quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Be My Mafia Family!

Feia sou eu. A primeira -- e única -- edição da revista de poesia Be My Mafia Family! é bonita pra caramba e já vem recheada de boas letras. Pra não dizerem que o blogue-grogue não serve pra nada, vou tratar de reproduzir o e-mail explicativo da progenitora Ana Rusche e dorecionar vocês ao que interessa. Seguraí, brother.

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Be My Mafia Family!
Algo que só poetas vivos fariam por você


Já que a maioria das revistas literárias não dura por muito tempo, Be My Mafia Family! declara logo que não terá um número dois – trata-se de edição única.

A publicação refere-se ao insuportável jogo do facebook e reúne poetas amigos e trocas de interesse, como ocorre a todas as revistas literárias. Ah, em que tempos terríveis vivemos! O assunto é dos grandes: compartilhar fracassos.

Distribuída exclusivamente em formato digital, pode ser lida por qualquer internauta. A novidade é finalmente disponibilizar algo em português para os detentores do Kindle e do Sony Reader.

O lançamento virtual será na quarta-feira de cinzas, o dia em que o ano realmente começa no Brasil, com a presença espirituosa dos mafiosos Ana Guadalupe, Ana Rüsche, Andréa Catrópa, Érica Zíngano, Felipe Sentelhas, Lilian Aquino, Maiara Gouveia, Márcio-André, Paulo Ferraz, Rafael Daud, Renan Nuernberger e Ricardo Silveira.

E, para não dizer que tudo só fica no virtual, em São Paulo, sábado (20.02), quem quiser está convidado a debulhar seus fracassos em voz alta no karaokê da Liberdade (Rua da Glória, 523, a partir das 20h).

Be My Mafia Family!
Revista Eletrônica.
Poesia. Grátis, 16 p.

Direitos autorais livres para uso não-comercial.

O arquivo estará disponível para download em:

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O fator Conrad Murray

Mesmo após Conrad Murray, médico pessoal de Michael Jackson, ter sido indiciado por aquele homicídio culposo que aconteceu em 25 de junho de 2009, na casa do cantor, em Los Angeles, nenhuma sensação de justiça pairou sobre os fãs ou sobre o famoso clã. A pena máxima, segundo a lei da Califórnia, é de 4 anos para crimes definidos por imprudência ou imperícia, em que não há intenção de matar. Mesmo que tamanha imprudência e imperícia pareçam propositais: de acordo com aos resultados da necrópsia divulgados na íntegra pelo TMZ, o cantor teve uma parada cardiorrespiratória provocada pelo excesso de medicamentos perigosos, ministrados em doses cavalares e concomitantes, que sequer deveriam ser aplicadas fora de um centro cirúrgico. O laudo também informa que o estado de saúde geral de Michael Jackson era bom, apesar de toda aquela papagaiada de plásticas e outros exageros.

Ora, Michael Jackson era mesmo um cara genial: a América, afinal, é um imenso país de mortos-vivos narcotizados mais assustadores que os zumbis de Thriller. Aliás, as doses absurdas de remédios que ele tomava eram receitadas por doutores badalados de Hollywood. Com tanto dinheiro no bolso, não foi o primeiro nem o último a se intoxicar com uma cacetada de drogas lícitas que, nessa América mórbida, só não vão matar a máfia podre de colarinhos brancos por trás da indústria farmacêutica. Traficante que se preze não consome o que vende, certo?

Alguns vão à falência. É o caso do dermatologista Arnold Klein, outro médico pessoal de Michael Jackson, que quase foi despejado poucos meses após a morte do cliente mais lucrativo. Conrad Murray, ao que tudo indica, era um cara legal que se envolveu com várias mulheres e se encheu de filhos e de pensões a pagar. Suas dívidas estavam estimadas em mais de 700 mil dólares quando Michael Jackson lhe ofereceu um emprego como médico pessoal por um salário de 150 mil dólares mensais. Paciente mimado, pressionado pela roda do showbizz, com histórico de dependência química, pagando especificamente por drogas prescritas? Sim, pode ser. Mas aceitar o trabalho sujo é assumir o comando da bocada. Murray assinou seu contrato de prostituição. E além de tigrar feio, tigrou com quem não devia.

