sábado, 10 de abril de 2010

Outono em São Paulo

Nossas mãos congelam. Nossos lábios racham. Nossas cabeças são de chocolate. Nossos olhos enganam: é só miopia ou tudo isso é trânsito? Tantas luzes turvas pelas janelas chuvosas do metrô. E uma velhinha tosse. Uma estudante boceja. Diante de mim, uma mulher de meia idade com cheiro de cândida, rugas de expressão e cabelos desbotados passa quarenta e cinco minutos esgarçando as mangas do moletom marrom povoado pela inscrição da mesma exclamação repetida: "ROCK N´ROLL!"

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I should go back to Manhattan, suspirou Norah Jones, para dentro dos meus ouvidos naquela volta pra casa. Era uma noite fria. The Fall é um álbum para dias frios e faz do debut premiado Come Away With Me (2003) mera trilha sonora de carro de tiozinho. Lançado em 2009, o disco traz uma Norah Jones mais madura, misturando linhas de baixo e batidas minimalistas a guitarras com notas longas pontualmente distorcidas e elegantes timbres de teclado. Com Norah Jones, menos é mais. Algumas, como a bela Light as a Feader, recebem certeiros arranjos orquestrados; outras, como You´ve Ruinned Me e Tell Your Mamma, parecem ter bebido das melhores fontes do country-blues, enquanto Man Of The Hour faz qualquer lampejo de brilho em Volume Two -- segundo trabalho de estúdio da dupla She & Him -- parecer muito adolescente pro meu gosto. Aprendam ao vivo, meninos, com Chasing Pirates.


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E
u amo os Rolling Stones. Cada dia mais. A primeira vez que vi a capa de Exile On Main Street foi numa loja de discos na Av. Cruzeiro do Sul, em Santana, no outono de 1995. Foi uma decisão difícil, dada minha escassa verba de 20 Reais contados, incluindo as moedas. Naquela vez, optei por Sticky Fingers e ganhei muita vida com ele. Acabei ouvindo Exile On Main Street algum tempo depois, mas nunca com tanto chiado e válvula como agora que vou importar o LP remasterizado super vitaminado. E cá estamos, Jagger e eu, abrindo os braços com um garfo na mão e uma mulher de pau na outra para cantar e girar na cozinha ao som de The Loving Cup e Let it Loose. Certa vez perguntei a um doutorzinho universitário bundão clássico (que não tomava banho, diga-se de passagem) o que ele achava dos Rolling Stones. "Acho mal produzidos", limitou-se a responder, ajustando os óculos na testa. São esses alguns dos prazeres indescritíveis da vida. Por essas e outras, é que eu amo os Rolling Stones. Cada dia mais.


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N
ão somente os filmes, mas as coletâneas musicais iranianas também têm nome de fruta. Pomegranates é uma fruta originária do Oriente Médio e também o nome de uma coletânea muito louca --difícil de classificar -- só com as canções psicodélicas sessentistas proibidas no país islâmico. Coisas produzidas clandestinamente, naquela atmosfera de referências externas pirateadas retratada pela Marjane Satrapi, em Persepolis, aquela animação igualmente doida e boa pra caramba. O disco saiu faz pouco tempo nos Estados Unidos, e quase faz qualquer mocinha modernete ocidental ter vontade de ocultar uma sainha curta por baixo dos panos muçulmanos e beber escondido numa festa proibida de Teerã, beijando um barbudão narigudo bem gostoso, é claro. Tá cheio de coisas no Youtube e você pode baixar o disco todo ou importa-lo se quiser. Só pela capa já vale a pena. Ouça: "Negar", de Soli, "Helelyos", de Zia, Mohammad Nouri com "Biya Bar-e Safar Bandim" , ou a inacreditável "Soul Raga", que até parece "italian beat" dos filmes B da Cinecittá, 60´s. Se puder pesquisar mais referências a respeito, faça-o por mim e me conte, ok? Sabe traduzir árabe? Boa. Mas, please, faça alguma coisa!


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Outra coisa, só que rápida. Sabe o Flores Partidas, do Jim Jarmusch? Além do Bill Murray impágável e daquele etíope maluco, o filme tem trilha sonora com Mulatu Astatke a dar com o pau. Mulatu Astatke é sempre bom, seja na abertura de Sex & The City, seja nas noites frias e solitárias da gente que escreve... escreve... e escreve... nas madrugadas de sábado, ciente de que existem muitas madrugadas e sábados por aí. É só mais um outono em São Paulo.

4 comentários:

Camila S. disse...

Caio e sou levada pelo vento nessa São Paulo.

guilherme disse...

otimas dicas e crítica!

Esse som do rolling Stones é sem palavras, a dica iraniana é alterna no talo, norah jones respeito (apesar de não ser grande fã) e gostei muito de Mulato

Ponto para a delia

Aline disse...

Norah Jones é mesmo mto bom pra esses dias de outono...

cold turkey disse...

rolling stones. quem não para nunca tá parado. ta no nome da banda. dificil querer complementar...só concordo, hahaha, e muito.