Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Um cinema físico e emocional*

Vou começar a reproduzir aqui algumas reportagens e entrevistas que fiz ainda entre o 2º e o 3º períodos do curso de Jornalismo na gloriosa Faculdade Cásper Líbero, originalmente publicados no site de Cultura Geral da instituição. Aliás, fui editora do tal veículo laboratório em 2007. Acontece que boa parte desse conteúdo se perdeu na migração do antigo para o novo site da faculdade e a única maneira de recuperar os textos mais velhinhos do meu portfolio é apelar ao arquivo impresso que eu guardava numa pastinha [coisa de gente criada com vó].

Call me very very brave, estou me arriscando. Não sei se é vaidade ou só autocrítica mesmo, mas acho que poucos jornalistas, escritores e outros seres dos mesmos filos, classes e ordens gostam de ficar submetendo textos do passado ao público presente, mesmo que sejam 2 ou 3 leitores. Em 2007, o intuito e o público eram outros e eu tinha muito menos treino, seja lá o que isso signifique. No entanto, acho que existem aí algumas informações relevantes e, de vez em quando, preciso ter esses textos à mão.

O primeiro deles é sobre a cineasta argentina Lucrecia Martel, uma das minhas preferidas. Ela esteve em São Paulo no começo de 2007 para uma palestra na Academia Internacional de Cinema.

Voltamos em instantes com a nossa programação normal.

Aguente firme!

abraços,
R.D.

foto[amadora]: Renata D'Elia


Um cinema físico e emocional

Por Renata D'Elia [fevereiro de 2007]

Numa sala da Academia Internacional de Cinema de São Paulo se reúnem estudantes de cinema, fãs, jornalistas e curiosos. Sentada num sofá vermelho está a cineasta Lucrecia Martel. No intervalo entre as duas sessões de debate, tira fotos, ajeita as oculos e pergunta: "Chá é o mesmo que té, não? Vocês tomam gelado? Prefiro quente, por favor".

Aos 40 anos, seus longas lhe renderam a fama de expoente do novo cinema latino. "O Pântano"(2000) e "A Menina Santa" (2004) se destacam em estética e temática, e revelam 0 olhar crítico e afinado da diretora. Durante uma hora e meia, na noite de 8 de fevereiro, ela explicou sua forma de fazer cinema.

Lucrecia começou dirigindo pequenos filmes para a televisão e, ainda nos anos 90, realizou seu primeiro curta, "Rey Muerto". Esta 'pequena escola de cinema', como ela mesmo define, serviu como rito de passagem para a representação de suas próprias ideias e sensações. Interiorana de Salta, uma cidadezinha a 1600 quilômetros de Buenos Aires, admite que seus filmes são autobiográficos. "O cinema permite compartilhar minha percepção do mundo. Minha narrativa é feita de experiências muito pessoais. Ainda que eu filmasse Alien 6, seria autobiográfico. O cinema deve ser regido pela experiência emotiva e física de alguém".

Para ela, é uma pena quando a narrativa cinematográfica se define unicamente ao sentido de começo, meio e fim. 0 cinema é um exercício de percepção onde é muito mais válido identificar-se com palavras, atos, gestos e sensações do que prender-se a explicações. "Existe uma caricatura do cineasta que vive atrás das lentes, preocupado em focar e enquadrar. É como se limitassem o corpo à visão e reduzissem toda a percepção humana ao olhar. Para mim, o cinema e basicamente uma experiência sonora". Seu grande desafio é ter o controle da experiência mais intima e física de cada cena. "A montagem se parece muito com 0 exercício de memória. E a memória é seletiva e emotiva", afirma.

"Minha narrativa é feita de experiências muito pessoais. Ainda que eu filmasse Alien 6, seria autobiográfico. O cinema deve ser regido pela experiência emotiva e física de alguém".

Ambientado em uma cidade do interior, "O Pântano" foi recebido por crítica e público como um retrato perspicaz da decadente classe media argentina. "Nada me dá mais felicidade que a decadência". Sua decisão no entanto, é a de retratar os períodos de transição e ambiguidade, seja política, religiosa, familiar ou sexual. "0 cinema era a única experiência em que eu sentia que podia participar da vida política. Minimamente, é claro".

