sábado, 24 de março de 2007

Dá pra ser o mesmo depois disso?

A Piedade

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida

as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo será dócil e só se ergueria aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?

eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas
de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que
eu tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça decompõem nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos


- Roberto Piva, em "Paranóia"


Meu exemplar do livro foi editado pelo Instituto Moreira Salles, em 2000. É a segunda edição, com ilustrações de Wesley Duke Lee. A primeira foi publicada por Massao Ohno entrevistado por mim e pela Dume, para o site de cultura da Cásper Líbero.

5 comentários:

Jordani disse...

Paranóia, paranóia, paranóia, paranóia, paranóiaaaaaaaa!

[ganindo como uma cadela no cio].

Ivan disse...

deliakultur

Jordani disse...

Maneira Zé Celso de comentar Piva.

[esse aí tem na biblioteca da Cásper]

Iza disse...

D'Élia!

Tudo bem?

Não sei se tem muito a ver, mas fiquei pensando em algo após ler o seu post.

Paranóia é algo terrível, né?! Pelo Amor de Deus, essa com certeza é a doença do século, junto com o estress e a depressão, né?!

Tudo no mundo gira em torno de paranóia atualmente. Até eu, acho, vivo um pouco dentro de uma paranóia constante com a minha pessoa.

Sabe? Queria ser com a Preta Gil - essa sim é a pessoa certa... Tem auto-estima, é engraçada e fica sempre com caras lindos! Com certeza, ela não deve ser paranóica.

Desculpe pelo desabafo, mas foi realmente isso o que ficou martelando em minha cabeça após ler o teu post.

Saudades, mulher!

Beijos :)

Dume disse...

paranóia não mata.
mas, a pequenez e mesquinhez humanas ... ah, que tragédia!