quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Cinema 2000´s



O The Times elegeu semana passada os 100 melhores filmes da década. Acho um pouco precoce. O problema, queridinho (a), é que eu não vou perder meu tempo fazendo uma crítica pedante e pretensiosa de cada um deles: se você quer resenhas para caçar argumentos e gastar com os deslumbrados, vá ler os grandes nomes, que dão muito mais status do que eu. Só quero agora me divertir e participar da trívia.

Aqui a proposta é pegar uma cervejinha, pedir umas batatas fritas, e dar pitacos nas mesinhas da calçada -- afinal, faz um calor e tanto em São Paulo--, enquanto eu descrevo os que considero mais importantes, pelo que acompanhei de cinema e também pelos meus gostos e filtros emocionais. Você vai perceber que deixei alguns mexicanos medalhões [mexicano + medalhão = mexilhão?] de fora. Não citei os infantis, mas Deus salve a Pixar e a visão de Alfonso Cuarón para Harry Potter. Também não liguei muito para os asiáticos. E nem fui ponto a ponto em cada item da lista. Mas, relaxa, cara: ficará longe dos 100 títulos.

Na ordem cronológica:

1) Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2000)

2)
O Pântano (Lucrecia Martel, 2000)
Não entendi como nem o porquê de terem deixado um dos melhores da década de fora. E eu que colocaria pelo menos mais 1 dos 3 longas de Lucrecia nesse bolo, o grande La Niña Santa (2004) já que La Mujer Sin Cabeza (2008) segue inédito em alguns países, inclusive esse aqui. Além de trabalhar a decadência, as relações muito loucas entre catolicismo, família, sexualidade e o mal estar com ironia, Lucrecia Martel é talvez a cineasta mais auditiva e olfativa do circuito mundial. Quero dizer: assista os filmes, escute cada detalhe, e sinta o cheiro das piscinas sujas e dos atritos entre as peles dos personagens.

3) Quero ser John Malkovich (Spike Jonze, 2000)

4) O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (Jean Pierre Jeunet, 2001)
Saia perguntando: bata nas portas, toque as campainhas, acorde as mulheres na faixa dos 25 aos 30; pergunte nos bares, mire as moças de saia, as garotas distraídas pelas vitrines das livrarias, as estudantes nas estações do metrô: qual delas não é, não foi e nunca vai ser Amelie Poulain? Quem é que nunca mergulhou as mãos e braços pelos feijões na quitanda, até tocar o pozinho guardado abaixo dos grãos? Quem é que nunca fez uns tricky games como aquele para ...[ops! paremos por aqui].

Jean Pierre Jeunet penetrou fundo no lúdico e na beleza da memória afetiva, com a mesma facilidade do braço num saco de feijões: primeiro num puta over narrativo de abertura, depois nas projeções de uns personagens nos outros, e por fim no amparo da incrível trilha sonora de Yann Tiersen, também uma das melhores da década. Apareceu Tatou, Audrey: um ícone. Já basta de motivos.

5) Os Excêntricos Tenenbaums (Wes Anderson, 2001)


E até a mala da Gwynith Paltrow se deu bem: seu melhor papel está aqui.

6)
O Filho da Noiva (Juan José Campanella, 2001)
Não está na lista do The Times. Mas eles não sabem nada da Sudamérica. Nem de Ricardo Darín, Hector Alterio e Norma Aleandro. O clichê-dramalhão que tantos temem amar não é tão clichê e não tem nada de ofensivo. Vale também pelo peso da chamada "buena onda" do cinema argentino (que fim teve a "buena onda"?), vale pelo rabo do foguete de La Quiebra, como vale pelo humanismo do belo Kamchatka, de Piñeyro, que cito logo abaixo.

7)
A Professora de Piano (Michael Henake, 2001)
Uma das melhores atrizes do mundo está escondida na cabine de um cinema pornô e eu não vou estragar a surpresa para quando você abrir a cortinininha.

