quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Let England Shake

Não esqueci da PJ Harvey, musa habitual em toda casa que se preze. Seu disco "Let England Shake" veio a calhar com a crise europeia e a tonelada de protestos na Inglaterra no ano do casamento do Príncipe William com a plebeia Kate Middleton. É a cantora mais cultuada da Inglaterra depois de Kate Bush -- num hype diferente de Amy Winehouse e Adele -- e uma das mais inventivas e iconoclastas em atividade. Dá pra entender o peso de um disco conceitual ora político, ora afetivo, às vezes orgulhoso, lançado por ela. 

A morte, a honra, a guerra e seus guerreiros estão lá, mas de um jeito feminino, com arranjos vocais corajosamente sofisticados para uma vocalista que não é das mais técnicas, mas que acerta no tom. Bandolins se misturam a cornetas, violões, guitarras, instrumentos de sopro e aquela harpa muito louca que eles chamam de "autoharp" (ainda não chegou na Santa Ifigênia, acho). E assim nós temos mais um pedacinho de arte que se afasta do pop tradicional e que por isso não vai ser trilha sonora do nosso verão fácil & colorido. Mas vale as audições introspectivas e desencanadas.     



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sobre Brasílias e Del Reys

O regente Tiago Pinheiro, à frente do Coral Paulistano e do CoralUSP, me contou uma história engraçada sobre uma Brasília, um atoleiro no Brooklin dos anos 1970, e uma canção do Nelson Gonçalves. Mas isso fica pra entrevista, que ainda vai sair na revista sãopaulo. Não vamos estragar a surpresa! 

Lembrei disso numa conversa sobre carros velhos, memórias de infância e música com um outro Thiago, o Teixeira, que descobri apurando uma matéria sobre futebol indie (porque não apenas as pautas, mas os personagens também devem ser interessantes, senão não vale a pena enriquecer o patrão). Ele é o feliz dono de um Lada vermelho. E começamos um papo sobre Variants, Opalas e Monzas que me lembraram  uma doce passagem paulistana. 

Foi possivelmente no ano 2000. Ou antes. Eu era adolescente e estava sentada no Palio da minha mãe, num semáforo próximo à estação Parada Inglesa do metrô. Estávamos no verão, fazia sol e nosso carro não tinha rádio. Foram exatos 10 segundos até que um Del Rey verde escuro, pitura intacta, bancos convidativos, ocupasse quase toda a largura da faixa ao lado. Dentro dele, duas garotas de óculos escuros. A motorista era ruiva, tinha um cabelão e mascava chicletes. Parecia absolutamente dona de si e do carro do vovô.  Todas as janelas estavam abertas e por elas saía o mais íntegro & alto som do Led Zeppelin. Três minutos depois, viraram à direita e nunca mais as vi. 

Até hoje não sei se delirei ou não, mas gosto de pensar que um dia vou dirigir piscianamente por toda a Califórnia até o deserto de Nevada com carro & música similares. Espero que as garotas do Del Rey tenham realizado sonhos parecidos. Agradeço por terem me dado esta visão embrionária do "vintage". 

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Portifa de Cidades - 2011

Comecei a cobrir Cidades em 2011. Gostei da novidade e em 2012 tem mais. Decidi postar aqui uma pequena parte deste portfolio impresso em veículos como a Veja São Paulo, a revista sãopaulo (Folha de S. Paulo) e o guia GPS. Vão também uns links para o que está online. E vamos colocar um pouco de ordem nessa baguncinha!

Na Veja São Paulo, tem os históricos dos bairros de Perdizes e Moema, respectivamente linkados. 

Na revista sãopaulo tem tudo isso aí embaixo, um pouco mais a sair, e esta matéria sobre cursos, pra quem quer aprender a plantar bananeiras no ano que vem. Clicando nas imagens já dá leitura, mas se salvar dá pra ampliar as matérias.

                                       O Dono do Traço - Pedro Paulo de Mello Saraiva, para o Edifício Acal (Jardins)  

                                                 O Dono do Traço - Vilanova Artigas, para A Casinha (Campo Belo) 


Com que vinho eu vou?  Sommelier Marcos Freitas dá dicas  para escolher a  garrafa certa em cada ocasião

                                   Iniciação científica - Revisitamos a Estação Ciência, na Lapa, com o físico André Cirelli. 

                                    Vale Quanto Pesa - Mercadão da Lapa vende iguarias a granel e importados                                                 

     GPS - Gabriela Fernandes, produtora de eventos, indica 5 lugares para o amigo secreto da firma 

 Quatro séculos no papel: Arquivo Histórico Municipal abre exposição inédita com documentos paulistanos 


Regata rock n' roll - Miranda Kassin e André Frateschi experimentam remar na Raia Olímpica da USP
Os indies da bola - Cansados da badalação dos grandes times, paulistanos buscam futebol de outras divisões

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Meshell Ndegeocello


Meu amigo Xinho esteve em Nova York e voltou dizendo que assistiu a um show da baixista Meshell Ndegeocello no Blue Note. [Tudo bem, ele venceu: batata frita!] Gosto dela desde os tempos no MTV na Chapa, programa matinal em que Cazé Peçanha, Sabrina Parlatore e Rodrigo se revezavam como apresentadores. Não posso dizer que virei fã, eu não sabia muito bem como ouvir música aos 13 anos. Mas andei resgatando algumas coisas dela e acabo de chegar ao recém-lançado "Weather", que não recebeu qualquer comentário na imprensa tupiniquim e é provavelmente o disco mais solto que ela já fez.

São baladas sexies e emotivas misturadas a lampejos pops dançantes, ainda assim intimistas. Vai um pouco de jazz, outro de eletrônico, e mais um pedacinho de funk, onde a baixista mostra virtuosismo. Um dos  destaques é "Rapid Fire", espécie de introdução à relação entre casais urbanos numa atmosfera sofisticada, mas meio safadinha. "Chelsea Hotel" serve para o primeiro beijo. "Dirty World" traz uma linha de baixo absolutamente irresistível com guitarras pontuais e trejeitos radiofônicos.

Comuns na carreira de Meshell, as instrumentações acústicas tem um de seus melhores momentos em  "Crazy And Wild", trilha perfeita para um filme neurótico-romântico que, quem sabe um dia, terei competência e paciência pra fazer. [Mas isso só vai dar pra explicar quando sair]. Revelações na mesma linha prosseguem na esperta "Petite Mort", pra deixar confusos os fãs jazzy-pops-bonitinhos de Norah Jones. Mas o que há de mais parecido com aquela Meshell dos anos 1990, com potencial de videoclipe pop entre adultos, é "Dead End", uma mistura de violões e teclados com melodia e arranjos que colam no ouvido e provocam dancinhas no volante, especialmente em manhãs de sol.

Que pena que não temos Blue Note ou sinais de Meshell Ndegeocello por aqui.



