Mostrando postagens com marcador kenneth anger. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador kenneth anger. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Rainha pagã de Hollywood*


"(...)Elizabeth Taylor é, em minha opinião, a maior atriz da história do cinema. Ela entende intuitivamente a câmera e suas intimidades não verbais. Abrindo os olhos violeta, conduz-nos ao reino líquido da emoção, que habita por intuição pisciana. Richard Burton disse que ela o ensinou a atuar para a câmera. Economia e contenção são essenciais. Em sua melhor forma, Elizabeth Taylor simplesmente é. Uma carga elétrica, erótica, faz vibrar o espaço entre o rosto dela e a lente. É um fenômeno extra-sensório, pagão.

Meryl Streep, à maneira protestante, entusiasma-se com as palavras; exibe sotaques inteligentes como uma máscara para suas deficiências mais profundas. (E não sabe dizer uma fala judia; destruiu o cáustico diálogo de Nora Ephron em A difícil arte de amar.) O trabalho de Meryl não vai longe. Tentem dublá-la para cinemas indianos: não restará nada, só aquele rosto ossudo, cavalar, movendo os lábios. Imaginem, por outro lado, atrizes menos técnicas como Heddy Lamarr, Rita Hayworth, Lana Turner: essas mulheres têm um apelo internacional e universal. Seriam belas no Egito, Grécia, e Roma antigos, na Borgonha medieval ou na Paris do século XIX. Susan Haywad fez Betsabé. Tentem imaginar Meryl Streep num épico bíblico! Ela é incapaz de fazer os grandes papéis legendários ou mitológicos. Não tem poder elemental, não tem aquela sensualidade tórrida.(...)

Elizabeth Taylor é uma criação o show business, dentro do qual ela tem vivido desde que começou como atriz infantil. Ela tem a hiper-realidade de uma visão de sonho. Meryl Streep, com seu chato decoro, é bem-vinda à sua pose de atriz esforçada e despretensiosa. Eu prefiro a velha Hollywood lixo, cafona, a qualquer hora. Elizabeth Taylor, entusiasticamente comendo, bebendo, no cio, rindo, xingando, trocando de maridos e comprando diamantes aos montes, é uma personalidade em escala grandiosa. É uma monarca numa época de tristes liberais. Como estrela, ela não tem, ao contrário de Greta Garbo, Marlene Dietrich e Katharine Hepburn, qualquer ambiguidade sexual em sua persona. Terrena e sensual, apaixonada e voluntariosa, mas terna e empática. Elizabeth Taylor é a mulher em suas muitas fases lunares, admirada por todo o mundo".

Trecho de Rainha Pagã de Hollywood, texto de Camille Paglia, publicado na Revista Penthouse em 1992, parte da coletânea Sexo, Arte e Cultura Americana (Companhia das Letras).

Imagens: Elizabeth Taylor, por fotógrafo não identificado e Andy Warhol. Mas esse post todo só vai fazer sentido se você clicar aqui e assistir ao curta Puce Moment, de Kenneth Anger, cuja incorporação foi proibida.

domingo, 30 de março de 2008

Brutal pagan forces

Há cerca de 4 anos li duas entrevistas da ativista e intelectual americana Camille Paglia [aqui brevemente apresentada por um artigo no Zero Hora], ambas enviadas por um amigo da Filadélfia. Uma concedida à Playboy e outra para a revista do campus da Philadelphia College of the Performing Arts, onde ela leciona. Sexualidade humana pra cá, comportamento social pra lá, editei e salvei o que me interessava e segui pela estrada afora, alive and kicking, same as it ever was.

Discordo de Paglia em certos aspectos e sou particularmente relapsa a alguns conceitos, até porque não me apetece muito essa dicotomia universal "machismo X feminismo". Acabo por desprezar a maior parte das classificações "científicas" de comportamento às quais já tive acesso. Mas recorri à Camille com atenção diversas vezes ao longo do tempo, sem jamais aderir completamente, mas sempre admirando suas libertárias convicções.

Não por acaso, ganhei recentemente um pôster com um famoso nu frontal masculino, by Robert Mapplethorpe. Ainda temo que alguém me processe caso eu ouse pendurá-lo dentro de minha própria casa. Também completei minha coleção de curtas do cineasta experimental Kenneth Anger, que assisto sozinha - sempre de madrugada, e aos poucos fui esmiuçando sua produtiva relação de amor & ódio com os seres humanos de ascendente em Escorpião. [I´m so fucking afraid...]

Inspirada por eses e outros fatores, dentre eles a fascinante pesquisa em torno do meu livro-reportagem, e aquela velha e viva atração por uma BELA putaria franciscana em poema & prosa [ganhei de aniversário um livro com os roteiros e outros textos de Pasolini, aliás], resolvi colar aqui pequenos fragmentos de um manifesto imaginário importante, mas que me deixa perplexa justamente pela necessidade de existir, quando seria mais honesto vivermos natural e puramente.

Por Camille Paglia:

"Sex and nature are brutal pagan forces".


"Beauty is our weapon against nature; by it we make objects, giving them limit, symmetry, proportion. Beauty halts and freezes the melting flux of nature."

"Pornography is human imagination in tense theatrical action; its violations are a protest against the violations of our freedom by nature. "

"Art is form struggling to wake from the nightmare of nature."

"My thinking tends to be libertarian. That is, I oppose intrusions of the state into the private realm - as in abortion, prostitution, pornography, drug use, or suicide, all of which I would strongly defend as matters of free choice in a representative democracy".


"The only thing that will be remembered about my enemies after they're dead is the nasty things I've said about them".

"There is no true expertise in the humanities without knowing all of the humanities. Art is a vast, ancient interconnected web-work, a fabricated tradition. Over-concentration on any one point is a distortion".