De todas as ambiguidades, a mais provocadora talvez seja a sexual. "Crianças não são inocentes, mas sim curiosas e amorais. Nada me irrita mais que uma criancinha terna! Reduzir uma criança à inocência é tirar dela todo o mistério e potência que envolvem uma criatura", dispara. "Em Valentin, de Alejándro Agresti, de quem gosto muito, 0 menino fala como adulto. Por isso não uso texto com crianças. Se alguém quiser matar a espontaneidade delas, basta dar-lhes um roteiro para decorar".

Por ora, Lucrecia prepara a rodagem de seu novo longa, "La Mujer Sin Cabeza", que deve acontecer a partir de junho. Recentemente rodou um documentário sobre os condomínios fechados nas grandes cidades. Em pouco mais de 4 minutos de filme, ela denuncia comunidades que contrariam a ideia de espaço público e cidadania. "Trata-se de uma ideia norte-americana que se adequou às desigualdades sociais da America Latina, onde uma classe se protege de outra. Entre um muro e outro há uma cidade vazia. Quem vai transitar por ela?". Lucrecia Martel parece transitar por seus mundos com uma facilidade incrível.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Heath Ledger e o charme singelo

- por Renata D´Elia, para a Revista Paradoxo

Já foi o tempo em que os galãs não podiam ser gays, ao menos no cinema. O bom galã não podia ser bruto nem malvado, precisava de um olhar sexy devastador, e devia estar sempre bem vestido. Clark Gable que o diga. Quer dizer, isso até Marlon Brando e James Dean aparecerem com seus ares rebeldes e sexualidade ambígua, lá pelos anos 1950 e 1960, e virarem símbolos de uma revolução comportamental. São ídolos que atravessam gerações.

Heath Ledger, ator australiano encontrado morto hoje em Nova York, não se encaixa em [quase] nada nos estereótipos de galãs hollywoodianos convencionais. Seu tipo físico não favorece esse status nem na Malhação, nem na Terra Nostra ou em qualquer outra fábrica Global de símbolos “sexuais” [até porque alguns desses símbolos mais parecem bonecos assexuados]. De estatura média e um rosto bonito, mas bastante comum, ele não teve uma carreira meteórica, embora tenha conseguido construir uma imagem favorável com diversos públicos e em diferentes papéis.

Deve ser aquela carinha de menino tímido do colegial, aquele que a gente ama em segredo. A troca de olhares no pátio da escola. A melhor amiga apaixonada pelo bonitão-gostosão, capitão do time de futebol. O primeiro beijo e o primeiro cigarro, com um pseudo-bad boy de 16 anos. Mas o fato é que Heath Ledger, de cabelos compridos e encaracolados, ganhou os pôsteres das revistas teen e os gritinhos histéricos das fãs com sua atuação em 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você [1999], ao lado de Julia Stiles. O que só favoreceu sua ascensão como “galã em potencial” no filme Coração de Cavaleiro, de 2001, outro sucesso pipoca em que ele ensaia suas primeiras caras de mau e encarna um herói valente e destemido.

Ainda sem explosão. Nem como ator, nem como estandarte da beleza hollywoodiana. Talvez sua primeira grande atuação tenha acontecido em A Última Ceia [2001], em que encarna o problemático Sonny, um jovem policial cheio de traumas e problemas com os preconceitos do pai, Hank, vivido por Billy Bob Thorton. A lavação de roupa suja familiar é sempre um desafio para quaisquer roteiristas, diretores e atores; e uma cena de suicídio é sempre quase um suicídio para qualquer intérprete que se preze, mas isso, o jovem Ledger tirou de letra. O suficiente para ser levado a sério dali por diante.

Trabalhando com o talentoso diretor Terry Gilliam em Os Irmãos Grimm[2005], Heath permeou a visão underground do cineasta pela história dos escritores mais lidos pelas crianças do mundo inteiro, mesmo em tempos de Harry Potter. No mesmo ano, ele ainda intepretou o personagem-título de Casanova, um dos maiores garanhões de todos os tempos. Mas ironicamente, o cacife para tanto veio em seguida. Aos 25 anos, ele chegou ao auge da carreira num papel que, em pleno século 21, ainda rende polêmica: um cowboy homossexual no interior da América dos anos 1940, em O Segredo de Brokeback Mountain,de Ang Lee, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar 2006, como Melhor Ator.

