quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Piva, parte 2 -- acalmando os ânimos

FOTO: RENATA D´ELIA/2008. Piva em Cotia- SP.

O poeta Roberto Piva foi transferido neste fim de tarde para um outro quarto no Hospital das Clínicas. O local é bastante arejado e ele está na companhia de apenas mais uma pessoa, bastante satisfeito com a nova acomodação.

Conforme divulgado no post anterior, Piva está recebendo bons cuidados da equipe médica do HC. Ele deve passar por um Cateterismo nos próximos dias. No momento, a prioridade é fortalecê-lo e garantir-lhe um bom funcionamento cardíaco. Posteriormente serão feitas 2 cirurgias: próstata e catarata.

Como qualquer grande homem de 73 anos, acostumado a devorar Leitões à Pururuca & outros banquetes, Piva reclamará da comida do hospital, "sem sal e sem gosto", em qualquer quarto do mundo. E nem precisa ser poeta pra reclamar disso: costuma ser assim conosco, com nossos amigos, nossos pais e avós. Ou alguém aqui trocaria uma pizza de mussarela por um purê de batatas sem sal?

Portanto, vamos continuar torcendo para que ele se recupere logo. O apoio dos amigos é sempre bem-vindo. Desde já, gostaria de agradecer aos que me ajudam a divulgar esses esclarecimentos referentes à internação do Piva. Peço que continuem a divulgar.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Sobre o Piva: vamos com calma

FOTO: Renata D´Elia/2008. Jardim Botânico de São Paulo.

O poeta Roberto Piva, que sofre da Doença de Parkinson, está internado no Hospital das Clínicas de São Paulo desde o dia 13 de janeiro, onde recebe visitas e assistência diária dos amigos mais próximos e do companheiro. Desde então, vem passado por exames, tem recebido cuidados médicos e já está mais forte e mais disposto. Para evitar excessos de protagonização, os mais próximos haviam optado por manter a internação com discrição. No entanto, após movimentação e mobilização em blogs e redes sociais por terceiros, a notícia saiu na Folha de S. Paulo de hoje.

Antes da internação, Piva se queixou de diarréia e mal estar. O amigo e poeta Antonio Fernando de Franceschi -- que sempre lhe ajuda nesse sentido -- providenciou uma consulta com um médico particular de confiança, onde Piva chegou acompanhado do também amigo e poeta Roberto Bicelli. Por conta de um intenso quadro de desidratação e pela necessidade de fazer exames, o médico providenciou, pessoalmente, uma internação no Hospital das Clínicas.

Através de exames, foi diagnosticado um problema de próstata. Piva precisará passar por uma cirurgia. Mas antes disso, os médicos precisam garantir sua condição cardíaca e renal. Dentro de alguns dias, ele passará por um cateterismo no Incor, anexo ao HC, um centro de referência nesse tipo de tratamento. Só depois os médicos tomarão as providências pré-cirúrgicas.

Piva não tem plano de saúde. Quem não tem plano de saúde -- seja poeta, lixeiro ou dono de padaria -- se trata pelo SUS. Qualquer um de nós, mesmo com boleto pago de convênio médico, pode precisar do SUS após sofrer um acidente ou numa localidade onde não haja hospital privado. Todos sabemos que o HC não é hotel 5 estrelas. Mas apesar de não ter uma cama com trocentos botões e uma TV de Plasma com 100 canais por assinatura, Piva está num quarto limpo e arejado. Claro que há outras pessoas nos leitos vizinhos, evangélicos chatos, televisão do doente ao lado ligada no Silvio Santos, enfermeiras com cara de malvadas e um monte de coisas que podem irritá-lo, além da própria doença. Mas ele não está "jogado" ou "abandonado". E a última coisa que vai querer saber por terceiros ou numa notícia de jornal é que seu estado é "deplorável" e que sua situação mais parece "um inferno dantesco".

Sejamos sensatos: uma internação que tende a se prolongar, incluindo todos esses exames, medidas cautelares, medicações ministradas, procedimentos cirúrgicos, e até mesmo alguns dias de UTI (comum após cirurgias desta espécie), vai sair mais caro do que comprar um imóvel num bom bairro paulistano. E tudo à vista.

Alguns poetas estão se mobilizando para conseguir um um quarto melhor para o Piva apesar de que, no SUS, todo cidadão é igual (ou não?). Muito bem. Outros estão divulgando a conta corrente do poeta no Itaú. Ajudas financeiras, obviamente, também serão bem-vindas por ele; principalmente para as despesas que virão no período pós-cirúrgico.

Mas façamos com cuidado para não passar por cima das decisões que os mais próximos (principalmente seu companheiro) devem tomar. Se não, ao invés de ajudar, podemos atrapalhar. Ademais, vamos torcer para que o Piva se recupere logo. Os amigos estão convidados a visitá-lo e ajudar a mantê-lo confiante no tratamento. Se ele reclamar da comida, a gente já sabe o porquê: deve estar morrendo de saudade do Leitão à Pururuca e do vinho chileno que tanto gosta.