Após o indiciamento, o Conselho de Medicina da Califórnia pediu a revogação da licença médica de Murray alegando "desprezo pelo bem-estar das pessoas confiadas a seu cuidado", mas o juiz , ironicamente, apenas proibiu o médico de prescrever anestésicos. E os americanos continuam longe de frear essa pandemia estimulada por curandeiros salafrários oriundos das grandes universidades. Espero apenas que, dentro do possível, a justiça seja feita e que os filhos de Murray e Jackson consigam ter alguma paz daqui para frente.

Foto: Conrad Murray em frente ao túmulo de Michael Jackson no cemitério Forest Lawn/TMZ. Sim, ele foi lá. Tire suas conclusões.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

#musictuesday

Baita negona
Não é a melhor coisa do mundo, mas é bom demais. Soldier of Love -- novo disco de Sade Adu & sua bela banda -- perde pros anteriores, que eram, digamos, mais sexies. Tá bem baladento, pra falar a verdade. Mas isso não precisa ser ruim. Eu apenas prefiro a pegada poderosa de Paradise ao vivo, ainda mais quando lembro da Rita, da Raquel, do Greg, da Dan e da Lúcia na minha casa, dançando na sala com o DVD dela ao vivo nos anos 1990. Danila de olho no baixista inglês com charme clichê latino. A Lúcia dizendo que a barriga de Sade não era tão malhada assim. E nós todos tapando a boca da Lúcia dizendo que "Sade sim, é uma bata negona, sua doida!". Os destaques de Soldier Of Love ficam com a bela faixa-título e com as sinuosas Bring Me Home e Skin. Atenção Som Livre: botem esse disco em doses homeopáticas nas trilhas das novelas! A freguesia vai adorar.


Orgulhinho de mamis e papis
Nunca fui lá muito chegada no Beck, mas caso pudesse encontrá-lo hoje, lhe daria um grande abraço de parabéns. O disco que ele produziu para a belíssima Charlotte Gainsbourg, IRM, é dos melhores dos últimos tempos. Mesmo. Filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, a mulher já nasceu duas coisas: francesa e cool. Faltava deixar uma marca mais genuína no mundo, para além do toque vocal sexy-chic nas colaborações anteriores com Jarvis Cocker (juro que não tenho paciência pra ele) e Air. Beck compôs as canções, Charlotte escreveu as letras. Mas o disco não tem nada da habitual atmosfera beckiana de barulhinhos modernosos e temas fascinantes para um geek jeitoso. O lance aqui é botar arranjos orquestrados sofisticados junto a cordas e batidas mais pops para atingir um resultado... hipnótico. Não exatamente depressivo, se é que vocês me entendem, porque tem até canções mais alegrinhas, como Heaven Can Wait e Me And Jane Doe. Mas Charlotte garante: a inspiração veio após um diagnóstico de hemorragia cerebral, da qual saiu ilesa. As letras dão na cara, pelo menos é o que diz quem fala francês. Eu apenas vou na deles. E me dou bem. Escute já: Le Chat Du Café Des Artists e IRM.


A terceira coisa é o pai
Eu tinha bode com o Serge Gainsbourg, mas isso passou faz alguns meses. Deve ter sido minha velha implicância com o cinema francês, que muito breve desaparecerá também. Mas agora eu dei de ouvir e ver Live au Casino de Paris, e já ficamos íntimos. Gravado em 1985, o anti-herói mais amado da França passeia pelo reggae, rock, blues e pelos meandros da canção pop francesa que ele mesmo moldou. Nem preciso indicar mais nada. Procure Gainsbourg pai, com ou sem Jane Birkin e Catherine Deneuve, e acomode-se sem pressa no clichê: uma taça de champanhe do lado e umas ideias nasty na cabeça. Escute já: Sorry Angel, Nazi Rock e Je Suis Venu Te Diré Que Ja M´en Vais.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Visita ao Pivinha

Acabo de voltar do Hospital das Clínicas, onde visitei o poeta Roberto Piva. Está bem acomodado num quarto duplo, as enfermeiras e médicos são atenciosos, todos os exames estão sendo feitos e, neste momento, estamos tentando convencê-lo de que a comidinha sem sal do hospital não é tão ruim assim. Está mais animado e ansioso para receber a penca de livros de Pasolini e Castañeda que nos pediu. Me pediu também um bloco e uma caneta para escrever -- e esse não é o tipo de pedido que se nega a Roberto Piva, né? Devidamente providenciado.

