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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Uma entrevista perdida do Piva


Aproveitando os 50 anos de "Paranóia", completados este mês, eis uma entrevista garimpada de Roberto Piva a Álvaro Alves de Faria na rádio Jovem Pan nos anos 1980, logo depois do lançamento de "20 Poemas Com Brócoli". Pena não termos acesso à época da pesquisa de "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Bicelli, Franceschi e Uma Trajetória Paulista de Poesia", que lancei com a Camila Hungria em 2001. Muita coisa ainda permanece em baús individuais. Mas vamos encontrando Alephs nos porões & sótãos. 


Eu poderia transcrever trechos da entrevista aqui, mas é tão bom que prefiro deixar com vocês. A visão de Piva sobre "gerações poéticas", os poetas cânones das capas do caderno Ilustrada, Dante Alighieri e as saunas do subúrbio que os operários frequentam -- mas que Lula, então sindicalista, sequer passa perto.  Façam o melhor proveito!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Futebol de prosa e futebol de poesia





O texto é do meu cineasta favorito. O assunto é um dos meus favoritos: o futebol de Copas. E claro, também o jornalismo. Li pela primeira vez no recém-extinto caderno Mais! da Folha de S. Paulo, em algum lugar dos anos 2000. Foi escrito, no entanto, meses após a final da Copa de 1970.

Futebol de prosa e futebol de poesia

Por Pier Paolo Pasolini (Tradução: Mauricio Santana Dias)

Em meio ao debate atual sobre os problemas linguísticos que separam de forma artificial literatos de jornalistas e jornalistas de jogadores, fui indagado por um gentil repórter do Europeo; mas minhas respostas saíram cortadas e depauperadas no tabloide (por causa das exigências jornalísticas!). Porém, como o assunto me interessa, gostaria de voltar a ele com mais calma e com a plena responsabilidade sobre aquilo que digo. O que é uma língua? “Um sistema de signos”, responde hoje do modo mais exato um semiólogo. Mas esse “sistema de signos” não é apenas, necessariamente, uma língua escrita-falada (esta que usamos agora, eu escrevendo e você, leitor, lendo).

Os “sistemas de signos” podem ser muitos. Vejamos um caso: você, leitor, e eu estamos numa sala onde também estão presentes Ghirelli e Brera [1], e você quer me dizer algo sobre Ghirelli que Brera não deve ouvir. A situação impede que você me fale por meio do sistema de signos verbais, e então é preciso recorrer a outro sistema de signos, por exemplo, o da mímica; aí, você começa a revirar os olhos, a entortar a boca, a agitar as mãos, a ensaiar gestos com os pés etc. Você é o “cifrador” de um discurso “mímico” que eu decifro: isso significa que possuímos em comum um código “italiano” de um sistema de signos mímico.

Outro sistema de signos não verbal é o da pintura; ou o do cinema; ou o da moda (objeto de estudo de um mestre nesse campo, Roland Barthes) etc. O jogo de futebol também é um “sistema de signos”, ou seja, é uma língua, ainda que não verbal. Por que digo isso (que em seguida pretendo desenvolver esquematicamente)? Porque a “querelle” que contrapõe a linguagem dos literatos à dos jornalistas é falsa. E o problema é outro.

Vejamos. Toda língua (sistema de signos escritos-falados) possui um código geral. Tomemos o italiano: usando esse sistema de signos, você, leitor, e eu nos entendemos porque o italiano é um patrimônio nosso, comum, “uma moeda de troca”. Entretanto, cada língua é articulada em várias sublínguas, e cada uma delas possui, por sua vez, um subcódigo: os italianos médicos se compreendem entre si – quando falam o jargão especializado – porque todos eles conhecem o subcódigo da língua médica; os italianos teólogos se compreendem entre si porque detêm o subcódigo do jargão teológico etc. etc.