A conta:
Roberto Lopes Piva
CPF: 565 802 828-00
Banco Itaú
Agência 0036
C/C: 20592-0

domingo, 24 de janeiro de 2010

Sampá



A primeira coisa que aprendi sobre São Paulo é que o Jaçanã ficava muito longe. Nos anos 1980, meu bairro era um mundo paralelo de sorveteiros apertando buzinas, depósitos de doces, velhinhos de boina jogando dominós nas praças e um imenso milharal diante da janela do quarto. Nas tardes de verão, subia de repente um cheiro de chuva e a molecada corria pra tirar a rede de vôlei do meio da rua. As chuvas ainda duravam pouco. E as crianças iam pra debaixo dos canos e goteiras, onde dançavam imundas até que a água parasse de escorrer. Nas Copas do Mundo, a vizinhança doava dinheiro para comprar tintas e pintar os asfaltos de verde e amarelo. As igrejas tinham quermesses badaladíssimas. E a velha guarda do bairro chamava o centro de "cidade".

Mas a cidade só ficava grande depois de uns 20 minutos de carro. Minha mãe tinha um Fusca. Eu gostava de grudar o rosto nas janelas de trás e arregalava os olhos para os outdoors -- que ainda existiam -- completamente impressionada com as novas sílabas e com os anúncios das cuecas Mash. Gostava de como as avenidas largas cruzavam ruas estreitas e de como bairros vizinhos podiam ser completamente diferentes. E a cidade era o nome de cada artista nas placas das exposições de museus.

Meu pai preferia as Marginais. No carro dele, meus primos me ensinaram a contar até 10 nos momentos de tensão: se não atravessássemos a ponte em 10 segundos, ela começaria a ceder e nós cairíamos no Tietê, onde um monstro gosmento puxaria nossos pés para o fundo. Foi um aprendizado marcante. Até hoje, em pesadelos recorrentes, sinto desespero e horror ao ser atingida pelo petróleo super aderente que transborda do Tietê nas tempestades oníricas.

Quando adolescente, gostava de sentar no banco alto do busão, esticando as mangas dos moletons pra me proteger do frio e ajeitar os fones de ouvido: rock n´roll no último volume a caminho da escola. Mas eu já não gostava muito da escola. O jeito era cabular: eu descia do ônibus num bairro completamente aleatório, escolhia um boteco barato, devorava um misto-quente com coca-cola ou um sorvete quando fazia calor. Caminhava pelo bairro, nas bancas de revistas, nos sebos antigos, conversava com estranhos e por fim tomava a condução seguinte para cruzar a cidade a caminho de casa.

Veio a faculdade. Pegar o metrô subterrâneo na província, observando um entra e sai de gente de toda sorte. E depois subir as escadas rolantes da estação na Avenida Paulista, caminhando eufórica a passos largos, sempre atrasada. A vontade de xingar de estúpidos todos os motoristas solitários, com ar-condicionado ligado e vidros fechados, pagando a cota do engarrafamento recorde na 23 de maio. Por isso mesmo, deixo a pressa pra depois. As noites invariavelmente terminam nas mesas de lata dos botecos na calçada, até que a gente se ponha a correr -- um tanto alterados pelos copos de cerveja -- pra não perder o trem, que vocês sabem, sai agora às 11 horas. Se não, só amanhã de manhã.


Fotos: Demônios da Garoa e Adoniran Barbosa na antiga Estação de Trem Jaçanã, da extinta Linha Cantareira. Cena de "Meu Destino É Pecar" (1952), dirigido por Manuel Peluffo, da Companhia Maristela de Cinema, que ficava aqui no bairro. Só para agradar, virtualmente, os meus avós.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

In all that exists, none have your beauty*


"Amou Michael Hutchence sobre todas as coisas, até que viu um cabeludo bonito de verdade no metrô", diz o primeiro trecho da biografia de Renata D´Elia, por Aline Marcelino (Ed. Madness, São Paulo, 2040). Foi assim por muito tempo: melhor fantasiar de verdade ao invés de pensar nas espinhas, nos aparelhos ortodônticos e nas canelas finas por trás dos uniformes azul royal. As adolescências são mesmo cruéis. Os primeiros beijos, por exemplo, (desculpaí, Guilherme) nunca tiveram o mesmo gosto de Michael. E aquele dia, já contei? Era um homem lindo. Vestia camiseta branca e exibia na testa belos óculos como tiara, domando para trás uma multidão de caracóis. Em 1998, Marcelo Sallas & Iván Zamorano eram os únicos machos do mundo com autorização moral para o uso de tiaras e, mesmo assim, sem caracóis. Mas aquele era um homem lindo, castanho, e levemente estrábico; possivelmente míope como Michael, ou então, eu era mesmo muito desajeitada naquele uniforme azul royal. O persegui siderada por todas as estações, sempre a dois bancos de distância, fora da linha, até correr seguindo as placas da saída e meter a cintura com toda a força na catraca quebrada e quase voar pelos transeuntes do Brás, enquanto o homem lindo sumia na multidão. (Capítulo 1: Cabulando as aulas de Física).

As adolescências são cruéis, é o que dizem.

Teve também aquele altão magrelo que fumava sem parar no saguão do Transamérica. Era 2001. E eu, que era nitidamente mais bonitinha com qualquer outra roupa que não fosse um uniforme azul royal. Minhas pernas bambeavam e meu corpo hesitava de pé como um carro alegórico numa passarela de nuvens (já fiz frases melhores, admito), mas corri pelas escadas e cantos até chegar à primeira fila do teatro escuro, e veja só: possivelmente o último intelectual paulistano cabeludo. Óculos de armação preta, pose de superstar e essas coisas que não se fazem mais como antigamente, especialmente na São Paulo andrógina das Augustas tristes. Como eu disse, era levemente estrábico, mas não míope. Ele era Hutchence, eu era Minogue. E aquele joelho enorme se esbarrando no meu quando ele sorria. Daí aparecem as adolescências cruéis. Nunca mais tive uma cegueira branca ao acender das luzes. Da poltrona direita, o irmão da amiga segurava de leve a minha mão. Eu disse apenas: "Fabio, não". (Capítulo 2: O Cupido Estrábico. Ou Míope, como Michael.)

