O post é rápido: a revista Rolling Stone de novembro, com Jô Soares na capa, traz resenha de "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia" (Azougue Editorial), que escrevi com a Camila Hungria. O link está aqui. A resenha é do Mauricio Duarte.
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terça-feira, 22 de novembro de 2011
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Os Dentes da Memória no Correio Braziliense
O Correio Braziliense deu página inteira para Os Dentes da Memória no sábado passado, 1º de outubro. Quem assina é Bernardo Scartezini, que fez um texto informativo bem pesquisado e uma das melhores análises sobre o livro até agora.
Destaco também a baita ilustração e o trabalho de arte do jornal, bastante didático e agradável visualmente. Deu gosto de ver. Segue abaixo reprodução do texto principal. Se não der pra ler, fique com o texto abaixo.
OS POETAS NA CIDADE
Os dentes da memória conta como Roberto Piva e seus amigos espantaram uma ainda pacata São Paulo com sexo, drogas & poesia
BERNARDO SCARTEZINI
ESPECIAL PARA O CORREIO
A fama de Roberto Piva o precedia. O jovem poeta já era figura conhecida na cidade de SãoPaulo no fim dos anos 1950. E nem era exatamente por sua obra poética, não. Era mais notório por invadir as festas dos bacanas, aprontar arruaças pelos bares da Avenida São João e por carregar por aí um séquito de jovens moços. Piva sempre preferiu os moços. Roberto Piva, ele próprio, mal chegara aos 20 anos de idade e já tomara uma decisão para toda a vida: se queria mesmo ser poeta, então que vivesse como tal. “Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental”, repetia para quem quisesse (ou não) ouvi-lo, citando como antecedentes os surrealistas franceses e os beatniks norte-americanos.
Roberto Piva era assim, uma espécie de neto de André Breton,filho de Jack Kerouac, sobrinho bastardo de Mario de Andrade e Oswald de Andrade. E ele não estava sozinho com seus livros, com seus antigos modernistas, com seus poetas & escritores de línguas estrangeiras. Piva não estava sozinho. Claudio Willer ainda era estudante secundarista do Dante Alighieri quando primeiro ouviu falar de Roberto Piva. Os dois se conheceram tempos depois, pela noite da grande cidade, apresentados por amigos em comum. Diz o Willer: “Eu já sabia quem ele era por causa da enorme fama de depravado e pederasta que ele tinha,de se envolver em todo tipo de confusão, além de ser culto, erudito, participar de grupos e estudar filosofia. Ele era o ‘personagem’. Isso desperta muito interesse quando você quer conhecer gente que saia da mesmice e do lugar comum”.
As afinidades eletivas. Os jovens poetas foram se conhecendo daquela maneira que uma pessoa conhecia a outra: em mesas de bares, em saraus, em sessões de cinema, em leituras de poesia, em bebedeiras mil. Piva era o grande agitador. Era o camarada que reunia o pessoal, que recitava poesia de cabeça, que trazia para o país os primeiros livros dos beats Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso... E era ele que via seu grupo de amigos como os beatniks de São Paulo. E eles logo começariam a semanifestar —também—por escrito. Para tanto, foi necessário encontrar a figura de um editor em Massao Ohno, um sujeito pouco mais velho que eles, dono de uma pequena gráfica à Rua Vergueiro, próximo à Liberdade. Ohno não era bom de copo como aqueles rapazes, mas animou-se o suficiente para lançar a Antologia dos novíssimos (1961). Seria a primeira vez para a maioria dos poetas ali publicados— e também seria a última para uns tantos.Um par de anos mais tarde, Piva daria à turma uma obra definitiva: Paranoia (1963).Um livro que passou em brancas nuvens pela imprensa, pela academia, pelo beletrismo, pelo bom gosto dos intelectuais da cidade. Ninguém parecia ouvir os impropérios de Piva— “quando eu ia ao colégio,Deus tapava os ouvidos para mim?”
Roberto Piva emendava imagens delirantes numa poesia sem métrica, ao mesmo tempo rebuscada e irada, trazendo para ao ventre da cinzenta São Paulo a lírica do desregramento que fora buscar em Garcia Lorca, Rimbaud e Lautréamont. Seus instantâneos de urbanidade poética eram refletidos nas imagens em preto e branco das fotografias do artista plástico Wesley Duke Lee. A partir desse momento definidor, ClaudioWiller também lançaria seus primeiros livros. Willer e Piva entrariam para a crônica paulistana como “a geração
dos anos 1960” ainda naqueles dias de farra. Bem mais difícil tem sido entrar para a história oficial da literatura brasileira. Ainda hoje estão à margem...