From The Sky Down

Anton Corbjn/1991

Quando o U2 chegou a Alemanha para gravar as primeiras experimentações que originariam o álbum "Achtung Baby", em 1990, o muro de Berlim havia sido derrubado e o país vivia um processo de reunificação. Bono, Larry, Adam e The Edge decidiram se juntar a um dos grupos barulhentos que ocupavam as ruas destroçadas da futura capital. Passaram lá uma meia horinha como idiotas, sem entender nenhuma palavra, no meio de uma multidão séria e brava. Só depois é que se deram conta: era um protesto de comunistas que exigiam a reconstrução do muro; as comemorações pela nova era estavam do outro lado da cidade. 

Tendo os acontecimentos políticos como pano de fundo e buscando o histórico da banda desde os primórdios na cena pós-punk de Dublin, o documentário "From The Sky Down", de Davis Guggenhein, enfoca os desafios e o duro processo criativo do álbum frequentemente considerado como o melhor do U2. O clima tenso entre os integrantes da banda e a pressão para enterrar a postura de tempos passados e se reinventar após sentir na pele o fracasso do álbum-filme-turnê "Rattle And Hum" são retratados por meio de entrevistas, imagens de arquivo e até gravações dos esboços de obras irretocáveis como "Mysterious Ways" e "One". 

Foi a criação de uma estética para além do "ritmo de Manchester" até as "repetições e texturas de Berlim", berço do Kraftwerk e da música eletrônica, como lembram Bono e The Edge. É uma nova identidade complexa, tão irreverente quanto messiânica, grandiosa. Uma auto-sátira megalomaníaca feita pra esconder -- e pra forjar -- uma banda que encara os grandes estádios, lidera grandes produções, e ganha as massas com um som próprio e cheio de assinaturas. O apoio de Daniel Lanois e Brian Eno como produtores, além de Flood como engenheiro de som, Anton Corbjin como fotógrafo e criador desta nova imagem, também estão lá. A turnê "Zoo TV" conta o resto da história. 

Mas o mais curioso é observar o U2 em três momentos na mesma Berlim. O primeiro, num show de 1981, 10 anos antes, na esquecida era "October". Foi o primeiro VHS pirata que comprei na Galeria do Rock, por sinal. O segundo é lá, no portão de Brandenburgo, em 2009. E o terceiro é recheio do documentário.   




sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um poema do Zé

Umbra Umbela

Debaixo de teu guarda-sombras estão:
Borrascas, tempestades,
Corpo cheirando após a chuva,
Uma nota de um real amarfanhada onde alguém escreveu:
Que Deus me proteja, em quase incompreensível garatuja;
Um luar que range como se estivesse enferrujado
de tanto ficar parado no mesmo lugar,
A fertilidade de teu ventre,
Pirilampos tingindo todas as tuas noites mal dormidas,
Cupins a desesculpir teu leito,
As ilusões perdidas, os sísmicos abalos
que as fraturas de teu solo provocam,
O hálito neutro da manhã tornado vento
E que o braseiro de teus lábios traduz no mais
desejado beijo de uma vida;
fotografias desbotadas, notas dissonantes, harmonias tortas
a se compor disparatadas e soar como um outono,
folhas a cair milimetricamente ao pé dos plátanos
(que nem sequer existem fora dos romances),
florilégios de uma corte decadente e distante e perdida
que olhos num esgar decifram em hieroglifos,
sentidos múltiplos da mesma escrita;
mesas de bares, beiras de lagos e afetos,
arquiteturas que fazem olhar os céus
onde as constelações se descortinam a não nos revelar nada;
dedos finos, longos, a se incrustar em minhas costas,
em suas doces trilhas indeléveis;
arfar que se desconhecia em noites surpresas
da magia de gozos indecifráveis;
murmúrios, sussurros, palavras ditas que teimam
em jamais se repetir, inclusão de auroras, membros dormentes, peixes olhando paredes de aquários acostumados a nada transpor,
desenhos animados, fantasias, balões pisados no fim da festa,
comemoração que nunca finda, bolos dormindo nas geladeiras para o café da manhã que não virá,
eu tremeluzo, me inflo e abundo
nesta animação tanta e inúmera que tu és.


José Eduardo Mendonça

14 discos de 2011



Óbvio que é carne de vaca listar os melhores do ano. Mas prometi a Sérgio Martins e Fernando Neumayer uma lista de melhores do ano. Para o Itamar Montalvão também (ou não?). Resolvi comentar rapidamente não necessariamente os melhores, mas parte dos discos lançados em 2011 que chegaram aos meus ouvidinhos e ainda não foram comentados neste blog. 

Acho que a relevância de alguns discos citados não ultrapassará a barreira de 31 de dezembro. É meio mala fazer a gincana de quem tira mais bandecas da cartola para hypar com os 15 segundos de fama. Mas também quero participar da brincadeira.

E, NOSSA, quanta mulher nessa lista! Não espere encontrar Criolo, nem Wilco, nem Emicida. A Meshell Ndegeocello e o Paul Simon eu prometi que resenho depois. De resto, pode entrar, abrir a geladeira e ficar à vontade. 




Kate Bush - "50 Words For Snow"
Faz muito frio em Londres e já deve estar nevando. Kate Bush é mais inglesa que todas as cantoras inglesas dessa lista. Basta ligar os dois ponto



s para entender o porquê da omissão quase total dos brasileiros sobre o novo disco de uma das cantoras e compositoras mais excêntricas -- e brilhantes -- ainda em atividade. No nosso país tropical, abençoado por Deus, não é mais tão hype fazer cara de londrino ou perdeu-se de vez a mínima vontade de transcender a cartilha indie-pop de balada da semana, a menos que seja para rasgar seda para Adele, em substituição à Amy Winehouse. 


"50 Words For Snow" não é coisa para preguiçosos. Passando longe do histrionismo que a consagrou,  Kate faz um estudo musical de texturas invernais. E a neve, vocês sabem, é algo quase sempre triste e belo. Bases minimalistas ao piano e agudos ainda inacreditáveis abrem o repertório com "Snowflake". 


Em "Lake Tahoe", a cantora divide vocais graves com os cantores eruditos Stefan Roberts e Michael Wood. Bateria jazzística e letras românticas de intensidade corporal ocupam os espaços sonoros em "Misty", composta para um homem das neves. A mais pop do disco é "Wild Man", de melodia imprevisível e arranjos vocais tão perfeitos e estranhos que só nos resta pedir à St. Vincent (aí embaixo) pra aprender. Em "Snowed In At Wheeler Street", um surpreendente dueto com Elton John. Na faixa-título, Kate e o ator Stephen Fry se empenham para encontrar 50 sinônimos, entre vários neologismos, para a palavra "neve". "Among Angels" fecha o disco contando uma historinha sobre o serafim encontrado por Kate no meio dessa neve toda. É tudo exatamente oposto à canção pop tradicional. E uma obra de arte, não puro entretenimento.