E eu que achava que para sair na Austrália, bastava cavar um buraco muito fundo. Por muito tempo eu tentei.





*Para Michael Hutchence, que nasceu há 50 anos, do outro lado do mundo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Amores de verdade, proibidos e torturantes*

"It's a teenage dream/ to be seventeen/ and all wrapped up in love" Bay City Rollers

Namoradas e namorados, saibam que o amor é a força que move o rock and roll.

Não o amorzinho sanitizado, cabeça-zona-sul, que deu forma, por exemplo, ao rock brasileiro dos anos 80 ("você não soube me amar", "ursinho Blau-Blau", "não posso mais ficar assim ao seu ladinho", "não há nada de novo, ainda somos iguais").

Falo de rock de verdade e amores proibidos, torturantes. Sofrimento e dúvida.

Do amor sob o ponto de vista da genial Thalia Zedek (vocalista do Come), habitante de um universo sombrio, onde as coisas saem quase sempre erradas e paixão e martírio se confundem.

Das emoções em pedaços de Ian Curtis (1956-1980), o poeta suicida do Joy Division que morreu há quase 20 anos e cuja influência ainda angustia bandas mundo afora.

Da libido balofa de Elvis Presley, dos vabagundos sem rum cantados por Neil Young, das perversões de Lou Reed e o Velvet Underground.

Do amor com cara de mau dos Rolling Stones; dos jovens inseguros, trancados em casa, de Brian Wilson e os Beach Boys.

"Mão na luva/ A gente pode ir aonde você quiser/ E tudo depende de você/ Ficar sempre perto de mim." Isso é "Hand in Glove", dos Smiths, aberta a todas as interpretações possíveis, mas quem se importava ou percebia, nos introspectivos anos 80?

Da voz única de Chrissie Hynde, dos Pretenders, autora de baladas que nos faziam, como escreveu há 15 anos um velho jornalista brasileiro, querer que as estrelas fossem de vidro, para que pudéssemos reduzi-las a pó, uma a uma.

Do amor ao som de rock nos bailinhos de garagem em sábados gelados, do som triste para ouvir sozinho(a) em casa.

Da paixão mutuamente destrutiva de Sid Vicious (1957-1979), dos Sex Pistols, e sua mulher, Nancy Spungen. E até do arranca-rabo 24 horas por dia entre a megera Courtney Love e seu querido suicida Kurt Cobain (1967-1994), a alma do Nirvana.

Das baladas brutalmente honestas dos Foo Fighters, do videoclipe mais maravilhoso de todos os tempos, "Dirty Boots", do Sonic Youth.

Do amoral Jerry Lee Lewis e seu casamento (o terceiro), com uma prima de 13 anos de idade.

Do reverso do amor, dos lábios de açúcar cantados por Ian McCulloch e o Echo and the Bunnymen.

Das adolescentes alucinadas que morrem de amores por bonitinhos sem talento, como Menudo, Bush, Bon Jovi ou até os Bay City Rollers (escoceses que fizeram sucesso na década de 70).

Dos bêbados com bom humor do Reverend Horton Heat, da melancolia infinita do sempre derrotado Roy Orbison.

A vida é louca e você sabe, baby. Quem avisa é Iggy Pop.

*Alvaro Pereira Junior, para a Folha de S. Paulo, em 09/06/1997.


domingo, 27 de dezembro de 2009

O último meme do ano

1 – onde está seu celular?
Jogado em cima de um livro, ao lado do óculos, na banquetinha entre a poltrona e o sofá da sala.

2 – cor do cabelo?
Loiro escuro. Natural, viu?

3- o que mais gosta de fazer?
Papear, rir, comer, beber, sexo, ouvir música, ficar de papo pro ar.

4– o que você sonhou na noite passada?
Tenho sonhado um monte de coisas que parecem esparsas. Vou começar a anotar.

5 – onde você está?
Em casa, na sala.

6 – onde você gostaria de estar agora?
Aqui mesmo, de boa.

7 – onde você gostaria de estar em seis anos?
Numa deliciosa casa cheia de amigos, comendo bem, bebendo bem, com o amor em dia, trabalho em dia e a conta bancária idem. Não sei se no Brasil. Talvez já matriarca ou ensaiando o matriarcado...

8 – que carro você tem?
Eu ando de metrô e no carro da mamis. Mas tô indecisa entre um Ka novo e um Celta.

9 – onde você estava há seis anos?
Acho que eu estava de férias do estágio, viajando pra passar o reveillon na praia com amigos, ao final do 1º ano de faculdade. Aê!

10 – onde você estava ontem?
De madrugada, na casa da família após a ceia de Natal. De dia, almocei na casa do pai da minha amiga Dan. Risadas, comida boa e bebida ótima, do jeito que eu gosto!

11 – o que você não é?
Burra.

12 – o que você é?
Bonitona. Aê!

13 – objeto do desejo?
Uma casa própria grande, decorada com as coisas que eu curto, num bairro legal e com uma mesa bem bonita no quintal. (Só penso em comida)

14 – o que vai comprar hoje?
Um celular.

15 – qual sua última compra?
Um jogo americano de jantar, pro meu irmão.

16 – a última coisa que você fez?
Uma massagem nos meus pés. Revigorante!

17 – o que você está usando?
Uma regata branca, um short jeans, descalça.