“Ele era o ativo ou o passivo?”, tem gente que ainda pergunta. Ledger poderia ter se tornado “apenas” um símbolo sexual gay ao interpretar um homossexual não estereotipado, em par romântico com outro mais lindo ainda, Jack Twist, vivido por Jake Gyllenhaal. Mas foi a libido feminina a primeira a se render ao mesmo tempo pela sensibilidade e pela macheza daquele personagem. Em Brokeback Mountain, Ledger mergulha nos melindres de Ennis Del Mar, seja no medo de assumir sua orientação, seja em sua renúncia à felicidade e na hibridez de seus relacionamentos. E mais uma vez, o tom adotado na construção do personagem fez toda a diferença.

Homens e mulheres, gays, bissexuais ou héteros, todo mundo já teve um Ennis Del Mar nessa vida. Ou então, já se apaixonou por um passional Jack Twist. Todo mundo já chorou escondido, beijou fotografias ou escondeu um segredo inconfessável. E se não fez, ainda vai fazer. Foi com esses ares demasiadamente humanos que Heath Ledger virou galã, desabrochando um charme másculo e singelo. Ennis se tornou um dos personagens mais sexies do cinema nos últimos tempos.

Ledger, que vivia o vilão Coringa no novo filme do Batman, pode tornar-se agora um junkie, um problemático depressivo, suicida anunciado, ou um quase roqueiro clássico. Um acontecimento midiático, course – “cowboy gay morre aos 28”. Ele, que parecia um partidão para as velhas teenagers, agora amdurecidas. Jovem, talentoso, ousado e competente. Será que deu tempo de fazer escola para os futuros “bonitos-com-simplicidade”? Na atual carência mundial por grandes ídolos, devem fazer dele um novo mito. O bonitinho, no fim das contas, era um bonitão. Mas não chegou a ser ídolo.

Foto: www.heathledgerinfo.com

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Paulo Autran



Como Porfirio Diaz, no filme Terra em Transe(1968).

Os extremistas criaram a mística do povo, mas o povo não vale nada.O povo é cego e vingativo. Se derem olhos ao povo, o que fará o povo? (O cano do revólver na mão de Diaz se apóia na testa de Paulo Martins).*

*Trecho do roteiro da memorável cena entre Paulo Autran e Jardel Filho (Paulo Martins), na obra-prima de Glauber Rocha.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Surrealistic Pilots

Há cerca de um ano tomei conhecimento sobre a obra do psicólogo, escritor, dramaturgo e cineasta chileno - de expressão mexicana, Alejándro Jodorowsky. O responsável pela introdução foi Marcos Sposito, com quem compartilho certa predileção por trilhas sonoras de filmes B dos anos 60,70 e 80. "Como assim, você nunca assistiu Santa Sangre?". Confesso que nunca, até então.

Finalmente assisti Santa Sangre após eu e Paul Henry termos prometido o filme de presente ao poeta Roberto Piva. Baixei o DVD duplo com todos os extras e me deparei com um inusitado encontro entre Jodorowsky e alunos do curso de cinema de uma universidade americana. Num inglês sofrível, o diretor falava sobre a grande dificuldade em realizar projetos cinematográficos que, obviamente, não cabem na caixinha de idéias prontas Hollywoodianas. Ele afirma que seus filmes só passaram a ser exibidos nos EUA após John Lennon ter visto seu primeiro longa, El Topo, e passar a divulgá-lo junto dos curtas que fez com Yoko Ono.

Jodorowsky contou com a produção do italiano Claudio Argento para Santa Sangre, finalmente lançado em 1989, considerado até hoje uma obra-prima do "bizarro". Claudio estava acostumado a produzir as películas de horror do irmão, Dario Argento - conhecido como o "Hitchcock italiano". Guardadas todas as diferenças entre os diretores, é necessário dizer que o resultado de suas investidas é primordial para a sobrevivência das idéias dissonantes, mesmo entre os autores cinematográficos de verdade. Tanto Jodorowsky quanto Argento são grandes mestres do sensorial e do subconsciente. Delírio, surrealismo, medo e obsessões são as apostas de ambos, em oposição ao modismo de um cinema "híper-realista", como diria meu amigo Felipe Jordani.