FEIST - "Metals"
5 estrelas. A menos que você se identifique mais com alguma paradinha eletrônica igual àquela paradinha eletrônica que a gente dançou no Baixo Augusta ano passado, um solzinho no céu e uma sainha rodada no salão. Aqui é outra coisa. Leslie Feist faz um passeio visceral pelo que há de mais lírico e ritualístico no folk. Entra um trabalho arrojado de vocais, metais e cordas, daqueles que dão peso dramático à coisa. The Bad In Each Other e Graveyard já nasceram clássicas. Cadê o road movie com história de amor e visual modernoso pra usar na trilha sonora? How Come You Never Go There recupera o espírito de pop sofisticado e cheio de pedigrees dos álbuns anteriores, aquela performance vocal que a gente adora na Feist. Mas assim, é um álbum para poucos. Se você não é dos poucos e tem medo de parecer cabeçudinho, vá ouvir Foster The People e curtir a baladinha e pronto, tchau, nada contra (olha só a crítica deles lá embaixo). 




Adele - "21"
Vou gastar pouquíssimo tempo para falar de Adele, a delícia pop eleita por crítica e público como revelação do ano, porque é tudo chover no molhado. "Set Fire To The Rain" é uma das baladas pops do ano. "Rolling The Deep" é a música do ano. "21" é um dos discos do ano. Compre aí.



Tom Waits - Bad As Me
É provavelmente o disco mais bem arranjado de Tom Waits. Tantos saxofones, baixos funkeados (com a participação de Flea, dos Red Hot Chilli Peppers), gaitas de Charlie Musselwhite, pianos e guitarras blueseiras cercadas de fogo, delírios incrementados. Crueza e grosseria -- no melhor dos sentidos -- só mesmo na voz. Um espírito loser aqui, um tanto de álcool acolá e estamos numa atmosfera conhecida no trabalho de Tom Waits, só que mais sofisticada. Há ainda participações do saxofonista Clint Maedgen, Ben Jaffe no trombone e clarineta, e Keith Richards na guitarra. Será que a finada Amy Winehouse teria topado cantar em Bad As Me? Combinava com ela. De novo, no melhor sentido. Destaque para "Chicago", "Talking At The Same Time" e "Face To The Highway".

SuperHeavy - "SuperHeavy"
Desceram a lenha nesse disco na Rolling Stone, muita gente chamou de "muito étnico". Acho étnico, mas também digno, embora longe do maravilhoso. A banda formada por Mick Jagger, Damian Marley, Joss Stone, Dave Stewart (do Eurythmics) e A. R. Rahman faz uma mistura de reggae com rock e um pouco de eletrônico num disco que salienta a ala domesticada da Jamaica na Inglaterra. Mas tem aí pelo menos alguns bons momentos. "One Day One Night" e "Beautiful People" são dois exemplares de levada reggae bem sucedidos. "Never Gonna Change" é uma balada pop levada no violão com ares de "Out Of Tears", de Jagger e Richards, gravada pelos Rolling Stones no álbum "Voodoo Lounge" (1994). O ponto alto fica com "Rock Me Gently", em que Damian e Joss dividem os vocais, crescendo num refrão cantarolável e pegajoso.



Gal Costa - "Recanto"

Gal veio de um recanto escuro, como diz o verso de abertura do disco composto e produzido por Caetano Veloso. É a pura verdade. Nas mãos erradas, há pelo menos 20 anos ela produz vergonhas alheias exemplares, pesa no tom, e é cafona. Soa velha até cantando clássicos. Mas aqui ela se acerta. Sem os grandes agudos e histerias vibrantes do passado, nossa cantora mais cerebral provoca emoções distintas -- nunca derramadas -- num álbum que mistura violões a guitarras de ares vintage com leves traços psicodélicos, cacoetes de Gainsbourg e efeitos eletrônicos, inclusive em modulações vocais imperdoáveis aos puristas da MPB. Mas Gal chegou ao século 21. A molecada está ali: Moreno e Zeca Veloso, filhos de Caê e seus parceiros nos bem sucedidos Cê (2006) e Zie-Ziee (2009), além do produtor mais badalado da cidade, Kassin. Há a mesma poética caetana de herança concreta antenada, em busca de uma afirmação jovem, conceitual e minimalista. Agora os modernos já podem sair do armário: é hype gostar de Gal em canções como Tudo Doi, Autotune Erótico, O Menino e Mansidão, a mais bossanovista do repertório. Gal is alive. "Pelos caminhos que levam à grande beleza/americana global minha voz na panela-la". 


Lulu Gainsbourg - "From Gainsbourg To Lulu"

Pouco comentado no Brasil, é coisa chique. O filho de Serge e Jane Birkin convidou uma turminha ilustre para recriar pérolas da obra do pai num tributo sem erros. Começa com L'Eau A La Bouche em versão de samba para exportação. O derramado Rufus Wainwright imprime sua assinatura de diva ao piano a um dos mais belos exemplares da "chanson", Je Suis Venu Te Dire Que Je M'En Vais, numa válida versão sem resquícios da performance bêbada & emocionada de seu autor. Tem direito a um quarteto de cordas, inclusive. Scarlett Johansson encarna Brigitte Bardot em Bonnie & Clyde, em dueto com Lulu. Mas rá, essa foi fácil e óbvia, apesar da repaginada satisfatória. Johnny Depp & Vanessa Paradis abusam do baixo na indefectível Ballade de Melody Nelson. O francês Mathieu Chedid "M", Iggy Pop e Marianne Faithful também estão por ali. Destaque para Requiem Pour Un Con e Manon. Não precisa nem reinventar completamente o que está aqui. Para ouvir no carro, no metrô, em casa e na praia. Útil para jantares entre amigos. 


kd lang and The Siss Boom Bang - "Sing It Loud"

Esse monte de cantorinha fazendo mimimi bem baixinho + uns musiquinhos com uns barulhinhos e efeitinhos. Vocês adoram, vá entender. kd lang é o oposto. Praticamente um Roy Orbinson mulher, que também usa ternos, uma de nossas melhores cantoras desde os anos 1980. Canta para uma rua inteira, dá até medo. Foi darling nos anos 1990, enfiou o pé na jaca em trabalhos irregulares, encontrou a meditação e foi viver com namorada e cachorro nas montanhas. Mas aí ela resolveu cantar com sua velha banda e lançou um disco sem novidades estéticas, mas uma espécie de porto seguro onde a gente pode ser meio folk, meio rock, e muito denso, como em seus primeiros trabalhos. Vai lá, nêga, sem medo de quase parir enquanto canta. Solte as emoções, tenha lá duas ou três catarses e ouça o disco. Destaque para I Confess, uma súplica apaixonada, a derrubadora oficial de indies anódinos aqui nessa lista. A balada Heaven, por exemplo, também vale pra quando você quiser levar alguém pra cama (mas não conta pra ninguém que eu disse isso, preciso ser uma crítica séria).