19 – seu cachorro?
A Galinha, um poodle.

20 – seu computador?
Véio bagarai, porém valente.

21 – seu humor?
Piadista, as always.

22 – com saudades de alguém?
Sim.

23 – que perfume está usando?
Nôa, de Cacharrel.

24 – que livro está lendo?
"Billy Wilder - e o resto é loucura, de Hellmuth Karasek". É do Welington, juro que devolvo em 2010.

25 – última coisa que comeu?
Pizza de atum.

26 – vontade de quê?
Descansar numa prainha agora nas férias. Logo mais é hora!

27 – preguiça de… ?
Cortar o cabelo. Juro que vou ao salão antes do ano novo.

28 – viagem nacional/internacional que você precisa fazer?
Viagem nacional: Lençóis Maranhenses
Viagem internacional: Cruzar a Califórnia de carro.

29 – seu verão?
Verão é ouvir Men At Work num final de semana de sol, a caminho do mar.

30 – ama alguém?
Claro que sim!

31 – quando foi a última vez que deu uma gargalhada?
Agora à noite.

32 – quando chorou pela última vez?
Me emocionei com algo essa semana, não lembro o dia.

33 – para que time torce?
São Paulo Futebol Clube.

34 – Um homem bonito, desejo de consumo?
Só um? Eu cito qualquer delegação esportiva italiana, inteirinha. E mais alguns moços sexies e talentosos: Daniel Day Lewis, os irmãos Ralph e Joseph Fiennes e Clive Owen.

35 – Uma mulher bonita?
Juliette Binoche e Penelope Cruz. No Brasil, a Cristiane Torloni sozinha bate todas as popozudas & menininhas Malhação da vida.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Balanço

Comecei 2009 sem um puto no bolso, desempregada, com um livro incerto para oferecer a editores que não me conheciam, sem saber se moraria por muito tempo aqui ou ali, negociando dívidas altas em gordas prestações que pareciam intermináveis. Sobre o amor, não preciso dizer: é uma constante, por mais inconstante que seja.

Durante o ano, arrumei um emprego, fiz freelas e contatos profissionais, vendi o almoço para comprar a janta, me equilibrei na corda bamba, nadei pelada, bebi menos, parei de fumar, sonhei muito, fiquei ansiosa com novos projetos, consegui assinar um contrato para publicar meu livro, engordei, emagreci, me viciei no Twitter, perdi Michael Jackson, conheci gente engraçada, não perdi as esperanças e consegui pagar as minhas dívidas, equilibrar as contas e abrir uma pequena empresa jornalística com clientes bacanas with a big big help from my friends.

Costumam dar a isso o nome de "volta por cima". Pois bem.

Em 2010, quero paz de espírito, amor, confiança, saúde e sorte: que a gente tenha fôlego pra correr atrás e conseguir!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O triste fim de Policarpo Quaresma

Nova York, segunda-feira, 30/11/2009. O ator Robin Williams foi ao programa do David Letterman. Foi anunciado, dirigiu-se ao palco, sentou-se ao lado do apresentador e mandou: “Espero que Oprah não esteja chateada com as Olimpíadas. Chicago enviou a Oprah e a Michelle (Obama). O Brasil mandou 50 strippers e meio quilo de pó. Não foi uma competição justa”. A piada foi parar nas homes dos principais sites noticiosos daqui. "Babá Quase Perfeita diz que no Brasil só tem puta e cheirador de cocaína". "Dr. Patch Adams fere a honra e os princípios morais do nosso país varonil". No Jornal da Globo, Christiane Pelajo treme e finaliza a nota coberta com um adendo: "O ator já passou por duas clínicas de desintoxicação por causa do vício em cocaína". O comitê do Rio 2016 avisou que vai processar.

Eu achei a piada ruim. O texto da Pelajo foi mais engraçado. Mas generalizando os Estados Unidos como um país de zumbis do Thriller versão obesa, não entendo o porquê de tamanha despeita. Aqui não é o país do sexo fácil? Nossos traficantes não são de dar inveja aos gângstas americanos? E traficante vende o quê, bijouteria? Nós somos os primeiros a pagar de paraíso sexual e vender nossas mulheres-bunda, boleiros, praias e festas como as maiores maravilhas do mundo. Segundo a D´Elia Research Inc. , pelo menos metade dos consumidores de bundas fáceis é muito bem criado, consome cocaína, e vive debaixo do mesmo teto dessa galera que achou um absurdo a piada da Babá (sic).

Eu não consumo cocaína nem strippers. Acho até que uma bela stripper traz muito mais prazer do que qualquer droga. Desconfio que os EUA tenham mais strippers e cocainomaníacos que o Brasil. E tudo leva a crer que nossas strippers & drogas são muito mais interessantes que as deles. E então, qual é a encrenca? Ponto para nós. What´s hapenning, brother?


terça-feira, 24 de novembro de 2009

O que eu não vi e o que preciso ver


Nessa onda de listas que não acaba mais -- e vocês sabem que eu adoro listas --, resolvi botar num papel imaginário chamado Microsoft Word uma lista com todas as bandas e artistas que eu vi, ao vivo, nos palcos daqui e de minhas raras viagens pra fora dessa pátria amada. Mas contar vantagem é fácil. Difícil é assumir que você comeu bola. Ou que nasceu na época errada. Ou que perdeu... você perdeu, playboy!

Doloroso é tomar nota da quantidade de coisas que você daria um dedinho para assistir, mas não vai rolar nessa vida. Deliciante, no entanto, é planejar, fazer figuinhas e mentalizar a glória: ver aquele show daquele artista que você ama e que não pode morrer ser ver - nem esperar que ele morra pra ficar viuva & frustrada.