Recentemente assisti também a Fando Y Lis (1968), filme de Jodorowsky baseado em peça de Fernando Arrabal. Depois dessa experiência fica difícil aplicar a palavra fantástico a qualquer outra coisa. Infantilidade, beleza, tormento e amor permeiam um universo narrativo filmado em preto e branco, provocando os sentidos e instigando a amoralidade nata de todo ser humano. Por outro lado, Suspiria, de Dario Argento explora a sensorialidade em todas as cores do pânico e do sobrenatural. Em nenhuma outra hipótese um assassinato seria bonito de ver - ou de ouvir, como na trilha composta pelo grupo de rock progressivo GOBLIN.



* acima, a personagem Lis (Fando Y Lis, 1968, A. Jodorowsky)

"Cuando llegues a Tar conocerás la eternidad y verás el pájaro que cada cien años bebe una gota de agua del oceano..."

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Antes que eu me esqueça

Em 1977, o cineasta e crítico Jairo Ferreira já havia filmado três curtas, auxiliado por gente como Carlos Reichenbach, Inácio Araújo e Rogério Sganzerla.

Conheceu o poeta Cláudio Willer no mesmo ano, entrevistando-o para a Folha de S. Paulo. Na época, Willer iniciava um projeto editorial chamado Feira de Poesia, que lançaria em dezembro sua primeira obra literária - "Antes que eu me esqueça", de Roberto Bicelli, com desenhos de um ilustrador até então desconhecido, Guto Lacaz.

Jairo Ferreira tomou conhecimento sobre o festim poético que se realizaria para o lançamento do livro em questão. Não por acaso, era o próprio Bicelli que organizava o evento, no Teatro Célia Helena. Não haveria somente sua leitura, mas participações de Roberto Piva, Eduardo Fonseca, Cláudio Willer, Nelson Jacobina e Jorge Mautner.

O resultado é um filme homônimo de 14 minutos, pouco (ou nada) visto nos últimos 30 anos. "Antes que eu me esqueça" faz parte do acervo do Itaú Cultural e está sendo exibido no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo - 2007, junto de outros 4 curtas de Jairo Ferreira.

Na foto abaixo, o encontro entre os poetas e alguns papagaios de pirata. Em sentido horário: Willer, Lia, Bicelli, Renata, Wagner e Douglas. No Catedral, São Paulo - ago/2007:

sábado, 4 de agosto de 2007

Além das nuvens

Num café parisiense um homem (Peter Weller) e uma mulher (Chiara Caselli), desconhecidos, sentam-se em mesas separadas. Nas mãos dele um jornal. Nas dela, uma revista. Minutos depois, ela se levanta e pede a ele para sentar à sua mesa. Perplexo e surpreso, o homem deixa-se acompanhar.

Mulher: Nessa revista, li uma coisa magnífica, e preciso compartilhar isso com alguém. Você é daqui?
Homem:Não, sou de Nova Iorque, mas moro aqui. E você?
Mulher: Sou italiana. Mas então, posso dizer?
Homem:- Sim, "sou todo ouvidos". É assim que se diz? (referindo-se à expressão idiomática).
Mulher: Sim...

(Silêncio).

Mulher: No México, cientistas contrataram carregadores para levá-los ao cume da montanha de uma cidade inca. A certa altura, os carrgadores não quiseram mais prosseguir. Os cientistas, irritados, não sabiam como fazê-los seguirem. Não entendiam o porquê de uma parada tão prolongada. Após algumas horas eles se puseram novamente em marcha. E por fim, o chefe dos carregadores ofereceu uma explicação.

Homem: O que se passou?
Mulher: Vejo que lhe interessa...
Homem: (sorrindo) Agora, muito

Mulher: Ele disse que haviam corrido muito e que por isso precisavam esperar suas almas.
Homem: As almas?

(Pausa)

Mulher:(sorri)É magnífico porque também corremos atrás de nossas coisas,e perdemos nossas almas. Devíamos esperar.

Homem: Para fazer o quê?
Mulher:(pausa) Tudo o que nos parece ínútil.

(Fade out).




*Em "Além das Núvens", de Michelangelo Antonioni e Wim Wenders(1995)

**Não se trata da reprodução fiel do roteiro, mas de uma breve descrição da cena e transcrição do diálogo, de acordo com as legendas em Português.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Aos Mestres - com carinho

A Itália me deu primeiro um nome, o meu. Os dos outros demoraram pra chegar. E trouxeram junto os olhares. Foi assim, o mergulho de olho aberto. De volta à tona nunca mais.

