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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Uma entrevista perdida do Piva


Aproveitando os 50 anos de "Paranóia", completados este mês, eis uma entrevista garimpada de Roberto Piva a Álvaro Alves de Faria na rádio Jovem Pan nos anos 1980, logo depois do lançamento de "20 Poemas Com Brócoli". Pena não termos acesso à época da pesquisa de "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Bicelli, Franceschi e Uma Trajetória Paulista de Poesia", que lancei com a Camila Hungria em 2001. Muita coisa ainda permanece em baús individuais. Mas vamos encontrando Alephs nos porões & sótãos. 


Eu poderia transcrever trechos da entrevista aqui, mas é tão bom que prefiro deixar com vocês. A visão de Piva sobre "gerações poéticas", os poetas cânones das capas do caderno Ilustrada, Dante Alighieri e as saunas do subúrbio que os operários frequentam -- mas que Lula, então sindicalista, sequer passa perto.  Façam o melhor proveito!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Os Dentes da Memória no Guia de Livros da Folha

O Guia de Livros, Discos e Filmes da Folha de S. Paulo publicou, em sua edição de fevereiro, uma resenha do crítico Marcello Rollemberg sobre "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia", assinado por mim e Camila Hungria, com cotação "BOM". O livro "Ego Trip", lançado ano passado por Roberto Bicelli, um dos nossos personagens principais, ganhou destaque na mesma resenha. A célebre foto do poeta numa banheira, -- um dos nossos grandes achados nos Dentes, cedida por ele mesmo -- foi reproduzida no abre da página. Segue abaixo a página scanneada. Clique nela para aumentar e ler.

Fico feliz pela repercussão, que segue firme meses após o lançamento. As demais resenhas e menções anteriores também estão postadas aqui neste blog. Você pode encontrar os dois livros à venda no site da Livraria Cultura, que entrega em todo o Brasil. Ou pode encomendá-lo com seu livreiro preferido. 


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O novo e o velho livro de Bicelli + filme de Jairo Ferreira

Dia 3 de outubro, das 19 às 22 horas, na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis, tem lançamento do novo livro de Roberto Bicelli, Ego Trip - Viajo e Celebro a Mim Mesmo. Trata-se de um diário de bordo muito louco sobre uma longa viagem que ele fez pelo nordeste, num puta fôlego narrativo e cheio de histórias saborosas. O lançamento é do selo Virgiliae, da editora Livros de Safra. O flyer você encontra logo abaixo. 

Quem leu meu livro Os Dentes da Memória já sabe que o cara é uma das figuras mais singulares, criativas e engraçadas que ainda é possível encontrar em São Paulo. O lançamento do primeiro livro dele, Antes Que Eu Me Esqueça, aconteceu em 1977 no Teatro Célia Helena, em São Paulo, e teve leituras do próprio Bicelli, Roberto Piva, Claudio Willer, Luiz Fernando Ramos e Eduardo Gianetti da Fonseca (sim, o economista poderosão), além da música de Nelson Jacobina e Jorge Mautner, uma academia de sumô, projeções dos movimentos de Muhammad Ali e fliperamas. Os poemas lidos por Roberto Piva neste evento, nunca foram publicados em livro. Tudo isso está no Super 8 homônimo de Jairo Ferreira, postado aqui.

Claudio Willer, que também prefacia este Ego Trip, postou algumas observações sobre o filme de Jairo Ferreira e as leituras poéticas daquela noite em seu blog. Reproduzo na íntegra, aqui:


  • Como pode ser observado pela amostra, o evento faz parte da lista de ocasiões em que não fomos presos. Arriscado, dizer essas coisas em 1977.
  • Jairo, acertadamente, deu destaque à brilhante apresentação de Piva. São cinco os poemas que leu. Nenhum está em livro. O último, publiquei-o na época no jornal Versus. Os outros, não sei que fim levaram. Podem ter sido perdidos ou guardados.
  • Pode parecer aos adeptos da literalidade que Piva houvesse, politicamente, virado o fio desde proclamações como “quem exporta sobremesa pode virar a mesa” e as observações sobre o regime militar (também pelos demais poetas que se apresentaram) até um poema como “A bengala alienígena de Artaud” de “Estranhos sinais de Saturno”, além da associação de dirigentes contemporâneos ao stalinismo e seu auto-proclamado monarquismo. Não: ele foi coerente, continuou o mesmo rebelde insubmisso e crítico radical – mudou algo do restante.
  • Todos lêem muito bem nessa apresentação, me parece. Mas a leitura de Piva pode ser comparada àquelas de Jack Kerouac em suas apresentações no Vanguard Theater, de 1958. Ambos – e isso vale para outras gravações de Piva, inclusive o CD que vem com “Estranhos sinais de Saturno” – muito familiarizados com o jazz. Notem como o ritmo do texto e da leitura acompanha a respiração, e não o contrário. 



Mas a história por trás disso tudo, só em Os Dentes da Memória. 



O livro na revista sãopaulo + Rock In Rio

Passei pra dizer três coisas:

1) Minha disposição pra Rock In Rio ficou mais pra aquela hashtag do #rockincasa, mas tô adorando essa noite do metal. Slipknot é pesado, trash, tem fogo no palco, máscaras nas caras, tambores e público completamente envolvido. Motorhead tocando muito alto, acima do bem e do mal. Metallica impecável, provavelmente uma das melhores bandas do mundo ao em cima do palco.  E ainda tem o James Hetfield com a cara do Mano Menezes e o Lars Ulrich finalmente gêmeo de Phill Collins. Vocês querem o quê, o banquinho e o violão?

2) Saiu ontem na revista sãopaulo, da Folha de S. Paulo, indicação do crítico Manuel da Costa Pinto sobre "Os Dentes da Memória" com 4 estrelas, cotação máxima da coluna. Vou reproduzir abaixo, assim não passa batido por aqui. 

3) A revista também tem materinha minha sobre os documentos dos séculos 16 a 20, expostos no Arquivo Histórico Municipal. Vale muito a pena conferir as raridades!


