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sábado, 29 de outubro de 2011

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sábado, 8 de outubro de 2011

Open hearts, feel about it: Tears For Fears em São Paulo

A temporada de apresentações dos quarentões do Tears For Fears pelo Brasil começou com o pé direito na noite de 6 de outubro, em São Paulo. Não que o Credicard Hall seja lá o melhor lugar do mundo, mas pelo menos a boa acústica foi de grande serventia ao público que lotou a casa de shows para ouvir pérolas pops  criadas no auge da banda, entre 1983 e 1993, junto a canções mais recentes.

Roland Orzabal (voz e guitarra) e Curt Smith (voz e baixo) provaram o vigor do repertório num show correto e enxuto, com arranjos fieis aos originais. Os vocais soam como nos velhos tempos. As execuções foram mais curtas, sem improvisos e, vá lá, um tiquinho mais lentas e menos energéticas do que no DVD ao vivo Going To California (1990), para citar um exemplo à mão. Nada grave: difícil encontrar quem não tenha cantado e botado os bracinhos pro ar desde a abertura, com Everybody Wants To Rule The World, até o encerramento com Shout.

E teve até direito a uma lânguida & lenta versão para Billie Jean, de Michael Jackson, que o público aprovou. Head Over Hills e Sowing The Seeds Of Love -- exemplares nítidos da influência de Paul McCartney -- estão entre os pontos mais altos da noite.Advice For The Young At Heart  venceu no quesito emotividade. Mad World e Pale Shelter fizeram a alegria dos velhões. Na  falta de Oleta Adams, a voz feminina de Woman In Chains acabou vindo da garganta de um homem, o backing vocal canadense Michael Wainwright. Tudo na medida de um show sem surpresas e novidades, mas muito acima da média das bandas pops nascidas no neste século.  



domingo, 12 de junho de 2011

Não posso ficar nem mais um minuto com você

Adoniran Barbosa, na estação Jaçanã do Trem.

Em qualquer lugar do mundo, eu boto a mão no peito quando ouço o verso "Moro em Jaçanã". O gesto é instantâneo, instintivo e incontrolável. É comum também a incidência de sinais de vitória e vibração com os punhos cerrados. Em seguida, vem uma breve explicação sobre a infância na zona norte e sobre como Trem das Onze é uma canção muito mais simbólica do que aquela papagaiada de Sampa ou aquele semi-plágio de New York, New York.

Costumo também sacudir transeuntes pelos ombros e beliscar barrigas de bêbados para que entendam a intensidade do momento. Já fui vista pulando num pé só, dançando em círculos e fazendo figas de olhos fechados ao som do samba de Adoniran. Testemunhas notaram a recorrência dos seguintes comentários:

-- Eu moro em Jaçanã! Eu moro em Jaçanã!
-- Sim, ele existe, é o bairro símbolo de São Paulo.
-- Claro que o Adoniran já esteve lá, seu idiota, existem fotos dele na antiga estação de trem!
-- Vocês não entendem nada. São uns paulistanos de merda! Netinhos das senhoras católicas do Itaim Bibi!
-- Ah, você mora em Santana? E tá falando o quê? Sua casa é igualmente na putaquepariu pra quem vem da zona sul ou oeste!

Já aconteceu em Florianópolis, na Granja Viana, em Paraty e num show do U2. Neste último, houve sintomas de derrame e falência múltipla da testa, após uma série de auto-tapas e batidas na grade de proteção. Mas o maior momento de glória jaçanense se passou em Portugal, na passagem de ano para 2003. Era uma noite fria e chuvosa e um grupo cover do Araketu se apresentava para velhinhos milionários no Casino da Póvoa. Foi quando resolvi abrir minha garrafa de champanhe e comemorar sentada no teto do carro, entoando os versos do samba em voz alta para um grupo de portugueses que chamou a polícia e outro que me acertou com um balde d'água fria pela janela do apartamento.

Encontrar um jaçanense também conduz à catarse. É como encontrar um irmão. Os jaçanenses exilados tornam-se amigos espontaneamente e formam clãs onde a iniciação é feita por meio de crônicas sobre o 701-U - Jaçanã/ButantãUSP, o mais guerreiro dos ônibus. Os rituais da irmandade incluem cinco emocionantes versões de nosso cântico mais famoso. E não estou sozinha. Um jaçanense que não quis se identificar confessou bater no peito ao ouvir Trem das Onze pelo menos três vezes por semana. Há ainda um terceiro que afirma entrar transe após cantarolar os versos "sou filho único/tenho minha casa pra olhar".

