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segunda-feira, 7 de julho de 2008

Festa do caqui

"O evento de Paraty, não por acaso chama Festa Literária Internacional de Paraty. Porque todo mundo ganha em Paraty. As 12 pousadas ganham, os restaurantes ganham, pra ver a palestra no telão tem que pagar e pra entrar na Tenda dos Autores também. A Cia das Letras ganha. Até o vendedor de queijadinha ganha. O engraçado é que eu cruzei com o Christopher Hitchens em 2006 e perguntei pra ele, na cara dura: how much? E ele deu risada, porque tava ganhhando também. Os únicos que não ganham e que vão lá a custo de ticket refeição, estadia e traslado grátis são os brasileiros."

Marcelo Mirisola em entrevista à TV Cronópios.

domingo, 22 de junho de 2008

Um tanka pra ti

Como se houvesse uma escuta
clandestina do pensamento
afastei o estetoscópio do peito.

Takuboku Ishikawa, 1910.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

[Amor e] Fala

Fala

Falo de agrestes
pássaros de sóis
que não se apagam
de inamovíveis
pedras

de sangue
vivo de estrelas
que não cessam.

Falo do que impede o sono.

Orides Fontela, em "Teia".

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Passa, se não vai ter nenê

"Depois, consegui trancar-me com ele na despensa para, conforme planeara, tirar o vestido muito depressa e abraçar-me a Ele, a morrer".

RITA FERRO, no conto "O Segredo de Chiffon", da coletânea "Intimidades", organizada pr Luisa Coelho. 5ª frase da página 161 do livro.


Agora vamos espalhar a brincadeira:

1ª Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure)
2ª Abrir na página 161
3ª Procurar a 5ª frase completa
4ª Postar essa frase em seu blog (ou enviar por e-mail)
5ª Não escolher a melhor frase nem o melhor livro
6ª Repassar para outros 5 blogs (ou 6 e-mails)

domingo, 11 de novembro de 2007

Travessia (parte I)

Por causa da minha tristeza, sei que de mim ele mais gosta. Sempre que estou entristecido é que os outros gostam mais de mim, de minha companhia. Por que? Nunca falo, queixa de nada. Minha tristeza é uma volta em medida; mas minha alegria é forte demais.


Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há. Que alarga o mundo e põe a criatura solta. Medo agarra a gente é pelo enraizado. Fui indo. De repente, de repente, tomei em mim o gole de um pensamento - estralo de ouro: pedrinha de ouro. E conheci o que é socôrro.


Os olhos que ele punha em mim, tão externos, quase tristes de grandeza. Deu alma em cara. Adivinhei o que nós dois queríamos - logo eu disse: -"Diadorim... Diadorim!" com uma força de afeição. Ele sério sorriu. E eu gostava dele, gostava, gostava. Aí tive o fervor de que ele carecesse de minha proteção toda a vida: eu terçando, garantindo, punindo por ele. Ao mais, os olhos me perturbavam; mas sendo que não me enfraqueciam. Diadorim.


Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo como fazer injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo -é quem a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é. Amigo meu era Diadorim; era o Fafafa, o Alaripe, o Sesfrêdo. Ele não quis me escutar. Voltei de raiva.

Trechos esparsos do romance "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa. Riobaldo. Travessia.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

O mundo na ponta dos dedos*

Por Beatriz Sarlo

Não posso me conectar a internet. A empresa que pago para me oferecer este serviço emite uma mensagem que informa, docemente, que todos os seus operadores estão ocupados. Sinto uma irritação profunda contra a música que se escuta entre uma mensagem e outra. Tenho a certeza de que cada segundo sem conexão me faz perder dinheiro. Na realidade, perco mais tempo do que dinheiro, porque deveria desligar o computador, pegar o pen drive e, como milhares de pessoas, mandar o e-mail ali no locutório da frente.

Por alguma razão, onde se mistura o ressentimento contra a empresa, a paciência e algumas vagas esperanças, não faço nada. Insisto com o impossível 0800 e sua enorme incompetência com usuários que, em seus escritórios ou em suas casas, escutam a mesma voz que lhes indica que todos os operadores estão ocupados com outros mil usuários que, por algum milagre da distribuição estatística da sorte, conseguiram ser atendidos.