Escanteados por seus antecedentes da chamada Geração de 1945 (Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos etc.) e menosprezados por seus contemporâneos concretistas (os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, amigos e dissidentes). Esse cenário, no entanto, vem mudando nos últimos anos. Primeiro por conta das reedições de Paranoia pelo Instituto Moreira Salles (em 2000 e 2009). Depois,
com os três volumes das obras completas de Roberto Piva saindo pela EditoraGlobo (de 2005 a 2008). E agora o interesse pode ser ampliado com Os dentes da memória: Piva,Willer, Franceschi, Bicelli e uma trajetória paulista de poesia.
Juvenília&maturidade
Os dentes da memória surgiu como trabalho de graduação para as então estudantes de jornalismo Camila Hungria e Renata D’Elia. Elas se aproximaram de Roberto Piva e tiveram a sensibilidade de registrar o máximo de sua memória num momento em que a saúde do poeta declinava ferozmente—ele morreu em julho do ano passado. A partir da convivência com Piva, elas partiram para entrevistar amigos e colaboradores do poeta. Abriramo baú de memórias, que já havia sido mapeado pelo cineasta Ugo Giorgetti no documentário Uma outra cidade (2000), mas que ainda estava para ser impresso em livro. Camila e Renata fizeram mais de 40 entrevistas para poder amarrar a história—e as estórias—de Os dentes da memória. (Um título, aliás, tirado de versos de Piva em Poema de ninar para mim e Bruegel: “Rangem os dentesda memória/ segredos públicos pulverizam-se em algum ponto da América/ peixes entravados se sentam contra a noite...”). O livro traz quatro protagonistas destacados: Roberto Piva, Claudio Willer, Roberto Bicelli e Antonio Fernando de Franceschi. Mas eles não são os únicos a terem voz ativa na história oral deste Os dentes da memória. Ao contrário...
Num estilo semelhante ao usado por LegsMcNeil e GillianMc-Cain para reconstituir a história do punk rock no clássico livro Mate-me por favor (1997), Camila e Renata montam a narrativa diretamente nas palavras dos entrevistados, que se complementam mas também se contradizem com frequência, de maneira que as histórias de décadas passadas soam vivas e animadas por diferentes perspectivas. Os dentes da memória traz ainda poemas dos quatro autores.Embora em momento algum, vale dizer, procure se transformar em ensaio sobre aquelas obras. De certa forma, faz bem mais do que isso ao reunir testemunhos sobre a época e contextualizar vida e obra dos poetas dentro da recente e agitada história brasileira.
O primeiro terço do livro, nesse aspecto, é um grande barato—um prontuário de pequenas e médias contravenções praticadas pelos nossos anti-heróis juvenis... Roubar livros de livrarias era uma atividade compreendida e bem aceita no grupo. A casa dos pais deWiller, na represa de Guarapiranga, foi endereço certo para muitos fins de semanas perdidos. E acontecia até, uma vez ou outra, de eles saírem no jipe deWiller dando tiros ao alto em pleno bairro do Pacaembu, acordando a vizinhança. Todo esse clima, no entanto, azedaria com o golpe de 1964 e acabaria em definitivo com a promulgação do AI-5 em 1968. O tempo fechou para os ensolarados poetas.
Detalhe curioso: Antonio Fernando de Franceschi só estrearia em livro na década de 1980, mas ele conviveu com o grupo desde os primeiros encontros. Já Roberto Bicelli publicou apenas um único volume de poesia (Antes que me esqueça, de 1977), mas manteve-se fiel aos amigos, mantém-se.