Disse que quer ouvir "notícias curativas". Agradeço aos que estão sendo solidários para que possamos levá-las até lá.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Piva, parte 2 -- acalmando os ânimos

FOTO: RENATA D´ELIA/2008. Piva em Cotia- SP.

O poeta Roberto Piva foi transferido neste fim de tarde para um outro quarto no Hospital das Clínicas. O local é bastante arejado e ele está na companhia de apenas mais uma pessoa, bastante satisfeito com a nova acomodação.

Conforme divulgado no post anterior, Piva está recebendo bons cuidados da equipe médica do HC. Ele deve passar por um Cateterismo nos próximos dias. No momento, a prioridade é fortalecê-lo e garantir-lhe um bom funcionamento cardíaco. Posteriormente serão feitas 2 cirurgias: próstata e catarata.

Como qualquer grande homem de 73 anos, acostumado a devorar Leitões à Pururuca & outros banquetes, Piva reclamará da comida do hospital, "sem sal e sem gosto", em qualquer quarto do mundo. E nem precisa ser poeta pra reclamar disso: costuma ser assim conosco, com nossos amigos, nossos pais e avós. Ou alguém aqui trocaria uma pizza de mussarela por um purê de batatas sem sal?

Portanto, vamos continuar torcendo para que ele se recupere logo. O apoio dos amigos é sempre bem-vindo. Desde já, gostaria de agradecer aos que me ajudam a divulgar esses esclarecimentos referentes à internação do Piva. Peço que continuem a divulgar.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Sobre o Piva: vamos com calma

FOTO: Renata D´Elia/2008. Jardim Botânico de São Paulo.

O poeta Roberto Piva, que sofre da Doença de Parkinson, está internado no Hospital das Clínicas de São Paulo desde o dia 13 de janeiro, onde recebe visitas e assistência diária dos amigos mais próximos e do companheiro. Desde então, vem passado por exames, tem recebido cuidados médicos e já está mais forte e mais disposto. Para evitar excessos de protagonização, os mais próximos haviam optado por manter a internação com discrição. No entanto, após movimentação e mobilização em blogs e redes sociais por terceiros, a notícia saiu na Folha de S. Paulo de hoje.

Antes da internação, Piva se queixou de diarréia e mal estar. O amigo e poeta Antonio Fernando de Franceschi -- que sempre lhe ajuda nesse sentido -- providenciou uma consulta com um médico particular de confiança, onde Piva chegou acompanhado do também amigo e poeta Roberto Bicelli. Por conta de um intenso quadro de desidratação e pela necessidade de fazer exames, o médico providenciou, pessoalmente, uma internação no Hospital das Clínicas.

Através de exames, foi diagnosticado um problema de próstata. Piva precisará passar por uma cirurgia. Mas antes disso, os médicos precisam garantir sua condição cardíaca e renal. Dentro de alguns dias, ele passará por um cateterismo no Incor, anexo ao HC, um centro de referência nesse tipo de tratamento. Só depois os médicos tomarão as providências pré-cirúrgicas.

Piva não tem plano de saúde. Quem não tem plano de saúde -- seja poeta, lixeiro ou dono de padaria -- se trata pelo SUS. Qualquer um de nós, mesmo com boleto pago de convênio médico, pode precisar do SUS após sofrer um acidente ou numa localidade onde não haja hospital privado. Todos sabemos que o HC não é hotel 5 estrelas. Mas apesar de não ter uma cama com trocentos botões e uma TV de Plasma com 100 canais por assinatura, Piva está num quarto limpo e arejado. Claro que há outras pessoas nos leitos vizinhos, evangélicos chatos, televisão do doente ao lado ligada no Silvio Santos, enfermeiras com cara de malvadas e um monte de coisas que podem irritá-lo, além da própria doença. Mas ele não está "jogado" ou "abandonado". E a última coisa que vai querer saber por terceiros ou numa notícia de jornal é que seu estado é "deplorável" e que sua situação mais parece "um inferno dantesco".

Sejamos sensatos: uma internação que tende a se prolongar, incluindo todos esses exames, medidas cautelares, medicações ministradas, procedimentos cirúrgicos, e até mesmo alguns dias de UTI (comum após cirurgias desta espécie), vai sair mais caro do que comprar um imóvel num bom bairro paulistano. E tudo à vista.