É segunda-feira e devo enviar minha coluna a esta revista. Tenho várias horas antes de entrar na zona de perigo; mas por outro lado, poderia ligar para a redação e dizer que esperem mais um pouco ou que lhes mando um disquete logo mais. Finalmente, poderia fazer também o mais sensato, que consiste em pagar 1 peso num locutório e enviar a coluna de lá mesmo. As soluções são todas inegavelmente sensatas, mas é como se não estivessem entre as minhas possibilidades. Só quero que a empresa telefônica me conecte, somente a conexão me livraria desse sentimento que mescla frustração, isolamento, irritação e todas as normas de defesa do consumidor (vão me descontar da fatura o tempo em que não me forneceram o serviço? Pergunto-me, como se deles eu dependesse para meu bem-estar econômico futuro).

Penso em mudar de empresa. Mas me dou conta de que não tenho uma lista telefônica impressa e que, portanto, preciso estar conectada a internet para obter informações sobre as outras empresas, seus planos, e seus números de telefone. Juro que vou mudar de empresa assim que consiga me conectar. Me dou conta do caráter absurdo desse juramento, já que sou uma mera cliente, ou seja, somente uma entre milhares de usuários que logo complicará a própria vida: cortar o serviço, devolver o modem, esperar o modem do novo serviço... para que continuar? Estou presa à minha conexão como se meu computador e a empresa fossem irmãos siameses. Isso é tudo. Tenho que esperar que o suporte técnico me atenda ou que o serviço volte ao normal sem minha intervenção: não tenho outra alternativa, dependo inteiramente de algo sobre o qual não posso influir minimamente. Os órgãos de defesa do consumidor e as páginas de cartas do leitor nos jornais acumulam denúncias sobre convênios médicos, telefones e celulares.

O certo é que sigo sem me conectar a internet e também, para experimentar a moléstia mais profundamente, sigo sem cruzar até o locutório da frente. Nestas circunstâncias, me distraio com a pergunta: como era a vida antes da internet? A espera era uma dimensão fundamental de todas as minhas atividades: esperava cartas, esperava xérox de revistas ou livros que chegavam (ou não) pelo correio, esperava chamadas telefônicas, esperava poder locomover-me até uma biblioteca caso necessitasse de um texto clássico que não tinha, caminhava até as estantes para buscar, vagarosamente, um dado, consultava um CD da Enciclopédia Britânica que, em seu tempo, parecia o maior avanço do mundo (poder comprá-la e ter um leitor de CD no computador).

Antes da internet, eu esperava e provavelmente pensava um pouco mais antes de responder a uma carta, de pedir uma xérox a um amigo que estava longe, de fazer uma chamada internacional ou aceitar um convite. Antes da internet, eu esperava e meus dedos não agiam mais rápido que minha cabeça: hoje meus dedos são mais velozes que a cabeça. Teclam todo o tempo, sem parar e, se estão quietos, sentem um cacuete nervoso.

Antes da internet havia coisas que eu renunciava saber, pois seria muito trabalhoso encontrar a informação. Não se tratava de dados importantes e podia seguir vivendo sem eles (por exemplo: sabia que Sampras tinha ganhado mais que perdido de Agassi, mas não me importava o número exato; hoje, busco o número exato e também esqueço de tudo isso imediatamente porque sei que posso buscar essas informações novamente e que, para sempre, essa diferença de vitórias e derrotas estará na internet). Tampouco me parecia fundamental saber o ano de nascimento de Janis Joplin, porque jamais me enganaria sobre a época que ela marcou.

Hoje, tudo isso está na ponta dos dedos. Mas agora, nesse momento, estou sem conexão. Sofro. Se necessitar saber quantos anos viveu Libertad Lamarque no México, o que faço? A quem chamo para averiguar com que idade Ingrid Bergman conheceu Roberto Rossellini? Melhor, desligo o computador e, por via das dúvidas, vou ao locutório da frente.