Vieram de mãos dadas Fellini & Nino Rota, Pasolini e a solidão - jamais o silêncio. Meu tapa no alheio dormente, em vão. O sonho, o pesadelo, as vísceras e a visão. A descoberta do intrínseco. Em seguida chegou Visconti, a arte em todos os detalhes. Com De Sica e Rosselini, a verdade sobre os meninos e os homens. La Magnani e o grito. Só depois o sorriso de Scola e Monicelli. Por último apareceu Zurlini, a Monica e sua valise.

Estava Antonioni discreto e atento em algum lugar onde o tempo não envelhece. Estava Antonioni na beleza, na suavidade, no complexo das relações humanas e na incomunicabilidade dos seres. O preto no branco e todas as cores, outras línguas. My very beautiful Blow-Up.

Ciao, Michelangelo.


* Dedicado também à memória do gênio Ingmar Bergman. Aos mestres, todo o carinho. E quanto "àquela", que levou a Bergman e Antonioni de uma vez, marquemos uma revanche para ambos. O cinema acerta as contas.

**Foto: cena de "Blow-UP - Depois Daquele Beijo", de Michelangelo Antonioni, inspirado na obra de Julio Cortázar.

domingo, 29 de julho de 2007

Trilha sonora para manhãs frias de sol que não esquenta

Tim Buckley - "Blue Afternoon" (1969)
Ou ainda voz potente para road movies de Vincent Gallo, coisa assim. O pai de Jeff o abandonou quando pequeno e nunca mais voltou. O filhote já era nascido quando as obras-primas do pai foram ofuscadas pelos gritos da rebeldia Jaggeriana, os ecos das guitarras de Hendrix, e o discurso paz & amor de Woodstock. Amargura e trauma. Melancolia folk com apetrechos orientais. O pai de Jeff faleceu em 1979, sozinho em casa.

Thelonious Monk - "The Best of Blue Note Years"
Melodious Thunk para iniciantes. Gênio sem partitura. Quebra-notas-como-quebra-átomos. Jack Kerouac e Neal Cassidy, se escrevessem poema. Charlie Rouse & John Coltrane. "Ruby, My Dear". Muitas vezes já foi abril em Paris.

Yann Tiersen - "Les Fabuleux Destin D´Amelie Poulain"
Eu também, Amelie! Eu também!

domingo, 22 de julho de 2007

Jorge Furtado e elenco falam sobre "Saneamento Básico - O Filme"



Por Renata D´Elia e Paula Dume

O gaúcho Jorge Furtado chega agora ao lançamento de seu quarto longa-metragem, “Saneamento Básico – O Filme”, em cartaz desde 20 de julho, em todo o Brasil. Rodado em três municípios da Serra Gaúcha – Monte Belo, Bento Gonçalves e Santa Teresa – entre julho e agosto de 2006, trata-se de uma co-produção entre a Casa de Cinema de Porto Alegre, a Columbia Pictures do Brasil e a Globo Filmes. Diretor de séries televisivas e de curtas premiados internacionalmente, Jorge aposta em uma comédia metalingüística, com pano de fundo social. Trama e personagens são inspirados na comédia dell´arte.

A sinopse aponta para uma pequena comunidade no Rio Grande do Sul, que pleiteia junto à prefeitura verbas para uma obra de saneamento, e em contrapartida recebe dez mil reais para a realização de um filme. Então, decidem fazer um vídeo sobre a obra em questão. “Demorei dois anos pra escrever este roteiro, feito especialmente para estes atores, os melhores do Brasil na minha opinião”, revela o diretor. O elenco conta com Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Paulo José, Tonico Ferreira, Bruno Garcia, Janaina Kremer e Lázaro Ramos. Furtado afirma ter realizado vários ensaios e leituras com os atores, o que rendeu alterações e novas inserções no roteiro. “Com o Jorge há muita liberdade para criar e nós todos acreditamos muito no filme. Literalmente vestimos a camisa”, brinca Paulo José, em alusão às camisetas de divulgação, que quase todos vestiam na coletiva de imprensa.

