
A partir de hoje, usarei o blogue-grogue para revisitar álbuns esquecidos ou incompreendidos, subestimados ou superestimados, guilty pleasures e paixões bandidas do pop e do rock. O objetivo é fazer um tira-teima pra saber o que parmanece bom ou ruim, válido ou inválido, o que gera preconceitos errôneos e conceitos com razão. Os critérios de tempo são meus e os de gosto também. Mas vocês podem usar esta simpática caixa de comentários para indicações igualmente simpáticas. Não quero impor um padrão de tamanho, porque como dizem por aí, tamanho não é documento. Mas quero tentar impor uma periodicidade de postagens. Vamos ver se consigo.
Poucas coisas me dão tanta vergonha quanto a pseudo-vergonha de ditos roqueiros sobre o pop oitentista. Por isso, lá vai a primeira escolha.
a-ha - Scoundrel Days (1986)
O new wave já estava cheio, muito cheio de synthpop na metade nos anos 1980 quando os noruegueses do a-ha (em caixa baixa mesmo) tomaram a programação da MTV americana com o clipe de Take On Me, um clássico pop instantâneo baseado na combinação de sintetizadores, bateria eletrônica e o riff inconfundível de Magne "Mags" Furuholmen no teclado. Além do vídeo em animação, em que cada frame da filmagem foi redesenhado num processo chamado rotoscopia, o single foi muito ajudado pelos falsettos e pela beleza nórdica do vocalista Morten Harket: se a melodia serviu como beabá auditivo para crianças que ainda testavam a gravidade e pronunciavam as primeiras sílabas, pode-se dizer que o vocalista reproduziu-se em pôsteres e tornou-se um dos sex symbols mais cobiçados pelas adolescentes oitentistas. E assim como Morten Harket, Take On Me tem o mérito de envelhecer bem.
Mas apenas um ano após a estreia com o álbum Hunting High And Low (1985), veio Scoundrel Days, com produção do britânico Alan Tarney junto a Mags e Pal Waaktaar, guitarrista do grupo. Para além do menino bonito dos vocais, o disco precisava mostrar maturidade e competência sem perder a identidade pop. Menos colorido e com letras mais céticas sobre o amor, o disco traz melodias pops mais agressivas, usando sintetizadores, teclados e instrumentos eletrônicos junto a pontuais participações de instrumentos de sopro e maior aparição das guitarras, a começar pela tríade Scoundrel Days, The Swing Of Things e I've Been Losing You, uma das melhores sequências de abertura do gênero àquela altura do campeonato.
A faixa-título é bom exemplo de como una introdução instrumental minimalista pode construir um clima de tensão junto aos vocais até ascender ao clímax que, literalmente, quase arranca o fôlego de Morten nas palavras do refrão. É uma catarse de abertura. "See...as our lives are in the making/We believe through their lies and the hating/That love goes free through scoundrel days (Veja... nossas vidas estão se fazendo/Nós acreditamos que entre as mentiras e o ódio/O amor ainda é livre nesses dias canalhas)". E ainda melhora ao vivo, quando as guitarras de Pal e Mags acompanham a potência vocal de Morten.
Retrospectivamente, "The Swing of Things" (segunda faixa) sai prejudicada pelo excesso de borracha sintética e efeitos ultrapassados mas ainda cresce fina elegante nos refrões com belo arranjo vocal. Pra recauchutar, basta apenas retirar a gordura pra encher de inveja qualquer bandinha pop-modernosa na crista da onda de 2011. Mas o ponto alto do disco fica mesmo com a intocável I've Been Losing You, melhor faixa do a-ha dentro do gosto roqueiro. Com forte pegada de bateria e um arranjo de metais que dá toda uma macheza (ui!) à sonoridade do trio, tem letra sobre as duras perdas -- "I lost my way/I've been losing you" --, e ainda funciona como agente atropelador, com direito a paradinha e gran finale instrumental de pegada rock n' roll. Vale muito pra cantar em voz alta e embarcar na catarse do desespero amoroso.
A partir dali, tudo parece por demais calcado no alcance vocal de Morten Harket. Para o bem e para o mal. Cry Wolf, com estrutura simplória e um refrão pegajoso e divertido, foi um dos maiores hits do a-ha. Mas nada além depois disso merece nota. Manhattan Skyline acerta na melodia e também cresce ao vivo com sua virada surpreendente para um tom mais agressivo, mas soa mal resolvida e irregular no velho vinil, com certa forçada de barra nos vocais que só colabora pra "embreguecer" o resultado. Soft Rain Of April é pouco perto de baladas anteriores, como Huntin' High And Low (1985) e futuras, como Stay On These Roads (1989). A cantarolável October não chega a brilhar com seus suaves arranjos de sopro, mas talvez rendesse bem em nova roupagem.
A sonoridade bufônica de Maybe Maybe, que mais parece trilha de musical cômico, precisava de uma nova roupagem pra divertir com estilo em torno do refrão-repetitivo-chiclete. O mesmo vale para The Weight Of Things, assassinada pelo excesso de programação eletrônica e de sintetizadores, numa produção completamente datada. Já We're Looking For The Whales paga a maior vergonha alheia do disco e não se salva em termos de composição ou produção.
Numa audição distante da infância e da adolescência em que eu e meio mundo quase furamos Scoundrel Days de tanto ouvir, o conjunto do disco ganha avaliação acima do REGULAR, graças às melodias inconfundíveis e à ótima tríade de abertura, e pouco abaixo do BOM graças aos frufrus sintéticos oitentistas que ainda habitam nosso imaginário cheio de balas soft coloridas, personagens surreais, sessões da tarde & programas infantis com apresentadoras muito loucas.