Além da minha listinha, convidei alguns amigos pra responder às questões. Já dá um termômetro. Grandões & grandonas do entretenimento: façam uma forcinha pra trazer os vivos!. E que os mortos sejam deixados em paz.

Renata D´Elia, jornalista, São Paulo
O que eu preciso ver: David Bowie, PJ Harvey, Pixies, Portishead, Depeche Mode, Peter Gabriel, Stevie Wonder, Nick Cave, Lou Reed, Morrissey, Bryan Ferry, Paco de Lucía
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Queen, Marvin Gaye, Janis Joplin, Miles Davis, James Brown, Ray Charles, Serge Gainsbourg, Elis Regina [e bônus pro meu querido Michael Hutchence].

Ary França, ator, São Paulo
O que eu preciso ver: Zeca Pagodinho
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson

Fabio Carbone, controller, São Paulo
O que eu preciso ver: Decemberists, Andrew Bird, Of Montreal, Pavement completo
O que nessa vida não dá mais: Pink Floyd, Beatles, Led Zeppelin, Doors

Silmara Ferreira, publicitária, São Paulo
O que eu preciso ver: David Bowie, Depeche Mode, Morrissey, The Cure, Bon Jovi
O que nessa vida não dá mais: INXS com Michael Hutchence, The Doors, Jeff Buckley, Nirvana

Daniela Dolme, estudante, São Paulo
O que eu preciso ver: Foo Fighters
O que nessa vida não dá mais: Marvin Gaye, Cazuza, Ray Charles.

Rodrigo Kurtz, designer gráfico, Florianópolis
O que eu preciso ver: Gotan Project e Bajofondo
O que nessa vida não dá mais: Moloko e No Doubt

Marcelo "Billy" Comodoro, músico, São Paulo
O que eu preciso ver: Quens Of The Stone Age e Rage Against The Machine
O que nessa vida não dá mais: Led Zeppelin e Beatles

Marcelo LaFarina, jornalista, São Paulo
O que eu preciso ver: Misfits, Billy Talent
O que nessa vida não dá mais: Lupiscinio Rodrigues

Patris Rocha, musicista e publicitária, Belo Horizont
e
O que eu preciso ver: Talvez a Beth Gibbons...
O que nessa vida não dá mais: Todo mundo já mudou de lado! Nem preciso falar que queria ver Michael Jackson´s This Is It, versão heaven!

Larissa Rodrigues, professora, Porto Alegre
O que eu preciso ver: Stevie Wonder. Aretha Franklin? Sei que nem vou ver, mas ter esperança é bonito. Ah, eu queria ver a Alicia Keys antes dela se chegar pros lados dos manos do gueto-milionário.
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Beatles, Elvis Presley, Frank Sinatra, Elis Regina.

William Bernal, estudante, São Paulo
O que eu preciso ver: Elvis Costello, Caetano, Stones, Gal, Bob Dylan, Tom Waits, Luiz Melodia, The Who, Pixies, White Stripes, Herbie Hancock
O que nessa via não dá mais:
Beatles, Ray Charles, Tim Maia, Billie Holiday, Johnny Cash, Tom Jobim, Miles Davis, Frank Sinatra, Joy Division, Serge Gainsbourg.

Tiago Andrade, blogueiro e podcaster, São Paulo
O que eu preciso ver: Pearl Jam
O que nessa via não dá mais: Frank Zappa

Bruno Lofreta, jornalista, São Paulo
O que eu preciso ver: Flogging Molly, Yo La Tengo e Michael Hurley
O que nessa vida não dá mais: John Coltrane e Elliott Smith

Danilo Gomes, técnico em informática, Campinas
O que eu preciso ver: Stevie Wonder, Alicia Keys, Prince, Raphael Saadiq, Maxwell, Brian McKnight, Beyoncé, Quincy Jones & convidados.
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Chic, Luther Vandross, The Carpenters, ABBA, James Brown, Queen, Os 3 Tenores.

Fabiana Schiavon, jornalista, São Paulo
O que eu preciso ver: Metallica (tá quase), Beck e Foo Fighters.
O que nessa vida não dá mais: Quero morrer porque eu não vi os Ramones (não consegui comprar o ingresso do último show que eles fizeram por aqui). Inconsolável.

Miguel Bandeira, publicitário, São Paulo

O que eu preciso ver: Pixies
O que nessa vida não dá mais: Jimi Hendrix

Rita Squillace, relações públicas, São Paulo
O que eu preciso ver: Paul McCartney
O que nessa vida não dá mais: De Elvis Presley a Vinicius

Rogério Marques, historiador, Rio de Janeiro
O que eu preciso ver: Depeche Mode, Peter Gabriel, Tears For Fears, Pearl Jam, White Stripes, Duran Duran
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Queen, Oingo Boingo

Renato Limão, músico e relações públicas, São Paulo
O que eu preciso ver: Ninguém que eu não tenha visto. O Paul McCartney vem ano que vem. Mas veria BB King, novamente.
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Ray Charles, Stevie Ray Vaughan

Lanna Morais, jornalista, São Paulo
O que eu preciso ver: Depeche Mode, New Order, David Bowie, Bob Dylan,Paul Simon, Chico Buarque
O que nessa vida não dá mais: Serge Gainsbourg, Legião Urbana, Michael Jackson, Dead Can Dance, Beatles, Miles Davis

Augusto Facundo, professor universitário, São Paulo
O que eu preciso ver: Van Halen, Depeche Mode, Dire Straits, Pink Floyd, Jorge Benjor
O que nessa vida não dá mais: Michael Jackson, Frank Sinatra, Tim Maia, Allan Parsons Project, Art Of Noise, Jimi Hendrix, The Beatles







quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Cinema 2000´s



O The Times elegeu semana passada os 100 melhores filmes da década. Acho um pouco precoce. O problema, queridinho (a), é que eu não vou perder meu tempo fazendo uma crítica pedante e pretensiosa de cada um deles: se você quer resenhas para caçar argumentos e gastar com os deslumbrados, vá ler os grandes nomes, que dão muito mais status do que eu. Só quero agora me divertir e participar da trívia.