St. Vincent - Strage Mercy
Não pega bem falar mal de Annie Clark, mais conhecida como St. Vincent. Longe de mim, aliás. Inventiva e elegante, numa atmosfera menos previsível do que de costume entre suas contemporâneas. Quando você acha que vai descambar pro uso banal de ecos e loopings, ela se antecipa a você com guitarras contrapostas a teclados que te levam da baladinha fechada a um link maluco. É o caso de "Surgeon", "Dilettante" e "Cheerleader", possivelmente as melhores do disco. Espere só até ela se achar completamente. Não haverá mais pontos baixos e a gente vai ter um belo próximo disco.


Lira - "Lira"
Graças a Deus esse disco de estreia solo de José Paes de Lira, o Lirinha, mal lembra os vôos de seu antigo grupo, o Cordel do Fogo Encantado, e desculpe aí se você se rasga pelos herdeiros do mangue beat, mas eu acho uma libertação necessária. O que pega aqui é a crueza e a honestidade de canções 100% guitarrísticas com algum regionalismo de sobra e flertes com o samba e o jazz. É coisa moderna. Otto, Fernando Catatau, Ângela Rô Rô e o recém-falecido Lula Cortês são algumas das participações do disco. Destaque para "Sidarta", "Sistema Lacrimal" e "Noite Fria".


Fleet Foxes - "Helplessness Blues"
Não uso barba, não falo caipira, tenho até algumas peças xadrez no armário mas tomo banhos demais para ser hipponga. Citem o Bob Dylan que quiserem: a ressurreição do Fleet Foxes, continuada no álbum de 2011, está no naipe de Sá & Guarabyra, Mercedes Sosa, um pouco do Clube da Esquina e do cancioneiro folclórico sulamericano, mas esse aí não pega bem ouvir. E o Fleet Foxes é mais mala. Prefiro os nossos violeiros. 


Foster The People - "Torches"
Grouplove - "Never Trust A Happy Song"
Black Keys - "Sister"

Não é gol de placa, mas uma abertura discreta no placar: apenas o disco de estreia da banda de synth-pop mais querida de Los Angeles, com todo aquele clima de festa, com direito a Houdini e Pumped Up Kicks, que são uma coisa muito boas de ouvir na balada e fora dela. É isso e a faixa de abertura, Helena Beat, mais algumas espertezas do tipo Don't Stop, um pop de refrão adesivo teletransportado dos anos 1960 para o século 21, com alguns tapinhas eletrônicos. Difícil de distinguir uma coisa da outra, é tudo muito homogêneo e não faria lá tanta falta deletar esse disco do HD. Vale a conferida pra não passar em branco pela banda, que ainda vai colar uns hits no futuro. E mesmo nessa linha, o Washed Out (que elogiei aqui anteriormente), faz melhor com Amor Fati e adjacências. No terreno do abadá indie no Playcenter, vale citar o Grouplove, com disco de estreia vibrante e colorido, flertando explicitamente com o rock, e mais expressivo que o Foster The People. Há pelo menos duas faixas pra pular de alegria: Tongue Tied e Lovely Cup. O melhor dessa safra indie tem os pés fincados no rock e se chama Black Keys, direto do Tenessee. Não comento, só posto uma dica.






terça-feira, 13 de dezembro de 2011

5 pautas fantásticas paulistanas

Sugestão 1: Alice, do País das Maravilhas, indica 5 buracos para seguir um coelho branco em São Paulo.

Sugestão 2: A São Paulo dos 7 anões -- Zangado elege o trânsito, Atchim reclama da poluição, Mestre dá palestra sobre a desfuncionalidade urbana, Soneca indica 5 lugares para roncar em público, Dengoso faz denguinhos com a estátua viva da Paulista, Dunga bate palmas e Feliz diz que a cidade é como Nova York, muito antenada e cosmopolita. Branca de Neve fugiu num SUV com o Príncipe Encantado e não vai querer dar entrevista. 

Sugestão 3: O espírito do poeta Roberto Piva elege 5 lugares xamânicos onde playboyzinhos paulistanos ouvirão, pela primeira vez, o poderoso ronco dos bugios. Inclui ilustrações e legendas para introduzir o gavião de penacho aos frequentadores do Baixo Augusta. 

Sugestão 4: Alzira Casado, terapeuta de casais, indica 5 lugares públicos de São Paulo para enfiar uma bolacha na cara daquele safado, galinha, sem vergonha que te traiu com aquela pilantra vagabunda. Ela ensina técnicas para dar audiência ao escândalo. Inclui infográfico para compreensão do termo "vagaranha", uma junção da vaca com a galinha e a piranha. 

 Sugestão 5: O último integrante da tribo romântica do leste indica 5 lugares paulistanos onde é possível ver estrelas numa noite de verão suficientemente propícia para dizer "eu te amo". 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Meu livro na Rolling Stone

O post é rápido: a revista Rolling Stone de novembro, com Jô Soares na capa, traz resenha de "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia" (Azougue Editorial), que escrevi com a Camila Hungria.  O link está aqui. A resenha é do Mauricio Duarte.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Um filme, um jazz e uma diva


Eu estava procurando por um filme sobre jazz em que Forest Whitaker e Jeff Goldblum fazem uma dupla de músicos que planejam uma grande noitada entre amigos para esquecer de todos os problemas: o divórcio iminente de um e o tumor cerebral do outro. Não sei dizer se Lush Life (Vida Boêmia) é um baita filme, mas é um filme memorável cujo trailer demorei para encontrar. Em compensação, dei logo de cara com esta  versão de Roberta Flack para a música homônima, já gravada por Nat King Cole, Ella Fitzgerald e John Coltrane, entre outros. Ao que parece, é exclusividade deste programa de TV de 1973 e não está em nenhum disco dela. Pena, porque é sublime e não tenho vontade de parar de ouvir.




LUSH LIFE: Movie Trailer. Watch more top selected videos about: Movie Trailers, Forest Whitaker

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Atenção, bebê!

                                                                                      Capa da revista Q de dezembro


Na semana em que Bono falou à Rolling Stone americana sobre a possibilidade do U2 acabar em 2012, a rádio Kiss FM resolveu ligar para minha amiga Evelyn Vavassori para saber se a notória fã zonanorteña, que já teve o maior fã-clube da banda no Brasil, estava triste com a notícia. "O fato do RPM ainda estar na ativa é muito mais triste do que o fim do U2", respondeu ela, para as gargalhadas do outro lado da linha. 

Podem espernear à vontade, mas seja lá qual for o destino da banda, são pelo menos 5 os álbuns do U2 a figurar entre os indispensáveis: Boy (1980), War (1983), The Unforgetable Fire (1984), The Joshua Tree (1987 -- longe de ser meu favorito) e Achtung Baby (1991). O último da lista acaba de ganhar mais uma prova de relevância e longevidade com Ahk-toong Bay-bi Covered, álbum comemorativo de 20 anos lançado com exclusividade pela revista britânica Q, de dezembro. 


