segunda-feira, 12 de março de 2012

MOZ says he loves Sampa (ah, vá!)

                                                                                         Fernando Borges/Terra

Só faltou chover canivetes no fim da tarde de domingo, 11 de março de 2012, em São Paulo. A Barra Funda já não é exatamente um cartão postal, mas com as calçadas empoçadas e uma muvuca de cidadãos encapados em plásticos de qualidade duvidosa a desviar de cambistas e vendedores ambulantes, a cena toda se incrementou de um tradicional "ah, como é difícil ir a um show no Brasil". Somos bravos e decididos. Estávamos lá para assistir o show do Morrissey, de volta à cidade após 12 anos. Formávamos um saudável mix de tiozinhos barrigudos com tiazonas modernas e outras figuras dos vinte e tantos em diante. Fomos obrigados a abandonar nossos guarda-chuvas ao destino cruel pois sequer havia um guarda-volumes e a entrada de armas brancas não era permitida. [Nos shows de U2, Bon Jovi e Paul McCartney, objetos perigosíssimos como um pacote de bolachas Passatempo e uma escova de cabelos ionizada foram confiscados de bolsas amigas].  

É sempre um alívio chegar à pista de um show, mas não houve muito tempo pra comemorações. Eu não sabia direito quem era Kristen Young mas seu show de abertura de 40 minutos revelou uma versão menos criativa e competente de Imogen Heap, só que com trejeitos longínquos de Kate Bush. Muita tecladaria sintética e alguma performance depois, temos ali um apanhado de clipes de rock dos anos 1950 a 1970, seminais para todo o imaginário e a imagética dos Smiths. Eles precederam a entrada de Morrissey, saudada com entusiasmo, mas longe do "delírio" descrito em determinadas resenhas, com "First Of The Gang To Die". 

O Espaço das Américas não é exatamente uma casa de shows. O som esteve bastante abafado, afetando guitarra, baixo e teclados. E embora MOZ estivesse bem "dado" ao povo da frente, o resto do público teve dificuldades para ver o palco: a visibilidade naturalmente ruim somada a uma imensa torre de som no meio da pista e telões laterais criminosamente desligados durante toda a apresentação prejudicaram muito a experiência na Faixa de Gaza, para trás da Pista Vip. O telão central exibia outras projeções. Muita gente enxergava o cantor apenas por raras frestas ou pelas telas das câmeras digitais. "Alma Matters", por exemplo, só vejo e ouço com clareza pelo vídeo abaixo. 

Óbvio que houve emoção, comoção, catarse e afins, especialmente entre os que chegaram cedo, pegaram fila, capricharam nos topetes, se teletransportaram dos anos 1980 e se amontoaram pelo ídolo. Mas eu diria que no "deep crowd", a cantoria dos fãs não teve  grande entusiasmo. A coisa melhorou do meio pro final, com o hit solo "Let Me Kiss You" e as clássicas "There Is a Light That Never Goes Out" e "How Soon is Now?", esta última tocada com peso e impacto mais próximo do que se espera de um artista como Morrissey. A surpresa veio com "Please please please let me get what I want" (momento mágico para gente como eu, que procura pelas mesmas coisas -- em diferentes rostos -- desde a adolescência). Só que ela chegou acompanhada de outra falha de som e veio numa embalagem mais contemplativa do que propriamente "cantável". 

Execuções lentas e algum cansaço da nossa tia velha preferida também foram perceptíveis para além de suas críticas ao Príncipe Harry, no país para arrecadar dinheiro para a filantropia da coroa real. E claro, para além do ainda bem-vindo combo do clichê, com direito a bandeira do Brasil e muito "Love you Sampa". Mas apesar da habitual mis-en-scene e sempre ótima postura de palco, Morrissey já teve bandas melhores e mais boa vontade com seu repertório de significados tão pessoais e intransferíveis. Seguimos bravos e dedicados ao maior "M" de Manchester --  eu apenas um pouco mais ponderada e crítica, com a sensação de que poderia ter sido bem melhor.  


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