A língua literária é também uma língua de jargão, com um subcódigo próprio (em poesia, por exemplo, em vez de dizer “speranza” é possível dizer “speme”, mas não estranhamos essa coisa engraçada porque se sabe que o subcódigo da língua literária italiana demanda e admite que, em poesia, sejam usados latinismos, arcaísmos, palavras truncadas etc. etc.).

O jornalismo nada mais é que um ramo menor da língua literária: para compreendê-lo, valemo-nos de uma espécie de subsubcódigo. Em palavras pobres, os jornalistas são apenas escritores que, a fim de vulgarizar e simplificar conceitos e representações, se valem de um código literário, digamos – para ficar no campo esportivo –, de segunda divisão. Assim, a linguagem de Brera é de segunda divisão se comparada à linguagem de Carlo Emilio Gadda e de Gianfranco Contini.[2] E a língua de Brera é, talvez, o caso mais bem qualificado do jornalismo esportivo italiano.

Portanto, não existe conflito “real” entre escrita literária e jornalística: o problema é que esta, coadjuvante como sempre foi, agora exaltada por seu uso na cultura de massa (que não é popular!), encampa pretensões um tanto soberbas, de “parvenu”. Mas vamos ao futebol. O futebol é um sistema de signos, ou seja, uma linguagem. Ele tem todas as características fundamentais da linguagem por excelência, aquela que imediatamente tomamos como termo de comparação, isto é, a linguagem escrita-falada.

De fato as “palavras” da linguagem do futebol são formadas exatamente como as palavras da linguagem escrita-falada. Ora, como elas se formam? Formam-se por meio da chamada “dupla articulação”, isto é, por infinitas combinações dos “fonemas” – que, em italiano, são as 21 letras do alfabeto.

Os “fonemas” são, pois, as “unidades mínimas” da língua escrita-falada. Se quisermos nos divertir definindo a unidade mínima da língua do futebol, podemos dizer: “Um homem que usa os pés para chutar uma bola”. Aí está a unidade mínima, o “podema” (para continuar a brincadeira). As infinitas possibilidades de combinação dos “podemas” formam as “palavras futebolísticas”; e o conjunto das “palavras futebolísticas” constitui um discurso, regulado por normas sintáticas precisas.

Os “podemas” são 22 (mais ou menos como os fonemas): as “palavras futebolísticas” são potencialmente infinitas, porque infinitas são as possibilidades de combinação dos “podemas” (o que, em termos práticos, equivale aos passes de bola entre os jogadores); a sintaxe se exprime na “partida”, que é um verdadeiro discurso dramático. Os cifradores dessa linguagem são os jogadores; nós, nas arquibancadas, somos os decifradores: em comum, possuímos um código.

Quem não conhece o código do futebol não entende o “significado” das suas palavras (os passes) nem o sentido do seu discurso (um conjunto de passes).

Não sou nem Roland Barthes nem Greimas, mas, como diletante, se quisesse, poderia escrever um ensaio sobre a “língua do futebol” bem mais convincente do que este artigo. Aliás, penso que se poderia escrever um belo ensaio intitulado “Propp [3] aplicado ao ludopédio”, já que, sem dúvida, como qualquer língua, o futebol tem seu momento puramente “instrumental”, regulado pelo código de forma rígida e abstrata, e o seu momento “expressivo”. Há pouco, disse que toda língua se articula em várias sublínguas, cada qual com um subcódigo.

Pois bem, do mesmo modo, com a língua do futebol é possível fazer distinções desse tipo: o futebol também possui subcódigos, na medida em que, de puramente instrumental, se torna expressivo.

Há futebol cuja linguagem é fundamentalmente prosaica e outros cuja linguagem é poética. Para explicar melhor minha tese, darei – antecipando as conclusões – alguns exemplos: Bulgarelli joga um futebol de prosa, é um “prosador realista”; Riva joga um futebol de poesia, é um “poeta realista”. Corso [4] joga um futebol de poesia, mas não é um “poeta realista”: é um poeta meio “maldito”, extravagante.