Alguns poetas estão se mobilizando para conseguir um um quarto melhor para o Piva apesar de que, no SUS, todo cidadão é igual (ou não?). Muito bem. Outros estão divulgando a conta corrente do poeta no Itaú. Ajudas financeiras, obviamente, também serão bem-vindas por ele; principalmente para as despesas que virão no período pós-cirúrgico.

Mas façamos com cuidado para não passar por cima das decisões que os mais próximos (principalmente seu companheiro) devem tomar. Se não, ao invés de ajudar, podemos atrapalhar. Ademais, vamos torcer para que o Piva se recupere logo. Os amigos estão convidados a visitá-lo e ajudar a mantê-lo confiante no tratamento. Se ele reclamar da comida, a gente já sabe o porquê: deve estar morrendo de saudade do Leitão à Pururuca e do vinho chileno que tanto gosta.

A conta:
Roberto Lopes Piva
CPF: 565 802 828-00
Banco Itaú
Agência 0036
C/C: 20592-0

domingo, 24 de janeiro de 2010

Sampá



A primeira coisa que aprendi sobre São Paulo é que o Jaçanã ficava muito longe. Nos anos 1980, meu bairro era um mundo paralelo de sorveteiros apertando buzinas, depósitos de doces, velhinhos de boina jogando dominós nas praças e um imenso milharal diante da janela do quarto. Nas tardes de verão, subia de repente um cheiro de chuva e a molecada corria pra tirar a rede de vôlei do meio da rua. As chuvas ainda duravam pouco. E as crianças iam pra debaixo dos canos e goteiras, onde dançavam imundas até que a água parasse de escorrer. Nas Copas do Mundo, a vizinhança doava dinheiro para comprar tintas e pintar os asfaltos de verde e amarelo. As igrejas tinham quermesses badaladíssimas. E a velha guarda do bairro chamava o centro de "cidade".

Mas a cidade só ficava grande depois de uns 20 minutos de carro. Minha mãe tinha um Fusca. Eu gostava de grudar o rosto nas janelas de trás e arregalava os olhos para os outdoors -- que ainda existiam -- completamente impressionada com as novas sílabas e com os anúncios das cuecas Mash. Gostava de como as avenidas largas cruzavam ruas estreitas e de como bairros vizinhos podiam ser completamente diferentes. E a cidade era o nome de cada artista nas placas das exposições de museus.

Meu pai preferia as Marginais. No carro dele, meus primos me ensinaram a contar até 10 nos momentos de tensão: se não atravessássemos a ponte em 10 segundos, ela começaria a ceder e nós cairíamos no Tietê, onde um monstro gosmento puxaria nossos pés para o fundo. Foi um aprendizado marcante. Até hoje, em pesadelos recorrentes, sinto desespero e horror ao ser atingida pelo petróleo super aderente que transborda do Tietê nas tempestades oníricas.

Quando adolescente, gostava de sentar no banco alto do busão, esticando as mangas dos moletons pra me proteger do frio e ajeitar os fones de ouvido: rock n´roll no último volume a caminho da escola. Mas eu já não gostava muito da escola. O jeito era cabular: eu descia do ônibus num bairro completamente aleatório, escolhia um boteco barato, devorava um misto-quente com coca-cola ou um sorvete quando fazia calor. Caminhava pelo bairro, nas bancas de revistas, nos sebos antigos, conversava com estranhos e por fim tomava a condução seguinte para cruzar a cidade a caminho de casa.

Veio a faculdade. Pegar o metrô subterrâneo na província, observando um entra e sai de gente de toda sorte. E depois subir as escadas rolantes da estação na Avenida Paulista, caminhando eufórica a passos largos, sempre atrasada. A vontade de xingar de estúpidos todos os motoristas solitários, com ar-condicionado ligado e vidros fechados, pagando a cota do engarrafamento recorde na 23 de maio. Por isso mesmo, deixo a pressa pra depois. As noites invariavelmente terminam nas mesas de lata dos botecos na calçada, até que a gente se ponha a correr -- um tanto alterados pelos copos de cerveja -- pra não perder o trem, que vocês sabem, sai agora às 11 horas. Se não, só amanhã de manhã.