Já procurei o médico, mas não tem remédio.

Minha vida toda é uma corrida pra nunca perder esse trem.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

360 pingos nos is

Algumas coisas precisam ser ditas sobre os dois primeiros -- e ótimos -- shows do U2 em São Paulo com a 360° Tour, no último fim de semana. A primeira é que o mundo girou, o muro de Berlim caiu, Bono envelheceu e o U2 se tornou a banda mais grandiosa do mundo nesse meio tempo: sinto muito, mas não vai dar pra tocar os quatro primeiros discos na sequência, nem fingir que ser punk é ainda muito hype, ou exigir um show altamente histriônico pra 500 pessoas como se fazia num mocozinho da Irlanda em 1980. A segunda é que existe vida pós "Joshua Tree" (1987) e não há nada mais anacrônico do que recusar qualquer coisa que tenha vindo depois. A terceira é que, neste momento, o U2 faz shows prensado entre os desejos das massas puramente orientadas para o pop e as necessidades de uma minoria de pessoas que somam mais de 3 álbuns da banda em suas discotecas básicas.

A turnê 360º é fruto deste cenário. Entre fãs de carteirinha e fãs de coletânea, contando pais e filhos e diferentes gerações, havia nos shows do Morumbi uma imensa massa de curiosos e gente muito interessada em abastecer as redes sociais com 50 vídeos ruins a partir de um celular meia boca. De repente, um show do U2 deixa de ser um evento musical para se tornar um ponto de encontro, um lugar para ver e ser visto. Gente berrando "toca With Or Without You, porra!" a cada 5 minutos. Gente gritando "toca Hey Jude!" quando Bono menciona o aniversário de Julian Lennon. E por fim, gente bacana, sorrindo e chorando, cantando e tentando curtir uma banda amiga pelas frestas do circo midiático. Pode me desenhar aqui.

Este é o rock de estádios no século 21. Bono, Adam Clayton, Larry Mullen Jr e The Edge já perceberam faz tempo. A imensa garra e o fantástico telão acima do palco circular rodeado por passarelas estão entre as maiores e mais incríveis estruturas do entretenimento mundial. É possível enxergar o palco com clareza de todo o estádio [eu testei]. Está na hora de assumir que investir na visibilidade do público é também um sinal de respeito e competência para além da aparente megalomania. Mas aí vem gente dizer que a música se foi para dar lugar ao circo. É aí que começa o festival de recalques. Pois trate de anotar que um dos méritos da banda, aos 30 e tantos anos de carreira, é justamente usar a tecnologia para proporcionar ao público uma experiência única, onde a música reina e comanda uma viagem sensorial.

Na noite de 9 de abril, um set list mais previsível, embora poderoso. A abertura com Even Better Than The Real Thing seguida pelas guitarradas cortantes de The Edge em I Will Follow é de levantar defunto. Há sim alguma lentidão, pecando diante das versões dessas duas músicas em 1998, nos shows brasileiros da Pop Mart Tour. Mas as versões de I Still Haven't Found What I'm Looking For, Where The Streets Have No Name e With Or Without You -- esta última ao final da apresentação -- soam mais enxutas e rápidas do que nas últimas turnês. Temos menos messianismo, menos demagogia, menos marketing. O talento de The Edge em fazer muita música com poucas notas e um punhado de efeitos fica evidente nos riffs de Until The End Of The World, Magnificent e Mysterious Ways, em alto e bom som.

No domingo, a surpresa começou com Out Of Control, pérola de Boy, primeiro disco da banda. Uma carta malandra na manga de Bono para uma "special night" com cara de festa particular para os velhos fãs, aqueles da minoria pisoteada. Uma hora depois, foi a vez de Zooropa, faixa-título do álbum de 1993, ser executada inteira pela primeira vez ao vivo em toda a carreira da banda. Depois, uma música nova, uma boa versão de Scarlet -- escondida nos calabouços do October (1981) -- e a matadora Ultra Violet, substituindo Hold Me Thrill Me Kiss Me Kill Me, da noite anterior. Mudos e de braços cruzados durante as desenterradas, os playboys das coletâneas só vibraram mesmo em medalhões como Pride, Sunday Bloody Sunday, além dos carros-chefe radiofônicos dos anos 2000, como as simplórias Vertigo e Get On Your Boots. Mas não chega a ser demérito. No repertório bem balanceado das duas noites, só não dá pra explicar o mico de I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight em versão pseudo-dançante, pontuada por um Larry Mullen Jr completamente desajeitado, tocando percussão junto à plateia.