Rivera joga um futebol de prosa: mas sua prosa é poética, de “elzevir”. Também Mazzola [5] é um prosador elegante e poderia até escrever no Corriere della Sera, mas é mais poeta que Rivera: de vez em quando ele interrompe a prosa e inventa, de repente, dois versos fulgurantes.

Note-se que não faço distinção de valor entre a prosa e a poesia; minha distinção é puramente técnica. Entretanto nos entendamos. A literatura italiana, sobretudo a mais recente, é a literatura dos “elzevires”: os escritores são elegantes e, no limite, estetizantes; a substância é quase sempre conservadora e meio provinciana... Em suma, democrata-cristã. Todas as linguagens faladas em um país, mesmo as mais especializadas e espinhosas, têm um terreno comum, que é a cultura desse país: sua atualidade histórica.

Assim, justamente por razões de cultura e de história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente de prosa, seja ela realista ou estetizante (este último é o caso da Itália); ao passo que o futebol de outros povos é fundamentalmente de poesia.

Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos de gol. Cada gol é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada gol é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética. O artilheiro de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano. Neste momento, Savoldi [6] é o melhor poeta. O futebol que exprime mais gols é o mais poético.

O drible é também em essência poético (embora nem sempre, como a ação do gol). De fato, o sonho de todo jogador (compartilhado por cada espectador) é partir da metade do campo, driblar os adversários e marcar. Se, dentro dos limites permitidos, é possível imaginar algo sublime no futebol, trata-se disso. Mas nunca acontece. É um sonho (que só vi realizado por Franco Franchi [7] nos Mágicos da bola, o qual, apesar do nível tosco, conseguiu ser onírico à perfeição).

Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto, o futebol deles é um futebol de poesia – e, de fato, está todo centrado no drible e no gol. A retranca e a triangulação é futebol de prosa: baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo coletivo e organizado, na execução racional do código. O seu único momento poético é o contra-ataque seguido do gol (que, como vimos, é necessariamente poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individual (drible e gol; ou passe inspirado).

O futebol de prosa é o do chamado sistema (o futebol europeu). Nesse esquema, o gol é confiado à conclusão, possivelmente por um “poeta realista” como Riva, mas deve derivar de uma organização de jogo coletivo, fundado por uma série de passagens “geométricas”, executadas segundo as regras do código (nisso Rivera é perfeito, apesar de Brera não gostar porque se trata de uma perfeição meio estetizante, não realista, como a dos meio-campistas ingleses ou alemães).

O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da “prosa coletiva”): nele, o gol pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o gol são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia. Sem fazer distinção de valor, mas em sentido puramente técnico, no México a prosa estetizante italiana foi batida pela poesia brasileira.

[1] Antonio Ghirelli (1922), jornalista e porta-voz do futuro presidente italiano Alessandro Portini; e Gianni Brera (1919-1992), jornalista esportivo. [N. do E.]
[2] Carlo Emilio Gadda (1893-1973), escritor; e Gianfranco Contini (1912-1990), crítico literário. [N. do E.]
[3] Vladimir Propp (1895-1970), crítico estruturalista russo que analisou as narrativas populares. [N. do E.]
[4] Giacomo Bulgarelli (1940-2009), meio-campista; Luigi Riva (1944), atacante; e Mario Corso (1941), armador. [N. do E.]
[5] Gianni Rivera (1943), meio-campista; Sandro Mazzola (1942), atacante. [N. do E.]
[6] Giuseppe Savoldi (1947), atacante italiano. [N. do E.]
[7] Franco Franchi (1922-1992), um dos principais nomes do cinema cômico italiano. [N. do E.]

sexta-feira, 18 de junho de 2010

RIP Massao & Saramago: junho

As Intermitências da Morte
José Saramago se foi e eu nunca fui sua leitora voraz. Sua lógica implacável & sua lucidez labiríntica são mais do que admiráveis, concordo, mas eu não sei ler nada cuja racionalidade não se misture ao fígado e ao sistema reprodutor e, sobretudo, que não renda umas boas imagens poéticas ou cinematográficas. Aí você vai dizer que eu sou burra, até porque Saramago já deu filme e, de fato, aquela ideia de cegueira branca é uma das coisas mais bonitas do mundo. Ok, a deficiência é minha. Mas sem escapar do inevitável paralelo clichê, tenho lido António Lobo Antunes e entendo completamente como é que um livro muda uma pessoa. São pertubadores, esses dois portugueses. Cada um à sua maneira. Eu apenas prefiro o segundo.