Ocorre em Saneamento uma mudança temática e narrativa na carreira do diretor, que nos três longas anteriores abusou das narrações em off e de perspectivas psicológicas, focando o universo juvenil. Jorge trilha agora um caminho oposto. “Todos os meus filmes anteriores poderiam ter a mesma sinopse: ‘jovem tímido e inteligente faz de tudo para conquistar a mulher amada’. Faço o possível para não imitar a mim mesmo. Mas às vezes não consigo, é uma mistura de estilo e preguiça”, revela o diretor, que encontrou o fio condutor do filme nas contradições. “Trata-se de um lugar muito pequeno, que tem dinheiro para fazer um filme, e não quer! Pensei em saneamento por ser algo essencial, e que ao mesmo tempo mais de 50% das casas brasileiras não têm”. Fernanda Torres leva a discussão mais adiante. “Cinema é caro mesmo quando é barato. Acaba sendo um artigo de luxo, com um valor muito louco num país de tantas desigualdades sociais. O filme do Jorge faz um retrato que gosto muito, ele explica o que é do cinema: ninguém resolve o problema do esgoto, mas os personagens resolvem suas questões humanas através da arte, através daquele vídeo”.

Segundo Nora Goulart, da Casa de Cinema de Porto Alegre, o orçamento do filme é de 2 milhões e 600 mil reais, coletado em parte através de dois concursos, um promovido pela Petrobrás, outro pelo BNDES. Os gastos com o lançamento atingiram mais 1 milhão de reais, orçados pela Columbia Pictures e pela Globo Filmes. Entre maio e julho, diretor e equipe técnica participaram de pré-estréias e debates fechados em escolas de cinema e universidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. O objetivo é estimular a divulgação boca a boca e frear a redução de público – que tem tirado filmes nacionais de exibição poucas semanas após a estréia. “Para nós, vale a frase de Dostoiévski que encerra o filme: ‘a beleza salvará o mundo’. Somos o país de Noel Rosa, Lupiscínio Rodrigues, e não dessa gente corrupta e mórbida que está aí”, reflete Furtado.

* Matéria originalmente escrita para o Cinequanon
** Foto: Renata D´Elia

sábado, 23 de junho de 2007

Cidades privadas

Está disponível "La Ciudad Que Huye", de Lucrecia Martel, no blog do Ariel, editor do curta em questão. O post acompanha um belo texto.

O documentário foi produzido ano passado para uma conferência internacional sobre urbanização e faz uma denúncia sobre o crescimento de condomínios fechados particulares, que reduzem o espaço público nas grandes cidades, diluindo a idéia da vida em comunidade.

sábado, 16 de junho de 2007

Semana de bar, Brant e música

Asterix na segunda.
Asterix na terça.
Provas e jogo do Boca com amigos e pizza, na quarta. (Quase perco o último metrô).
Asterix na quinta, velhas Caspervas.
Em seguida aquele bar sem nome, a velha lei da pirâmide, com os manos do JOD. Carona de madrugada. São Paulo acesa.
Entrevista com Beto Brant, o cineasta, na sexta. X-Egg na sequência. Metrô quebrado, sem condições. O bar foi o que restou. Grande Dan!
Japa food no sábado.


Miscelâneas do modo shuffle - Winamp:

Tricky - "Makes Me Wanna Die"
The Rolling Stones - "Sympathy For The Devil"
Elvis Costello - "Alison"
Thelonious Monk & John Coltrane - "Ruby, My Dear"
IRA e Fernanda Takai - "O Telefone"
U2 - "Night And Day"
Antony & The Johnsons - "You Are My Sister"
INXS -"Everything"
Nino Rota - Tema de "Noites de Cabíria"
Sonic Youth - "Sunday"
Portishead - "All Mine"
Chet Baker - "Like Someone in Love"
Aterciopelados- "Maligno"
Marvin Gaye - "What´s Going On"
Elis Regina - "O Que Foi Feito Deverá"
Kraftwerk - "Neon Lights"
Morrisey - "Suedehead"
Yann Tiersen - "Comptine d´un autre eté"
Zbigniew Preisner - "Olivier´s Theme"
The Ramones - "Teenage Lobotomy"

sexta-feira, 1 de junho de 2007

A tediosa chama do desejo

No novo álbum de Björk, "Volta", há um dueto com Antony Hegarty (de Antony & The Johnsons). "The Dull Flame of Desire" é um poema russo de Fyodor Tyutchev, que no álbum aparece em tradução feita para o filme "Stalker", de Andrei Tarkovski.