LIVRO 
OS DENTES DA MEMÓRIA **** 
Camila Hungria e Renata D'Elia (Azougue, 256 págs., R$ 38,90)
Panorama de um grupo -Roberto Piva, Cláudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli- que renovou a poesia brasileira sob influência do surrealismo e dos beats. Além de fotografias e documentos, traz colagem de entrevistas da qual participam outros protagonistas da efervescente vida intelectual de São Paulo dos anos 1960 e 1970. 

Piva, 74 + Herois da decadensia (sic)

Hoje Roberto Piva faria 74 anos. Além de lê-lo, não há nada como ressuscitar algumas imagens do poeta em 1987, num vídeo do Tadeu Jungle, uma das cabeças por trás da produtora independente TVDO (TV Tudo). "Herois da Decadensia (sic)" é um belo exemplar dos experimentos e inovações visuais que essa turma procurava aplicar à televisão, mas a história é longa e esse lance de linguagem fica pra outro post. A começar pelo óbvio, o fogo xamânico de Piva contraposto à presença de Supla e do então Cardeal Arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, já valem pelo vídeo postado aí no Youtube. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Uma boa entrevista sobre poesia e Os Dentes da Memória na Rede Brasil Atual

O Guilherme Bryan publicou breve resenha e uma entrevista comigo falando sobre "Os Dentes da Memória" na Rede Brasil Atual. Foi uma das melhores entrevistas sobre o livro até agora. Consegui dissertar sobre questões importantes que ainda não tinham sido abordadas por jornalistas, tanto sobre o making-of do projeto quanto sobre as nossas escolhas e nossa visão sobre a história. Segue uma pergunta/resposta de prévia e também o link do conteúdo. 

Como foram selecionados os entrevistados para o livro? Houve alguma entrevista que não conseguiram realizar ou que ficou de fora por alguma razão?
A coisa começa em torno do Piva, uma figura absolutamente fascinante, magnética e complexa, dona de uma obra poética muito poderosa e que merece atenção urgente, para muito além de seu primeiro livro, "Paranoia". A partir daí selecionamos os outros três personagens principais, tendo como norte a confluência permanente de suas trajetórias ao longo das décadas, a amizade e as vivências em comum, a influência de um sobre as leituras e as escritas dos outros, a qualidade poética e o potencial deles como personagens de livros. O Roberto Bicelli, por exemplo, é uma descoberta e tanto: com apenas um livro de poemas, teve nesse grupo um papel importantíssimo e é por si só um personagem sedutor. Afinal, existe gente muito talentosa e competente por aí, mas nem todos são bons personagens para um livro, tá cheio de bons poetas não dão o menor caldo ou interesse para uma biografia. Esses quatro caíram como uma luva e nós percebemos isso desde princípio. Outra coisa: não queríamos falar exatamente em "geração 60", que também é uma divisão polêmica de se fazer, então vamos deixar isso na mão dos nossos especialistas. Também não gostaríamos que a história parasse nos anos 1960, pois há vivências, acontecimentos históricos, políticos, culturais e livros suficientes para trazê-la até hoje. Fizemos uma pesquisa grande não apenas sobre a bibliografia destes poetas, como de suas influências e de seus contemporâneos. E por fim, há outros nomes importantes na Geração 60 de São Paulo que receberam apenas menções ou foram entrevistados sem protagonização. Muitos merecem ter suas trajetórias contadas e reconhecidas, e esperamos que esse trabalho seja feito futuramente. Selecionamos como coadjuvante os que mais tiveram contato com estes personagens em determinados momentos, ou que eram citados nas entrevistas e participaram de histórias importantes, e também aqueles que poderiam elucidar melhor alguns pontos e passagens. Por uma questão de foco, fluidez e edição, algumas pessoas ficaram de fora. Outros simplesmente foram procurados e não quiseram dar entrevista, não puderam nos atender, ou nunca responderam nossos e-mails e telefonemas. Além do mais, nenhum retrato memorialístico, histórico, jornalístico ou biográfico é definitivo, completo ou contém toda a verdade da Terra. Aliás, nunca nos propusemos a isso. Quem quiser, pode partir em direção ao foco e ao viés que desejar, jogando toda luz nos personagens que julgar mais importantes. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sexo, bombas e choque elétrico, por Marcelo Coelho (FSP)

Saiu na Folha de S.Paulo, caderno Ilustrada de hoje, um artigo dos bons assinado pelo Marcelo Coelho. Ele fala sobre "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia", meu livro com Camila Hungria pela Azougue Editorial. Os sites das livrarias Martins Fontes e Cultura enviam para todo o Brasil, basta comprar com eles.

Abaixo, reproduzo texto e trecho da edição digital do jornal, cortesias de Bê Neviani e Keka Ferreira. Gostei muito do espírito do texto, que é também parte do espírito do livro. Acho que o Piva estaria se divertindo bastante com isso. Willer, Bicelli, Franceschi e outros personagens estão curtindo. 


MARCELO COELHO

Sexo, bombas e choque elétrico

"A gente se beijava e corria uma eletricidade incrível [...] Nós estávamos tomando choque molhados!"



