domingo, 16 de janeiro de 2011

Pensata Winehouse


Foto: Fernando Borges/Terra


Você lerá meia dúzia de deslumbrados e habitantes do mundo cor-de-rosa escrevendo muita coisa sobre os shows de Amy Winehouse em Florianópolis, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo nesses primeiros dias do ano. Não acredite neles. Diferente do publicado em alguns sites noticiosos durante e logo após o show de ontem, no Anhembi, Amy Winehouse passou longe de emocionar ou divertir a maioria dos 30 mil presentes.

Não quero fazer a ave de rapina: ao contrário de alguns membros do Núcleo Sádico & Bufônico da Vila Olímpia, eu não teria pago ingresso para ver uma artista em decomposição encher a cara no palco, tirar a roupa, sair na mão com alguém e fazer algum tipo de escândalo. Tampouco torci para que as coisas dessem errado com Amy Winehouse. Mas diante de opiniões e resenhas completamente desencontradas sobre os primeiros shows, fui ao Summer Soul Festival com expectativas moderadas.

O festival foi aberto com Miranda Kassin e André Frateschi, bastante entrosados ao vivo, ao lado de uma banda que animaram o público na tarde de sábado. Mayer Hawthorne e Janelle Monae fizeram apresentações de abertura tecnicamente melhores, além de mais calorosas e energéticas do que a de Amy Winehouse. Não são ainda artistas completamente moldados, especialmente para os grandes públicos, mas tem bandas competentes e bom repertório. Mayer ganhou o coro do público no início da noite com o hit Maybe So, Maybe No. Mas foi Janelle quem surpreendeu os desavisados com uma vibrante performance vocal acompanhada por músicos afiados, renovando as bases do pop, soul e R&B deixadas por Michael Jackson e os artistas da Motown, décadas atrás. Rolou até um moonwalk. Performática e imagética, Janelle mesclou momentos eletrizantes -- como o hit Locked Inside -- a uma convincente versão quase acapella de Smile, de Charles Chaplin. Se continuar nessa trilha, deve tirar ainda muitos coelhos gordos da cartola.

Amy Winehouse subiu ao palco com atraso e se apresentou por pouco mais de uma hora. Pouco, comparado à média dos shows internacionais que estão atracando por aqui. Talvez suficiente para quem tem 2 discos lançados. O problema é que, mesmo com uma boa banda, Amy não emprestou um pingo de emoção a canções naturalmente carregadas de emoção. Cantou como quem trabalha de bode numa manhã de segunda-feira. Apostou num repertório mais intimista na primeira metade do show -- o que talvez caísse melhor num espaço fechado e pequeno, onde Amy não precisaria encarar tanta gente de frente -- mas nem isso fez com paixão e passou longe dos seus melhores momentos vocais. Não parece lá muito bem. Aliás, parece não se importar.

Zalon, seu backing vocal, entra com mais energia que ela. Nem Rehab empolgou o suficiente. Na segunda parte, com Valerie e I'm No Good, a coisa parecia que ia decolar. Mas não vingou. Olhando para trás, era possível ver gente aos montes deixando o show antes do fim. Para quem endeusa Amy Winehouse como a grande diva dos nossos tempos, o que foi apresentado ao vivo é bem pouco. Parece mais um triste desperdício de talento -- que já passei a questionar -- e uma bela falta de consideração com o público.

Na Europa ou nos Estados Unidos, Amy Winehouse emplaca, no máximo, um lugar no topo dos decadentes pops. Ao vivo, é só farsa.

Orelhadas: ouvindo a conversa de estranhos no Summer Soul Festival

"Achei muito ruim ter que ficar assistindo um monte de bandas até ver a Amy. Se eu soubesse, não teria vindo cedo", comentava a moça na saída.

"Vim aqui pra ver Janelle Monae. Se a Amy cantar bem, é lucro", disse um cara simpático na fila da cerveja.

"Vim aqui ver Janelle Monae. Amy Winehouse já tá over", disse a modernosa de plantão.