Mas dane-se. Esta noite, há balões verde e amarelos voando pelo céu de São Paulo. E na memória, sobram notas coloridas e ecos de guitarras cortantes. Corações palpitantes simulam sorrisos por toda parte, por vários dias. Ou como diz a letra da canção magnífica: Only love/only love can leave such a mark.

Avaliação: memorável


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

U2 na Irlanda tropical



Faz 30 graus celsius em São Paulo no exato momento em que uma gigantesca população de pulgas gordas & piolhos mastigadores parte em direção às barbas e cabelos de nossos hipsters universitários, nossos riquinhos hypes, nossos indies de xadrez e nossas garotas hippie-chics: todos se coçam, todos se ouriçam -- elas arrancam as peles, eles arrancam os pelos --, e o motivo não era um pássaro, não era um avião, eram somente os indefectíveis sinais da mesma grande banda que eles juram detestar.

Nada como um show do U2.

Se fosse o Morrissey, gritar e rasgar-se era pouco. Mas hipster que é hipster, despreza U2. Eles preferem idolatrar 99% das bandas lideradas por riquinhos hypes e indies de xadrez que idolatram U2. Ou então, ficam quietinhos no armário, caprichando na pose de cocô-blasé. [Discutiremos a sutil dicotomia entre assumidos e enrustidos numa próxima oportunidade]. Mas para todos eles, qualquer definição é fácil: Bono é só um tiozinho chatão, The Edge é um guitarrista bundão e foda-se se eles fazam um baita showzão. Pronto, resolveu-se o teorema.

Enquanto isso, pulgas gordas & piolhos mastigadores seguem saltitando em direção ao hype. E de repente, hipsters universitários, riquinhos modernosos, indies de xadrez e garotas hippie-chicks quase se estapeiam pelo show de Amy Winehouse. Eles adorariam frequentar a Rehab. Mas nem tudo é possível para os hispters. "Alô, mãe, tô aqui na Pista Vip! A Amy rolou no chão, deu bafón, quase morreu e vomitou na minha cara. Tirei foto!" Cinco minutos depois, toda a glória da Rehab cai por água abaixo no estacionamento do Anhembi.

Em todo caso, se Amy der um treco, levo no bico Janelle Monae e Mayer Hawthorne.

Mas aí vem o show do U2.
E o fã de U2 que não quer ouvir Pride está para Paul McCartney como quem cagou para Hey Jude. Se você também faz parte do clube, encoste aqui sua mãozinha na minha, e vamos ao banheiro químico para nos poupar do discurso humanitário e dos classicões clichês, que já perderam vigor ao vivo, mas seguem no set list para agradar amadores e salseiros. [Mentira, a gente no máximo bebe uma água e poupa a garganta para berrar mais no bloco seguinte].

Os hipsters já nos mandaram ao limbo das massas. Os ressentidos já reclamaram de tudo. Os super críticos a postos nos chamam de otários com propriedade e convicção. Duas coisas nos restam: comprar um ingresso e chorar na rampa em abril de 2011 com mais uma bela história para a coleção.

Aos desavisados
Mal começou a pré-venda exclusiva para o fã-clube e os primeiros corvos já babaram no anúncio de um setor "privilegiado", a Red Zone, com ingressos a R$1.000. Também acho loucura e só pagaria essa grana pra ver o espírito de Michael Jackson dançando Billie Jean exclusivamente pra mim. Mas nessas horas a gente precisa ser didático. Vamos lá:

1) A Red Zone não é uma pista premium como a de Paul McCartney, Madonna, e de festivais como o SWU, em que se paga mais caro para ficar em frente ao palco, criando um clima de Israel X Palestina entre os setores da plateia. Trata-se de um camarote lateral próximo ao palco, com comes & bebes à vontade, produtos do merchandising oficial grátis e outros mimos. É um modelo de setor muito praticado fora do Brasil.