As faixas ganharam novas versões assinadas por Patti Smith, Jack White, Depeche Mode e The Killers, entre outros. O maior desafio parece ter sido fugir das assinaturas e  traços instrumentais do grupo, a começar pelas guitarras cortantes de The Edge e pelos falsetes de Bono. Mas o resultado geral é positivo e até surpreendente em algumas releituras. 


A abertura ficou com o Nine Inch Nails, abusando dos efeitos eletrônicos para atualizar a sempre jovem Zoo Station. O clima de esquenta pré-balada prossegue com o remix de Even Better Than The Real Thing pelo DJ Stuart, sob alcunha de Jacques Lu Cont. Entram piano e violão para a interpretação compenetrada de Damien Rice em One. O histrionismo solar da versão original de Until The End Of The World dá lugar a uma pegada folk e instantaneamente cult da musa punk Patti Smith. O Garbage também baixa o tom, mas insere um clima mais pesado e hi-tech, imprimindo a marca da banda em Who's Gonna Ride Your Wild Horses.


A decepção fica com o Depeche Mode e sua versão excessivamente sintética de So Cruel, com direito a uns 30 moduladores de voz para peneirar a performance meio acima do tom de Dave Gahan. O irlandês Gavin Friday, sempre na bota do U2, surge com The Fly em mais um momento-conceito de pura robótica musical, levando a sério demais o conceito futurista da coisa. Quase toda a vida de Mysterious Ways se esvai no clima mais experimental já criado pelo Snow Patrol. Trying to Throw Your Arms Around The World, provavelmente a mais fraca do disco, ganha potencial pra agradar adolescentes na versão do The Fray. Mas o repertório só volta a crescer com a participação do Killers em uma corajosa performance de Ultra Violet, que começa com cara de Freddie Mercury e embarca sem contramãos numa repaginada vibrante e grandiosa, respeitando a pegada original.


Os escoceses do Glasvegas, por sua vez, se apegam à velha forma de Acrobat e acabam por apresentar a versão menos inventiva do disco, com direito a um trabalho de guitarra bem próximo ao de The Edge e vocais agressivos que pouco agregam  às emoções de 1991. A postura de Jack White é exatamente contrária, transformando a quase fúnebre Love Is Blindness num espetáculo cômico e explosivo, que cruza Tom Jones com Robert Plant. E era exatamente o que se esperava dele. Quanto tempo você vai demorar pra devorar todo o resto?










domingo, 30 de outubro de 2011

O Brooklyn ensolarado


Já tenho meu disco indie do ano e ele ainda nem foi citado no Brasil em meio a toda essa bajulação com Cut Copy & outros grupos amparados em melodias simplórias sobre efeitos dançantes repetitivos. Encontrei completamente por acaso enquanto zapeava pela tonelada de streamings da AOL. Estou falando de Wild One, estreia do North Highlands, com nome de subúrbio californiano mas baseado no Brooklyn novaiorquino e formado por gente da Califórnia, Chicago, e até África do Sul. Eles se conheceram na faculdade. O problema é que a economia americana está em recessão e eles não encontraram empregos. A solução é que eles desencanaram e foram viver de música.

São 11 faixas com instrumental de guitarras, violino, piano, sintetizadores e bandolim, além da delicada voz de Brenda Malvini. Enquanto isso, vale prestar atenção nas letras e composições sob medida para as questões existenciais dos beira-30: da busca pelo amor e realização pessoal, passando por humores mais desgostosos e nostálgicos, até a redenção das noites luminosas. Os arranjos são no mínimo simpáticos. Tudo que o Copacabana Club pode vir a ser se refinar um pouquinho mais o som e superar o puro "having fun", embora eles não tenham a menor obrigação de fazê-lo.

É ou não é a trilha perfeita para os filmes que ainda não fizeram sobre a nossa geração? (Hahahahaha) Exageros à parte, vou dispensar uma descrição das faixas com a condição de que você ouça as escolhidas e depois ganhe seu dia baixando o disco. 




sábado, 29 de outubro de 2011

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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Os Dentes da Memória no Correio Braziliense

O Correio Braziliense deu página inteira para Os Dentes da Memória no sábado passado, 1º de outubro. Quem assina é Bernardo Scartezini, que fez um texto informativo bem pesquisado e uma das melhores análises sobre o livro até agora. 

Destaco também a baita ilustração e o trabalho de arte do jornal, bastante didático e agradável visualmente.  Deu gosto de ver. Segue abaixo reprodução do texto principal. Se não der pra ler, fique com o texto abaixo.



OS POETAS NA CIDADE




Os dentes da memória conta como Roberto Piva e seus amigos espantaram uma ainda pacata São Paulo com sexo, drogas & poesia



BERNARDO SCARTEZINI
ESPECIAL PARA O CORREIO





A fama de Roberto Piva o precedia. O jovem poeta já era figura conhecida na cidade de SãoPaulo no fim dos anos 1950. E nem era exatamente por sua obra poética, não. Era mais notório por invadir as festas dos bacanas, aprontar arruaças pelos bares da Avenida São João e por carregar por aí um séquito de jovens moços. Piva sempre preferiu os moços. Roberto Piva, ele próprio, mal chegara aos 20 anos de idade e já tomara uma decisão para toda a vida: se queria mesmo ser poeta, então que vivesse como tal. “Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental”, repetia para quem quisesse (ou não) ouvi-lo, citando como antecedentes os surrealistas franceses e os beatniks norte-americanos.

Roberto Piva era assim, uma espécie de neto de André Breton,filho de Jack Kerouac, sobrinho bastardo de Mario de Andrade e Oswald de Andrade. E ele não estava sozinho com seus livros, com seus antigos modernistas, com seus poetas & escritores de línguas estrangeiras. Piva não estava sozinho. Claudio Willer ainda era estudante secundarista do Dante Alighieri quando primeiro ouviu falar de Roberto Piva. Os dois se conheceram tempos depois, pela noite da grande cidade, apresentados por amigos em comum. Diz o Willer: “Eu já sabia quem ele era por causa da enorme fama de depravado e pederasta que ele tinha,de se envolver em todo tipo de confusão, além de ser culto, erudito, participar de grupos e estudar filosofia. Ele era o ‘personagem’. Isso desperta muito interesse quando você quer conhecer gente que saia da mesmice e do lugar comum”.