Existem os loucos e existem também aqueles que querem ser loucos sem serem loucos de fato.
Qualquer que seja o caso, não faltaram loucuras na vida do poeta Roberto Piva (1937-2010) e dos seus amigos (Cláudio Willer, Rodrigo de Haro, Roberto Bicelli). Alguns exemplos.
Na década de 70, Piva e Bicelli davam aulas num colégio público. "Um dia", conta Bicelli, "o Piva chegou atrasado porque ficou bebendo com a professora de geografia. Entrou bêbado na classe, fez a chamada e falou: 'Estou de saco cheio do bom comportamento de vocês'".
Ato contínuo, "subiu na mesa, baixou as calças e mostrou a pica para os garotos da quinta série! Ainda correu atrás de um japonesinho que havia se mandado da sala! A inspetora, que era nosso anjinho, transferiu-o de escola e ficou tudo bem".
O caso é lembrado em "Os Dentes da Memória", livro de Camila Hungria e Renata D'Elia, que acaba de ser lançado pela Azougue Editorial.
Acompanhado por uma breve antologia desses poetas (a geração dos "novíssimos" da década de 60), o livro é composto exclusivamente dos depoimentos, habilmente entrelaçados, dos principais membros do grupo.
Cláudio Willer é o protagonista de outra aventura.
"Eu e um amigo pretendíamos explodir uma bomba na casa de um desafeto nosso, na rua Tupi com a avenida Pacaembu. Então, prendemos a bomba com pólvora enrolada em fita adesiva. Quando fomos testar a bomba, esse meu amigo teve a genial ideia de enfiá-la no escapamento do carro e acender!"
Enquanto a bomba não estourava, continua Willer, "resolvi brincar com uma pistola Browning 7.65, que tinha ganhado de presente num breve período de gostar de armas. Ficamos tentando acertar os lampiões e a iluminação da Pacaembu!".
Erraram todos os tiros, mas a polícia apareceu. "Quando chegou a polícia, a bomba do carro explodiu!" Novamente, nada mais sério aconteceu. "Depois demos uma grana para o delegado sumir com as provas, e fui inocentado perante o juiz."
Já Roberto Bicelli se lembra de uma transa incomum. "Fui ao banheiro, passando meio mal. Lá, peguei a minha namorada e dei um cato nela. A gente se beijava e corria uma eletricidade que era uma coisa incrível! A gentia sentia choques pelo corpo todo."
Não era paixão. "Quando percebi, a pia tinha quebrado fragorosamente e tinha um fio solto no chão! Nós estávamos tomando choque molhados!"
Choques elétricos, bombas caseiras, subversão estudantil: nesses episódios, é como se tivéssemos a história da ditadura militar traduzida em outros termos, transportada numa viagem de LSD.
No começo da década de 60, o grupo de Roberto Piva tratava de romper com o formalismo vigente e seguir, nos moldes dos surrealistas e dos beatniks, a ideia de que não pode haver separação entre a arte e a vida.
As fotos reproduzidas no livro, assim como o documentário de Ugo Giorgetti sobre o grupo ("Uma Outra Cidade", de 2001), não deixam dúvidas. Roberto Piva, na juventude, era bonito a mais não poder, e seus amigos não ficavam muito atrás.
Álcool, drogas e o passar do tempo foram minando essa beleza. A partir do AI-5, as bombas e pistolas já não podiam ser usadas com tanta impunidade. A transgressão foi sendo abandonada por alguns dos membros do grupo, que casaram, tiveram filhos e arranjaram emprego.
A heterossexualidade pode ser uma vigorosa fonte de caretice. Roberto Piva não conheceu essa ameaça.
Se escapou, na época, de ser preso ou internado por homossexualidade, hoje seria provavelmente acusado de pedofilia. No fim da vida, contou-me que alguns dos seus amantes adolescentes tornaram-se, com o tempo, bons amigos heterossexuais. Piva chegou a ser padrinho do filho de um deles.
O artigo vai acabando e não tenho espaço para comentar a poesia dessa geração. Mas, afinal, quando se rompem as fronteiras entre vida e literatura, os lances biográficos desses poetas ganham seu próprio interesse estético.
Por outro lado, na medida em que se entrega ao fluxo das associações livres, à "paranoia" e ao "delírio", essa poesia corre o risco de se tornar monótona. A loucura funciona quando feita de flashes e inspirações súbitas; mas é difícil sustentá-la para sempre. Isso exige muito voluntarismo e militância.
Como se sabe, as décadas de 60 e 70 estavam aí para isso mesmo.

coelhofsp@uol.com.br

sábado, 10 de setembro de 2011

Satyricon e o ácido de Piva

"[ROBERTO PIVA] A minha primeira experiência foi com uma dose inteira de Purple Haze, na Serra da Cantareira. Fomos em dois carros, junto com outras pessoas que também tomaram a droga. Lá, eu entrei no meio do mato e, repentinamente, quando bateu o ácido, olhei para o Sol e vi como se fosse uma grande tangerina gotejando amor para o universo. Então tirei a roupa. Fiquei totalmente nu, e caminhei por todo aquele mato sem me machucar em nenhum espinho. Depois comi um pêssego como se fosse pela primeira vez. Aliás, tem um verso no meu livro Quizumba em que relembro isso, falo na volta do pêssego pródigo. Quando retornamos da Cantareira, eu via o eixo do fusca através do chão do carro. E, depois, chegando na cidade, ouvi Jimi Hendrix na casa de um amigo e percebi que era um músico que tentou musicar o movimento das plantas submarinas, a dança das algas. Saí dali e fui no cinema ver Satiricon, do Fellini. Sentei a três metros da tela e aí percebi porque Fellini deu ácido para os atores fazerem aquele filme e porque ele, Fellini, também tomou ácido. Esse foi um filme que vi 18 vezes. Achei uma beleza, uma coisa... Quando surge aquele menino com uma coroa de rosas na cabeça, aquelas rosas entraram no meu cérebro. Foi muito bonito. Mas eu tinha tomado um ácido tão forte que fiquei viajando dois dias. Aí enche um pouco o saco, porque você fica batendo os dentes, numa espécie de delirium tremens".

TRECHO RETIRADO DO LIVRO "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia", de Camila Hungria e Renata D'Elia. (Azougue Editorial). À venda aqui e aqui para todo o Brasil. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Meu livro e eu, aqui e ali

Comentei no outro post que a queridíssima Barbara Gancia gravou comigo um videocast da TV Folha na Av. Paulista, semana passada. Pois bem, lemos alguns poemas de "Os Dentes da Memória" aos nem sempre simpáticos transeuntes paulistanos e o resultado está aqui na Folha Online.

A Revista E, distribuída gratuitamente em toda a rede Sesc de São Paulo, traz no mês de setembro uma homenagem ao Roberto Piva, com fotos, pequenos trechos e um pedacinho do clima do nosso livro. Aqui a versão online. 

O professor e ativista cultural Paulo Sposati Ortiz também publicou algo no blog dele. Aliás, uma coisa que eu esqueci de dizer é que o amigo Fernando Neumayer, do Rio de Janeiro, me chamou pra responder algumas perguntinhas sobre  música num espaço bem legal, o blog dele. E no fim das contas, acho que Dentes também é um livro musical. E xamânico. 

domingo, 31 de julho de 2011

É sexta agora!

