
Você conhece Gavin Friday. Mesmo que não se dê conta. Na fria Dublin da década de 1970, Gavin era um punk louco maquiado e vestido de mulher à frente do The Virgin Prunes, um grupo anárquico, performático e enlouquecido no oposto da crueza limpa e meio séria demais do Feedback, que depois virou virou U2. À frente do U2 estava Bono, melhor amigo de Gavin. Na banda de Gavin estavam Dik Evans -- irmão de David Evans, vulgo The Edge -- e Guggi, que emprestou ao U2 seu irmão caçula como modelo das capas de Boy (1980) e War (1983).
Sim, você conhece Gavin Friday. São dele um par de olhos etílicos azuis, uma enorme porção de nicotina vocal e um belo falsetto anasalado. Reconheceu? Existe um Gavin pagão & undergound em Bono, e um Bono de vanguarda art-rock em Gavin. Impossível dizer quem é quem. Após o fim dos Virgin Prunes, em 1986, Gavin limitou-se a pintar, Guggi também seguiu carreira nas artes plásticas e o U2 tornou-se uma das maiores bandas do mundo. Somente em 1989, Gavin voltou repaginado em seu primeiro disco solo, Each Man Kills The Thing He Loves, iniciando parceria duradoura com o arranjador Maurice "The Man" Seezer. No lugar do espírito punk, chegaram os pianos de cabaré, a poesia de Oscar Wilde e uma sofisticada paleta de cores noturnas.
Bono quer a luz, Gavin a penumbra.
Mas quer saber de onde mesmo você conhece Gavin Friday? Da trilha sonora de Em Nome do Pai (Jim Sheridan, 1993), toda composta em parceria com Bono e Maurice Seezer. Com Daniel Day-Lewis no papel de um delinquente irlandês injustamente acusado de terrorismo pelo governo da Inglaterra, o filme conta com a pungente canção-tema You Made Me The Thief Of Your Heart, imortalizada na interpretação de Sinead O'Connor. O PIB da Irlanda deve muito a essa turma. Gavin também está nas trilhas sonoras de Missão Impossível, Basquiat e Moulain Rouge -- outra vez com Bono -- além do hit Angel, da trilha de Romeu + Julieta, sucesso entre o público jovem nos anos 1990.
O que você precisa ouvir são as 12 luxuosas e excêntricas faixas de Adam N' Eve (1992), cheio de climas imprevisíveis, -- produzido pelo Flood, que o U2 tomou mais tarde para a produção de Pop (1998)--; um pouco de Shag Tobaco (1995) e aquela pinceladinha básica pelo trabalho do cara, que é bissexto em matéria de lançamentos.