O Espadachim Infalível
Como é que um livro muda uma pessoa? Os livros de Massao Ohno me mudaram completamente. Se não fosse Massao Ohno, Paranóia (1963) e Piazzas (1964) de Roberto Piva provavelmente não teriam sido editados. "Não havia grito ou poesia no ar que ele não transformasse em livro", disse Jorge da Cunha Lima, em seu blog. Hilda Hilst, Jorge Mautner, Renata Pallottini, Claudio Willer, Celso Luiz Paulini, Rodrigo de Haro e até Augusto Boal: todos ganharam vida livresca pela cabeça visionária do Massao.

Se formou dentista numa família de engenheiros. Abandonou a profissão. Montou uma gráfica que imprimia livros para cursinhos pré-vestibulares, na Rua Vergueiro. Com essa grana, investia em livros de baixa tiragem e refinado apuro gráfico. Era um auto-mecenas. Parou de editar após o Golpe Militar e voltou no final dos anos 1970, se associando a novos mecenas a partir dos anos 1980 para continuar publicando. Reproduzia desenhos, pinturas, gravuras e fotografias de artistas da vanguarda paulista. Massao fez muito da vanguarda paulista. Massao fez muito de São Paulo.

Mas essa história os protagonistas contam. Minha função é apenas investigar, coletar, organizar e escrever. Nas duas vezes em que estive com Massao Ohno, temi por sua voz baixa e tranquila no gravador: "e se não gravar?". Na primeira, saímos do prédio rindo e conversando enquanto o editor-samurai segurava nas mãos uma sacola de feira para comprar frutas. Na segunda, bebemos café em potinhos de banchá.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Paz

Garabato

Con un trozo de carbon
Con mi gis roto y mi lapiz rojo
dibujar tu nombre
el nombre de tu boca,
el signo de tus piernas
en la pared de nadie.
En la puerta prohibida
grabar el nombre de tu cuerpo
Hasta que la hoja de mi navaja
sangre
y la piedra grite
y el muro respire como un pecho.

Octavio Paz

domingo, 22 de junho de 2008

Um tanka pra ti

Como se houvesse uma escuta
clandestina do pensamento
afastei o estetoscópio do peito.

Takuboku Ishikawa, 1910.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

[Amor e] Fala

Fala

Falo de agrestes
pássaros de sóis
que não se apagam
de inamovíveis
pedras

de sangue
vivo de estrelas
que não cessam.

Falo do que impede o sono.

Orides Fontela, em "Teia".

segunda-feira, 14 de abril de 2008

natureza morta

Toda coisa que vive é um relâmpago.

(CACASO)

segunda-feira, 3 de março de 2008

Vozes violentas

para o Carlinhos


vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
coxas imberbes e brancas.
vou dilapidar a riqueza de tua
adolescência. vou queimar teus
olhos com ferro em brasa.
vou incinerar teu coração de carne &
de tuas cinzas vou fabricar a
substância enlouquecida das
cartas de amor.
(música de
Bach ao fundo)

ROBERTO PIVA em "20 poemas com brócoli" (1981)



"Anotações para um apocalipse"


