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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

30 anos sem Elis: uma reportagem, vários comentários e um top 12


[Não tenho crédito das fotos. Se aparecer o autor, basta avisar que eu coloco. Culpa de quem compartilhou sem!]

Três coincidências e vários afetos me ligam à Elis Regina. Somos piscianas do terceiro decanato e ela fazia aniversário um dia depois de mim. E depois, morreu no dia do aniversário da minha avó italiana, além de ter sido a cantora preferida da minha avó portuguesa. A partida aconteceu há 30 anos e a Folha de S. Paulo publicou reportagem minha enfocando a relação da diva com a cidade de São Paulo. A ideia era fazer um retrato mais humano e pessoal, fugindo um pouco do que todo mundo vai dizer nas homenagens e descobrir seus lugares paulistanos favoritos, em paralelo aos acontecimentos mais marcantes de sua carreira na capital paulista. 

O link da Folha Online está bem aqui.  Foram 22 entrevistas em três semanas de apuração: do filho João Marcello Bôscoli a Milton Nascimento, passando por Rita Lee, Jair Rodrigues, fãs, e até o Seu Manuel, dono de um açougue no pé da Serra da Cantareira, onde Elis viveu nos anos 1970.

Vou dar uma palhinha das sobras dessas entrevistas que fiz. Mas vai ser um post 3 em 1: listo meus 12 momentos preferidos de Elis Regina na televisão, comento cada um deles, e forneço informações e depoimentos que ficaram de fora da minha apuração para a Folha. A escolha foi feita segundo critérios que considero históricos, mas também por questões afetivas e pelo link com histórias que coletei.

Sugiro ler primeiro a matéria, depois os extras. Algumas características de Elis, como a escolha de compositores inéditos, o ciúme e a rivalidade com outras cantoras, foram citadas por diversas fontes e aparecem aqui em diferentes contextos. Vamos lá, na cronologia!

1. Arrastão
Em 1965, a TV Excelsior organizou o I Festival Nacional de Música Popular, que inaugurou o tal do ciclo dos festivais que revelaram Deus e o mundo como conhecemos (pra não me alongar nos impactos disso na história e na cultura brasileira). A vencedora foi “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, que revelou Elis Regina. É por causa dessa  performance hiperbólica e radiante, girando os braços para trás, que Elis recebeu o apelido de Hélice Regina, e posteriormente, Pimentinha, este último dado por Vinicius.





2. O Fino da Bossa
Com apresentação de Elis Regina e Jair Rodrigues, com o Zimbo Trio no palco, o musical da TV Record contava com a participação de gente como Elza Soares, Alaíde Costa, Nara Leão, Jorge Ben e Wilson Simonal. O programa deu origem a diversos clones em outras emissoras. TV brasileira tinha musical e teledramaturgia, not reality shows. 



3. Elis Especial na TV Globo #1 (1970)
O que pode explicar a qualidade desse arranjo de "Wave" e da produção do Elis Especial na Globo dos anos 1970 além do talento e da boa vontade de um monte de gente reunida, tanto do lado artístico, quanto do lado televisivo? Era Elis em sua fase carioca, casada com Ronaldo Bôscoli, de cabelos curtíssimos como os de Mia Farrow e curtindo os novos ares meio soul de "Em Pleno Verão" (1970), produzido por Nelson Motta, que inclui o dueto que lançou Tim Maia em "These Are The Songs". É uma Elis Regina cool e menos extravagante, recebendo críticas ácidas do bossanovíssimo Bôscoli pela postura, pelo guarda-roupa e pela dicção que ele considerava cafonas; enterrando de vez os braços que giravam como hélices em "Arrastão". A cantora teve uma série de especiais globais mensais que em nada se assemelham ao Big Brother Brasil.

4.Elis & Michel Legrand na Tv Alemã (1972)É a melhor versão de "Summer of 1942". Legrand chegou a afirmar que Elis Regina era uma das maiores cantoras do mundo. Mas o fato é que a carreira de Elis nunca deslanchou no exterior, incluindo uma fatídica apresentação metade perfeita e metade ruim (de acordo com ela), ao lado de Hermeto Paschoal no Festival de Montreux. Mas essa história fica pra outra vez. Reparem no final do especial, com "Mundo Deserto de Almas Negras", de Roberto e Erasmo.