* Coluna publicada originalmente no jornal El Clarín, da Argentina, em 28 de outubro de 2007. Tradução: Renata D´Elia

domingo, 22 de julho de 2007

Relíquia Machadiana

Gostei da brincadeira. Agora vou tirar o pó da gaveta. De vez em quando vou publicar aqui resenhas antigas sobre livros, filmes e registros musicais já lançados há algum tempo. Vale até produção para a faculdade. Custa nada tentar.

Relíquia Machadiana
As controvérsias talvez girem em torno de seu nome em comparação ao de João Guimarães Rosa. Mas Machado de Assis é ainda considerado o maior escritor de língua portuguesa do Brasil, em todos os tempos. Trata-se do único autor brasileiro a receber críticas atemporais de relevância internacional e ser reconhecido como grande romancista em comparação aos contemporâneos europeus. Machado é um dos poucos a escapar da pecha do “exótico” a olhos estrangeiros.

Inicialmente influenciado pelo Romantismo, até promover uma virada radical para o Realismo com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de 1880, Machado é primordialmente lembrado como o romancista criador da personagem mais instigante da literatura brasileira, a Capitu, de “Dom Casmurro, lançado em 1900 – o livro brasileiro mais traduzido para outros idiomas. No entanto, era ele também um respeitado crítico literário e tradutor de obras como “O Corvo”, de Edgar Allan Poe. Lançou sete livros de contos, que ficaram à sombra da fama dos romances, embora tenham sido também objetos de estudo ao longo de mais de cem anos.

Em 1906, dois anos antes de sua morte, foi publicado “Relíquias da Casa Velha”, seu último volume de contos. “Pai Contra Mãe”, o conto de abertura do livro, revela o olhar minucioso de Machado, que mesmo doente, exercitava na pequena estória o talento de observador perspicaz. Eram os primeiros anos após a abolição dos escravos, e à chegada da República. Não foge ao autor portanto a menção àquele Rio de Janeiro novo e estranho, através da memória sobre o passado.

Machado utiliza uma narrativa em terceira pessoa sobre as fugas dos escravos em tempos de império, as formas de prendê-los e marcá-los a ferro para evitar reincidências. Isso para chegar até a história de Cândido Neves, que inadequado aos empregos fixos dos tempos de Império, virou um hábil catador de escravos fujões. Enamorado e casado com a costureira Clara, tornou-se alvo dos comentários alheios por não levar dinheiro à casa todo dia. Substituído por homens mais ágeis, Candinho ficou sem ofício, e sem dinheiro. Despejado, o casal que esperava um filho,levava conselhos de dar a criança.Tia Mônica, com quem Clara vivera antes de casar-se, era quem os dava moradia de favor, e quem tomou partido de tirar o menino daquela miséria.

A forma machadiana de esmiuçar problemas sócio-econômicos ainda contemporâneos é singela e precisa. Trata-se de uma reflexão sobre os marginalizados, como Candinho, que não tinha respeito nem sustento, por não se adequar à sociedade. Uma pessoa a quem não sobra alternativa, quando sim, um pingo de inventividade, ou de esperança. O ciclo da miséria humana é fechado por Machado em volta do ofício de Candinho – que capturava gente que fugia em direção à liberdade. È neste ofício, ao tentar capturar uma negra, que Candinho baseia sua última esperança em não dar o filho.

A rede de contradições da trama é social, política e moral – ainda que a narrativa se conserve simples e objetiva. Ao capturar a escrava, Candinho lhe ouve suplicar a liberdade, com o pretexto de estar grávida. Sua forma de verter as próprias agruras sobre os outros é recriminá-la, como que simbolizando o ciclo de perversidades de uma sociedade de dominados e dominadores, de vítimas e aproveitadores, mesmo que nem tudo seja tão maniqueísta assim.