A Fera voltará, com seu rosto de tranças de prata, nua sobre o mundo. A Fera voltará, metálica na convulsão das tempestades, musgosa como a noite dos vasos sanguíneos, fria como o pânico das areias menstruadas e a cegueira fixa contra um relógio antigo. Um sonho assírio, eis nossa dimensão. Um crânio amargo, velejando com a inconstância do sarcasmo em meio a emboscadas de insetos, um crânio azul e sulcado, à janela nos momentos de espera, um crânio negro e fixo, separado das mãos que o amparam por tubos e esmagando os brônquios da memória – assim se solidificarão as vertigens jogadas sobre a lama divina. O incesto é uma tempestade de luas gelatinosas e a mais bela aspiração dos membros dissociados. Em cada órbita uma avalanche de sinos férteis e de arcanjos terrificados pela sombra. O incesto é o sonho de uma matriz convulsiva e o mais profundo anseio das cigarras. Vaginas de cimento armado e urnas sangrentas, impassíveis contra um céu de veludo, guardiãs de oceanos impossíveis. Milhões de lâminas servem de ponte para os desejos obscuros – a mais afilada trará a nossa Verdade.

CLÁUDIO WILLER, em "Anotações para um apocalipse" (1964)


"Paisagem"

(- Ryder)

para M. Afonso

Verás cor de vinho a nuvem
E sob a nuvem
A bandeira cravada junto ao precipício

Aqui é a floresta de Arden:
Esporeando
O corcel branco

Ele guinchou-se aos céus
Numa curva Real

RODRIGO DE HARO, em "A Taça estendida" (1968)


"Profissão de má fé"


Os poemas devem ser gordos
e ter penas
como os frangos
os frangos úmidos dos quintais
os belos frangos
que ciscam o chão &
bicam os pés de urtiga
rasgado o peito
está o coração
pobre balão
sangue suor e nostalgia
amar é passar o dedo
numa agulha de vitrola
as poças d'água
as flores ásperas
os poemas frouxos
cordas soltas de celo
esse som
que vem de dentro
soprado pela boca indizível
que tentamos saber
que tentamos traduzir
essa onomatopéia delirante
que nos obriga a dizer
Eu te amo
quando queremos sussurrar
Ben Close dinamite &
sempre teus lábios matam.

ROBERTO BICELLI, em "Antes que eu me esqueça" (1976)


"Circo Máximo"

Leões incontidos
tangenciam os varais
sou a carne exposta
no festim impuro

promessas de meu ventre
em seus dentes duros

no sangue imolado
de rompidas veias

me parto hóstia fendida
me derramo na areia

eu matéria consentida
desta rude ceia

ANTONIO FERNANDO DE FRANCESCHI, em "Tarde Revelada" (1987)

sábado, 5 de janeiro de 2008

Os incompreendidos

Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
com a lixa do verso.

Vladimir Maiakóvski, "O poeta operário" (trecho)

Foi dada a largada. And the winners are...

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Xamânicas de Piva

Acaba de ser pulicada pelo site de literatura Cronópios, nossa entrevista com o poeta Roberto Piva. Clique aqui para ler.

"Agora vocês vão gritar enlouquecidas na esquina da Ipiranga com a São João,esperando que os demônios de Dante as alcancem, vindos de um disco voador às 5" - Roberto Piva, para Renata D´Elia & Paula Dume.

Abaixo, o poeta autografa livros em seu apartamento.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Antes que eu me esqueça

Em 1977, o cineasta e crítico Jairo Ferreira já havia filmado três curtas, auxiliado por gente como Carlos Reichenbach, Inácio Araújo e Rogério Sganzerla.

Conheceu o poeta Cláudio Willer no mesmo ano, entrevistando-o para a Folha de S. Paulo. Na época, Willer iniciava um projeto editorial chamado Feira de Poesia, que lançaria em dezembro sua primeira obra literária - "Antes que eu me esqueça", de Roberto Bicelli, com desenhos de um ilustrador até então desconhecido, Guto Lacaz.

Jairo Ferreira tomou conhecimento sobre o festim poético que se realizaria para o lançamento do livro em questão. Não por acaso, era o próprio Bicelli que organizava o evento, no Teatro Célia Helena. Não haveria somente sua leitura, mas participações de Roberto Piva, Eduardo Fonseca, Cláudio Willer, Nelson Jacobina e Jorge Mautner.