2) O valor líquido de cada ingresso, descontando impostos e a taxa da T4Fun, será revertido para um fundo global contra a Aids. Informações aqui:
www.joinred.com

3) O camarote não impede que os fãs da pista comum cheguem à grade e permaneçam na frente.
Muito pelo contrário. Procurem os vídeos, fotos e mapas de palco da 360° Tour e entendam: dentro do snakepit, estão os fãs que pagaram pista comum e chegaram primeiro. Isso é praxe nos shows do U2. Foi assim em 2006, quando eu estive no Morumbi dois dias seguidos.

4) O palco é enorme, redondo, centralizado na arena e cercado por uma garra gigante e um telão giratório que tornam possível uma boa experiência sensorial até para quem está longe. Quero dizer, isso é o que diz quem já assistiu a 360° Tour na Europa ou EUA.

5) Não é barato trazer uma parafernalha dessas pra América do Sul, que entrou na rota dos big shows outro dia. Mesmo assim, a média de preço dos ingressos dos U2 para todos os setores não é superior às de Madonna, Paul McCartney e Bon Jovi, que trabalham com estruturas menores de palco. Além do mais, nas pistas premium israelitas destes shows, não havia comida, bebida, produtos oficiais e outros mimos grátis. Muito menos renda revertida para salvar criancinhas, baleias ou coisas do tipo.

6) Fácil culpar as bandas pelo preço dos shows. Mas é preciso fazer uma apuração inteligente e aprofundada
pra ver como essa conta fecha e de quanta gente esse dinheiro de ingressos vai molhando a mão até chegar nos véios magnatas do rock.

Não, ninguém é obrigado a aguentar chatice politicamente correta ou apoiar o que alguns dizem ser "o U2 fazendo cortesia com o chapeu dos outros". Tampouco alguém é obrigado a comprar Red Zone, ou muito menos a ir ao show.

Informações sobre ingressos: www.ticketsforfun.com.br

domingo, 24 de janeiro de 2010

Sampá



A primeira coisa que aprendi sobre São Paulo é que o Jaçanã ficava muito longe. Nos anos 1980, meu bairro era um mundo paralelo de sorveteiros apertando buzinas, depósitos de doces, velhinhos de boina jogando dominós nas praças e um imenso milharal diante da janela do quarto. Nas tardes de verão, subia de repente um cheiro de chuva e a molecada corria pra tirar a rede de vôlei do meio da rua. As chuvas ainda duravam pouco. E as crianças iam pra debaixo dos canos e goteiras, onde dançavam imundas até que a água parasse de escorrer. Nas Copas do Mundo, a vizinhança doava dinheiro para comprar tintas e pintar os asfaltos de verde e amarelo. As igrejas tinham quermesses badaladíssimas. E a velha guarda do bairro chamava o centro de "cidade".

Mas a cidade só ficava grande depois de uns 20 minutos de carro. Minha mãe tinha um Fusca. Eu gostava de grudar o rosto nas janelas de trás e arregalava os olhos para os outdoors -- que ainda existiam -- completamente impressionada com as novas sílabas e com os anúncios das cuecas Mash. Gostava de como as avenidas largas cruzavam ruas estreitas e de como bairros vizinhos podiam ser completamente diferentes. E a cidade era o nome de cada artista nas placas das exposições de museus.

Meu pai preferia as Marginais. No carro dele, meus primos me ensinaram a contar até 10 nos momentos de tensão: se não atravessássemos a ponte em 10 segundos, ela começaria a ceder e nós cairíamos no Tietê, onde um monstro gosmento puxaria nossos pés para o fundo. Foi um aprendizado marcante. Até hoje, em pesadelos recorrentes, sinto desespero e horror ao ser atingida pelo petróleo super aderente que transborda do Tietê nas tempestades oníricas.

Quando adolescente, gostava de sentar no banco alto do busão, esticando as mangas dos moletons pra me proteger do frio e ajeitar os fones de ouvido: rock n´roll no último volume a caminho da escola. Mas eu já não gostava muito da escola. O jeito era cabular: eu descia do ônibus num bairro completamente aleatório, escolhia um boteco barato, devorava um misto-quente com coca-cola ou um sorvete quando fazia calor. Caminhava pelo bairro, nas bancas de revistas, nos sebos antigos, conversava com estranhos e por fim tomava a condução seguinte para cruzar a cidade a caminho de casa.