Fotos: Demônios da Garoa e Adoniran Barbosa na antiga Estação de Trem Jaçanã, da extinta Linha Cantareira. Cena de "Meu Destino É Pecar" (1952), dirigido por Manuel Peluffo, da Companhia Maristela de Cinema, que ficava aqui no bairro. Só para agradar, virtualmente, os meus avós.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

In all that exists, none have your beauty*


"Amou Michael Hutchence sobre todas as coisas, até que viu um cabeludo bonito de verdade no metrô", diz o primeiro trecho da biografia de Renata D´Elia, por Aline Marcelino (Ed. Madness, São Paulo, 2040). Foi assim por muito tempo: melhor fantasiar de verdade ao invés de pensar nas espinhas, nos aparelhos ortodônticos e nas canelas finas por trás dos uniformes azul royal. As adolescências são mesmo cruéis. Os primeiros beijos, por exemplo, (desculpaí, Guilherme) nunca tiveram o mesmo gosto de Michael. E aquele dia, já contei? Era um homem lindo. Vestia camiseta branca e exibia na testa belos óculos como tiara, domando para trás uma multidão de caracóis. Em 1998, Marcelo Sallas & Iván Zamorano eram os únicos machos do mundo com autorização moral para o uso de tiaras e, mesmo assim, sem caracóis. Mas aquele era um homem lindo, castanho, e levemente estrábico; possivelmente míope como Michael, ou então, eu era mesmo muito desajeitada naquele uniforme azul royal. O persegui siderada por todas as estações, sempre a dois bancos de distância, fora da linha, até correr seguindo as placas da saída e meter a cintura com toda a força na catraca quebrada e quase voar pelos transeuntes do Brás, enquanto o homem lindo sumia na multidão. (Capítulo 1: Cabulando as aulas de Física).

As adolescências são cruéis, é o que dizem.

Teve também aquele altão magrelo que fumava sem parar no saguão do Transamérica. Era 2001. E eu, que era nitidamente mais bonitinha com qualquer outra roupa que não fosse um uniforme azul royal. Minhas pernas bambeavam e meu corpo hesitava de pé como um carro alegórico numa passarela de nuvens (já fiz frases melhores, admito), mas corri pelas escadas e cantos até chegar à primeira fila do teatro escuro, e veja só: possivelmente o último intelectual paulistano cabeludo. Óculos de armação preta, pose de superstar e essas coisas que não se fazem mais como antigamente, especialmente na São Paulo andrógina das Augustas tristes. Como eu disse, era levemente estrábico, mas não míope. Ele era Hutchence, eu era Minogue. E aquele joelho enorme se esbarrando no meu quando ele sorria. Daí aparecem as adolescências cruéis. Nunca mais tive uma cegueira branca ao acender das luzes. Da poltrona direita, o irmão da amiga segurava de leve a minha mão. Eu disse apenas: "Fabio, não". (Capítulo 2: O Cupido Estrábico. Ou Míope, como Michael.)

E eu que achava que para sair na Austrália, bastava cavar um buraco muito fundo. Por muito tempo eu tentei.





*Para Michael Hutchence, que nasceu há 50 anos, do outro lado do mundo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Amores de verdade, proibidos e torturantes*

"It's a teenage dream/ to be seventeen/ and all wrapped up in love" Bay City Rollers

Namoradas e namorados, saibam que o amor é a força que move o rock and roll.

Não o amorzinho sanitizado, cabeça-zona-sul, que deu forma, por exemplo, ao rock brasileiro dos anos 80 ("você não soube me amar", "ursinho Blau-Blau", "não posso mais ficar assim ao seu ladinho", "não há nada de novo, ainda somos iguais").

Falo de rock de verdade e amores proibidos, torturantes. Sofrimento e dúvida.

Do amor sob o ponto de vista da genial Thalia Zedek (vocalista do Come), habitante de um universo sombrio, onde as coisas saem quase sempre erradas e paixão e martírio se confundem.

Das emoções em pedaços de Ian Curtis (1956-1980), o poeta suicida do Joy Division que morreu há quase 20 anos e cuja influência ainda angustia bandas mundo afora.

Da libido balofa de Elvis Presley, dos vabagundos sem rum cantados por Neil Young, das perversões de Lou Reed e o Velvet Underground.

Do amor com cara de mau dos Rolling Stones; dos jovens inseguros, trancados em casa, de Brian Wilson e os Beach Boys.