"Quem é esse, o Tobey Maguire?", disse a patricinha sobre Mayer Hawthorne, na saída do banheiro.

"Quem não gosta de Amy não entende de música", disse a Estátua da Liberdade made in Vila Olimpia, estacionada em minha frente.

Por que não ir a festivais no Brasil?

Deve ser engraçado ler este blog. Você chega aqui e me vê relatando sempre os mesmos problemas em diferentes festivais e shows no espaço de meses. Tem gente que acha que é birra. Eu acho apenas que os problemas às vezes soterram a diversão. E -- veja só que coisa! -- agora nem a tal da Pista Premium escapa do Brazilian Várzea Style! Vamos à lista:

1) Fila desgraçada no bar, muvuca pra entrar e sair dos banheiros, cerveja quente -- que passou a ser servida em lata, contra as normas de higiene e segurança recomendadas para eventos como este -- e por fim, falta de água, refrigerantes e cerveja. Uma das atendentes dos pontos de venda da Antarctica Sub Zero chegava a gritar com as pessoas que esperavam o troco.

2) Tudo isso só não é pior do que as pessoas se esbarrando, derrubando coisas, pedindo, gente querendo filmar o show inteiro enquanto reclama que os outros se mexem, gente que ser sentar numa rodinha para jogar pôquer e se acha no direito de pedir que você não encoste a perna nas costas da amiguinha espaçosa.

3) Gente que vai a shows porque é hype ir a shows. Gente que se importa muito menos com música do que com a foto no show da "louca" da Amy Winehouse para postar no Facebook no dia seguinte.

4) Má visibilidade do palco e som baixo na maioria dos pontos da arena. Telão com falhas no show principal.

5) Na hora da saída, muito trânsito nas imediações do Anhembi. Pouca segurança nas imediações. Milhares de pessoas se dirigiram a pé por quilômetros até as avenidas Santos Dumont, Voluntários da Pátria e Cruzeiro do Sul ou para a Marginal Tietê. Gente amontoada nas calçadas esperando taxis que não passavam nunca. Radios-taxi com ligações congestionadas. A cena continua até o Terminal Rodoviário Tietê, onde também não havia taxis. Consegui um taxi após quase 2 horas do fim do festival.

6) Uma vez, entrevistando a Fernanda Takai, do Pato Fu, ouvi: "show tem que ser em horário de gente, tem que terminar em tempo das pessoas conseguirem pegar um ônibus, conseguirem jantar em algum lugar, dormir direito durante a noite". Está certíssima. E juro que não é porque estou embalzacando (bem mais saudável que a Amy).

3 comentários:

edubaldan disse...

Pô! Fiquei até mais tranquilo por não poder ter comprado o ingresso para ver aqui em Floripa.

Além de tudo que você relatou, ainda não caiu a ficha para mim esse negócio de um show custar mais que um salário mínimo. (Nem todos, mas a prática comum é sempre abusiva). Alienado talvez...

Diego Fernandes disse...

É uma cilada bino, total. Risco Amy te pegou em cheio. Ainda bem que tinham dois caras bons antes dela, senão a tensão pós show seria bem pior.

Larissa disse...

Porra, Renata! Que odisséia, nega véia! Acho uma merda enfiarem a faca por um semi-show, quando a artista está visivelmente cagando e andando. Já comentei contigo e retorno a mesma tecla: prefiro a Amy redonda, rodando no aparelho de som, sem interferência externa, sem esquecer letra, sem bebiba, sem queda. Ela ali, bem produzida, bem afinada, bem arrumadinha. Sim, sou uma nerd infeliz mesmo. Não curto essa "emocionante jornada" que só os festivais oferecem. A minha inveja está na Monáe que tu viste e eu não. Espero superar essa perda, já que acredito na real possiblidade dela pisar em solo tupiniquim como estrela Diva, sem o papel insosso de coadjuvante. Ela não merece. Brilha muito a minha topetuda. Parabéns pela cobertura jornalística. O teu sofrimento garante a nossa informação. ;D