Além da poesia beat de Nova York & São Francisco, essa geração também deve ser definida pelo aspecto gregário, pelas aventuras coletivas, pelo companheirismo, pela cumplicidade. ClaudioWiller gosta de lembrar que, quando Roberto Piva apresentava um novo amigo para entrar no bando, os termos mais elogiosos que encontrava para dizer eram: “Este é um perfeito beatnik”. Uma vez dito isso, já estava dito tudo.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
O livro na revista sãopaulo + Rock In Rio
Passei pra dizer três coisas:
1) Minha disposição pra Rock In Rio ficou mais pra aquela hashtag do #rockincasa, mas tô adorando essa noite do metal. Slipknot é pesado, trash, tem fogo no palco, máscaras nas caras, tambores e público completamente envolvido. Motorhead tocando muito alto, acima do bem e do mal. Metallica impecável, provavelmente uma das melhores bandas do mundo ao em cima do palco. E ainda tem o James Hetfield com a cara do Mano Menezes e o Lars Ulrich finalmente gêmeo de Phill Collins. Vocês querem o quê, o banquinho e o violão?
2) Saiu ontem na revista sãopaulo, da Folha de S. Paulo, indicação do crítico Manuel da Costa Pinto sobre "Os Dentes da Memória" com 4 estrelas, cotação máxima da coluna. Vou reproduzir abaixo, assim não passa batido por aqui.
3) A revista também tem materinha minha sobre os documentos dos séculos 16 a 20, expostos no Arquivo Histórico Municipal. Vale muito a pena conferir as raridades!
LIVRO
OS DENTES DA MEMÓRIA **** Camila Hungria e Renata D'Elia (Azougue, 256 págs., R$ 38,90)
Panorama de um grupo -Roberto Piva, Cláudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli- que renovou a poesia brasileira sob influência do surrealismo e dos beats. Além de fotografias e documentos, traz colagem de entrevistas da qual participam outros protagonistas da efervescente vida intelectual de São Paulo dos anos 1960 e 1970.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Uma boa entrevista sobre poesia e Os Dentes da Memória na Rede Brasil Atual
O Guilherme Bryan publicou breve resenha e uma entrevista comigo falando sobre "Os Dentes da Memória" na Rede Brasil Atual. Foi uma das melhores entrevistas sobre o livro até agora. Consegui dissertar sobre questões importantes que ainda não tinham sido abordadas por jornalistas, tanto sobre o making-of do projeto quanto sobre as nossas escolhas e nossa visão sobre a história. Segue uma pergunta/resposta de prévia e também o link do conteúdo.
Como foram selecionados os entrevistados para o livro? Houve alguma entrevista que não conseguiram realizar ou que ficou de fora por alguma razão?
A coisa começa em torno do Piva, uma figura absolutamente fascinante, magnética e complexa, dona de uma obra poética muito poderosa e que merece atenção urgente, para muito além de seu primeiro livro, "Paranoia". A partir daí selecionamos os outros três personagens principais, tendo como norte a confluência permanente de suas trajetórias ao longo das décadas, a amizade e as vivências em comum, a influência de um sobre as leituras e as escritas dos outros, a qualidade poética e o potencial deles como personagens de livros. O Roberto Bicelli, por exemplo, é uma descoberta e tanto: com apenas um livro de poemas, teve nesse grupo um papel importantíssimo e é por si só um personagem sedutor. Afinal, existe gente muito talentosa e competente por aí, mas nem todos são bons personagens para um livro, tá cheio de bons poetas não dão o menor caldo ou interesse para uma biografia. Esses quatro caíram como uma luva e nós percebemos isso desde princípio. Outra coisa: não queríamos falar exatamente em "geração 60", que também é uma divisão polêmica de se fazer, então vamos deixar isso na mão dos nossos especialistas. Também não gostaríamos que a história parasse nos anos 1960, pois há vivências, acontecimentos históricos, políticos, culturais e livros suficientes para trazê-la até hoje. Fizemos uma pesquisa grande não apenas sobre a bibliografia destes poetas, como de suas influências e de seus contemporâneos. E por fim, há outros nomes importantes na Geração 60 de São Paulo que receberam apenas menções ou foram entrevistados sem protagonização. Muitos merecem ter suas trajetórias contadas e reconhecidas, e esperamos que esse trabalho seja feito futuramente. Selecionamos como coadjuvante os que mais tiveram contato com estes personagens em determinados momentos, ou que eram citados nas entrevistas e participaram de histórias importantes, e também aqueles que poderiam elucidar melhor alguns pontos e passagens. Por uma questão de foco, fluidez e edição, algumas pessoas ficaram de fora. Outros simplesmente foram procurados e não quiseram dar entrevista, não puderam nos atender, ou nunca responderam nossos e-mails e telefonemas. Além do mais, nenhum retrato memorialístico, histórico, jornalístico ou biográfico é definitivo, completo ou contém toda a verdade da Terra. Aliás, nunca nos propusemos a isso. Quem quiser, pode partir em direção ao foco e ao viés que desejar, jogando toda luz nos personagens que julgar mais importantes.