Ainda que existam ações físicas e que sejam descritos sentimentos como fúria, ou mesmo a força física de um ou outro, Machado constrói uma narrativa psicológica, como de costume. E denuncia a barbárie, como se tivesse forma de fábula. Nela, seres humanos sujeitam as mais duras decisões de suas vidas a um efêmero e irresponsável jogo de poder e dinheiro. Características opostas como ternura e raiva, e posições contrárias como a de aproveitador e aproveitado, enriquecem, numa breve história, o perfil do personagem principal. Ninguém é completamente herói ou vilão. Não há simplismo em Machado de Assis.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Cão que late não morde

Sempre sobra alguma coisa na gaveta. Hora de botar pra fora.

Cão que late não morde

Nada acontece. Só uma grande reviravolta na vida de alguém que prefere não perceber. Ou finge que não. “Até O Dia Em Que o Cão Morreu”, romance de estréia de Daniel Galera, é uma narrativa rápida e certeira. O livro foi relançado pela Cia Das Letras em março deste ano, mas publicado originalmente em 2003 pela Livros do Mal, editora independente encabeçada pelo autor.

Na história, um homem de 25 anos gasta o tempo esvaziando a cabeça e latas de cerveja, num apartamento sem mobília, em Porto Alegre. Formado em Letras, ele não trabalha, não lê, não vê televisão, não usa o telefone, e sente fortes dores no estômago. Sustentado pelos pais, o protagonista vive só e sem objetivos. Sua vida muda quando um cachorro vira-lata e uma modelo chamada Marcela invadem sua rotina e seu apartamento.

Até aí, nada de anormal. Não fossem pequenas pérolas narrativas de uma literatura realista aparentemente sem profundidade, seria possível classificar o texto como mera “literatura de blog”. Mas sua fluidez e o detalhamento de cenários e diálogos são quase um convite para transformá-lo em filme.Beto Brant e Renato Ciasca não perderam tempo e filmaram “Cão Sem Dono”, baseado no livro. O roteiro foi escrito pelos dois diretores junto do inseparável parceiro Marçal Aquino.

A errância, a pseudo-indifrença e a apatia do personagem central não representam novidade para os leitores de Henry Miller ou Bukowski, ou de seus seguidores brasileiros. A diferença é que aqui, o sexo figura mais comedido. A história de um vadio que preza pelo não-envolvimento e evita paixões, a negação da funcionalidade do ser humano, e a absoluta falta de interesse em qualquer coisa poderiam resultar em mais um clichê. Mas o texto de Galera é honesto e acerta ao assumir os lugares comuns em passagens que reforçam a caracterização do anti-herói estereotipado.

O personagem perdedor, neste caso, está anestesiado por opção. Sem perceber, deixa-se engolfar pela perplexidade do imprevisto, mas segue praticando sua lei particular do mínimo esforço. No transparecer de uma existência passiva, porém observadora, surpreende-se com as peças do caminho. O fio condutor da história é o embate do racional com o emocional, que obriga o narrador a amar sem perceber. Marcela e o cão se recusam a tirar os dedos das feridas, embora ao longo do tempo, pareçam agir sem pedir nada em troca. No fim das contas, quem pede é o próprio vadio em questão.

Ao fugir do enfado, é Marcela quem norteia a inércia do narrador. Ele pertence agora aos frutos do seu próprio tédio. Sem saber o que responder, atende a convites, mas nunca convida. Sem saber o que pensar, relega as decisões aos outros. Um dia, vai chegar a sua vez, e não adiantará fugir.

sábado, 12 de maio de 2007

El asilo contra la opresión

Em 1998, eu e Madonna tínhamos em comum uma única e soberana visão sobre o Chile: Iván Zamorano, o camisa 9 da seleção, que jogou contra o Brasil nas oitavas de final da Copa da França. Vá lá, falava-se muito de Marcelo Sallas também. Mas Zamora era muito mais legal. Cantava com vigor o hino chileno, era um raçudo capitão de time, e usava uma tiara preta para segurar os cabelos. Matador.

Nos meses seguintes, as aulas de Geografia com o falecido Sylvio me serviram para adquirir conhecimento sobre a ditadura chilena, as atrocidades de Pinochet, e alguma conexão nossa com o vizinho que não faz fronteira. Fernando Henrique Cardoso por exemplo, sabia de cor o hino do Chile, que terminava repetindo a frase "El asilo contra la opresión".