(Algumas das imagens mais lindas do mundo estão em Andrei Rublev, vale ressaltar)



A tediosa chama do desejo


Eu amo seus olhos, meu querido (minha querida)
Esse fogo esplêndido, brilhante

Quando de repente você os levanta
E destila um olhar rápido e devastador

Como que acendendo e iluminando o céu
E há ainda encanto maior

Quando os olhos do meu amor se entreabrem
Quando tudo se queima em beijos de paixão

E através dos seus cílios abatidos
Eu vejo a tediosa chama do desejo


* tradução de Renata D´Elia, do Inglês.

sábado, 14 de abril de 2007

Para fazer um poema ruim

Tenho ganas de gritar pelas terraças
Quebrar os telhados a passos largos e pulos de criança
Profanar aos gritos e interromper
as bocas, os cuspes, as trepadas
as noites de Cabíria.

Aquele Tadzio é um filho da puta
alucinação muda
miragem
que chuta na boca do estômago
quem já cansou de viver

Ou ainda
Oxalá branco e lindo
que leva pelas mãos
e sopra no rosto
prá sarar a dor

Quero ser a Deneuve Buñueliana
Paulo Autran com a bandeira preta
mas não ao mesmo tempo
pra não encavalar as estrófes

No fim quem se importa
se tem duas, três, quatro, cinco
seis, sete, mil
ou nenhuma linha

Agora Philip Glass me faz chorar prá dentro
mas eu amanheci pra fora
e não tem volta

domingo, 8 de abril de 2007

Abaixo o lirismo comedido!


Quando gênios dialogam:

"A tua burguesia é uma burguesia de loucos, a minha, uma burguesia de idiotas. Você se revolta contra a loucura com a loucura (distribuindo flores aos policiais); mas como se revoltar contra a idiotia? (...)

Você se revolta contra os pais burgueses assassinos permanecendo no mesmo mundo que é o deles... classista (é assim que nos expressamos na Itália)e, portanto, é obrigado a inventar de novo e de modo mais completo, dia após dia, palavra após palavra - a tua linguagem revolucionária. Todos os homens da tua América são obrigados, para se exprimirem, a ser inventores de palavras! Nós aqui, ao contrário (mesmo aqueles que têm dezesseis anos), já temos nossa linguagem revolucionária pronta e acabada, com uma moral implícita. Também os chineses falam como funcionários públicos. E eu também - como está vendo. Não consigo misturar a prosa com a poesia (como você faz!) - e não consigo esquecer jamais - e naturalmente nem neste momento - que tenho deveres lingüísticos."


Carta de Pier Paolo Pasolini para Allen Ginsberg, em 1967.

O trecho acima foi retirado do livro de Maria Bethânia Amoroso, "Pier Paolo Pasolini", editado pela Cosac& Naify. Isso na ocasião da homenagem a Pasolini, na 26ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Na foto, nada mais que um "TEOREMA".

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Choro no cinema. E pela Little Miss Sunshine.

Sempre achei injusto chamar de "comédia" filmes como A Pequena Miss Sunshine. Também nunca acreditei que comédia fosse inferior ao drama. Só acho que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Não tão simples quanto parece.

Chorar na cena das marionetes em A Dupla Vida de Veronique é coisa de gente sensível. "Coisa de viado", segundo um vizinho testostrônico-carnívoro-pimário. Sentir os olhos marejados por Ricardo Darín e Norma Aleandro em O Filho da Noiva é de praxe. Mas confesso aqui meu talento especial prá carpideira.

Veja bem, meu histórico tem lá suas peculiaridades. Eu chorei em O Grande Garoto, quando todo mundo ria do Hugh Grant com a guitarra. Mas também me emocionei com o início de Noiva em Fuga, só porque tinha uma noiva que fugia num cavalo (por campos verdejantes, claro) ao som de I Still Haven´t Found What I´m Looking For, do U2. Saí do cinema tonta e muda depois de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. E chorei, mas sem um pingo de tristeza, em Satyricon, de Fellini.