Aqui a proposta é pegar uma cervejinha, pedir umas batatas fritas, e dar pitacos nas mesinhas da calçada -- afinal, faz um calor e tanto em São Paulo--, enquanto eu descrevo os que considero mais importantes, pelo que acompanhei de cinema e também pelos meus gostos e filtros emocionais. Você vai perceber que deixei alguns mexicanos medalhões [mexicano + medalhão = mexilhão?] de fora. Não citei os infantis, mas Deus salve a Pixar e a visão de Alfonso Cuarón para Harry Potter. Também não liguei muito para os asiáticos. E nem fui ponto a ponto em cada item da lista. Mas, relaxa, cara: ficará longe dos 100 títulos.

Na ordem cronológica:

1) Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2000)

2)
O Pântano (Lucrecia Martel, 2000)
Não entendi como nem o porquê de terem deixado um dos melhores da década de fora. E eu que colocaria pelo menos mais 1 dos 3 longas de Lucrecia nesse bolo, o grande La Niña Santa (2004) já que La Mujer Sin Cabeza (2008) segue inédito em alguns países, inclusive esse aqui. Além de trabalhar a decadência, as relações muito loucas entre catolicismo, família, sexualidade e o mal estar com ironia, Lucrecia Martel é talvez a cineasta mais auditiva e olfativa do circuito mundial. Quero dizer: assista os filmes, escute cada detalhe, e sinta o cheiro das piscinas sujas e dos atritos entre as peles dos personagens.

3) Quero ser John Malkovich (Spike Jonze, 2000)

4) O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (Jean Pierre Jeunet, 2001)
Saia perguntando: bata nas portas, toque as campainhas, acorde as mulheres na faixa dos 25 aos 30; pergunte nos bares, mire as moças de saia, as garotas distraídas pelas vitrines das livrarias, as estudantes nas estações do metrô: qual delas não é, não foi e nunca vai ser Amelie Poulain? Quem é que nunca mergulhou as mãos e braços pelos feijões na quitanda, até tocar o pozinho guardado abaixo dos grãos? Quem é que nunca fez uns tricky games como aquele para ...[ops! paremos por aqui].

Jean Pierre Jeunet penetrou fundo no lúdico e na beleza da memória afetiva, com a mesma facilidade do braço num saco de feijões: primeiro num puta over narrativo de abertura, depois nas projeções de uns personagens nos outros, e por fim no amparo da incrível trilha sonora de Yann Tiersen, também uma das melhores da década. Apareceu Tatou, Audrey: um ícone. Já basta de motivos.

5) Os Excêntricos Tenenbaums (Wes Anderson, 2001)


E até a mala da Gwynith Paltrow se deu bem: seu melhor papel está aqui.

6)
O Filho da Noiva (Juan José Campanella, 2001)
Não está na lista do The Times. Mas eles não sabem nada da Sudamérica. Nem de Ricardo Darín, Hector Alterio e Norma Aleandro. O clichê-dramalhão que tantos temem amar não é tão clichê e não tem nada de ofensivo. Vale também pelo peso da chamada "buena onda" do cinema argentino (que fim teve a "buena onda"?), vale pelo rabo do foguete de La Quiebra, como vale pelo humanismo do belo Kamchatka, de Piñeyro, que cito logo abaixo.

7)
A Professora de Piano (Michael Henake, 2001)
Uma das melhores atrizes do mundo está escondida na cabine de um cinema pornô e eu não vou estragar a surpresa para quando você abrir a cortinininha.

8) As Horas
(Stephen Daldry, 2002)

Foi a primeira vez que prestei atenção em Julianne Moore, a primeira vez que escutei uma trilha de Phillip Glass, a primeira vez que ouvi falar em Virginia Woolf, a primeira vez que vi Nicole Kidman efetivamente trabalhar, e que Ed Harriss e Meryl Streep efetivamente me convenceram. Geracionalmente importante.

9) Kamchatka (Marcelo Piñeyro, 2002)

10) Fale com Ela (Pedro Almodóvar, 2002)

11) Tiros em Columbine (Michael Moore, 2002)


12) Kill Bill (vol. 1 e 2, 2003 e 2004, by Quentin Tarantino)
Alguma outra coisa foi tão pop quanto Hattori Hanzo, Beatrix Kiddo, Green Mamba, Pai Mei, Bill, matanças gore e trilha sonora de filme pornô italiano dos anos 70 misturada com black music vintage? Nem o próprio Quentin Tarantino.