O resultado é um filme homônimo de 14 minutos, pouco (ou nada) visto nos últimos 30 anos. "Antes que eu me esqueça" faz parte do acervo do Itaú Cultural e está sendo exibido no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo - 2007, junto de outros 4 curtas de Jairo Ferreira.

Na foto abaixo, o encontro entre os poetas e alguns papagaios de pirata. Em sentido horário: Willer, Lia, Bicelli, Renata, Wagner e Douglas. No Catedral, São Paulo - ago/2007:

sexta-feira, 1 de junho de 2007

A tediosa chama do desejo

No novo álbum de Björk, "Volta", há um dueto com Antony Hegarty (de Antony & The Johnsons). "The Dull Flame of Desire" é um poema russo de Fyodor Tyutchev, que no álbum aparece em tradução feita para o filme "Stalker", de Andrei Tarkovski.

(Algumas das imagens mais lindas do mundo estão em Andrei Rublev, vale ressaltar)



A tediosa chama do desejo


Eu amo seus olhos, meu querido (minha querida)
Esse fogo esplêndido, brilhante

Quando de repente você os levanta
E destila um olhar rápido e devastador

Como que acendendo e iluminando o céu
E há ainda encanto maior

Quando os olhos do meu amor se entreabrem
Quando tudo se queima em beijos de paixão

E através dos seus cílios abatidos
Eu vejo a tediosa chama do desejo


* tradução de Renata D´Elia, do Inglês.

sábado, 19 de maio de 2007

Bicellianas e outras.

No site tem uma matéria com o professor Sérgio Amadeu, da Cásper Líbero, que fala sobre o lançameto de seu livro. Sobre o quê fala o livro? "Commons". Clique aqui.

Na capa, tem uma entrevista com o grande Roberto Bicelli, poeta e coordenador interino da Funarte - SP. A entrevista editada está aqui - clique já. . As partes cortadas estão aqui, abaixo.

Como andam as políticas públicas na área das Artes Visuais?
A Funarte, através da Rede Nacional de Artes Visuais, atua em todo o país com artistas convidados e locais, críticos, documentaristas e palestrantes. Edita catálogos e livros de crítica sempre muito importantes e bem cuidados,atua no fomento, apóia a pesquisa, a experimentação, promove a circulação de obras, preserva a memória das artes visuais no Brasil recuperando e catalogando acervos. Ou seja, está também se adequando às propostas da nova direção que manteve em boa hora o poeta, músico, artista plástico,teórico e produtor de artes visuais Xico Chaves à frente do CEAV (Centro de Artes Visuais). Esta semana foram lançados sete editais que não beneficiam só as Artes Visuais, mas a música, o circo, e o teatro. Haverá a seleção de projetos de fomento para o Conexão Artes Visuais MinC/Funarte/Petrobras, por exemplo e também ocorrerão premiações como o Prêmio Projéteis Funarte de Arte Contemporânea 2007. São ações muito promissoras no fomento da arte e da cultura.
.
Quanto custa para o governo manter projetos como os Espaços Funarte de Artes Visuais, de São Paulo?
Posso falar da Funarte - SP que, em 2007 deverá gastar R$100.000,00 (cem mil reais) para expor 30 artistas escolhidos por júri constituído por Agnaldo Farias, David Cury e José Roberto Aguilar .É uma quantia que, bem aproveitada, dará conta do cachê dos artistas, da montagem, divulgação, catálogo e demais despesas inerentes às 6 exposições que faremos. Para os projetos que citei acima, serão destinados mais de 2 milhões de reais a cada um deles.