Percebe-se lá minha tendência a me emocionar com criancinhas do cinema, exceto as dos filmes iranianos com nome de fruta. Aquelas deveras me cansam. Mas antes tarde do que nunca, chorei com A Pequena Miss Sunshine. Mas assim, de soluçar. E juro, tentei me conter, mas não consegui.

Eu já sabia que Jonathan Dayton e Valerie Faris valiam a pena. Isso desde 96, com o "Tonight, Tonight", do Smashing Pumpkins. Já considerava Toni Collette das melhores atrizes desta geração. E o resto do elenco também não foi surpresa. Mas ainda é maravilhoso se deparar com coisas tão simples - e certeiras. A Miss Sunshine dá o que falar.

Chamem aí os filósofos pra botar o Nietzche no meio. Falem até de Kafka, se quiserem. Ou de Proust, James Joyce, Freud, David Copperfield. I don´t care. Choro mesmo.

PS: Olive, quer ser minha filha?

quinta-feira, 22 de março de 2007

Coppola Antonieta

De fato, "Maria Antonieta" agrada aos fãs de Sofia Coppola e não aos admiradores da lendária Rainha da França. Historiadores e alguns biógrafos têm seus motivos para arrancar os cabelos. Que o digam os franceses, que andam pedindo a cabeça (sic) da diretora americana. Para eles, o filme não passa de uma grande piada de mau gosto. Me arrisco a dizer que a piada foi proposital. Que tal transcender a idéia de "superficialidade"?

Desde "As Virgens Suicidas" é evidente que a diretora se expressa pelos olhos das personagens principais dos filmes - sempre mulheres solitárias e incompreendidas. A mais interessante delas é Charlotte, de "Encontros e Desencontros". Mas está aí a riqueza desta Maria Antonieta, interpretada por Kirstin Dunst. Não é o mártir que interessa. Nem a Revolução Francesa.

Sofia Coppola conheceu a vida de Maria Antonieta através da historiadora Evelyne Lerner, e foi asesssorada por ela desde a primeira vez que pisou no Palácio de Versailles, em 2001. Mesmo assim, a diretora teve problemas com a pesquisa histórica e por isso protelou a realização do filme, colocando "Encontros e Desencontros" no lugar. Sofia se recusou a ler a mais famosa biografia da rainha, escrita por Stefan Zweig, por considerá-la rigorosa demais.

O resultado é uma visão peculiar da personagem histórica. A degola não aparece. Mas e daí? Trata-se de Sofia Coppola desmitificando a a rainha. Maria Antonieta é tão "humanizada", que parece simpatizar com o Tratado Social de Russeau enquanto o lê, deitadinha no jardim. Sua alienação política dá lugar a um gesto de amadurecimento no episódio da Queda da Bastilha, em que a rainha se mostra uma corajosa companheira de Luis XVI, depois de tanta desaprovação social.

O deleite aos que simpatizam com a carreira da diretora, fica por conta não somente dos figurinos e do visual, mas pela trilha sonora. Tem seus pés no kitsch, mas confesso que é maravilhoso assistir a uma ambientação do século XVIII ao som de New Order, Siouxsie & The Banshees, e Gang of Four. (Valeu, Sofia!)

E como referência é tudo nessa vida, sugiro aos mais atentos que prestem atenção na feiosa sem modos, cortesã do rei Luis XV, Madame Du Barry. A atriz é Asia Argento, diretora de filmes independentes e filha do mestre do terror, Dario Argento.

sábado, 10 de março de 2007

Faraway, so close!


"You...
you, whom we love...
you do not see us...
you do not hear us.
You imagine us in the far distance...
yet we are so near.
We are messengers...
who bring closeness
to those who are distant.
We are messengers...
who bring the light
to those who are in darkness.
We are messengers...
who bring the word
to those who question.
We are neither the light,
nor the message.
We are the messengers.
We...
are nothing.
You are, for us...
everything."

Trecho original do roteiro de Wim Wenders, para "Tão Longe, Tão Perto", de 1993. O filme é a continuação de "Asas do Desejo" (1987), também filmado em Berlim. No elenco, os fabulosos Bruno Ganz, Otto Sanders e Natassja Kinski. Ah, também tem Willem Defoe e Peter Falk - interpretando ele mesmo.

O link direciona para um dos clipes dirigidos por Wim Wenders para o U2, "Stay - Faraway, so close!", trilha do filme em questão.