Assistindo hoje pela 5ª vez ao filme "Machuca", de Andres Wood,lembrei de quando marejei os olhos no cinema. Também lembrei de Roberto Bolaño, todas as fotos que já vi de Bolaño, imaginei quantos cigarros Bolaño devia fumar por dia e quanto álcool Bolaño deve ter consumido para morrer de problemas hepáticos antes dos 50, sem ser reconhecido em seu próprio país. Isso tudo porque minutos antes um amigo me disse que é impossível estudar Humanidades na América Latina. (Afinal, as idéias dos outros contaminam a gente até que consigamos decidir o que fazer com elas, não?)

Miro o olhos estáticos por trinta segundos no teto, e depois no lustre, e depois na maçaneta da porta. Calculo um frio despertar de outono em Santiago, sob a neblina da Cordilheira dos Andes - que eu também estudava nas aulas de Geografia Física, pintando as legendas com a mesma cor das montanhas. E me lembro também de uma certa banda de rock que tocava com baixo acústico, chamada Los Tres.

Agora me ponho a pensar por que raios eu nunca tinha cogitado viver um tempo, nem que seja pouco, en la tierra de Salvador Allende,Iván Zamorano, Roberto Bolaño...

Y Pedro Machuca.

domingo, 6 de maio de 2007

De noite

"Agora estou morrendo, mas ainda tenho muita coisa para dizer. Estava em paz comigo mesmo. Mudo e em paz. Mas de repente surgiram as coisas. Aquele jovem envelhecido é o culpado. Eu estava em paz. Agora não estou em paz. É preciso esclarecer alguns pontos. Por isso, vou me apoiar no cotovelo e levantar a cabeça, minha nobre e trêmula cabeça, e buscarei no cantinho das reminiscências aqueles atos que me justificam e, poertanto, desdizem as infâmias que o jovem envelhecido espalhou para meu descrédito numa só noite relampejante".

Parágrafo inicial de "Noturno do Chile", de Roberto Bolaño.

domingo, 8 de abril de 2007

Abaixo o lirismo comedido!


Quando gênios dialogam:

"A tua burguesia é uma burguesia de loucos, a minha, uma burguesia de idiotas. Você se revolta contra a loucura com a loucura (distribuindo flores aos policiais); mas como se revoltar contra a idiotia? (...)

Você se revolta contra os pais burgueses assassinos permanecendo no mesmo mundo que é o deles... classista (é assim que nos expressamos na Itália)e, portanto, é obrigado a inventar de novo e de modo mais completo, dia após dia, palavra após palavra - a tua linguagem revolucionária. Todos os homens da tua América são obrigados, para se exprimirem, a ser inventores de palavras! Nós aqui, ao contrário (mesmo aqueles que têm dezesseis anos), já temos nossa linguagem revolucionária pronta e acabada, com uma moral implícita. Também os chineses falam como funcionários públicos. E eu também - como está vendo. Não consigo misturar a prosa com a poesia (como você faz!) - e não consigo esquecer jamais - e naturalmente nem neste momento - que tenho deveres lingüísticos."


Carta de Pier Paolo Pasolini para Allen Ginsberg, em 1967.

O trecho acima foi retirado do livro de Maria Bethânia Amoroso, "Pier Paolo Pasolini", editado pela Cosac& Naify. Isso na ocasião da homenagem a Pasolini, na 26ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Na foto, nada mais que um "TEOREMA".

terça-feira, 6 de março de 2007

"Ela disse sim, vem Kafka comigo..."

"Quando certa manhã Gregor Samsa despertou de sonhos intranqüilos, encontrou-se transformado num terrível inseto". Frase inicial de "A Metamorfose", de Franz Kafka.

Agora me diz: como é que alguém pode ser o mesmo depois de ler isso?