Celso Frateschi, ex-secretário de cultura da cidade de São Paulo, tomou posse como presidente da FUNARTE. A literatura está em pauta para fazer parte das ações promovidas pela instituição. Quais são as expectativas a respeito?
O novo presidente da Funarte, Celso Frateschi, grande ator e gestor experimentadíssimo, deseja que atuemos em sintonia com a Educação. Nesse sentido a Funarte não será apenas um espaço cultural a mais na cidade, mas um espaço de reflexão e de formação. A literatura será importante em todo esse processo e desenvolveremos ações de excelência na área.

A Lei Rouanet tem sido duramente criticada nos últimos tempos, em parte devido ao financiamento do projeto “Amores Expressos”. Como você enxerga este processo?
A Lei Rouanet deverá ser modificadas em muitos aspectos. O ministro Gil trabalha nesse sentido, tem o diagnóstico preciso da situação e esperamos que ele tenha apoio político para isso. Agora, quanto aos escritores viajantes: boa viagem!

sábado, 21 de abril de 2007

Claudio Willer - uma entrevista

Esta semana foi publicada no Site Cultura da Cásper Líbero uma entrevista com Claudio Willer.

Logo abaixo há uma questão na íntegra. A resposta publicada foi editada, mas aqui há umas curiosidades e detalhes importantes sobre a tradução da obra-prima de Allen Ginsberg, "Uivo, Kaddish & Outros poemas".

Enquanto traduzia “Uivo, Kaddish & Outros Poemas”, de Ginsberg, você chegou a se corresponder com ele. Conte-nos um pouco sobre estes diálogos. Quais foram as suas impressões sobre este homem por trás do escritor?

Foi decisiva para a preparação de Uivo, Kaddish & Outros Poemas a correspondência que mantive na época, em 1983, com o próprio Ginsberg, mais a nota autobiográfica (Autobiographic Precis) enviada por ele. A seleção dos poemas e o plano editorial lhe foram apresentados. Ele os aprovou, comentou, deu sugestões e esclareceu dúvidas de interpretação do texto. Depois de publicado Uivo, Kaddish e outros poemas, passou a enviar-me as novas edições de sua obra pela Harper & Row, com cartões para o dear translator friend. Deu notícias até pouco antes do final, em 1997.

Um procedimento que utilizei, sempre que tivesse função no texto, enriquecendo-o e adequando-se ao ritmo e prosódia, foi a dupla tradução, uma palavra para cada sentido. Isso de certo modo me foi sugerido pelo próprio Ginsberg. Uma das dúvidas que lhe apresentei referia-se à palavra rare, em Sobre a obra de Burroughs, um poema importante por conter uma poética, idéias sobre criação literária. Na frase with rare descriptions, a expressão rare corresponde a raro, diferente, especial; mas também podia significar cru, mal-passado, como em rare done meat, bife mal-passado. Ginsberg respondeu-me que, para ele, os dois sentidos cabiam, e a escolha ficava por conta da minha sensibilidade (your delicacy of feelings, escreveu). Então, fiz a dupla tradução, obtendo como resultado com raros relatos crus. Repliquei esse procedimento, dupla tradução, em outras passagens de seus poemas.

Ginsbrg foi atencioso, e profissional: levava a sério edições da sua obra. Agora, quanto a impressões sobre o homem por trás do escritor, não acrescentou muito, pelo seguinte: eu já tinha uma imagem de Ginsberg, formada por tudo o que havia lido dele e sobre ele. Se o tivesse encontrado pessoalmente, aí sim, teria acrescentado algo.

sábado, 14 de abril de 2007

Para fazer um poema ruim

Tenho ganas de gritar pelas terraças
Quebrar os telhados a passos largos e pulos de criança
Profanar aos gritos e interromper
as bocas, os cuspes, as trepadas
as noites de Cabíria.