Bem, chegou a hora. O livro mais esperado do ano é também candidato automático ao Prêmio Jabuti de título mais longo de 2011, com 80 caracteres sem espaços (HA-HA-HA). "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia" (Azougue Editorial, 256 páginas, R$38,90) tem autoria de Renata D'Elia -- EU!-- e Camila Hungria. 

Autografaremos o livro ao lado dos poetas Antonio Fernando de Franceschi, Roberto Bicelli e Claudio Willer. Pena que Roberto Piva não está aqui pra ver isso, mas certamente será um tributo à sua obra. Anotem aí as coordenadas da noite do lançamento!

5 de agosto (SEXTA-FEIRA)
Das 19 às 22 horas
na Livraria da Vila - Lorena
Alameda Lorena, 1731, Jardins.

*Aceita os cartões Visa, MasterCard, Diners e Amex. Estacionamento no local. 

E tem até brinde: quem comparecer e autografar seu exemplar, ganhará entrada grátis com acompanhante para o espetáculo de dança "Paranóia", da Companhia de Danças de Diadema, com base na poética de Roberto Piva. Em cartaz no Sesc Vila Mariana durante o fim de semana. 

Estamos no UOL, na VEJA e no Globo News, pra quem quiser saber mais sobre o projeto. 



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Dentes da Memória no UOL, por Mauricio Stycer

O jornalista Mauricio Stycer escreveu uma resenha super bacana sobre o meu livro em seu blog no UOLA resenha do Mauricio captura muito da emotividade da coisa e de todo o magnetismo da figura do Piva. Aqui está o LINK pra quem quiser ler e comentar. Vale a pena ler o que ele escreveu. 

"Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia", que acaba de sair pela Azougue e terá lançamento oficial no dia 5 de agosto de 2011, na Livraria da Vila da Alameda Lorena, conforme já divulgado. 

   Roberto Piva, década de 1970, reproduzida do livro. 

domingo, 12 de setembro de 2010

Das grandes viradas sobre-humanas



URUBU EM CARNE VIVA

Por Roberto Bicelli, em 1983

Em 63, quando Roberto Piva lançou “Paranóia” (Massao Ohno) todos se deram conta de que havia algo de novo em todas as frentes. Fosse possível captar numa Polaroid Anímica as caras e bocas que se fizeram então, imagino a galeria Lombroso Futurista que teríamos a examinar...Para poucos foi o Satori. A certeza que ele vinha como divisor de águas da poesia.

Se Oswald de Andrade/Dr.Pilatos dizia-se ironicamente "um Virgílio um pouco mais nervoso no estilo", Piva nos devolvia a poesia Sucuri-Cascavel. Aquela capaz de cair sobre nós da árvore da imaginação, de colear pelo asfalto paulistano, de triturar a cidade em seu amplexo de Titã e sua baba venenosa.

Os turistas intelectuais tinham razão de acreditar que cobras rolavam pelas ruas, que o diabo estava à solta.

Zilco Ribeiro disse-me, então, que pessoalmente Piva era uma pessoa dulcíssima. Recusei-me a acreditar, mas, na verdade, como o Brasil ainda era uma democracia, nosso herói só bebia guaraná e ninguém reclamava. Piva preparava a goela para talagar todo mel e toda merda que viriam a seguir.

Em 64, sai “Piazzas”, outra edição de Massao Ohno com enorme mudança! Onde estavam as fotos e ilustrações do genial Wesley Duke Lee? E os versos longos que exigiam o retângulo, os braços longos do Homem de Borracha?

“Piazzas”, livro simples, fran-cis-cano: uma capa P&B com dois grampos sustentando um conteúdo próximo da poesia grega.

Depois, onze anos sem publicar e sem que nos déssemos conta disso! Tanta poesia em torno do homem... Piva onipresente, farejando, vivendo dionisiacamente para comer, beber, trepar, ler, instigar e arrebentar alguns focinhos que não lhe agradavam. Ou seja, fazendo poesia o tempo todo.

Quando, finalmente, escreve um livro “abra os olhos & diga ah” empresta os originais para um Amor cuja mãe, vendo aquela maçaroca de hieróglifos, encaminha-os para o destino que os críticos Karetas mais apreciariam: a lata de lixo! Tudo bem se perdeu um livro, escreve-se outro: “abra os olhos & diga ah”(novamente Massao Ohno), 1976.

Em seguida, uma sucessão de títulos; “Coxas”, “20 poemas com brócoli” e “Quizumba”. Deste cumpre-nos falar: editado pela Global, com capa e ilustrações do extraordinário Hélio de Oliveira, arte final de Levi Leonel e com todos os direitos reservados a quem tiver a poesia como cúmplice.

Ao observarmos um grande mestre de Tai Chi Chuen em ação, temos a impressão de que ele está brincando, que aqueles movimentos jamais poderiam ser mortais. Na verdade, ele engole etapas, insinua possibilidades, negaceia... É o que sinto ao percorrer esta Quizumba que vai do conflito ao rififi: Piva assimilou a Poética Universal e aprontou com tranqüilidade de mestre seu destranque, seu bafafá, seu angu-de-caroço.

Poesia que vai do Heavy Metal à Bossa Nova, do Maracatu à Valsa Vienense.
Interessa observar a limpidez que Piva atinge em meio a esse estrupício todo. É o poeta no meio do Caos brilhando na cintilância estelar de seus poemas.

“Raça irritadiça”, Piva capta a geléia geral deste tempo e “só acredito na geléia genital”.

Depois de ter estoicamente permanecido oito anos sem sair de São Paulo, ele prega o retorno à Agricultura...

Profeta que sou acho que a primeira lufada da guerra atômica levará uma cama-de-gato do poeta, curvado no simples ato de plantar alecrim.

Este “Quizumba” -escrito em 81- encontra-o na maior exacerbação urbana, já com toques de roça total: “queria tomar pico, mas na roça/ queria virar mico sem a coça/ queria ouvir Chico lá na choça”...

Em Quizumba, Roberto Piva dá claros sinais de estar em pleno processo de iniciação, que leva o poeta-voyeur ao poeta-vidente. Reivindico o trocadilho e pontuo com versos de “Quizumba”: “mas o caminho de volta eu só conto/ a esse urubu em carne viva/ que grasna na sacada.”