13) Dogville (Lars Von Trier, 2003)


14) Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Michel Gondry, 2004)
Para além do exercício autoral criativo e xaropado de Quero ser John Malkovich e Adaptação, ambos dirigidos por Spike Jonze, o roteirista Charlie Kauffman realizou aqui um tipo de roteiro quebra-cabeças em que passado, futuro, memória e destino se misturam de um jeito tão epifânico nas vidas de Jim Carrey e Kate Winslet, que quando eu e minha amiga Evelyn saímos do cinema na Avenida Paulista, em absoluto silêncio, era como se vivêssemos uma autêntica despersonalização: as luzes da cidade se embaralhavam nas pupilas, os corpos caminhavam inertes e, naquela mesa de bar, ao lado do Trianom, não se ouviu muito mais que umas baforadas de Marlboro. Fumar era lindo e fazia parte da experiência estética.

Muita gente diz que Charlie Kauffman ficou preso à própria fórmula a partir de então. Só não ficou mais preso do que a patota de imitadores que pipocam aos montes atrás dele, nem dos estudantes de audiovisual que cultuam, todos os dias, as mesmas imagens de Spike Jonze e Michel Gondry.

16) Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2004)
What´s So Funny About Peace, Love & Understanding? Só de pensar que tem gente que ainda não entendeu Sofia Coppola, me dá um sono e tanto. E uma vontade enorme de pegar essa trilha sonora inteira e gastar em fichas num karaokê japonês.


17) O Segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005)


18) A Pequena Miss Sunshine (Johnatan Dayton & Valerie Farriss, 2007)

19)
Persépolis (Vincent Paronnaud, Marjane Satrapi, 2007)

20) Michael Jackson´s This Is It (Kenny Ortega, 2009).
Eu vou votar nesse documentário musical meio epitáfio/meio making off por todos os motivos -- emotivos, políticos, musicais, históricos -- que já foram tão bem exemplificados tanto aqui quanto em tantas outras resenhas, que você já leu, tenho certeza. Se a década precisa ter um musical, esse é o musical.

E você? Quais são os seus pitacos?

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

The big rock & pop in 2010


No rock n´roll existe um consenso de que banda boa é banda média: nem tão obscura e ainda semi-profissional -- tocando pra 100 pessoas num inferninho qualquer --, nem grande a ponto de lotar estádios e se acomodar na fórmula consagradora, abusando de palcos gigantescos e turnês ambiciosas, milhas distante das ousadias e de qualquer experimentalismo que afaste as massas.

Por isso me admirei com o No Line On The Horizon, do U2, lançado em março desse ano. Pelo menos arejaram a sonoridade, ainda que com os mesmos ares de The Joshua Tree [1987] e Achtung Baby [1991], também produzidos por Brian Eno e Daniel Lanois. Mas ao contrário das guitarrinhas inofensivas e das melodias chorosas de All That You Can´t Leave Behind [2000] e How to Dismantle An Atomic Bomb [2004], No Line pelo menos convida o ouvinte a levantar a bunda do sofá e levar seus sentidos pra dar uma voltinha.

Quem não curtiu foi o público: o disco mal vendeu 1 milhão de cópias, segundo o The Guardian. Podem culpar a cauda longa da internet ou a crise econômica. Podem culpar o Michael Jackson que, depois de morto, roubou quase toda atenção do showbizz e vendeu 6 milhões de discos em 4 meses só com a coletânea Number Ones. Mas basta reparar no público dos shows da 360° Tour, ou mesmo das duas turnês anteriores, se você esteve em algum deles: quantos discos do U2 você acha que esse povo tem? E quais serão os preferidos desse público? Não devem ser Boy [1980], War[1983] ou Unforgetable Fire [1984].

Veja bem: o U2 toca em estádios há pelo menos 25 anos. Tem cara de banda grande. Sonoridade de banda grande. Atitude política de banda grande. Você imagina hinos como Pride ou Where The Streets Have No Name executados em caverninhas habitadas por gente triste, pseudo-intelectuais e alternativinhos de plantão? Como é que se pega uma canção cheia de camadas climáticas como The Unforgetable Fire e se toca em outro lugar que não seja um estádio, pra milhares de seres dispostos a encarar uma catarse coletiva e cantar pra vizinhança toda ouvir? Não entendo, portanto, a crítica à grandeza.

O Brian Eno entende. Em excelente entrevista publicada pelo Pitchfork, o mitaço foi logo quebrando alguns sensos comuns. "Eles [U2] já fizeram várias mudanças significantes em vários pontos da carreira. Eles são, na verdade, uma banda muito experimental, mas por causa da forma da música deles, muita gente não reconhece. Se fosse alguma banda indie obscura, as pessoas provavelmente pensariam: 'Deus, eles são demais! Continuam surgindo sempre com coisas novas!'. Mas porque venderam milhões de discos, os experimentos passam batidos' (...) E eles não são exatamente o tipo de banda que quer perder adeptos durante a caminhada".

Enquanto isso, na cultuada nuvem do Radiohead, Thom Yorke coça o nariz e todos dizem que é arte.

A dupla de grafiteiros osgemeos vai aos poucos se transformando num fenômeno pop Romero Brito [em breve canecas e reproduções na Tok & Stok]. Começa a contagem regressiva para que os alternativos procurem outra alternativa.

Voltando à Irlanda. Se o dilema do U2 é descobrir se vai 1) sentar a bunda 2) ousar e perder adeptos 3) descobrir como ousar sem espantar os aderentes da dieta pop-easy nesse novo e muito louco modelo de negócios da música, restará, de fato, saber pra onde vai o rock de massas num cenário cada vez mais segmentado.