Aquele Tadzio é um filho da puta
alucinação muda
miragem
que chuta na boca do estômago
quem já cansou de viver

Ou ainda
Oxalá branco e lindo
que leva pelas mãos
e sopra no rosto
prá sarar a dor

Quero ser a Deneuve Buñueliana
Paulo Autran com a bandeira preta
mas não ao mesmo tempo
pra não encavalar as estrófes

No fim quem se importa
se tem duas, três, quatro, cinco
seis, sete, mil
ou nenhuma linha

Agora Philip Glass me faz chorar prá dentro
mas eu amanheci pra fora
e não tem volta

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Quatro pragas

Sou esse menino desagradável,
sem dúvida inoportuno,
de cara redonda e suja, que fica nos
faróis, onde as grandes damas,
também iluminadas,
onde as meninas que parecem levitar,
projetam o insulto de suas caras redondas e sujas.
Sou uma criança solitária, que
o insulta como uma criança solitária, e o avisa:
se por acaso bater na minha cabeça,
aproveitarei a chance para roubar-lhe a carteira.
Sou a criança que provoca terror
por iminente lepra, iminentes pulgas, ofensas,
demônios e crime.
Sou aquela criança que improvisa uma
cama de papelão
E espera,
certo de que você me acompanhará.” , Reinaldo Arenas



Teus olhos não ficam bem senão em mim
Que desato o bouquet de tua angústia
Neste tempo de espera.
Sofres um solidão recortada
Na tarde de tuas pálpebras
Absorto no retorno das nuvens
Magoadas de outros climas.
Só eu sei, silêncio de jade,
Flor da manha, Deus triste,
O que te consola do vento.
Só eu sei que não sabes
Eximir-te do enfado,
Da noite, das bocas.
, "Noturno", de Roberto Piva


the best often die by their own hand
just to get away,
and those left behind
can never quite understand
why anybody
would ever want to
get away
from
them
"Cause and Effect", Charles Bukowski


Polly Kellog e o motorista Osmar.
Dramas rápidos mas intensos.
Fotogramas do meu coração conceitual.
De tomara-que-cáia azul-marinho.
Engulo desaforos mas com sinceridade.
Sonsa com bom-senso.
Antena da praça.
Artista da poupança.
Absolutely blind.
Tesão do talvez.
Salta-pocinhas.
Água na boca.
Anjo que registra.
"Sumário", de Ana Cristina César.

domingo, 8 de abril de 2007

Abaixo o lirismo comedido!


Quando gênios dialogam:

"A tua burguesia é uma burguesia de loucos, a minha, uma burguesia de idiotas. Você se revolta contra a loucura com a loucura (distribuindo flores aos policiais); mas como se revoltar contra a idiotia? (...)

Você se revolta contra os pais burgueses assassinos permanecendo no mesmo mundo que é o deles... classista (é assim que nos expressamos na Itália)e, portanto, é obrigado a inventar de novo e de modo mais completo, dia após dia, palavra após palavra - a tua linguagem revolucionária. Todos os homens da tua América são obrigados, para se exprimirem, a ser inventores de palavras! Nós aqui, ao contrário (mesmo aqueles que têm dezesseis anos), já temos nossa linguagem revolucionária pronta e acabada, com uma moral implícita. Também os chineses falam como funcionários públicos. E eu também - como está vendo. Não consigo misturar a prosa com a poesia (como você faz!) - e não consigo esquecer jamais - e naturalmente nem neste momento - que tenho deveres lingüísticos."


Carta de Pier Paolo Pasolini para Allen Ginsberg, em 1967.

O trecho acima foi retirado do livro de Maria Bethânia Amoroso, "Pier Paolo Pasolini", editado pela Cosac& Naify. Isso na ocasião da homenagem a Pasolini, na 26ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Na foto, nada mais que um "TEOREMA".

sábado, 24 de março de 2007

Dá pra ser o mesmo depois disso?

A Piedade

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida

as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo será dócil e só se ergueria aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?

eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas
de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que
eu tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça decompõem nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos


- Roberto Piva, em "Paranóia"


Meu exemplar do livro foi editado pelo Instituto Moreira Salles, em 2000. É a segunda edição, com ilustrações de Wesley Duke Lee. A primeira foi publicada por Massao Ohno entrevistado por mim e pela Dume, para o site de cultura da Cásper Líbero.