A coisa começa em torno do Piva, uma figura absolutamente fascinante, magnética e complexa, dona de uma obra poética muito poderosa e que merece atenção urgente, para muito além de seu primeiro livro, "Paranoia". A partir daí selecionamos os outros três personagens principais, tendo como norte a confluência permanente de suas trajetórias ao longo das décadas, a amizade e as vivências em comum, a influência de um sobre as leituras e as escritas dos outros, a qualidade poética e o potencial deles como personagens de livros. O Roberto Bicelli, por exemplo, é uma descoberta e tanto: com apenas um livro de poemas, teve nesse grupo um papel importantíssimo e é por si só um personagem sedutor. Afinal, existe gente muito talentosa e competente por aí, mas nem todos são bons personagens para um livro, tá cheio de bons poetas não dão o menor caldo ou interesse para uma biografia. Esses quatro caíram como uma luva e nós percebemos isso desde princípio. Outra coisa: não queríamos falar exatamente em "geração 60", que também é uma divisão polêmica de se fazer, então vamos deixar isso na mão dos nossos especialistas. Também não gostaríamos que a história parasse nos anos 1960, pois há vivências, acontecimentos históricos, políticos, culturais e livros suficientes para trazê-la até hoje. Fizemos uma pesquisa grande não apenas sobre a bibliografia destes poetas, como de suas influências e de seus contemporâneos. E por fim, há outros nomes importantes na Geração 60 de São Paulo que receberam apenas menções ou foram entrevistados sem protagonização. Muitos merecem ter suas trajetórias contadas e reconhecidas, e esperamos que esse trabalho seja feito futuramente. Selecionamos como coadjuvante os que mais tiveram contato com estes personagens em determinados momentos, ou que eram citados nas entrevistas e participaram de histórias importantes, e também aqueles que poderiam elucidar melhor alguns pontos e passagens. Por uma questão de foco, fluidez e edição, algumas pessoas ficaram de fora. Outros simplesmente foram procurados e não quiseram dar entrevista, não puderam nos atender, ou nunca responderam nossos e-mails e telefonemas. Além do mais, nenhum retrato memorialístico, histórico, jornalístico ou biográfico é definitivo, completo ou contém toda a verdade da Terra. Aliás, nunca nos propusemos a isso. Quem quiser, pode partir em direção ao foco e ao viés que desejar, jogando toda luz nos personagens que julgar mais importantes.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Sexo, bombas e choque elétrico, por Marcelo Coelho (FSP)
Saiu na Folha de S.Paulo, caderno Ilustrada de hoje, um artigo dos bons assinado pelo Marcelo Coelho. Ele fala sobre "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia", meu livro com Camila Hungria pela Azougue Editorial. Os sites das livrarias Martins Fontes e Cultura enviam para todo o Brasil, basta comprar com eles.
Abaixo, reproduzo texto e trecho da edição digital do jornal, cortesias de Bê Neviani e Keka Ferreira. Gostei muito do espírito do texto, que é também parte do espírito do livro. Acho que o Piva estaria se divertindo bastante com isso. Willer, Bicelli, Franceschi e outros personagens estão curtindo.
MARCELO COELHO
Sexo, bombas e choque elétrico
Sexo, bombas e choque elétrico
"A gente se beijava e corria uma eletricidade incrível [...] Nós estávamos tomando choque molhados!" |
Existem os loucos e existem também aqueles que querem ser loucos sem serem loucos de fato.
Qualquer que seja o caso, não faltaram loucuras na vida do poeta Roberto Piva (1937-2010) e dos seus amigos (Cláudio Willer, Rodrigo de Haro, Roberto Bicelli). Alguns exemplos.
Na década de 70, Piva e Bicelli davam aulas num colégio público. "Um dia", conta Bicelli, "o Piva chegou atrasado porque ficou bebendo com a professora de geografia. Entrou bêbado na classe, fez a chamada e falou: 'Estou de saco cheio do bom comportamento de vocês'".