5. Ensaio - Tv Cultura (1973)
Uma das edições mais célebres do programa Ensaio, veiculado pela TV Cultura de São Paulo, teve Elis Regina cantando com o segundo marido, o pianista César Camargo Mariano, e seus arranjos intocáveis e ainda não superados dentro das formas que eles deram à MPB. O clássico é chique e é completamente dela. O repertório não podia ser mais abrangente: vai de Gilberto Gil a Sueli Costa, passando por Milton Nascimento, Chico Buarque e Tom Jobim. A linguagem do Ensaio é um primor à parte, a cargo do diretor Fernando Faro.


6. Dois Pra Lá, Dois Pra Cá no Fantástico (1975)
Marília Pêra anuncia a canção de dois dos compositores preferidos de Elis Regina: Aldir Blanc e João Bosco. Longe da antiga parceira musical há quase uma década, o pianista do Zimbo Trio, Amilton Godoy, achava que a cantora estava ficando muito politizada nos anos 1970, procurando mais discurso do que musicalidade. Mas muito antes que ela gravasse "O Bêbado e a Equilibrista", símbolo da abertura política do Brasil, comentou a eficiência das composições da dupla carioca ao ser apresentado a eles por Elis. "Ela de fato era muito perfeccionista e acertava muito quando gravava novos talentos. Foi assim com o Ivan Lins e também com Aldir e João Bosco", afirma.  


7. Falso Brilhante (1976)
A TV Bandeirantes produziu um especial do show Falso Brilhante, absoluto sucesso em São Paulo. Detalhe no copo de whiski logo na abertura, que denuncia o local da gravação: o restaurante Mexilhão, no Bexiga. A direção é de Roberto Oliveira, que também foi empresário de Elis, e é irmão do compositor Renato Teixeira. Nessa altura, Elis lançava compositores como Belchior e Thomas Roth. Primava pelo ineditismo. "Lembro de uma vez na casa dela na Serra da Cantareira. Estávamos eu, minha mulher, ela e o César jogando uma partida de Yan, um jogo de dados muito popular na época, enquanto rolava uma das centenas de fitas que ela devia receber de novos compositores. Ninguém estava ligado na música, mas a Elis sim. Ela se levantou quando percebeu uma música realmente boa, voltou a fita, ouviu novamente e acabou gravando depois. Era da Fátima Guedes", conta Thomas Roth.

O sucesso de bilheteria de Falso Brilhante foi tão estrondoso, que um grupo de cambistas chegou a se organizar e oferecer um buquê de flores a Elis Regina para agradecer os lucros da temporada. A cantora os recebeu nas coxias do Teatro Bandeirantes, tirou fotos e gargalhou com as histórias que contavam, de acordo com o guitarrista Natan Marques.


8. Elis e Milton (1977)Elis estava grávida de Maria Rita. Sobre a rivalidade dela com outras cantoras, Milton conta que a viu defendendo a então novata Simone do ataque de um amigo, durante um jantar num restaurante paulistano, na década de 1970.  "Ela ficou bravíssima, o clima pesou. Eu posteriormente contei isso à Simone. Dizem que a Elis era muito ciumenta, mas nesse caso ela protegeu a colega", afirma Milton.



9. Doce de Pimenta (1979)
Atuando em turmas antagônicas desde os anos 1960 -- Elis na MPB, Rita Lee entre os roqueiros -- as duas ficaram amigas quando a Pimentinha visitou Rita (que estava grávida) na cadeia, em plena ditadura militar, presa por porte de maconha. Muito antes de gravar "Alô Alô Marciano", Elis convidou Rita e Roberto de Carvalho para um de seus especiais na TV Bandeirantes. Elas duetam num improviso delicioso, dialogando como comadres que realmente eram. Composta por Rita para desmitificar a fama de brava e o apelido de Pimentinha da amiga, a música nunca foi lançada em disco, mas causou um pequeno barraco nos bastidores do programa. "Putz cara, só me lembro de pedaços desse dia. Um deles foi tenso pra mim: Elis quebrou o pau com o César porque se recusou acompanhar a "roqueira" (eu, no caso), e a banda acabou fazendo tudo sem ele. Fofocamos pra caralho, Elis esculachava certas cantoras novas -- segundo ela, eu era compositora, achava chique -- e num dado momento as chamou de "noviças do vício". Eu adorei a frase e posteriormente fiz uma música com esse nome", afirma Rita sobre o episódio. 