Pelo menos com shows, que seguem lotados e muitíssimo bem produzidos, Bono & cia podem sossegar. Ou não. O que se vê, na 360° -- de forma ainda mais evidente após assistir ao This Is It de Michael Jackson -- é uma banda que faz um puta show, mas se acomoda no set-list , sob medida para o público de ATYCLB e HTDAAB, com músicos que se cansam por saracotear num palco monstruoso, enquanto tocam, cantam e interagem com o público.

Faz parte do conceito mega-pop. Mas me parece cruel para uma banda de rock. Mais cruel ainda para um fã de música, cercado por gente greatest hits, que prefere o telão. [É claro que eu também vejo o telão, mas péra lá]. Michael Jackson, nos ensaios de TII, não parecia menor que a infra-estrutura. Tudo bem que essa pergunta já foi feita outras vezes, mas pra onde é que o U2 vai depois de um palco giratório e uma garra gigante? Onde estará o U2 no meio da próxima parafernália?

A colunista Sônia Racy, do jornal O Estado de S. Paulo, confirmou essa semana 3 shows do u2 com a turnê 360°C em São Paulo e 1 no Rio de Janeiro, em novembro de 2010. Guarde grana e chegue cedo para garantir o seu lugar na fila. Vá com fé.

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Donna Madonna vem ao Brasil semana que vem prestigiar a terra de seu iluminado gigolô nazareno. Essa é outra que ficou escrava do padrão pop que criou. Mas o que a gente faz? O que se viu ano passado na etapa brasileira da Sticky & Sweet Tour foi estilo Madonna: cronometrado, bem feito, valendo a pena, mas sem um pingo de mágica. Se eu fosse ela, aos 51, daria um basta nas cadelas do telão e apostaria no minimalista: uma boa banda, com arranjos modernizados -- mais rústicos e menos plastificados -- e, acima de tudo, gogó. Será que a burocrata topa? Recorte a apresentação de Bad Girl ao vivo no Saturday Night Live back in the 90´s e cole na boa versão de Ray Of Light by Snow Patrol. Me diga o que acha.

Quero dizer, e só um chute. Um devaneio. Não custa imaginar.




domingo, 1 de novembro de 2009

The beautiful fade out


Foi um belo sábado de sol em São Paulo.

E você queria que eu fizesse o quê, uma resenhinha metida à besta sobre um filme da Mostra?

Eu assisti This Is It.
E no mundo de Michael Jackson, você abraça um amigo, escolhe uma poltrona, e viaja inquieto num poderoso mosaico artístico extra-sensório pelas câmeras distantes que o registravam como sempre foi: um corpo genial preenchendo os espaços vitais entre luz e sombra, estranheza e beleza, mágica e música.

Ponto para Kenny Ortega, que a partir de 100 horas de ensaios gravados para o acervo pessoal do cantor, dirigiu um documentário leve e honesto sobre a criação artística de um grande. O filme alterna depoimentos dos músicos, dançarinos e figurinistas do espetáculo com as performances de cada canção e a obsessão de Michael sobre cada detalhe: a nota, o passo, o efeito especial, a modernização dos arranjos -- "mais groove", ele pede --, a releitura dos vídeos clássicos. "It´s all for love: L.O.V.E."

Você nem precisa escolher. Pode passar 2 horas ao mesmo tempo rindo, cantando, dançando na poltrona, imitando o som do baixo com a boca, fazendo air guitar para os fenomenais Tommy Organ e Orianthi Panagaris, deixando o corpo tremer com o groove -- "quero mais funk" -- do baixista que obedece, batendo palmas, estalando os dedos e repetindo "puta que o pariu!, puta que o pariu!".

Bom também para se conhecer melhor. Que raio de mulher eu sou, afinal? Uma pessoa que chora aos primeiros sinais de Wanna Be Startin Something não vai aguentar 5 minutos de um trabalho de parto nessa vida.

Tem Human Nature, a dona da bola, num excelente trabalho vocal. Tem Michael se divertindo numa grua que passeia sobre o auditório. Tem vídeo de Thriller repaginado brilhantemente alá Tim Burton, e toda a graça de MJ versão gânsgter contracenando com Rita Hayworth em Gilda; direto do caldeirão das referências pops: the kitch is beautiful. Uma aranha lúdica invade o palco antes que as telas mostrem um vídeo sobre a devastação ambiental para Earth Song. E eu que achava que Earth Song parecia com abertura de olimpíada. [O Kenny Ortega já dirigiu uma].

É o fim das criancinhas em cima do palco de mãozinhas dadas e o começo das dançarinas semi-nuas fazendo pole dancing! Novos arranjos e uma bela negona a temperar a cena The Way You Make Me Feel. Tem um bloco Jackson 5 com direito a Shake Your Body, há quanto tempo! Tem uma contralto japonesa dando vida ao belo dueto I Just Can´t Stop Loving You.

Fãs vestidos a caráter, adolescentes descobridores, casais de meia idade, curiosos filhos de Deus: o cinema todo aplaude, como se estivesse no Staples Center.

E pouca coisa é tão bonita quanto um Michael Jackson, aos 50, levar ofegante, até o fim, sua performance apaixonada de Billie Jean, cheio de fúria, e dizer assim: "acho que deu pra sentir". Depois um longo fade out.

O cinema em silêncio.

E os olhinhos todos, como pequenos faróis, vidram-se na tela quando ele, nos ensaios, aponta um público imaginário e diz: "electric eyes are everywhere".

Esse mundo é cheio de gente anódina, vivendo de canapés e pose, que mal sente o sangue esquentar e sequer enxerga o mundo de olhos fechados, ouvindo música.

Em This Is It, quando você fechar os olhos, enxergará Michael Jackson dono de si.