrever tudo que via; depois interpretava. Era um empregado da fazenda e tinha essa dimensão cósmica. Era um poeta intuitivo, um xamã”.

Estou diante de alguém que declara acreditar na vida como celebração, no Baco, na poesia em função das estações. Do mesmo poeta que, em 1969, cursou uma espécie de mini-faculdade sobre Dante Alighieri com o então Adido Cultural da Itália em São Paulo, Eduardo Bizzarri. De um homem que afirma que os primeiros poetas eram xamãs cuja inspiração se ligava às técnicas arcaicas do êxtase. “Em Dante, por exemplo, estão lá todas essas características: os 3 reinos, a ligação mágica que ele tem com o número 9. Ele passou 9 dias com febre e, durante esses tempo, teve a intuição de A Divina Comédia”, conta.

Trata-se do mesmo poeta que escandalizou a literatura paulistana em 1963, ao lançar Paranóia, seu primeiro livro, que sumiu do mapa em circunstâncias jamais esclarecidas. Em comum com João do Rio, o Piva sessentista tem a verve e a paixão pelas ruas. São poemas hipnóticos, delirantes, no vulto apocalíptico que a metrópole paulistana ganharia décadas depois. “Eu tive uma visão mágica da cidade, como uma grande carniça apodrecendo. Estava sob efeito das minhas leituras dos futuristas, dos surrealistas, de Murilo Mendes, Jorge de Lima, da beat generation, das andanças, das orgias, das vivências e tudo isso. E então, o Wesley Duke Lee, grande artista plástico, me procurou e quis fazer umas fotografias da cidade dentro dessa enorme alucinação. E o editor Massao Ohno topou fazer o livro mesclando as fotografias e os poemas”. Desde 1963, Piva lançou 10 livros de poemas e uma antologia poética. São pérolas como o erótico Coxas (1979) e o místico Ciclones (1997). Sua obra completa foi publicada em três volumes pela Editora Globo entre 2005 e 2008.

Formado em Sociologia e Estudos Sociais, Piva foi professor ginasial durante as décadas de 1970 e 1980, quando deixou crescer os cabelos e o bigode e passou a usar calças boca de sino por influência do movimento hippie da Praça da República. Foi produtor de shows de rock. “Nunca me liguei naquelas canções de protesto, tudo aquilo era um lixo”, diz. Produziu concertos para milhares de pessoas e alavancou bandas pioneiras como a Made in Brazil. Em entrevista concedida à Revista Rolling Stone, em 1972, revelou como conseguia juntar tanta gente. “Eu vou de bairro em bairro e pela vibração descubro os hambúrgueres, os botecos, as sinucas onde a garotada daquele bairro se junta. Chegando a esse boteco, eu sigo o princípio de Platão, escolho o garoto mais bonito, entrego os lembretes impressos do show e digo: você tem que levar todo mundo no meu show. Aí eu consigo o que nenhum veículo de massa vai conseguir, o toque pessoal da comunicação. Aquilo que o Fourier chamou de autoridade da atração1”. Na lembrança do baterista Duda Neves, um dos músicos descobertos por Piva, o poeta ainda impõe respeito. “Ele parecia um cacique, um índio. O espírito dele deve ter vindo desse lado, dos guerreiros indígenas. Tinha uma puta de uma autoridade sobre a gente. E estava sempre muito bem vestido e elegante, não era um hippongo sujo. Foi um grande mentor. Era muito bem informado musicalmente não apenas sobre rock, mas sobre o jazz. E era homossexual. Isso numa época em que qualquer cabeludo era chamado de bicha nas ruas de São Paulo”.

Piva treme um pouco. Sofre de Mal de Parkinson há quase 10 anos, mas resolve driblar as restrições e beber uma cerveja gelada no restaurante do Jardim Botânico. Observa meu pescoço girar enquanto reparo nos casais de mãos dadas em seu jogging semanal. Comenta sobre as meninas. Diz que elas estão cada vez mais bonitas, cercadas por homens cada vez mais feios. “Se você disser que ele gosta de mulher, ele nega. O Piva é o primeiro homossexual que eu conheço que depois dos 60 começou a olhar mulher na rua. Ele é praticamente um heterossexual enrustido”, aponta, aos risos, o poeta e amigo Roberto Bicelli. Exageros à parte, Piva parece evitar os rótulos. Quase todos. Rejeita a esquerda e a direita, mas se diz monarquista desde 1968. “Percebi que a maioria da população brasileira é aristocrática. E além do mais, este é o único regime que, devido à extrema verticalização da cúpula, permite maior anarquia das bases, como já dizia o Salvador Dali”.