Ato contínuo, "subiu na mesa, baixou as calças e mostrou a pica para os garotos da quinta série! Ainda correu atrás de um japonesinho que havia se mandado da sala! A inspetora, que era nosso anjinho, transferiu-o de escola e ficou tudo bem".
O caso é lembrado em "Os Dentes da Memória", livro de Camila Hungria e Renata D'Elia, que acaba de ser lançado pela Azougue Editorial.
Acompanhado por uma breve antologia desses poetas (a geração dos "novíssimos" da década de 60), o livro é composto exclusivamente dos depoimentos, habilmente entrelaçados, dos principais membros do grupo.
Cláudio Willer é o protagonista de outra aventura.
"Eu e um amigo pretendíamos explodir uma bomba na casa de um desafeto nosso, na rua Tupi com a avenida Pacaembu. Então, prendemos a bomba com pólvora enrolada em fita adesiva. Quando fomos testar a bomba, esse meu amigo teve a genial ideia de enfiá-la no escapamento do carro e acender!"
Enquanto a bomba não estourava, continua Willer, "resolvi brincar com uma pistola Browning 7.65, que tinha ganhado de presente num breve período de gostar de armas. Ficamos tentando acertar os lampiões e a iluminação da Pacaembu!".
Erraram todos os tiros, mas a polícia apareceu. "Quando chegou a polícia, a bomba do carro explodiu!" Novamente, nada mais sério aconteceu. "Depois demos uma grana para o delegado sumir com as provas, e fui inocentado perante o juiz."
Já Roberto Bicelli se lembra de uma transa incomum. "Fui ao banheiro, passando meio mal. Lá, peguei a minha namorada e dei um cato nela. A gente se beijava e corria uma eletricidade que era uma coisa incrível! A gentia sentia choques pelo corpo todo."
Não era paixão. "Quando percebi, a pia tinha quebrado fragorosamente e tinha um fio solto no chão! Nós estávamos tomando choque molhados!"
Choques elétricos, bombas caseiras, subversão estudantil: nesses episódios, é como se tivéssemos a história da ditadura militar traduzida em outros termos, transportada numa viagem de LSD.
No começo da década de 60, o grupo de Roberto Piva tratava de romper com o formalismo vigente e seguir, nos moldes dos surrealistas e dos beatniks, a ideia de que não pode haver separação entre a arte e a vida.
As fotos reproduzidas no livro, assim como o documentário de Ugo Giorgetti sobre o grupo ("Uma Outra Cidade", de 2001), não deixam dúvidas. Roberto Piva, na juventude, era bonito a mais não poder, e seus amigos não ficavam muito atrás.
Álcool, drogas e o passar do tempo foram minando essa beleza. A partir do AI-5, as bombas e pistolas já não podiam ser usadas com tanta impunidade. A transgressão foi sendo abandonada por alguns dos membros do grupo, que casaram, tiveram filhos e arranjaram emprego.
A heterossexualidade pode ser uma vigorosa fonte de caretice. Roberto Piva não conheceu essa ameaça.
Se escapou, na época, de ser preso ou internado por homossexualidade, hoje seria provavelmente acusado de pedofilia. No fim da vida, contou-me que alguns dos seus amantes adolescentes tornaram-se, com o tempo, bons amigos heterossexuais. Piva chegou a ser padrinho do filho de um deles.
O artigo vai acabando e não tenho espaço para comentar a poesia dessa geração. Mas, afinal, quando se rompem as fronteiras entre vida e literatura, os lances biográficos desses poetas ganham seu próprio interesse estético.
Por outro lado, na medida em que se entrega ao fluxo das associações livres, à "paranoia" e ao "delírio", essa poesia corre o risco de se tornar monótona. A loucura funciona quando feita de flashes e inspirações súbitas; mas é difícil sustentá-la para sempre. Isso exige muito voluntarismo e militância.