As afinidades eletivas. Os jovens poetas foram se conhecendo daquela maneira que uma pessoa conhecia a outra: em mesas de bares, em saraus, em sessões de cinema, em leituras de poesia, em bebedeiras mil. Piva era o grande agitador. Era o camarada que reunia o pessoal, que recitava poesia de cabeça, que trazia para o país os primeiros livros dos beats Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso... E era ele que via seu grupo de amigos como os beatniks de São Paulo. E eles logo começariam a semanifestar —também—por escrito. Para tanto, foi necessário encontrar a figura de um editor em Massao Ohno, um sujeito pouco mais velho que eles, dono de uma pequena gráfica à Rua Vergueiro, próximo à Liberdade. Ohno não era bom de copo como aqueles rapazes, mas animou-se o suficiente para lançar a Antologia dos novíssimos (1961). Seria a primeira vez para a maioria dos poetas ali publicados— e também seria a última para uns tantos.Um par de anos mais tarde, Piva daria à turma uma obra definitiva: Paranoia (1963).Um livro que passou em brancas nuvens pela imprensa, pela academia, pelo beletrismo, pelo bom gosto dos intelectuais da cidade. Ninguém parecia ouvir os impropérios de Piva— “quando eu ia ao colégio,Deus tapava os ouvidos para mim?”

Roberto Piva emendava imagens delirantes numa poesia sem métrica, ao mesmo tempo rebuscada e irada, trazendo para ao ventre da cinzenta São Paulo a lírica do desregramento que fora buscar em Garcia Lorca, Rimbaud e Lautréamont. Seus instantâneos de urbanidade poética eram refletidos nas imagens em preto e branco das fotografias do artista plástico Wesley Duke Lee. A partir desse momento definidor, ClaudioWiller também lançaria seus primeiros livros. Willer e Piva entrariam para a crônica paulistana como “a geração
dos anos 1960” ainda naqueles dias de farra. Bem mais difícil tem sido entrar para a história oficial da literatura brasileira. Ainda hoje estão à margem...

Escanteados por seus antecedentes da chamada Geração de 1945 (Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos etc.) e menosprezados por seus contemporâneos concretistas (os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, amigos e dissidentes). Esse cenário, no entanto, vem mudando nos últimos anos. Primeiro por conta das reedições de Paranoia pelo Instituto Moreira Salles (em 2000 e 2009). Depois,
com os três volumes das obras completas de Roberto Piva saindo pela EditoraGlobo (de 2005 a 2008). E agora o interesse pode ser ampliado com Os dentes da memória: Piva,Willer, Franceschi, Bicelli e uma trajetória paulista de poesia.

Juvenília&maturidade

Os dentes da memória surgiu como trabalho de graduação para as então estudantes de jornalismo Camila Hungria e Renata D’Elia. Elas se aproximaram de Roberto Piva e tiveram a sensibilidade de registrar o máximo de sua memória num momento em que a saúde do poeta declinava ferozmente—ele morreu em julho do ano passado. A partir da convivência com Piva, elas partiram para entrevistar amigos e colaboradores do poeta. Abriramo baú de memórias, que já havia sido mapeado pelo cineasta Ugo Giorgetti no documentário Uma outra cidade (2000), mas que ainda estava para ser impresso em livro. Camila e Renata fizeram mais de 40 entrevistas para poder amarrar a história—e as estórias—de Os dentes da memória. (Um título, aliás, tirado de versos de Piva em Poema de ninar para mim e Bruegel: “Rangem os dentesda memória/ segredos públicos pulverizam-se em algum ponto da América/ peixes entravados se sentam contra a noite...”). O livro traz quatro protagonistas destacados: Roberto Piva, Claudio Willer, Roberto Bicelli e Antonio Fernando de Franceschi. Mas eles não são os únicos a terem voz ativa na história oral deste Os dentes da memória. Ao contrário...

Num estilo semelhante ao usado por LegsMcNeil e GillianMc-Cain para reconstituir a história do punk rock no clássico livro Mate-me por favor (1997), Camila e Renata montam a narrativa diretamente nas palavras dos entrevistados, que se complementam mas também se contradizem com frequência, de maneira que as histórias de décadas passadas soam vivas e animadas por diferentes perspectivas. Os dentes da memória traz ainda poemas dos quatro autores.Embora em momento algum, vale dizer, procure se transformar em ensaio sobre aquelas obras. De certa forma, faz bem mais do que isso ao reunir testemunhos sobre a época e contextualizar vida e obra dos poetas dentro da recente e agitada história brasileira.

O primeiro terço do livro, nesse aspecto, é um grande barato—um prontuário de pequenas e médias contravenções praticadas pelos nossos anti-heróis juvenis... Roubar livros de livrarias era uma atividade compreendida e bem aceita no grupo. A casa dos pais deWiller, na represa de Guarapiranga, foi endereço certo para muitos fins de semanas perdidos. E acontecia até, uma vez ou outra, de eles saírem no jipe deWiller dando tiros ao alto em pleno bairro do Pacaembu, acordando a vizinhança. Todo esse clima, no entanto, azedaria com o golpe de 1964 e acabaria em definitivo com a promulgação do AI-5 em 1968. O tempo fechou para os ensolarados poetas.

Detalhe curioso: Antonio Fernando de Franceschi só estrearia em livro na década de 1980, mas ele conviveu com o grupo desde os primeiros encontros. Já Roberto Bicelli publicou apenas um único volume de poesia (Antes que me esqueça, de 1977), mas manteve-se fiel aos amigos, mantém-se. 


Além da poesia beat de Nova York & São Francisco, essa geração também deve ser definida pelo aspecto gregário, pelas aventuras coletivas, pelo companheirismo, pela cumplicidade. ClaudioWiller gosta de lembrar que, quando Roberto Piva apresentava um novo amigo para entrar no bando, os termos mais elogiosos que encontrava para dizer eram: “Este é um perfeito beatnik”. Uma vez dito isso, já estava dito tudo.

sábado, 8 de outubro de 2011

Open hearts, feel about it: Tears For Fears em São Paulo

A temporada de apresentações dos quarentões do Tears For Fears pelo Brasil começou com o pé direito na noite de 6 de outubro, em São Paulo. Não que o Credicard Hall seja lá o melhor lugar do mundo, mas pelo menos a boa acústica foi de grande serventia ao público que lotou a casa de shows para ouvir pérolas pops  criadas no auge da banda, entre 1983 e 1993, junto a canções mais recentes.

Roland Orzabal (voz e guitarra) e Curt Smith (voz e baixo) provaram o vigor do repertório num show correto e enxuto, com arranjos fieis aos originais. Os vocais soam como nos velhos tempos. As execuções foram mais curtas, sem improvisos e, vá lá, um tiquinho mais lentas e menos energéticas do que no DVD ao vivo Going To California (1990), para citar um exemplo à mão. Nada grave: difícil encontrar quem não tenha cantado e botado os bracinhos pro ar desde a abertura, com Everybody Wants To Rule The World, até o encerramento com Shout.

E teve até direito a uma lânguida & lenta versão para Billie Jean, de Michael Jackson, que o público aprovou. Head Over Hills e Sowing The Seeds Of Love -- exemplares nítidos da influência de Paul McCartney -- estão entre os pontos mais altos da noite.Advice For The Young At Heart  venceu no quesito emotividade. Mad World e Pale Shelter fizeram a alegria dos velhões. Na  falta de Oleta Adams, a voz feminina de Woman In Chains acabou vindo da garganta de um homem, o backing vocal canadense Michael Wainwright. Tudo na medida de um show sem surpresas e novidades, mas muito acima da média das bandas pops nascidas no neste século.  