"Mão na luva/ A gente pode ir aonde você quiser/ E tudo depende de você/ Ficar sempre perto de mim." Isso é "Hand in Glove", dos Smiths, aberta a todas as interpretações possíveis, mas quem se importava ou percebia, nos introspectivos anos 80?

Da voz única de Chrissie Hynde, dos Pretenders, autora de baladas que nos faziam, como escreveu há 15 anos um velho jornalista brasileiro, querer que as estrelas fossem de vidro, para que pudéssemos reduzi-las a pó, uma a uma.

Do amor ao som de rock nos bailinhos de garagem em sábados gelados, do som triste para ouvir sozinho(a) em casa.

Da paixão mutuamente destrutiva de Sid Vicious (1957-1979), dos Sex Pistols, e sua mulher, Nancy Spungen. E até do arranca-rabo 24 horas por dia entre a megera Courtney Love e seu querido suicida Kurt Cobain (1967-1994), a alma do Nirvana.

Das baladas brutalmente honestas dos Foo Fighters, do videoclipe mais maravilhoso de todos os tempos, "Dirty Boots", do Sonic Youth.

Do amoral Jerry Lee Lewis e seu casamento (o terceiro), com uma prima de 13 anos de idade.

Do reverso do amor, dos lábios de açúcar cantados por Ian McCulloch e o Echo and the Bunnymen.

Das adolescentes alucinadas que morrem de amores por bonitinhos sem talento, como Menudo, Bush, Bon Jovi ou até os Bay City Rollers (escoceses que fizeram sucesso na década de 70).

Dos bêbados com bom humor do Reverend Horton Heat, da melancolia infinita do sempre derrotado Roy Orbison.

A vida é louca e você sabe, baby. Quem avisa é Iggy Pop.

*Alvaro Pereira Junior, para a Folha de S. Paulo, em 09/06/1997.


domingo, 27 de dezembro de 2009

O último meme do ano

1 – onde está seu celular?
Jogado em cima de um livro, ao lado do óculos, na banquetinha entre a poltrona e o sofá da sala.

2 – cor do cabelo?
Loiro escuro. Natural, viu?

3- o que mais gosta de fazer?
Papear, rir, comer, beber, sexo, ouvir música, ficar de papo pro ar.

4– o que você sonhou na noite passada?
Tenho sonhado um monte de coisas que parecem esparsas. Vou começar a anotar.

5 – onde você está?
Em casa, na sala.

6 – onde você gostaria de estar agora?
Aqui mesmo, de boa.

7 – onde você gostaria de estar em seis anos?
Numa deliciosa casa cheia de amigos, comendo bem, bebendo bem, com o amor em dia, trabalho em dia e a conta bancária idem. Não sei se no Brasil. Talvez já matriarca ou ensaiando o matriarcado...

8 – que carro você tem?
Eu ando de metrô e no carro da mamis. Mas tô indecisa entre um Ka novo e um Celta.

9 – onde você estava há seis anos?
Acho que eu estava de férias do estágio, viajando pra passar o reveillon na praia com amigos, ao final do 1º ano de faculdade. Aê!

10 – onde você estava ontem?
De madrugada, na casa da família após a ceia de Natal. De dia, almocei na casa do pai da minha amiga Dan. Risadas, comida boa e bebida ótima, do jeito que eu gosto!

11 – o que você não é?
Burra.

12 – o que você é?
Bonitona. Aê!

13 – objeto do desejo?
Uma casa própria grande, decorada com as coisas que eu curto, num bairro legal e com uma mesa bem bonita no quintal. (Só penso em comida)

14 – o que vai comprar hoje?
Um celular.

15 – qual sua última compra?
Um jogo americano de jantar, pro meu irmão.

16 – a última coisa que você fez?
Uma massagem nos meus pés. Revigorante!

17 – o que você está usando?
Uma regata branca, um short jeans, descalça.

19 – seu cachorro?
A Galinha, um poodle.

20 – seu computador?
Véio bagarai, porém valente.

21 – seu humor?
Piadista, as always.

22 – com saudades de alguém?
Sim.

23 – que perfume está usando?
Nôa, de Cacharrel.

24 – que livro está lendo?
"Billy Wilder - e o resto é loucura, de Hellmuth Karasek". É do Welington, juro que devolvo em 2010.

25 – última coisa que comeu?
Pizza de atum.

