quinta-feira, 11 de junho de 2009

Pirâmides invertidas

Esse ofício que escolhi é uma coisa engraçada. É como se você fosse abduzido pelas forças ocultas da "fudida & mal paga organization inc." com a incrível missão de piramidizar o planeta. A partir de então, o mundo inteiro passa a caber em pirâmides invertidas. Qualquer assunto, qualquer pessoa, qualquer fato brota do teto como uma gigantesca estalactite triangular. A gripe suína, a erradicação das moscas varejas na América Latina, a construção de um muro na Faixa de Gaza, técnicas para a implantação de telhados verdes, bolas de tênis sustentáveis, o novo reality show da televisão do bispo, a morte do Mar de Aral, o IDH da China, o método de interpretação teatral stanislavskiano ou a décima quinta cirurgia no nariz do Michael Jackson: é tudo seu.

E depois, ganhar a vida. Vai uma piramidezinha aí? Comigo é três por 10, promoção! Aceito passe espírita e dinheiro do Banco Imobiliário.

São vários os desafios. Tijolinhos, por exemplo. Sempre quadradinhos ou retangulares, angulares e perfeitinhos. Como não se empolgar diante da mágica possibilidade de escrever sobre a cerimônia de posse do secretário regional da XPTO Institute pela libertação do Sri Lanka em 100 caracteres de um texto "simétrico e elegante" com informações apuradas pela internet? Como não suar frio antes de botar o gravador perto daquela boquinha murcha do governador? Como não vibrar após um dia de trabalho numa baia de 4 metros quadrados repetindo mentalmente mantras peculiares como "arranque os adjetivos, arranque os adjetivos, arranque os adjetivos" ou "sem nariz de cera, sem nariz de cera, sem nariz de cera" e ainda "abre aspas, fecha aspas, abre aspas, fecha aspas, verbo dicende, verbo dicende, ponto final"?

Outra coisa engraçada é que jornalista não trabalha em empresa, mas em "veículo". O que também traz surpresas, é claro. Uma vez eu disse isso a um conhecido português e, meia hora de conversa depois, ele me perguntou qual era mesmo o nome da viatura em que eu trabalhava. Você pode se considerar um felizardo se o seu veículo te botar numa viatura de vez em quando e te mandar entrevistar uma figurinha aqui, cobrir um evento ali ou uma coletiva acolá. Puro glamour. É geralmente nessas horas que se fila umas boas bóias pra economizar o dinheiro do vale-refeição e também se aproveita para fazer uma social e competir com seus colegas sobre quem faz a pergunta mais corajosa & astuta [mas vale lembrar que de vez em quando não pega bem quebrar o clima de camaradagem, sabe como é]. É também muito importante saber impostar a voz ao se apresentar dizendo "boa tarde secretário, meu nome é Fulano de Tal e eu trabalho para o veículo Tchan". Seus colegas da Editora Tchun morrerão de inveja.

Escrever para um jornal ou site é, em 90% dos casos, igualzinho a apertar parafusos chaplinianos em Tempos Pós-Modernos. A diferença é que a gente bota o gravador na boca do Serra e por isso acredita estar muito próximo do poder. No fim do dia, nem é preciso se esforçar: basta caprichar na cara de "sou foda", ajustar bem os oclinhos de armação preta, e tomar cuidado pra não perder aquela camisa de força chamada "manual de redação e estilo" na catraca do busão. Tudo isso antes de beber cerveja no boteco sujo e discorrer sobre a superioridade do meu lead sobre o seu, do seu sublead sobre o meu, disputando quem come nos restaurantes mais badalados, viajou para os lugares mais exóticos, conheceu as baladas mais descoladas, e escutou primeiro a música que vazou daquela bandinha de garagem dinamarquesa de electro-psy-tchananan-dub.

Deve haver alguma conotação romântica em tudo isso. Terá sido amarração para o amor? Ex-colegas de faculdade, por exemplo: vários deles eram completamente fanáticos pelas pirâmides. Estufavam os peitos e cerravam os punhos para defenderem seus textos enquanto seus rostos se ruborizavam e suas artérias saltavam numa fúria de dar inveja aos bravos Leões da Fabulosa. Perseguiam pirâmides invertidas perfeitas como se fossem os púbis das mulheres de seus sonhos. Será que se casaram com elas? Foram prá cama, ou ficaram só nas "triangulares"? Uns beijinhos, talvez?

Muito medo do dia em que as transas de jornalistas também se tornarem assépticas e couberem em pirâmides invertidas padronizadas, duras, e até cortadas pelos pés.

*Madmoiselle Renata D´Elia, autora do texto, afirma que, apesar do tamanho dos ossos, não trocará seu ofício por nenhum outro. A menos que receba uma proposta milionária para virar naturista marajá em alguma ilha paradisíaca do Pacífico e passar os dias alimentando pelicanos. E mesmo assim, tratará de montar e produzir o informativo mensal dos cocos, palmeiras e tartarugas gigantes ou qualquer coisa que o valha, contanto que seja escrito no dialeto próprio das crianças mágicas & curandeiros invisíveis.

** Somando todos os prós e contras, a autora ainda acha que essa história de regulamentação & desregulamentação da atividade jornalística é o samba do crioulo doido, a meteção total dos pés pelas mãos e a maior tapação de sol com a peneira ever.

*** Acima a famosa estalactite triangular instalada no Museu do Louvre, que [vejam só que bacana, amiguinhos!] simboliza a tão perseguida transparência nossa de cada dia.

4 comentários:

sil hutch disse...

Mesmo com o risco de me perder no caminho, ou pior- de tomar na cara e pedir mais, em breve nos encontraremos em mais um caminho em comum. Meda.

risquillace disse...

hahahahahahaha

risquillace disse...

hahahahahahaha. mas então agora pense nos pobres serisumano que trabalham com marketing...

Aline Priscila disse...

contudo, sorte a sua, que não terminou RP... hahahaha!