10. Aprendendo a jogar (Globo, 1980)
"Tivemos uma convivência intensa e curta em meio à confusão familiar que se instalou na família dela após a separação do César. Ela se identificava muito com meu orgulho paulista, achava que isso quebrava um pouco a carioquice das composições que vinha gravando. Eu, afinal, tinha lançado um disco chamado 'Coração Paulista'. Entramos nas rádios FMs com essa música", diz Guilherme Arantes, compositor de Aprendendo a Jogar, que foi feita por encomenda de César Mariano e entregue uma semana depois. 



11. Elis e Gal (Globo, 1981)O jornalista Marcio Gaspar trabalhava como assessor de imprensa da gravadora Warner e acompanhava Elis Regina em 1979, época do lançamento do disco "Essa Mulher", em todo tipo de compromisso com rádios e televisões. A temporada de shows do álbum aconteceu no Palácio Anhembi. Mas antes, Elis deu um pequeno piti na coletiva de imprensa do show, no hotel Caesar Park da Rua Augusta. "Ela tinha voltado do Rio, onde gravou um especial da Globo com outras cantoras, como a Gal Costa e a Marina, que estava começando. Chegou atrasada, com uma flor no cabelo, meio Billie Holiday e muito brava. Começou a reclamar que tinha gravado especial com aquele 'bando de gente que se acha cantora' e disse que eram todas umas sapatões. Ninguém publicou uma linha sobre isso", conta Marcio. Taí um outro momento de puro coleguismo feliz com a Gal Costa, em 1981.


12. Me Deixas Louca (Bandeirantes, 1981)
Esta é a última aparição de Elis na TV. Pronto. O que você quer que eu diga?


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Portifa de Cidades - 2011

Comecei a cobrir Cidades em 2011. Gostei da novidade e em 2012 tem mais. Decidi postar aqui uma pequena parte deste portfolio impresso em veículos como a Veja São Paulo, a revista sãopaulo (Folha de S. Paulo) e o guia GPS. Vão também uns links para o que está online. E vamos colocar um pouco de ordem nessa baguncinha!

Na Veja São Paulo, tem os históricos dos bairros de Perdizes e Moema, respectivamente linkados. 

Na revista sãopaulo tem tudo isso aí embaixo, um pouco mais a sair, e esta matéria sobre cursos, pra quem quer aprender a plantar bananeiras no ano que vem. Clicando nas imagens já dá leitura, mas se salvar dá pra ampliar as matérias.

                                       O Dono do Traço - Pedro Paulo de Mello Saraiva, para o Edifício Acal (Jardins)  

                                                 O Dono do Traço - Vilanova Artigas, para A Casinha (Campo Belo) 


Com que vinho eu vou?  Sommelier Marcos Freitas dá dicas  para escolher a  garrafa certa em cada ocasião

                                   Iniciação científica - Revisitamos a Estação Ciência, na Lapa, com o físico André Cirelli. 

                                    Vale Quanto Pesa - Mercadão da Lapa vende iguarias a granel e importados                                                 

     GPS - Gabriela Fernandes, produtora de eventos, indica 5 lugares para o amigo secreto da firma 

 Quatro séculos no papel: Arquivo Histórico Municipal abre exposição inédita com documentos paulistanos 


Regata rock n' roll - Miranda Kassin e André Frateschi experimentam remar na Raia Olímpica da USP
Os indies da bola - Cansados da badalação dos grandes times, paulistanos buscam futebol de outras divisões

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sexo, bombas e choque elétrico, por Marcelo Coelho (FSP)

Saiu na Folha de S.Paulo, caderno Ilustrada de hoje, um artigo dos bons assinado pelo Marcelo Coelho. Ele fala sobre "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia", meu livro com Camila Hungria pela Azougue Editorial. Os sites das livrarias Martins Fontes e Cultura enviam para todo o Brasil, basta comprar com eles.

Abaixo, reproduzo texto e trecho da edição digital do jornal, cortesias de Bê Neviani e Keka Ferreira. Gostei muito do espírito do texto, que é também parte do espírito do livro. Acho que o Piva estaria se divertindo bastante com isso. Willer, Bicelli, Franceschi e outros personagens estão curtindo. 


MARCELO COELHO

Sexo, bombas e choque elétrico

"A gente se beijava e corria uma eletricidade incrível [...] Nós estávamos tomando choque molhados!"