Texto originalmente publicado no jornal da UBE - União Brasileira de Escritores - e cedido pelo autor após sua leitura na última homenagem realizada ao poeta Roberto Piva, na Casa das Rosas (SP), em julho.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Mala na mão & asas pretas

PD & RD: Mala na Mão & Asas Pretas para quem?
ROBERTO PIVA: É uma forma de dizer que você está em trânsito no planeta.

PD & RD: Você se considera em trânsito, sempre?
ROBERTO PIVA: Estou em trânsito e quando morrer não voltarei jamais.

O trecho acima foi retirado da primeira entrevista que fiz com o Roberto Piva, em 2007, acompanhada pela jornalista Paula Dume. Publicada pelo Cronópios. Foi meu primeiro encontro com o Piva e, fazendo agora uma rápida releitura, não me vem à cabeça por que raios fizemos essas perguntas. Mala na Mão & Asas Pretas é o título do segundo volume das obras reunidas do poeta pela Editora Globo.

Como bem disse a Paula no abre do texto, "o planeta acusa que estar em trânsito é um bom sinal para os tempos". Mas mesmo que Massao Ohno, Alberto Guzik, Roberto Piva e Ezequiel Neves, por conta dos cânceres malditos, já tivessem dado os sinais da passagem, a morte bem que podia nos dar folga por longos tempos enquanto a gente se conforma com o imenso buraco que ficou. Chega de obituários nesse blog! E vamos todos seguir em frente.

A quem interessar, posto abaixo as páginas scanneadas do breve perfil de Alberto Guzik que fiz para a revista EnCena, ano pasado. A primeira entrevista que fiz com Massao Ohno, para o site da Faculdade Cásper Líbero, também em 2007, será reproduzida em breve, assim que eu encontrar um jeito. O conteúdo do antigo site não foi migrado para o novo portal da instituição.

sábado, 3 de julho de 2010

O último heroi magnético

Roberto Piva, 1937 -2010

“Trouxe algumas coisas pra você. Não posso esquecer, são muito importantes. Espere um pouco, está tudo aqui, anotado num papel, no meu bolso”, afirma esbaforido o poeta Roberto Piva, pouco mais de 70 anos, enrolando-se por completo com o cinto de segurança do carro em que acaba de entrar, em frente ao prédio onde mora, no centro de São Paulo. “Achei, é João do Rio: A Alma Encantadora das Ruas. Absolutamente genial. Ele era jornalista como você e escrevia sobre as coisas da cidade. Estou impressionado. Se eu tivesse lido isso há cinqüenta anos, o Paranóia não seria exatamente o Paranóia, e muitas coisas não seriam como são”.

O senhor em questão deve medir cerca de um metro e setenta, mas o corpo, ainda robusto, indica o passado colegial de halterofilista. Veste bermuda verde, camiseta e meias brancas, calça tênis de caminhada e estampa no rosto os óculos de armação preta emendados por um esparadrapo do lado esquerdo. Pede pra tocar pro Jardim Botânico. Seu pedido é uma ordem. Em seguida, dispara três outras sugestões literárias. Algo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa e dois volumes de História sobre o III Reich. Parece animado em pleno domingo, às 9 da manhã; pede logo para abrir os vidros e, apoiando na janela o braço direito, reclama do barulho dos bares vizinhos e diz que o prefeito prometeu “caçar os alvarás desses cafajestes”, mas não cumpriu.

Atravessamos a cidade. Basta estacionar o carro para ouvir do porteiro que ontem choveu forte e parte do parque virou lama. Mas Piva não desiste do passeio. Ele passa os dias praticamente restrito a seu apartamento repleto de poeira, livros, pôsteres de jazzmen e quadros de artistas como Wesley Duke Lee e Rodrigo de Haro. Por isso aproveita para marcar as entrevistas que concede no meio do verde. Mas não serve qualquer pracinha. “O Parque do Ibirapuera é terrível”. Tem que ser em Jarinu - cidade interiorana próxima à Jundiaí -, no Parque Estadual da Cantareira, no Templo Budista Zu Lai ou, pelo menos, no Jardim Botânico. Por ali, ele caminha em direção a um lago, escolhe uma árvore para se deitar à sombra e pede que a gente tire um cochilo de meia hora antes de ligar o gravador.

Obviamente, não consigo pregar os olhos e fico o tempo todo observando uma imensa gansa choca caminhar ao nosso redor. Roberto Piva acorda sozinho. Diz que os animais nos procuram porque nossas energias são amigáveis, aponta algumas espécies de pássaros e avisa que mais adiante será possível escutar o ronco dos bugios. A atração pelas forças da natureza começou na infância, quando morava com os pais numa fazenda em Analândia, interior de São Paulo, onde afirma ter sido iniciado no xamanismo por um velho caboclo. “Eu tinha 12 anos. Ele me mandava olhar para o fogo e descrever tudo que via; depois interpretava. Era um empregado da fazenda e tinha essa dimensão cósmica. Era um poeta intuitivo, um xamã”.

Estou diante de alguém que declara acreditar na vida como celebração, no Baco, na poesia em função das estações. Do mesmo poeta que, em 1969, cursou uma espécie de mini-faculdade sobre Dante Alighieri com o então Adido Cultural da Itália em São Paulo, Eduardo Bizzarri. De um homem que afirma que os primeiros poetas eram xamãs cuja inspiração se ligava às técnicas arcaicas do êxtase. “Em Dante, por exemplo, estão lá todas essas características: os 3 reinos, a ligação mágica que ele tem com o número 9. Ele passou 9 dias com febre e, durante esses tempo, teve a intuição de A Divina Comédia”, conta.

Trata-se do mesmo poeta que escandalizou a literatura paulistana em 1963, ao lançar Paranóia, seu primeiro livro, que sumiu do mapa em circunstâncias jamais esclarecidas. Em comum com João do Rio, o Piva sessentista tem a verve e a paixão pelas ruas. São poemas hipnóticos, delirantes, no vulto apocalíptico que a metrópole paulistana ganharia décadas depois. “Eu tive uma visão mágica da cidade, como uma grande carniça apodrecendo. Estava sob efeito das minhas leituras dos futuristas, dos surrealistas, de Murilo Mendes, Jorge de Lima, da beat generation, das andanças, das orgias, das vivências e tudo isso. E então, o Wesley Duke Lee, grande artista plástico, me procurou e quis fazer umas fotografias da cidade dentro dessa enorme alucinação. E o editor Massao Ohno topou fazer o livro mesclando as fotografias e os poemas”. Desde 1963, Piva lançou 10 livros de poemas e uma antologia poética. São pérolas como o erótico Coxas (1979) e o místico Ciclones (1997). Sua obra completa foi publicada em três volumes pela Editora Globo entre 2005 e 2008.