Como se sabe, as décadas de 60 e 70 estavam aí para isso mesmo.
coelhofsp@uol.com.br
sábado, 10 de setembro de 2011
Satyricon e o ácido de Piva
"[ROBERTO PIVA] A minha primeira experiência foi com uma dose inteira de Purple Haze, na Serra da Cantareira. Fomos em dois carros, junto com outras pessoas que também tomaram a droga. Lá, eu entrei no meio do mato e, repentinamente, quando bateu o ácido, olhei para o Sol e vi como se fosse uma grande tangerina gotejando amor para o universo. Então tirei a roupa. Fiquei totalmente nu, e caminhei por todo aquele mato sem me machucar em nenhum espinho. Depois comi um pêssego como se fosse pela primeira vez. Aliás, tem um verso no meu livro Quizumba em que relembro isso, falo na volta do pêssego pródigo. Quando retornamos da Cantareira, eu via o eixo do fusca através do chão do carro. E, depois, chegando na cidade, ouvi Jimi Hendrix na casa de um amigo e percebi que era um músico que tentou musicar o movimento das plantas submarinas, a dança das algas. Saí dali e fui no cinema ver Satiricon, do Fellini. Sentei a três metros da tela e aí percebi porque Fellini deu ácido para os atores fazerem aquele filme e porque ele, Fellini, também tomou ácido. Esse foi um filme que vi 18 vezes. Achei uma beleza, uma coisa... Quando surge aquele menino com uma coroa de rosas na cabeça, aquelas rosas entraram no meu cérebro. Foi muito bonito. Mas eu tinha tomado um ácido tão forte que fiquei viajando dois dias. Aí enche um pouco o saco, porque você fica batendo os dentes, numa espécie de delirium tremens".
TRECHO RETIRADO DO LIVRO "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia", de Camila Hungria e Renata D'Elia. (Azougue Editorial). À venda aqui e aqui para todo o Brasil.
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sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Meu livro e eu, aqui e ali
Comentei no outro post que a queridíssima Barbara Gancia gravou comigo um videocast da TV Folha na Av. Paulista, semana passada. Pois bem, lemos alguns poemas de "Os Dentes da Memória" aos nem sempre simpáticos transeuntes paulistanos e o resultado está aqui na Folha Online.
A Revista E, distribuída gratuitamente em toda a rede Sesc de São Paulo, traz no mês de setembro uma homenagem ao Roberto Piva, com fotos, pequenos trechos e um pedacinho do clima do nosso livro. Aqui a versão online.
O professor e ativista cultural Paulo Sposati Ortiz também publicou algo no blog dele. Aliás, uma coisa que eu esqueci de dizer é que o amigo Fernando Neumayer, do Rio de Janeiro, me chamou pra responder algumas perguntinhas sobre música num espaço bem legal, o blog dele. E no fim das contas, acho que Dentes também é um livro musical. E xamânico.
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sábado, 27 de agosto de 2011
Não é que eu esqueci de dizer obrigada
Mamma's little boy.
Roberto Bicelli e Claudio Willer
Antonio Fernando de Franceschi
Antonio Fernando de Franceschi, Renata D'Elia, Claudio Willer e o editor Sergio Cohn
Renata D'Elia e Camila Hungria, companheiras de aventuras
Fotos de Eduardo Fragata e Carla Geraldini.
Não é que eu não queira falar (de novo) do lançamento do meu livro, Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Framceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia, que ocorreu há 3 semanas na Livraria da Vila, em São Paulo. Mas é que foi uma noite tão emocionante e festiva para duas garotinhas sensíveis como eu e Camila, que passei os últimos dias num mix de agradecimentos a boa parte dos amigos e familiares, além de uma enorme ressaca de muito mais trabalho do que vinho. Então a gente tem que dar aquela desintoxicada, né?
Além do mais, minha cota de escritores blasés está preenchida e não estou afim de agregar o comportamento pseudo-parisiense-da-vila-madalena à minha vidinha normal. Portanto, já tratei de agradecer pessoalmente a quase todos que apoiaram, mas fica aqui um outro obrigada pela amizade, pelo respeito e pela puta viagem que foi esse processo todo. Sintam-se novamente abraçados!
Mas não custa nada puxar a sardinha pro nosso lado quentinho da brasa. Então vamos lá:
- O Instituto Moreira Salles, responsável por parte do acervo artístico de Roberto Piva e de Wesley Duke Lee, também personagem dos Dentes, publicou entrevista comigo sobre nosso poeta-xamã.
- O Plínio Bortolotti, diretor institucional de O Povo - CE, publicou algumas impressões sobre o livro em seu blog.