Existem os loucos e existem também aqueles que querem ser loucos sem serem loucos de fato.
Qualquer que seja o caso, não faltaram loucuras na vida do poeta Roberto Piva (1937-2010) e dos seus amigos (Cláudio Willer, Rodrigo de Haro, Roberto Bicelli). Alguns exemplos.
Na década de 70, Piva e Bicelli davam aulas num colégio público. "Um dia", conta Bicelli, "o Piva chegou atrasado porque ficou bebendo com a professora de geografia. Entrou bêbado na classe, fez a chamada e falou: 'Estou de saco cheio do bom comportamento de vocês'".
Ato contínuo, "subiu na mesa, baixou as calças e mostrou a pica para os garotos da quinta série! Ainda correu atrás de um japonesinho que havia se mandado da sala! A inspetora, que era nosso anjinho, transferiu-o de escola e ficou tudo bem".
O caso é lembrado em "Os Dentes da Memória", livro de Camila Hungria e Renata D'Elia, que acaba de ser lançado pela Azougue Editorial.
Acompanhado por uma breve antologia desses poetas (a geração dos "novíssimos" da década de 60), o livro é composto exclusivamente dos depoimentos, habilmente entrelaçados, dos principais membros do grupo.
Cláudio Willer é o protagonista de outra aventura.
"Eu e um amigo pretendíamos explodir uma bomba na casa de um desafeto nosso, na rua Tupi com a avenida Pacaembu. Então, prendemos a bomba com pólvora enrolada em fita adesiva. Quando fomos testar a bomba, esse meu amigo teve a genial ideia de enfiá-la no escapamento do carro e acender!"
Enquanto a bomba não estourava, continua Willer, "resolvi brincar com uma pistola Browning 7.65, que tinha ganhado de presente num breve período de gostar de armas. Ficamos tentando acertar os lampiões e a iluminação da Pacaembu!".
Erraram todos os tiros, mas a polícia apareceu. "Quando chegou a polícia, a bomba do carro explodiu!" Novamente, nada mais sério aconteceu. "Depois demos uma grana para o delegado sumir com as provas, e fui inocentado perante o juiz."
Já Roberto Bicelli se lembra de uma transa incomum. "Fui ao banheiro, passando meio mal. Lá, peguei a minha namorada e dei um cato nela. A gente se beijava e corria uma eletricidade que era uma coisa incrível! A gentia sentia choques pelo corpo todo."
Não era paixão. "Quando percebi, a pia tinha quebrado fragorosamente e tinha um fio solto no chão! Nós estávamos tomando choque molhados!"
Choques elétricos, bombas caseiras, subversão estudantil: nesses episódios, é como se tivéssemos a história da ditadura militar traduzida em outros termos, transportada numa viagem de LSD.
No começo da década de 60, o grupo de Roberto Piva tratava de romper com o formalismo vigente e seguir, nos moldes dos surrealistas e dos beatniks, a ideia de que não pode haver separação entre a arte e a vida.
As fotos reproduzidas no livro, assim como o documentário de Ugo Giorgetti sobre o grupo ("Uma Outra Cidade", de 2001), não deixam dúvidas. Roberto Piva, na juventude, era bonito a mais não poder, e seus amigos não ficavam muito atrás.
Álcool, drogas e o passar do tempo foram minando essa beleza. A partir do AI-5, as bombas e pistolas já não podiam ser usadas com tanta impunidade. A transgressão foi sendo abandonada por alguns dos membros do grupo, que casaram, tiveram filhos e arranjaram emprego.
A heterossexualidade pode ser uma vigorosa fonte de caretice. Roberto Piva não conheceu essa ameaça.
Se escapou, na época, de ser preso ou internado por homossexualidade, hoje seria provavelmente acusado de pedofilia. No fim da vida, contou-me que alguns dos seus amantes adolescentes tornaram-se, com o tempo, bons amigos heterossexuais. Piva chegou a ser padrinho do filho de um deles.
O artigo vai acabando e não tenho espaço para comentar a poesia dessa geração. Mas, afinal, quando se rompem as fronteiras entre vida e literatura, os lances biográficos desses poetas ganham seu próprio interesse estético.
Por outro lado, na medida em que se entrega ao fluxo das associações livres, à "paranoia" e ao "delírio", essa poesia corre o risco de se tornar monótona. A loucura funciona quando feita de flashes e inspirações súbitas; mas é difícil sustentá-la para sempre. Isso exige muito voluntarismo e militância.
Como se sabe, as décadas de 60 e 70 estavam aí para isso mesmo.

coelhofsp@uol.com.br