Formado em Sociologia e Estudos Sociais, Piva foi professor ginasial durante as décadas de 1970 e 1980, quando deixou crescer os cabelos e o bigode e passou a usar calças boca de sino por influência do movimento hippie da Praça da República. Foi produtor de shows de rock. “Nunca me liguei naquelas canções de protesto, tudo aquilo era um lixo”, diz. Produziu concertos para milhares de pessoas e alavancou bandas pioneiras como a Made in Brazil. Em entrevista concedida à Revista Rolling Stone, em 1972, revelou como conseguia juntar tanta gente. “Eu vou de bairro em bairro e pela vibração descubro os hambúrgueres, os botecos, as sinucas onde a garotada daquele bairro se junta. Chegando a esse boteco, eu sigo o princípio de Platão, escolho o garoto mais bonito, entrego os lembretes impressos do show e digo: você tem que levar todo mundo no meu show. Aí eu consigo o que nenhum veículo de massa vai conseguir, o toque pessoal da comunicação. Aquilo que o Fourier chamou de autoridade da atração1”. Na lembrança do baterista Duda Neves, um dos músicos descobertos por Piva, o poeta ainda impõe respeito. “Ele parecia um cacique, um índio. O espírito dele deve ter vindo desse lado, dos guerreiros indígenas. Tinha uma puta de uma autoridade sobre a gente. E estava sempre muito bem vestido e elegante, não era um hippongo sujo. Foi um grande mentor. Era muito bem informado musicalmente não apenas sobre rock, mas sobre o jazz. E era homossexual. Isso numa época em que qualquer cabeludo era chamado de bicha nas ruas de São Paulo”.

Piva treme um pouco. Sofre de Mal de Parkinson há quase 10 anos, mas resolve driblar as restrições e beber uma cerveja gelada no restaurante do Jardim Botânico. Observa meu pescoço girar enquanto reparo nos casais de mãos dadas em seu jogging semanal. Comenta sobre as meninas. Diz que elas estão cada vez mais bonitas, cercadas por homens cada vez mais feios. “Se você disser que ele gosta de mulher, ele nega. O Piva é o primeiro homossexual que eu conheço que depois dos 60 começou a olhar mulher na rua. Ele é praticamente um heterossexual enrustido”, aponta, aos risos, o poeta e amigo Roberto Bicelli. Exageros à parte, Piva parece evitar os rótulos. Quase todos. Rejeita a esquerda e a direita, mas se diz monarquista desde 1968. “Percebi que a maioria da população brasileira é aristocrática. E além do mais, este é o único regime que, devido à extrema verticalização da cúpula, permite maior anarquia das bases, como já dizia o Salvador Dali”.

Roberto Piva reclama do preço do condomínio. Vive de palestras pagas por centros culturais e prefeituras. Tem lapsos de memória ou simplesmente prefere dizer que não lembra das coisas. Está mais interessado em jogar conversa fora. O que a essa altura, me parece bom. Ele mostra um gavião no céu. Depois esfrega cuidadosamente as mãos nas plantas aromáticas do jardim. Até que se cansa do passeio e decide ir embora. “O Parkinsoniano não gosta que fiquem ao lado dele, tentando amparar. Vá andando que eu te alcanço”. Não sei. É como se estivéssemos presos por um elástico invisível nas cinturas: por mais que eu me afaste, sigo arriscando a meia volta, implacavelmente atraída pelo balanço hesitante desse corpo que caminha. A cada passo, praticamente lhe escuto dizer: “eu sou uma alucinação na ponta dos seus olhos2”.

*Roberto Piva faleceu hoje, após quase 30 dias de internação no Incor-SP. O corpo será velado a partir das 22:30 no Cemitério do Araçá e será cremado às 11 da manhã no Crematório da Vila Alpina.

** Renata D´Elia, autora deste perfil (de maio de 2009), escreveu o livro-reportagem “Os Dentes da Memória – Uma Trajetória Poética Paulistana”, licenciado para publicação, que remonta 50 anos da história conjunta dos poetas Roberto Piva, Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli.

domingo, 25 de abril de 2010

Rapidinhas

Fora do tempo e do espaço
Essa semana, não lembro o dia, acordei com um fragmento repetido de Low, que deu lugar a Near Wild Heaven até que um outro pedaço de memória [era um soldado à paisana que conheci no Playcenter, em 1999] me remeteu a Endgame. São pérolas do mesmo colar, o popíssimo Out Of Time, que lançou o R.E.M. de Michael Stipe às grandes constelações de 1991, o ano que não viveu só de Nirvana e Rock In Rio II. "Morning found me laughing/Up and down, down/Low, low, low". O tipo do disco que precisa de longos intervalos pra voltar com merecido respeito, pulando o histrionismo ensolarado de Shiny Happy People e o cerimonial de Losing My Religion, é claro. Belong, por exemplo, tem cara de road movie lado B, pelo menos nos meus sonhos. Tenho sonhado coisas que parecem reais e vivido situações de sonho. Sempre aos domingos, faça chuva ou faça sol, "take my head in your hands and shake it in this near wild heaven/Not near enough". Quem é que precisa de obscuridade pra viver?



Quem é que precisa de osbcuridade pra viver?
Eu não conhecia The Triffids até segunda-feira passada. Foi o Álvaro Pereira Jr, na Folha, quem contou rápido & certeiro a história do vocalista australiano David McComb e seu coração doente. Mais uma dessas bandas hypadas pela máquina chiliquenta dos críticos ingleses, fadadas à obscuridade minutos depois. Imagine um Hoodoo Gurus visionário e meio tristonho, mais pesado e denso. O folk e o pós-punk aparecem misturados, alá Nick Cave. O som tem o charme caipira exótico de quem atravessa mares rumo ao centro do mundo. Os Triffids têm a crueza e a dramaticidade gótica de quem se atrai pelos infernos através do espelho. [ooooooooooooooohhh!]. Ser maldito não é pra qualquer um, chuchu. Você tem 3 chances de conseguir: Wide Open Road -- que também tem cara de road movie lado B --, Red Pony e Goodbye Little Boy. Pronto, acabou.