- A jornalista Barbara Gancia, super-heroína preferida da casa, gravou videocast da TV Folha comigo, falando sobre Os Dentes da Memória e lendo poemas para os simpáticos (e os antipáticos) transeuntes paulistanos e gargalhando um pouco. Em breve, na Folha Online!
- A revista Raiz, publicação apoiada pelo PNUD, também vai publicar alguns poemas da antologia de Os Dentes da Memória. Saiba onde encontrar a revista na sua cidade.
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domingo, 31 de julho de 2011
É sexta agora!
Bem, chegou a hora. O livro mais esperado do ano é também candidato automático ao Prêmio Jabuti de título mais longo de 2011, com 80 caracteres sem espaços (HA-HA-HA). "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia" (Azougue Editorial, 256 páginas, R$38,90) tem autoria de Renata D'Elia -- EU!-- e Camila Hungria.
Autografaremos o livro ao lado dos poetas Antonio Fernando de Franceschi, Roberto Bicelli e Claudio Willer. Pena que Roberto Piva não está aqui pra ver isso, mas certamente será um tributo à sua obra. Anotem aí as coordenadas da noite do lançamento!
5 de agosto (SEXTA-FEIRA)
Das 19 às 22 horas
Das 19 às 22 horas
na Livraria da Vila - Lorena
Alameda Lorena, 1731, Jardins.
*Aceita os cartões Visa, MasterCard, Diners e Amex. Estacionamento no local.
E tem até brinde: quem comparecer e autografar seu exemplar, ganhará entrada grátis com acompanhante para o espetáculo de dança "Paranóia", da Companhia de Danças de Diadema, com base na poética de Roberto Piva. Em cartaz no Sesc Vila Mariana durante o fim de semana.
Estamos no UOL, na VEJA e no Globo News, pra quem quiser saber mais sobre o projeto.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Dentes da Memória no UOL, por Mauricio Stycer
O jornalista Mauricio Stycer escreveu uma resenha super bacana sobre o meu livro em seu blog no UOL. A resenha do Mauricio captura muito da emotividade da coisa e de todo o magnetismo da figura do Piva. Aqui está o LINK pra quem quiser ler e comentar. Vale a pena ler o que ele escreveu.
"Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia", que acaba de sair pela Azougue e terá lançamento oficial no dia 5 de agosto de 2011, na Livraria da Vila da Alameda Lorena, conforme já divulgado.
Roberto Piva, década de 1970, reproduzida do livro.
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sábado, 11 de junho de 2011
Lançamento de "Os Dentes da Memória"

A Azougue Editorial e a Livraria da Vila convidam para o lançamento de "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia" com autógrafos das autoras Camila Hungria e Renata D'Elia, além dos poetas Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli.
Data: 5 de agosto de 2011, sexta-feira
Hora: das 19 às 22
Local: Livraria da Vila - Alameda Lorena
Alameda Lorena, 1731, Jardins
SINOPSE: Os Dentes da Memória é um documento ruidoso; um anedotário-bomba, tanto mais valioso quanto parcial; o panorama de uma certa boemia paulista formada por Roberto Piva, Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli, e que esteve ocupada em por pelos ares as divisas entre arte e vivência, criando a última instância realmente heróica da poesia brasileira. “Não existe poesia experimental sem vida experimental”. A orelha é de Ismar Tirelli Neto e a apresentação é de Sérgio Cohn.
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sábado, 19 de março de 2011
Estamos no Globo News
A correria da vida me pegou, não consegui avisar que o canal Globo News está exibindo esta semana o Espaço Aberto Literatura dedicado a "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e uma Trajetória Paulista de Poesia", pela Azougue Editorial; escrito por Renata D'Elia (yo misma!) com Camila Hungria.
O programa tem meia hora de duração e conta com entrevistas conduzidas por Claufe Rodrigues comigo, Camila, e os três autores ainda vivos -- Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli -- incluindo uma breve homenagem a Roberto Piva, morto em julho do ano passado.
O programa teve estreia ontem, às 21:30, e terá reprises:
Sábado --> 08:30 e 16:30
Terça -->15:30
Quarta --> 05:05
A quem interessar, eis aqui também o link do programa completo no site do Globo News. E abaixo, no Youtube.
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