A convite da Folha de S. Paulo,dezoito escritores aceitaram o desafio de reescrever o trecho inicial da obra-prima de Kafka. Os resultados mais bacanas são:

Metamorfose
Quando certa manhã acordou de um sonho intraqüilo, encontrou-se em seu canto metamorfoseado num ser humano. E, o que lhe pareceu particularmente monstruoso, já com nome: Gregor Samsa. - Por Teixeira Coelho

O triste fim de Gregor Samsa
- Que porra é essa? - pensou Gregor Samsa ao depertar dum sono turbulento; seu corpo, à luz da manhã e de seus olhos, não era mais humano. - Por Paulo Lins

Por que não uma pedra?
Numa certa manhã, um inseto acordou metamorfoseado num cidadão chamado Gregor Samsa. Perdeu a habilidade de voar,de andar sobre as paredes, ganhou uma pasta preta, um chapéu e documentos. Seu ambiente restringiu-se à fria Praga. - Por Marcelo Rubens Paiva

O milagre da multiplicação
Quando Gregor Samsa despertou certa manhã, como se saísse de um sonho, viu-se transformado em Borges. Tinha um rosto pequeno, com fios brancos espalhados pelo queixo e pelas faces,numa barba que devia ser escura. Nada semelhante com o escritor. Mesmo assim, era ele. - Por Ronaldo Lima Lins

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Yo sí como candela

"Aquele pedaço de cobertura era o mais porco do edifício inteiro".

A primeira frase do segundo romance do homem que não escreve pra gente arrumadinha, graças ao bom Deus. "O Rei de Havana" tem hormônios. Para Pedro Juan Gutiérrez não faz diferença a sua pele rosada.

"Tú no juegues conmigo
que yo sí como candela", já dizia a canção.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Jaggeriana

"Alguém tira o Tamba da vitrola e lasca um tenebroso sambão-jóia, em tom menor, cheio de favelas, ilusões perdidas no atrito com as asperezas da vida e alegrias reencontradas uma vez por ano na anarquia consentida do carnaval.Puta baixo-astral. Agora, só mesmo Hendrix pra consertar o estrago. Mas aqui, nem pensar: Hendrix, Jim Morrison, Jagger são anátemas capitalistas pra essas orelhas nacional-populistas".

Extraído de "Tanto Faz", de Reinaldo Moraes.

Carnaval é finito. E só Jagger salva. Coca-Cola sem gelo, puta calor, circulador de ar na soft madruga. "Beggar´s Banquet" dos Stones na vitrola pós-moderna.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Fake revolta

Ontem, procurando por informações para um futuro livro-reportagem, encontrei uma resenha sobre um livro de Richard Gott. "Cuba, uma nova história". Não li o livro, mas a partir do texto publicado na Revista Cult, destilei meu parecer.

Discordo de alguns pontos. Não acredito que a história de Herberto Padilla seja o mais famoso ato de tirania contra os artistas cubanos "não-revolucionários" na Era Fidel. Talvez, a biografia e os vários episódios de desrespeito aos direitos humanos praticados contra Reinaldo Arenas sejam mundialmente mais conhecidos.

O próprio episódio da forçada retratação pública de Padilla é narrado também por Arenas em seu livro "Antes que Anoiteça", adaptado de forma mediana para o cinema por Julian Schnabel. No filme, Javier Bardem interpreta o escritor cubano.

Ao contrário do que escreveu Cassiano Viana na revista, Gabriel García Márquez não assinou este manifesto do Le Monde. Ou pelo menos, sua fama de Castrista incondicional não deixou que o fato fosse absorvido por Arenas - que o critica duramente em todas as oportunidades possíveis, deixando os elogios para Mario Vargas Llosa. Outra hipótese é a de que o tal abaixo-assinado do Le Monde simplesmente não tenha chegado a Arenas devido à censura.

Dicotomias e extremismos de lado, vale lembrar que Reinaldo Arenas morreu como um apátrida exilado em NYC, vítima da AIDS, sem ter tido acesso ao sistema público de saúde em Cuba, já que era um escritor homossexual anti-Castrista. Foi entusiasta da revolução num primeiro momento e sempre deixou claro que seu anti-comunismo não significava uma adesão ao capitalismo ou ao american way of life - que no fim das contas, também o excluiu.