terça-feira, 13 de outubro de 2009

This is Shit*

This Is It não era inédita. Mas chegaram a publicar que a nova música de Michael Jackson era roubada. Como diria Paulo Maluf, "é mentira". Ninguém até agora se retratou.

Deu merda, Brasil. This Is It, canção inédita do finado Michael Jackson lançada ontem pela Sony Music, de olho na promoção do documentário homônimo sobre a preparação para os últimos shows do ídolo pop, não era tão inédita assim. E a confusão em torno dela não para por aí.

A música foi divulgada como composição vintage de Michael Jackson; a produção da faixa ocorreu após a morte do cantor, em duas versões: radio e orchestra, com backing vocals dos Jackson 5 remanescentes. A gravadora não havia fornecido detalhes sobre o ano de gravação. Também não se sabia em que ponto estava: teria Michael gravado somente uma demo em piano e voz, como de costume? Ou a faixa estava pronta e só recebeu um tapa?

A bomba chegou horas após o lançamento oficial, à meia-noite do dia 12, no site oficial do cantor. Segundo o The New York Times, a composição data de 1983, numa parceria de Michael com o crooner Paul Anka, que alegava não ter recebido créditos e royalties pela faixa. E tampouco era inédita: inicialmente, figuraria num álbum de Anka, mas acabou sendo gravada pela cantora portorriquenha Safire, no começo dos anos 1990, sob a alcunha de I Never Heard. Na época, foi devidamente creditada aos dois compositores.



Resultado: a versão de Safire, redescoberta, ganhou mais elogios de parte da crítica do que a ultra-anunciada "inédita" de Michael Jackson, que dessa vez não teve culpa de nada e, depois de morto, quase se queimou na rodinha por culpa do espólio e da Sony. E embora a Mediabase -- companhia que mensura o airplay das principais rádios americanas -- contabiliza 741 execuções em 24 horas [número bastante alto], as insatisfações do público são muitas e vêm de todos os lados.

1: Fãs e críticos reclamam da produção pobre da versão rádio. Parece até que alguns graves não batem. O crítico Jon Pareles, do New York Times disse em seu blog que "não vai figurar na lista das melhores canções do cantor, mesmo que seja uma lista comprida", e espera que nos baús de músicas inéditas por Michael Jackson [mais de 100, segundo o espólio] haja material melhor.

Fico com a versão orquestrada, mas pra mim, a de rádio está longe de ser ruim.



2: Se havia mais de 100 inéditas gravadas, por que escolheram essa? Ninguém sabia até agora, apesar dos chutes de alguns fãs espertos em comunidades da internet: "A canção foi escolhida porque a letra era apropriada, devido ao nome que Michael deu à série de concertos que faria", disse um dos executores da herança hoje de manhã, à Reuters.

3: Pataquada do espólio. Idiotice da Sony, que só tem direito de lançar as canções que Michael Jackson gravou até 2004. Pra que mentir sobre a procedência e o inedismo da da canção? Pra que passar o Paul Anka pra trás? Por que fazer esse marketing de fundo falso? Em plena era da internet, eles ainda achavam que ninguém descobriria?

4: Terá sido descuido ao checar as questões legais? Paul Anka disse ao New York Times [reproduzido pela Folha de S. Paulo] que tudo não passou de um grande equívoco, que já foi resolvido. Ele receberá 50% dos lucros sobre a canção, além dos devidos créditos. A Sony até agora não se retratou. Quem veio a público desfazer a confusão foi espólio de Jackson.

Estranho. Até porque, os executores são John McClain e John Branca, macacos velhos na indústria da música. McClain é braço direito de Janet Jackson, a outra mina de ouro do clã. Branca foi o responsável pelos tramites da compra dos direitos das músicas dos Beatles por Michael Jackson, num leilão no meio dos anos 1980. Algum deles é burro? Só faltava serem sonsos.

5: A Sony, tão bonitinha, tomando um pau atrás do outro da pirataria. Pudera: lançaram a faixa em duas versões para comercialização APENAS no álbum This Is It, já em pré-venda pela Amazon. Não vai ter single nem download legal via iTunes: se você quiser comprar a faixa, vai ter que levar junto um CD duplo com as músicas do documentário em versão de estúdio [que já saíram em outras coletâneas] , e mais algumas demos pra fingir que vale a pena. Se o material dos ensaios prestou pra fazer documentário, por que não produzi-los adequadamente e montar um produto fonográfico mais atrativo?

6. Depois das brigas judiciais que culminaram no rompimento do contrato entre Michael Jackson e a Sony, em 2005, difícil acreditar que a gravadora não está de má vontade com a imagem do cantor e com os herdeiros.

7. Tem uma tal de Hold My Hand que Michael Jackson gravou com o tal do Akon, musiquinha de dar vergonha; tanto que até o Michael ficou com vergonha e mandou banir das rádios em 2008. Gostaria que alguém me explicasse por que raios essa música está tocando em rádios brasileiras à esta altura do campeonato, conforme relataram alguns fãs.