Roberto Piva reclama do preço do condomínio. Vive de palestras pagas por centros culturais e prefeituras. Tem lapsos de memória ou simplesmente prefere dizer que não lembra das coisas. Está mais interessado em jogar conversa fora. O que a essa altura, me parece bom. Ele mostra um gavião no céu. Depois esfrega cuidadosamente as mãos nas plantas aromáticas do jardim. Até que se cansa do passeio e decide ir embora. “O Parkinsoniano não gosta que fiquem ao lado dele, tentando amparar. Vá andando que eu te alcanço”. Não sei. É como se estivéssemos presos por um elástico invisível nas cinturas: por mais que eu me afaste, sigo arriscando a meia volta, implacavelmente atraída pelo balanço hesitante desse corpo que caminha. A cada passo, praticamente lhe escuto dizer: “eu sou uma alucinação na ponta dos seus olhos2”.

*Roberto Piva faleceu hoje, após quase 30 dias de internação no Incor-SP. O corpo será velado a partir das 22:30 no Cemitério do Araçá e será cremado às 11 da manhã no Crematório da Vila Alpina.

** Renata D´Elia, autora deste perfil (de maio de 2009), escreveu o livro-reportagem “Os Dentes da Memória – Uma Trajetória Poética Paulistana”, licenciado para publicação, que remonta 50 anos da história conjunta dos poetas Roberto Piva, Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli.

11 comentários:

Telma Scherer disse...

obrigada pelo texto, uma preciosidade. os babacas daqui de baixo não mereceram a grandeza dessa alma & seus labirintos oferecidos por completo. fico imaginando o brinde que farão o piva & os beats do lado de lá. olharão para nós, sabendo o quanto somos estúpidos.

Leninha1986 disse...

Lindo texto Re... até mesmo pra quem conheceu muito pouco da obra dele, leu um poema ou outro, fica fácil perceber que era uma pessoa única, com sensibilidade e paixão... Que Piva descanse em paz, que sua obra seja sempre celebrada, e q vc, Re, sempre nos brinde com textos tão cheios de vida...

Renata D´Elia disse...

Verdade, Telma. Os grandes de lá saberão recebê-lo.

descompassada disse...

naquele dia da entrevista, ele apertou nossas bochechas, lembra? texto delicado, delia. beijos.

André Freitas disse...

Estou sem palavras. Sem palavras. Sem palavras.
Espero me recuperar dessa notícia logo, ou não.

Abraços.
André

Rogério/Ruy disse...

Belo perfil, Renata. Bela homenagem ao Piva. Um beijo.

André Raboni disse...

"A tocaia no terçol dos incêndios
numa cúpula containada de belas nuvens
rumoreja
incha algumas vezes no sal do canto da boca
na estrela perdida entre os pássaros da terra
o soluço agora fonte de cores
teu olhar
navegando o cristal das pequenas unhas
no túnel do meu coração perdido pra sempre"

"Uma aurora latente"
R. Piva

Elenilson Nascimento disse...

Olá Renata, tb adoro o Piva. Vai lá no blog tb: http://www.literaturaclandestina.blogspot.com/

P.S. Lindo textoo seu viu! Muito triste aqui . Um abraço

POBRE MEU BLOG disse...

Cheguei aqui procurando ler coisas sobre o Piva. Acabei lendo o blog inteiro. Beijo. Sérgio.

Edson Bueno de Camargo disse...

Alguns tombam, outros permanecem de pé, não se sabe por quanto tempo.

A verdade é que a cada um bom que morre, morre um universo junto.

malvamauvais disse...

Adorei o texto! Há muito aos, mandei um exemplar de "Paranóia" de presente a um amigo português, grande leitor. Como me arrependo!!!! Estive no VivaPiva e reparei que a edição vendida lá não é mais igual àquela. :(