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O novo e o velho livro de Bicelli + filme de Jairo Ferreira

Dia 3 de outubro, das 19 às 22 horas, na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis, tem lançamento do novo livro de Roberto Bicelli, Ego Trip - Viajo e Celebro a Mim Mesmo. Trata-se de um diário de bordo muito louco sobre uma longa viagem que ele fez pelo nordeste, num puta fôlego narrativo e cheio de histórias saborosas. O lançamento é do selo Virgiliae, da editora Livros de Safra. O flyer você encontra logo abaixo. 

Quem leu meu livro Os Dentes da Memória já sabe que o cara é uma das figuras mais singulares, criativas e engraçadas que ainda é possível encontrar em São Paulo. O lançamento do primeiro livro dele, Antes Que Eu Me Esqueça, aconteceu em 1977 no Teatro Célia Helena, em São Paulo, e teve leituras do próprio Bicelli, Roberto Piva, Claudio Willer, Luiz Fernando Ramos e Eduardo Gianetti da Fonseca (sim, o economista poderosão), além da música de Nelson Jacobina e Jorge Mautner, uma academia de sumô, projeções dos movimentos de Muhammad Ali e fliperamas. Os poemas lidos por Roberto Piva neste evento, nunca foram publicados em livro. Tudo isso está no Super 8 homônimo de Jairo Ferreira, postado aqui.

Claudio Willer, que também prefacia este Ego Trip, postou algumas observações sobre o filme de Jairo Ferreira e as leituras poéticas daquela noite em seu blog. Reproduzo na íntegra, aqui:


  • Como pode ser observado pela amostra, o evento faz parte da lista de ocasiões em que não fomos presos. Arriscado, dizer essas coisas em 1977.
  • Jairo, acertadamente, deu destaque à brilhante apresentação de Piva. São cinco os poemas que leu. Nenhum está em livro. O último, publiquei-o na época no jornal Versus. Os outros, não sei que fim levaram. Podem ter sido perdidos ou guardados.
  • Pode parecer aos adeptos da literalidade que Piva houvesse, politicamente, virado o fio desde proclamações como “quem exporta sobremesa pode virar a mesa” e as observações sobre o regime militar (também pelos demais poetas que se apresentaram) até um poema como “A bengala alienígena de Artaud” de “Estranhos sinais de Saturno”, além da associação de dirigentes contemporâneos ao stalinismo e seu auto-proclamado monarquismo. Não: ele foi coerente, continuou o mesmo rebelde insubmisso e crítico radical – mudou algo do restante.
  • Todos lêem muito bem nessa apresentação, me parece. Mas a leitura de Piva pode ser comparada àquelas de Jack Kerouac em suas apresentações no Vanguard Theater, de 1958. Ambos – e isso vale para outras gravações de Piva, inclusive o CD que vem com “Estranhos sinais de Saturno” – muito familiarizados com o jazz. Notem como o ritmo do texto e da leitura acompanha a respiração, e não o contrário. 



Mas a história por trás disso tudo, só em Os Dentes da Memória. 



O livro na revista sãopaulo + Rock In Rio

Passei pra dizer três coisas:

1) Minha disposição pra Rock In Rio ficou mais pra aquela hashtag do #rockincasa, mas tô adorando essa noite do metal. Slipknot é pesado, trash, tem fogo no palco, máscaras nas caras, tambores e público completamente envolvido. Motorhead tocando muito alto, acima do bem e do mal. Metallica impecável, provavelmente uma das melhores bandas do mundo ao em cima do palco.  E ainda tem o James Hetfield com a cara do Mano Menezes e o Lars Ulrich finalmente gêmeo de Phill Collins. Vocês querem o quê, o banquinho e o violão?

2) Saiu ontem na revista sãopaulo, da Folha de S. Paulo, indicação do crítico Manuel da Costa Pinto sobre "Os Dentes da Memória" com 4 estrelas, cotação máxima da coluna. Vou reproduzir abaixo, assim não passa batido por aqui. 

3) A revista também tem materinha minha sobre os documentos dos séculos 16 a 20, expostos no Arquivo Histórico Municipal. Vale muito a pena conferir as raridades!


LIVRO 
OS DENTES DA MEMÓRIA **** 
Camila Hungria e Renata D'Elia (Azougue, 256 págs., R$ 38,90)
Panorama de um grupo -Roberto Piva, Cláudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli- que renovou a poesia brasileira sob influência do surrealismo e dos beats. Além de fotografias e documentos, traz colagem de entrevistas da qual participam outros protagonistas da efervescente vida intelectual de São Paulo dos anos 1960 e 1970. 

Piva, 74 + Herois da decadensia (sic)

Hoje Roberto Piva faria 74 anos. Além de lê-lo, não há nada como ressuscitar algumas imagens do poeta em 1987, num vídeo do Tadeu Jungle, uma das cabeças por trás da produtora independente TVDO (TV Tudo). "Herois da Decadensia (sic)" é um belo exemplar dos experimentos e inovações visuais que essa turma procurava aplicar à televisão, mas a história é longa e esse lance de linguagem fica pra outro post. A começar pelo óbvio, o fogo xamânico de Piva contraposto à presença de Supla e do então Cardeal Arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, já valem pelo vídeo postado aí no Youtube. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Uma boa entrevista sobre poesia e Os Dentes da Memória na Rede Brasil Atual

O Guilherme Bryan publicou breve resenha e uma entrevista comigo falando sobre "Os Dentes da Memória" na Rede Brasil Atual. Foi uma das melhores entrevistas sobre o livro até agora. Consegui dissertar sobre questões importantes que ainda não tinham sido abordadas por jornalistas, tanto sobre o making-of do projeto quanto sobre as nossas escolhas e nossa visão sobre a história. Segue uma pergunta/resposta de prévia e também o link do conteúdo. 