Veio a faculdade. Pegar o metrô subterrâneo na província, observando um entra e sai de gente de toda sorte. E depois subir as escadas rolantes da estação na Avenida Paulista, caminhando eufórica a passos largos, sempre atrasada. A vontade de xingar de estúpidos todos os motoristas solitários, com ar-condicionado ligado e vidros fechados, pagando a cota do engarrafamento recorde na 23 de maio. Por isso mesmo, deixo a pressa pra depois. As noites invariavelmente terminam nas mesas de lata dos botecos na calçada, até que a gente se ponha a correr -- um tanto alterados pelos copos de cerveja -- pra não perder o trem, que vocês sabem, sai agora às 11 horas. Se não, só amanhã de manhã.


Fotos: Demônios da Garoa e Adoniran Barbosa na antiga Estação de Trem Jaçanã, da extinta Linha Cantareira. Cena de "Meu Destino É Pecar" (1952), dirigido por Manuel Peluffo, da Companhia Maristela de Cinema, que ficava aqui no bairro. Só para agradar, virtualmente, os meus avós.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Imprensa marrom & o rock da Madonna

Veri: Tô lendo seu texto sobre o show da Madonna.
Renata: Ah é? E aí?
Veri: Engraçado que ela beija quem ela quer e ninguém fica questionando se ela é bissexual. Nessas horas até a imprensa marrom respeita!
Renata: E ainda por cima, pegou Jesus!
Veri: Néam?
Renata: Hahahahahahahahah!

5 minutos depois...

Veri: É, pensando bem, ela tinha essa veia roqueira no começo da carreira.
Renata: Ah, mas isso porque o visual dos anos 80 era aquela mistura bagaceira dela no próprio clipe de Borderline.
Veri: Pode crer. Rock mesmo, de verdade, devia ser apanhar do Sean Penn!
Renata: Hahahahahahahahahahaha!

O código oculto da parafernália

Não rolou "bunda suja". Em 120 minutos, Madonna pulou corda, fez pole dancing, conversou com a galera, beijou a bailarina na boca [tivemos a impressão de que dessa vez foi mais "nasty": sabe como é, país tropical...], destilou um repertório de antigos hits com novíssima roupagem e de novas músicas que todo mundo já sabia de cor, rodeada por uma baita produção. Desafinou um pouco, é verdade, mas ninguém estava preocupado com isso. Até aí, nenhuma surpresa: tudo dentro dos conformes técnicos obsessivos da Sticky & Sweet Tour. Só não dava pra escapar da atração arrebatadora que aquele corpinho extremamente definido exalava de qualquer ponto do palco.

Sábado, 20 de dezembro, foi dia de lavar a alma com capas de chuva vagabundas. Especialmente se você desse a sorte de passar o tempo inteiro com a tchurma mais engraçada do mundo para assistir shows. Ou pelo menos a um show da Madonna. A começar pelos cinco [belos] cavalheiros [gays] dispostos a levantar mocinhas pequenas para ver a tal da mulher de 50 anos que se contorcia e quase virava cambalhotas na pontinha do palco, lá do outro lado.

Deve haver algum desastre químico na minha cabeça gorda, mas vou dizer que o mais importante de tudo foi avistar Madonna no centro da parafernália, tocando a velha Borderline meio desajeitada, com uma guitarrona em punhos. [Breve pausa para sorrir]. É mais ou menos como encontrar um código oculto & gracioso no meio desse gigantesco emaranhado pop, e depois guardar no bolso um pedaço embrionário da teia a que pertencemos desde os primeiros ídolos que imitamos quando crianças, e que nunca deixamos para trás [porque nunca tivemos coragem para isso].

domingo, 7 de setembro de 2008

A contadora de histórias

"No início, só existiam pássaros. Os pássaros viviam no ar. Eles voavam sem parar, pois não havia terra para que pousassem. Certa vez, uma cotovia perdeu seu pai. Ele morreu e não havia terra para sepultá-lo. Então, a cotovia decidiu deixar que o corpo dele repousasse eternamente na parte de trás de sua cabeça. Esse foi o princípio da memória". [The Lark]

ps: a letra de "the lark" não foi encontrada na internet. trata-se de uma faixa inédita do novo trabalho de laurie anderson, "homeland", que será lançado no ano que vem. o fragmento da letra traduzido neste blog está, portanto, baseado na memória desta escriba sobre o show realizado sábado, no sesc pinheiros, em são paulo. neste link aqui, a própria laurie comenta o trecho, adaptado da peça grega "os pássaros", de aristófanes.