8) As Horas
(Stephen Daldry, 2002)

Foi a primeira vez que prestei atenção em Julianne Moore, a primeira vez que escutei uma trilha de Phillip Glass, a primeira vez que ouvi falar em Virginia Woolf, a primeira vez que vi Nicole Kidman efetivamente trabalhar, e que Ed Harriss e Meryl Streep efetivamente me convenceram. Geracionalmente importante.

9) Kamchatka (Marcelo Piñeyro, 2002)

10) Fale com Ela (Pedro Almodóvar, 2002)

11) Tiros em Columbine (Michael Moore, 2002)


12) Kill Bill (vol. 1 e 2, 2003 e 2004, by Quentin Tarantino)
Alguma outra coisa foi tão pop quanto Hattori Hanzo, Beatrix Kiddo, Green Mamba, Pai Mei, Bill, matanças gore e trilha sonora de filme pornô italiano dos anos 70 misturada com black music vintage? Nem o próprio Quentin Tarantino.

13) Dogville (Lars Von Trier, 2003)


14) Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Michel Gondry, 2004)
Para além do exercício autoral criativo e xaropado de Quero ser John Malkovich e Adaptação, ambos dirigidos por Spike Jonze, o roteirista Charlie Kauffman realizou aqui um tipo de roteiro quebra-cabeças em que passado, futuro, memória e destino se misturam de um jeito tão epifânico nas vidas de Jim Carrey e Kate Winslet, que quando eu e minha amiga Evelyn saímos do cinema na Avenida Paulista, em absoluto silêncio, era como se vivêssemos uma autêntica despersonalização: as luzes da cidade se embaralhavam nas pupilas, os corpos caminhavam inertes e, naquela mesa de bar, ao lado do Trianom, não se ouviu muito mais que umas baforadas de Marlboro. Fumar era lindo e fazia parte da experiência estética.

Muita gente diz que Charlie Kauffman ficou preso à própria fórmula a partir de então. Só não ficou mais preso do que a patota de imitadores que pipocam aos montes atrás dele, nem dos estudantes de audiovisual que cultuam, todos os dias, as mesmas imagens de Spike Jonze e Michel Gondry.

16) Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2004)
What´s So Funny About Peace, Love & Understanding? Só de pensar que tem gente que ainda não entendeu Sofia Coppola, me dá um sono e tanto. E uma vontade enorme de pegar essa trilha sonora inteira e gastar em fichas num karaokê japonês.


17) O Segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005)


18) A Pequena Miss Sunshine (Johnatan Dayton & Valerie Farriss, 2007)

19)
Persépolis (Vincent Paronnaud, Marjane Satrapi, 2007)

20) Michael Jackson´s This Is It (Kenny Ortega, 2009).
Eu vou votar nesse documentário musical meio epitáfio/meio making off por todos os motivos -- emotivos, políticos, musicais, históricos -- que já foram tão bem exemplificados tanto aqui quanto em tantas outras resenhas, que você já leu, tenho certeza. Se a década precisa ter um musical, esse é o musical.

E você? Quais são os seus pitacos?

3 comentários:

Lanna Morais disse...

Nossa, simplesmente concordo com absolutamente TODOS (menos o Brokeback pq nunca assisti) que listou. E vc, tão espertinha, listou cronologicamente, não tem nem como discordar da ordem =). O Filho da Noiva e qq coisa do Darín é de 'comer rezando'. Almodóvar, Tarantino, S.Coppola: Vc enumerou TODOS os filmes q eu indicaria... Quem sabe colocaria Diarios de Motocicleta. - meu marido, Peruano, me disse uma vez com desdem: ah, Brasil nem aparece! E eu: 'Está na DIREÇAO. Tá bom pra vc??' Bjos

brincandodedeus.wordpress.com disse...

Bela lista. :)
Eu ainda incluiria "O que fazer em caso de incêndio", de 2003.

Beijo!


w.

Bruno disse...

Minha memória anda fraca ultimamente, mas vou arriscar alguns pitacos desconexos: O Lutador, O Abraço Partido, Terra da Fartura, American Splendor e Wall-E, sim, Wall-E. Certamente deixei de lembrar de vários outros excelentes filmes.

PS: U2 no Glastonbury, hein?

Bruno Lof.