8: Globo, como sempre, dá show de reportagem preguiçosa e tendenciosa, colada nas agências internacionais, além da edição engana-trouxa. Ainda por cima, botam a correspondente pra gravar a passagem em NYC, na cara de pau. Como se tivessem apurado mais do que qualquer pessoa com inglês razoável acessando a página da Associated Press.

No Jornal da Globo de 12/10, deram a entender que MJ havia plagiado Paul Anka, roubando a versão original e compondo a nova.

Novamente, no Jornal Hoje de 13/10, foram tendenciosos ao não oferecer o contexto original da história. Questão de edição: manter o essencial. Mas o essencial deles é ironizar a coisa para o lado da quitação das dívidas do cantor a ponto de quase culpar o Michael Jackson por ter sacaneado Paul Anka, diretamente do túmulo. E mesmo assim, não havia um só repórter na porta do Cemitério Forest Lawn.



Acima, versão promo de Human Nature, direto dos ensaios da This Is It. Como se pode ver, nenhum sinal de falta de honestidade e paixão.

* Com informações postadas na comunidade Michael Jackson Brasil, do velho, bom e demodé Orkut. Grata a colega @lannamorais que deu a sacada do título.

5 comentários:

Ada disse...

Renata, excelentes colocações.
A boa vontade da Sony para com o MJ acabou desde todo aquele imbróglio do Invincible. O que vale é encher os tubos com o que for possível, enquanto for possível. Mesmo que isso signifique empurrar mais uma coletânea em nossas goelas. Vc levantou uma boa questão ao lembrar que um material em condições de ser levado ao cinema poderia muito bem figurar num cd. Vide a "Human Nature" que tá rolando no Youtube e provocando arrepios nas nossas espinhas.
Sobre a imprensa, nem gosto de pensar nas bobagens que Globo e companhia têm feito. Agora que o artista ganha-pão da mídia sensacionalista, vulgo Michael Jackson, morreu e, creio, não pode vir d'além-túmulo puxar os pés das Fátimas e Williams da vida, nada mais natural que continuar dando os contornos mais bizarros a qualquer coisa relacionada ao falecido e à sua família.
Por mais que a fama de esquisito e bizarro do Michael tenha começado por obra do próprio, quando ele ventilou as farsas da câmara hiperbárica e dos ossos do homem-elefante, isso (e nada!) justifica a preguiça e a falta de compromisso com a verdade desses pseudo-profissionais. E isso não vale só para as notícias sobre o Michael. Ele é uma vítima notável entre tantas.

Patris disse...

As TVs e portais do Brasil devem achar que os fãs e admiradores de Michael se resumem nos mesmos consumidores de É o tcham, Molejo, Faustão, etc. NÃO!!!! NÃO!!!!!!! NÃAAO!!

Não.

Michael Jackson conseguia agradar de gregos a troianos e entre eles felizmente existem intelectuais, jornalistas, estudantes, artistas, profissionais liberais, pessoas, pessoas de toda sorte, nem todas são embaláveis nos pacotes prontos de notícia mal pautada, mal escrita e tendenciosa que andam frequentando a nossa casa e meio que descendo a contra-gosto pela nossa goela. Não. Não desce.

Felizmente temos na internet fontes alternativas de pesquisa, blogues, twitters, redes sociais que hoje fazem o serviço de re-informar, de restaurar o ruido instalado pelos grandes da comunicação em troca de audiência espontânea e de má qualidade.

Nesse sentido, tenho que agradecer a você Renata pelo trabalho de pesquisa e pela postagem!

Fico contente de visitar este cantinho de exceção!
Parabéns!!

Larissa disse...

Que xaropada da globo, hein? Adoro teu blog grogue e acho megaválido vir aqui e ver a tua dedicação ao pesquisar de verdade, diferente de certas cabecinhas que publicam besteiras aos quatro ventos.

Cara, realmente a raça de fãs do MJ é mui fuerte. Nunca vi homem tão açoitado, até depois de morto. A comunicação além-túmulo dele com a digníssima LaToya deve ter servido de fonte para os senhores da verdade absoluta.

Renata, tu é foderson. E tenho dito.

Diego Fernandes disse...

Sensacional. Grande Renatinha, quem quiser realmente saber alguma coisa sobre Michael e o andar da carruagem de sua carreira, é melhor, como disse brilhantemente a dona deste blog, que aocmpanhem em meio aos fãs, seja por fóruns nacionais ou internacionais, uma vez que até os palpites sobre a data de gravação e composição da música já pareciam acertados antes mesmo impressionante inoperância da $ony em fazer a coisa do modo mais acertado.

Fred disse...

Além de compartilhar opiniões e pontos de vista com a Renata, além de curtir deslizar prazerosamente entre cada linha... depois de passear pela idéia geral eu gosto de curtir certas cintilações do seu estilo, sempre presentes e que me saltam aos olhos. Como o good old "Deu merda..." (hahahaha!) que é o primo low profile do nosso amado Fudeu Geral (hahahaha!).

Ah, eu tenho até vontade de discorrer aqui sobre cada uma dessas estrelinhas das entrelinhas, adoro, mas tenho mais vontade é de voltar ao texto, rápido, logo.

Até mais um post seu, Renata!