MGMT, Groove Armada, She & Him
É o que todo mundo diz. "Os melhores de 2010 até agora". "Você tem que ouvir". "É foda, vai por mim". Vai por mim: tem realmente um quê de Syd Barrett, assim de fundo, que encheu de brilho e perspectiva a sonoridade desse Congratulations, segundo disco do MGMT. Se tiver saco para músicos pops tentando fazer arte, é prato cheio. Se não tiver, você há de concordar que It´s Working e Flash Delirium são de botar a casa abaixo. Se funciona ao vivo ou não, são outros quinhentos. E outros milhões para o novo noturno do Groove Armada, Black Light. Poderosas faixas na linha do electro sem vulgaridades pseudo-dadaístas mostram que a dupla sobreviveu aos 90 e atravessou os 2000 sem perder a pegada. Look Me In The Eye Sister e Not Forgotten, sozinhas, já valem pelo Volume Two inteiro da dupla She & Him -- queridinha das garotas modernas de vestido xadrez -- que eu achei ótimo: pra dormir.



Em São Paulo, na semana
Terça-feira, 27/04, às 20 horas: Poeta, ensaísta e tradutor, Claudio Willer comanda homenagem ao poeta Roberto Piva, que se recupera de uma cirurgia cardíaca em sua casa. Depoimentos de Roberto Bicelli, Valesca Dios, Ugo Giorgetti, Celso de Alencar e Toninho Mendes. Entrada franca. No Sesc Vila Mariana. Lembra que eu disse que ser maldito não é pra qualquer um? O Piva pode: tem coração com bençãos.
Quarta-feira, 28/04, às 21 horas: Laetitia Sadier, a doce francesa que canta no Stereolab, fará show no Sesc Vila Mariana por R$30. Ou R$15, se você for esperto.
Todo dia, no Studio SP: tem Renato Godá, Copacabana Club e mais um monte de coisa legal que eu veria, mas não vai rolar dessa vez.
Inté, entonces!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Piva sai hoje!

Roberto Piva no Templo Budista Zu Lai/2008. Photo by Renata D´Elia

O poeta Roberto Piva receberá alta do Hospital das Clínicas de São Paulo hoje à tarde, após mais de 30 dias de internação. Ele foi submetido a uma angioplastia para recuperar a função cardíaca. O resultado foi excelente. Em breve, Piva passará também por uma cirurgia de retirada de próstata, mas já numa situação de saúde bem melhor.

Agradecemos aos que torceram por sua recuperação e ajudaram de diferentes formas. Evoé, Piva!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Visita ao Pivinha

Acabo de voltar do Hospital das Clínicas, onde visitei o poeta Roberto Piva. Está bem acomodado num quarto duplo, as enfermeiras e médicos são atenciosos, todos os exames estão sendo feitos e, neste momento, estamos tentando convencê-lo de que a comidinha sem sal do hospital não é tão ruim assim. Está mais animado e ansioso para receber a penca de livros de Pasolini e Castañeda que nos pediu. Me pediu também um bloco e uma caneta para escrever -- e esse não é o tipo de pedido que se nega a Roberto Piva, né? Devidamente providenciado.

Disse que quer ouvir "notícias curativas". Agradeço aos que estão sendo solidários para que possamos levá-las até lá.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Piva, parte 2 -- acalmando os ânimos

FOTO: RENATA D´ELIA/2008. Piva em Cotia- SP.

O poeta Roberto Piva foi transferido neste fim de tarde para um outro quarto no Hospital das Clínicas. O local é bastante arejado e ele está na companhia de apenas mais uma pessoa, bastante satisfeito com a nova acomodação.

Conforme divulgado no post anterior, Piva está recebendo bons cuidados da equipe médica do HC. Ele deve passar por um Cateterismo nos próximos dias. No momento, a prioridade é fortalecê-lo e garantir-lhe um bom funcionamento cardíaco. Posteriormente serão feitas 2 cirurgias: próstata e catarata.

Como qualquer grande homem de 73 anos, acostumado a devorar Leitões à Pururuca & outros banquetes, Piva reclamará da comida do hospital, "sem sal e sem gosto", em qualquer quarto do mundo. E nem precisa ser poeta pra reclamar disso: costuma ser assim conosco, com nossos amigos, nossos pais e avós. Ou alguém aqui trocaria uma pizza de mussarela por um purê de batatas sem sal?

Portanto, vamos continuar torcendo para que ele se recupere logo. O apoio dos amigos é sempre bem-vindo. Desde já, gostaria de agradecer aos que me ajudam a divulgar esses esclarecimentos referentes à internação do Piva. Peço que continuem a divulgar.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Sobre o Piva: vamos com calma

FOTO: Renata D´Elia/2008. Jardim Botânico de São Paulo.

O poeta Roberto Piva, que sofre da Doença de Parkinson, está internado no Hospital das Clínicas de São Paulo desde o dia 13 de janeiro, onde recebe visitas e assistência diária dos amigos mais próximos e do companheiro. Desde então, vem passado por exames, tem recebido cuidados médicos e já está mais forte e mais disposto. Para evitar excessos de protagonização, os mais próximos haviam optado por manter a internação com discrição. No entanto, após movimentação e mobilização em blogs e redes sociais por terceiros, a notícia saiu na Folha de S. Paulo de hoje.

Antes da internação, Piva se queixou de diarréia e mal estar. O amigo e poeta Antonio Fernando de Franceschi -- que sempre lhe ajuda nesse sentido -- providenciou uma consulta com um médico particular de confiança, onde Piva chegou acompanhado do também amigo e poeta Roberto Bicelli. Por conta de um intenso quadro de desidratação e pela necessidade de fazer exames, o médico providenciou, pessoalmente, uma internação no Hospital das Clínicas.