Como foram selecionados os entrevistados para o livro? Houve alguma entrevista que não conseguiram realizar ou que ficou de fora por alguma razão?
A coisa começa em torno do Piva, uma figura absolutamente fascinante, magnética e complexa, dona de uma obra poética muito poderosa e que merece atenção urgente, para muito além de seu primeiro livro, "Paranoia". A partir daí selecionamos os outros três personagens principais, tendo como norte a confluência permanente de suas trajetórias ao longo das décadas, a amizade e as vivências em comum, a influência de um sobre as leituras e as escritas dos outros, a qualidade poética e o potencial deles como personagens de livros. O Roberto Bicelli, por exemplo, é uma descoberta e tanto: com apenas um livro de poemas, teve nesse grupo um papel importantíssimo e é por si só um personagem sedutor. Afinal, existe gente muito talentosa e competente por aí, mas nem todos são bons personagens para um livro, tá cheio de bons poetas não dão o menor caldo ou interesse para uma biografia. Esses quatro caíram como uma luva e nós percebemos isso desde princípio. Outra coisa: não queríamos falar exatamente em "geração 60", que também é uma divisão polêmica de se fazer, então vamos deixar isso na mão dos nossos especialistas. Também não gostaríamos que a história parasse nos anos 1960, pois há vivências, acontecimentos históricos, políticos, culturais e livros suficientes para trazê-la até hoje. Fizemos uma pesquisa grande não apenas sobre a bibliografia destes poetas, como de suas influências e de seus contemporâneos. E por fim, há outros nomes importantes na Geração 60 de São Paulo que receberam apenas menções ou foram entrevistados sem protagonização. Muitos merecem ter suas trajetórias contadas e reconhecidas, e esperamos que esse trabalho seja feito futuramente. Selecionamos como coadjuvante os que mais tiveram contato com estes personagens em determinados momentos, ou que eram citados nas entrevistas e participaram de histórias importantes, e também aqueles que poderiam elucidar melhor alguns pontos e passagens. Por uma questão de foco, fluidez e edição, algumas pessoas ficaram de fora. Outros simplesmente foram procurados e não quiseram dar entrevista, não puderam nos atender, ou nunca responderam nossos e-mails e telefonemas. Além do mais, nenhum retrato memorialístico, histórico, jornalístico ou biográfico é definitivo, completo ou contém toda a verdade da Terra. Aliás, nunca nos propusemos a isso. Quem quiser, pode partir em direção ao foco e ao viés que desejar, jogando toda luz nos personagens que julgar mais importantes. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sexo, bombas e choque elétrico, por Marcelo Coelho (FSP)

Saiu na Folha de S.Paulo, caderno Ilustrada de hoje, um artigo dos bons assinado pelo Marcelo Coelho. Ele fala sobre "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia", meu livro com Camila Hungria pela Azougue Editorial. Os sites das livrarias Martins Fontes e Cultura enviam para todo o Brasil, basta comprar com eles.

Abaixo, reproduzo texto e trecho da edição digital do jornal, cortesias de Bê Neviani e Keka Ferreira. Gostei muito do espírito do texto, que é também parte do espírito do livro. Acho que o Piva estaria se divertindo bastante com isso. Willer, Bicelli, Franceschi e outros personagens estão curtindo. 


MARCELO COELHO

Sexo, bombas e choque elétrico

"A gente se beijava e corria uma eletricidade incrível [...] Nós estávamos tomando choque molhados!"



Existem os loucos e existem também aqueles que querem ser loucos sem serem loucos de fato.
Qualquer que seja o caso, não faltaram loucuras na vida do poeta Roberto Piva (1937-2010) e dos seus amigos (Cláudio Willer, Rodrigo de Haro, Roberto Bicelli). Alguns exemplos.
Na década de 70, Piva e Bicelli davam aulas num colégio público. "Um dia", conta Bicelli, "o Piva chegou atrasado porque ficou bebendo com a professora de geografia. Entrou bêbado na classe, fez a chamada e falou: 'Estou de saco cheio do bom comportamento de vocês'".
Ato contínuo, "subiu na mesa, baixou as calças e mostrou a pica para os garotos da quinta série! Ainda correu atrás de um japonesinho que havia se mandado da sala! A inspetora, que era nosso anjinho, transferiu-o de escola e ficou tudo bem".
O caso é lembrado em "Os Dentes da Memória", livro de Camila Hungria e Renata D'Elia, que acaba de ser lançado pela Azougue Editorial.
Acompanhado por uma breve antologia desses poetas (a geração dos "novíssimos" da década de 60), o livro é composto exclusivamente dos depoimentos, habilmente entrelaçados, dos principais membros do grupo.
Cláudio Willer é o protagonista de outra aventura.
"Eu e um amigo pretendíamos explodir uma bomba na casa de um desafeto nosso, na rua Tupi com a avenida Pacaembu. Então, prendemos a bomba com pólvora enrolada em fita adesiva. Quando fomos testar a bomba, esse meu amigo teve a genial ideia de enfiá-la no escapamento do carro e acender!"
Enquanto a bomba não estourava, continua Willer, "resolvi brincar com uma pistola Browning 7.65, que tinha ganhado de presente num breve período de gostar de armas. Ficamos tentando acertar os lampiões e a iluminação da Pacaembu!".
Erraram todos os tiros, mas a polícia apareceu. "Quando chegou a polícia, a bomba do carro explodiu!" Novamente, nada mais sério aconteceu. "Depois demos uma grana para o delegado sumir com as provas, e fui inocentado perante o juiz."
Já Roberto Bicelli se lembra de uma transa incomum. "Fui ao banheiro, passando meio mal. Lá, peguei a minha namorada e dei um cato nela. A gente se beijava e corria uma eletricidade que era uma coisa incrível! A gentia sentia choques pelo corpo todo."
Não era paixão. "Quando percebi, a pia tinha quebrado fragorosamente e tinha um fio solto no chão! Nós estávamos tomando choque molhados!"
Choques elétricos, bombas caseiras, subversão estudantil: nesses episódios, é como se tivéssemos a história da ditadura militar traduzida em outros termos, transportada numa viagem de LSD.
No começo da década de 60, o grupo de Roberto Piva tratava de romper com o formalismo vigente e seguir, nos moldes dos surrealistas e dos beatniks, a ideia de que não pode haver separação entre a arte e a vida.
As fotos reproduzidas no livro, assim como o documentário de Ugo Giorgetti sobre o grupo ("Uma Outra Cidade", de 2001), não deixam dúvidas. Roberto Piva, na juventude, era bonito a mais não poder, e seus amigos não ficavam muito atrás.
Álcool, drogas e o passar do tempo foram minando essa beleza. A partir do AI-5, as bombas e pistolas já não podiam ser usadas com tanta impunidade. A transgressão foi sendo abandonada por alguns dos membros do grupo, que casaram, tiveram filhos e arranjaram emprego.
A heterossexualidade pode ser uma vigorosa fonte de caretice. Roberto Piva não conheceu essa ameaça.
Se escapou, na época, de ser preso ou internado por homossexualidade, hoje seria provavelmente acusado de pedofilia. No fim da vida, contou-me que alguns dos seus amantes adolescentes tornaram-se, com o tempo, bons amigos heterossexuais. Piva chegou a ser padrinho do filho de um deles.
O artigo vai acabando e não tenho espaço para comentar a poesia dessa geração. Mas, afinal, quando se rompem as fronteiras entre vida e literatura, os lances biográficos desses poetas ganham seu próprio interesse estético.
Por outro lado, na medida em que se entrega ao fluxo das associações livres, à "paranoia" e ao "delírio", essa poesia corre o risco de se tornar monótona. A loucura funciona quando feita de flashes e inspirações súbitas; mas é difícil sustentá-la para sempre. Isso exige muito voluntarismo e militância.
Como se sabe, as décadas de 60 e 70 estavam aí para isso mesmo.

coelhofsp@uol.com.br