26 – vontade de quê?
Descansar numa prainha agora nas férias. Logo mais é hora!

27 – preguiça de… ?
Cortar o cabelo. Juro que vou ao salão antes do ano novo.

28 – viagem nacional/internacional que você precisa fazer?
Viagem nacional: Lençóis Maranhenses
Viagem internacional: Cruzar a Califórnia de carro.

29 – seu verão?
Verão é ouvir Men At Work num final de semana de sol, a caminho do mar.

30 – ama alguém?
Claro que sim!

31 – quando foi a última vez que deu uma gargalhada?
Agora à noite.

32 – quando chorou pela última vez?
Me emocionei com algo essa semana, não lembro o dia.

33 – para que time torce?
São Paulo Futebol Clube.

34 – Um homem bonito, desejo de consumo?
Só um? Eu cito qualquer delegação esportiva italiana, inteirinha. E mais alguns moços sexies e talentosos: Daniel Day Lewis, os irmãos Ralph e Joseph Fiennes e Clive Owen.

35 – Uma mulher bonita?
Juliette Binoche e Penelope Cruz. No Brasil, a Cristiane Torloni sozinha bate todas as popozudas & menininhas Malhação da vida.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Balanço

Comecei 2009 sem um puto no bolso, desempregada, com um livro incerto para oferecer a editores que não me conheciam, sem saber se moraria por muito tempo aqui ou ali, negociando dívidas altas em gordas prestações que pareciam intermináveis. Sobre o amor, não preciso dizer: é uma constante, por mais inconstante que seja.

Durante o ano, arrumei um emprego, fiz freelas e contatos profissionais, vendi o almoço para comprar a janta, me equilibrei na corda bamba, nadei pelada, bebi menos, parei de fumar, sonhei muito, fiquei ansiosa com novos projetos, consegui assinar um contrato para publicar meu livro, engordei, emagreci, me viciei no Twitter, perdi Michael Jackson, conheci gente engraçada, não perdi as esperanças e consegui pagar as minhas dívidas, equilibrar as contas e abrir uma pequena empresa jornalística com clientes bacanas with a big big help from my friends.

Costumam dar a isso o nome de "volta por cima". Pois bem.

Em 2010, quero paz de espírito, amor, confiança, saúde e sorte: que a gente tenha fôlego pra correr atrás e conseguir!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O triste fim de Policarpo Quaresma

Nova York, segunda-feira, 30/11/2009. O ator Robin Williams foi ao programa do David Letterman. Foi anunciado, dirigiu-se ao palco, sentou-se ao lado do apresentador e mandou: “Espero que Oprah não esteja chateada com as Olimpíadas. Chicago enviou a Oprah e a Michelle (Obama). O Brasil mandou 50 strippers e meio quilo de pó. Não foi uma competição justa”. A piada foi parar nas homes dos principais sites noticiosos daqui. "Babá Quase Perfeita diz que no Brasil só tem puta e cheirador de cocaína". "Dr. Patch Adams fere a honra e os princípios morais do nosso país varonil". No Jornal da Globo, Christiane Pelajo treme e finaliza a nota coberta com um adendo: "O ator já passou por duas clínicas de desintoxicação por causa do vício em cocaína". O comitê do Rio 2016 avisou que vai processar.

Eu achei a piada ruim. O texto da Pelajo foi mais engraçado. Mas generalizando os Estados Unidos como um país de zumbis do Thriller versão obesa, não entendo o porquê de tamanha despeita. Aqui não é o país do sexo fácil? Nossos traficantes não são de dar inveja aos gângstas americanos? E traficante vende o quê, bijouteria? Nós somos os primeiros a pagar de paraíso sexual e vender nossas mulheres-bunda, boleiros, praias e festas como as maiores maravilhas do mundo. Segundo a D´Elia Research Inc. , pelo menos metade dos consumidores de bundas fáceis é muito bem criado, consome cocaína, e vive debaixo do mesmo teto dessa galera que achou um absurdo a piada da Babá (sic).

Eu não consumo cocaína nem strippers. Acho até que uma bela stripper traz muito mais prazer do que qualquer droga. Desconfio que os EUA tenham mais strippers e cocainomaníacos que o Brasil. E tudo leva a crer que nossas strippers & drogas são muito mais interessantes que as deles. E então, qual é a encrenca? Ponto para nós. What´s hapenning, brother?