Através de exames, foi diagnosticado um problema de próstata. Piva precisará passar por uma cirurgia. Mas antes disso, os médicos precisam garantir sua condição cardíaca e renal. Dentro de alguns dias, ele passará por um cateterismo no Incor, anexo ao HC, um centro de referência nesse tipo de tratamento. Só depois os médicos tomarão as providências pré-cirúrgicas.

Piva não tem plano de saúde. Quem não tem plano de saúde -- seja poeta, lixeiro ou dono de padaria -- se trata pelo SUS. Qualquer um de nós, mesmo com boleto pago de convênio médico, pode precisar do SUS após sofrer um acidente ou numa localidade onde não haja hospital privado. Todos sabemos que o HC não é hotel 5 estrelas. Mas apesar de não ter uma cama com trocentos botões e uma TV de Plasma com 100 canais por assinatura, Piva está num quarto limpo e arejado. Claro que há outras pessoas nos leitos vizinhos, evangélicos chatos, televisão do doente ao lado ligada no Silvio Santos, enfermeiras com cara de malvadas e um monte de coisas que podem irritá-lo, além da própria doença. Mas ele não está "jogado" ou "abandonado". E a última coisa que vai querer saber por terceiros ou numa notícia de jornal é que seu estado é "deplorável" e que sua situação mais parece "um inferno dantesco".

Sejamos sensatos: uma internação que tende a se prolongar, incluindo todos esses exames, medidas cautelares, medicações ministradas, procedimentos cirúrgicos, e até mesmo alguns dias de UTI (comum após cirurgias desta espécie), vai sair mais caro do que comprar um imóvel num bom bairro paulistano. E tudo à vista.

Alguns poetas estão se mobilizando para conseguir um um quarto melhor para o Piva apesar de que, no SUS, todo cidadão é igual (ou não?). Muito bem. Outros estão divulgando a conta corrente do poeta no Itaú. Ajudas financeiras, obviamente, também serão bem-vindas por ele; principalmente para as despesas que virão no período pós-cirúrgico.

Mas façamos com cuidado para não passar por cima das decisões que os mais próximos (principalmente seu companheiro) devem tomar. Se não, ao invés de ajudar, podemos atrapalhar. Ademais, vamos torcer para que o Piva se recupere logo. Os amigos estão convidados a visitá-lo e ajudar a mantê-lo confiante no tratamento. Se ele reclamar da comida, a gente já sabe o porquê: deve estar morrendo de saudade do Leitão à Pururuca e do vinho chileno que tanto gosta.

A conta:
Roberto Lopes Piva
CPF: 565 802 828-00
Banco Itaú
Agência 0036
C/C: 20592-0

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Autoridade da atração

Muita gente sabe por alto, mas quase ninguém faz conta a respeito. O poeta Roberto Piva foi produtor de shows de rock durante o maior período de hiato em sua obra poética - entre as publicações de Piazzas [1964] e Abra os olhos e diga ah! [1976]. A importância dele para a difusão da cena rock n´ roll durante os anos de maior influência da MPB no país não é café pequeno. E ninguém aqui está se referindo a Mutantes ou aos grupos surgidos no ranço tropicalista; Piva aliás, faz questão de afirmar: "a gente não dava a mínima pra isso tudo".

Então aluno da Escola de Sociologia e Política e professor de Estudos Sociais em escolas da periferia de São Paulo, ele acabou lançando bandas obscuras como o Spectral Zôo - "o conjunto que mais se auto-marginaliza na cidade, conseguindo grana pro sanduíche já basta" -, Distorção Neurótica e a Glass Stone Game , primeiro grupo do baterista Duda Neves, que de Mark Davis [a.k.a. Fabio Jr] a Kiko Zambianchi, passou também pelas bandas de Zé Rodrix, Ná Ozetti, Zé Geraldo e até Arrigo Barnabé.

A mais lendária das investidas de Piva, no entanto, é a Made in Brazil [foto abaixo - em 1973], hoje com mais de 40 anos de estrada, famosa também pela "influência" visual nos Secos & Molhados, e posteriormente no Kiss. Ou você nunca ouviu dizer que as máscaras do Kiss foram "inspiradas" nas faces setentistas de Ney Matogrosso & cia? Há quem jure que a maquiagem de Paul Stanley, com sua estrelinha preta em volta de um dos olhos, é cópia descarada daquela usada pelo guitarrista da Made, Oswaldo Vecchione, já em 1969, alguns anos dos gringos aparecerem.



Famoso no mundo do rock como Zeca Jagger, o crítico Ezequiel Neves passou a integrar a Made in Brazil em 1976. Mas consagrou-se mesmo foi como produtor dos discos de Barão Vermelho e Cazuza, na década de 1980. Nos primórdios da Rolling Stone Brasil,em 1972, Neves escreveu sobre o poeta & agitador cultural. "Roberto Piva é um dos sujeitos mais explosivos que conheço. Sua capacidade de congregar jovens para a música pop destrói todas as cinzentas barreiras de concreto que asfixiam os paulistas. Antes de Piva organizar concertos, praticamente não havia nada."

E completou: "Quando cheguei de Londres, no final de 1970, encontrei todo mundo falando dos pop shows que ele organizava. Fui a vários deles. A garotada vibrava, os conjuntos eram bons [ótimos, alguns] e a atmosfera era puro Woodstock-mirim. Piva fazia sua apresentação de cada um deles e suas palavras amplificadas pelas caixas de som eram sempre aplaudidas. Piva me lembra um super-índio branco, um cacique que espera para sua tribo o nascimento dias melhores cheios de sol e música".

Sobre seu método de divulgação, o poeta falou à revista. "Eu vou de bairro em bairro e pela vibração descubro os hambúrgueres, os botecos, as sinucas onde a garotada daquele bairro se junta. Chegando a esse boteco, eu sigo o princípio de Platão, escolho o garoto mais bonito, entrego os lembretes impressos do show e digo: você tem que levar todo mundo no meu show. Aí eu consigo o que nenhum veículo de comunicação de massa vai conseguir, o toque pessoal da comunicação. Aquilo que o Fourier chamou de 'autoridade da atração´."

[continua...em páginas mais recheadas e suculentas, devidamente editadas e impressas, very soon.]