sábado, 7 de março de 2015

Dois poemas aparentemente sem conexão

São Sebastião

As setas
– cruas – no corpo

as setas
no fresco sangue

as setas
na nudez jovem

as setas
– firmes – confirmando
a carne.

(Orides Fontela)

"Os namorados pobres"

O namorado dá
flores murchas
à namorada
e a namorada come as flores
porque tem fome
Não trocam cartas
nem retratos nem anéis
porque são pobres
Mas um dia
têm muito medo
de se esquecerem
um do outro
então apanham
um cordel
do chão
cortam o cordel
e trocam alianças
feitas de cordel
Não podem
combinar encontros
porque não têm
número de telefone
nem morada
assim encontram-se
por acaso
e têm medo
de não se voltarem
a encontrar
O acaso
não os favorece
Decidem nunca sair
do mesmo sítio
e ficarem sempre juntos
para não se perderem
um do outro
Procuram um sítio
mas todos os sítios
têm dono
ou mudam de nome
Então retiram
dos dedos
os anéis de cordel
atam um anel
ao outro
e enforcam-se
Mas a namorada
tem de esperar
pelo namorado
porque o cordel
só dá par[a] um
de cada vez
O namorado
descansa à sombra
da figueira
e a namorada
baloiça
na figueira
O dono da figueira
zanga-se
com os namorados pobres
porque julga
que estão a roubar figos
e a andar de baloiço
(ADÍLIA LOPES)

domingo, 9 de novembro de 2014

História

Você examina meus anéis
E me pergunta se são joias de família
Suas sardas tão discretas sob a luz da livraria
Suas mãos aterrissadas sobre as minhas
Em seu pretexto tão discreto
Quanto o meu segredo
Que você intui desde o primeiro dia
E que permanece encrustado
Irrealizável e inconfessado
Como o tempo deixou
Nesta geografia de pintas

(RENATA D'ELIA, 2011) 




terça-feira, 1 de julho de 2014

"Café Notre Dame", Lawrence Ferlinghetti

Uma espécie de trauma sexual
prende um casal abismado
Ele está segurando as duas mãos dela
nas suas
Ela está beijando as mãos dele
Estão olhando-se
nos olhos
de muito perto
Ela tem um casaco de peles
feito duma centena de coelhos correndo
Ele
tem um casaco clássico sombrio
e calças cinza-de-pardo
Agora estão a examinar as palmas
das mãos um do outro
como se fossem mapas de Paris
ou do mundo
como se estivessem à procura do Metro
que os levasse juntos
através dos caminhos subterrâneos
através das «estações do desejo»
até ao terminal do amor
até às portas da cidade-luz
É um caso sem saída
e estão perdidos
nas linhas cruzadas
das suas palmas enlaçadas
suas linhas de cabeça e linhas de coração
suas linhas de sorte e linhas de vida
ilegíveis e misturadas
no mons veneris
da sua paixão

Lawrence FerlinghettiIn “A boca da verdade”, Antologia Portuguesa
Trad. André e Isabelle Lima
1986

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sobre roqueiros e banqueiros

Pesquisa da Edelman PR aponta que 50% da população mundial odeia bancos. Há quem deteste U2, mas a porcentagem não chega a tanto. 

Acontece que Bono, vocalista do U2, lidera uma fundação global de luta contra a Aids chamada Red, que precisa de dinheiro, mídia e espaço na agenda política para funcionar. Então ele vai ao Fórum Econômico Mundial de Davos e anuncia sua nova parceria abraçadinho a um indigesto coxinha poderoso do Bank of America, enquanto o baterista Larry Mullen Jr palita os dentes em alguma cozinha do inverno irlandês. 

Na prática, o U2 libera uma faixa inédita do novo disco para download gratuito por 24 horas e o BofA paga US$1 por download + US$10 milhões de apoio espontâneo à fundação Red, já que o banco é bonzinho, tem sentimentos e uma reputação a zelar. Tudo isso é anunciado no intervalo do Superbowl, uma das maiores audiências do ano na TV e na internet, em tempo publicitário comprado pelo BofA. 

A doação total foi de US$13 milhões. A Red já acumula mais US$250 milhões em doações privadas. O U2 também vai reverter à instituição toda a renda dos downloads da faixa "Invisible" no iTunes. E agora que vocês já sabem disso, não esqueçam de agregar um pequeno bottom do U2 e outro do Bank Of America às camisas verde musgo para usar nas próximas férias selvagens na África. 


This is public relations. (Aliás, gostei da música).
* Com informações do Financial Times


domingo, 26 de maio de 2013

POEMA III

III

A garota cumprimentava estátuas
E caminhava pelas sombras
dos cachorros de rua

(Isso quando perdeu uma coisa que valia mais que dois brincos)

Mas nos dias anteriores

Movia-se pelas calçadas como
se pulasse amarelinha
E perfurava nuvens com espadas imaginárias

Gostava de contar o tempo
pelas horas de Júpiter tão longas
quanto os anos que duram onze
E os minutos de silêncio dos
dos jogos de futebol

(Acabou perdendo os brincos onde Judas perdeu as cuecas)

Movia-se pelas calçadas como
se torcesse para um time falido
nos umbrais da segunda divisão

A garota cumprimentava sombras
E caminhava pelos escombros
de suas ruas sem saída

RENATA D'ELIA, MAIO/2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Uma entrevista perdida do Piva


Aproveitando os 50 anos de "Paranóia", completados este mês, eis uma entrevista garimpada de Roberto Piva a Álvaro Alves de Faria na rádio Jovem Pan nos anos 1980, logo depois do lançamento de "20 Poemas Com Brócoli". Pena não termos acesso à época da pesquisa de "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Bicelli, Franceschi e Uma Trajetória Paulista de Poesia", que lancei com a Camila Hungria em 2001. Muita coisa ainda permanece em baús individuais. Mas vamos encontrando Alephs nos porões & sótãos. 


Eu poderia transcrever trechos da entrevista aqui, mas é tão bom que prefiro deixar com vocês. A visão de Piva sobre "gerações poéticas", os poetas cânones das capas do caderno Ilustrada, Dante Alighieri e as saunas do subúrbio que os operários frequentam -- mas que Lula, então sindicalista, sequer passa perto.  Façam o melhor proveito!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Miklos Radnoti

Um Poema 

És assim como um galho sussurrante
quando te debruças sobre mim,
e és sabor misterioso
como semente de papoula,

e como o tempo que encrespa o rio
és assim instigante,
e tão tranqüilizante
como a lápide num túmulo,

és como uma amiga que cresceu comigo
e que fosse ainda hoje
difícil reconhecer
o cheiro do teu cabelo,

e quando te magoas eu temo que me deixes,
vadia fumaça esgrouviada –
e às vezes temo mesmo a ti,
quando tens cor de relâmpago,

e como tormenta no céu que o sol varou:
douradoescuro –
se te irritas és então
exatamente como um úú,

profundo som, ressoante e escuro,
e nessas horas eu
faço com sorrisos laços luminosos
em redor de ti.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Teus olhos


Teus Olhos

Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.
Octavio Paz

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Natal

Natal

rios subterrâneos de amor

disfarçados de horário comercial
carregam sacolas
de Peru Sadia 

digitam senhas
descolam etiquetas 
empacotam o custo-Brasil

depois tocam buzinas

desejam bacias humanas
para desaguar

(RENATA D'ELIA, DEZ/2012)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ingressos para shows: acabou a farra do boi?

                                Madonna e Lady Gaga: turnês têm demanda abaixo do esperado no Brasil

Para evitar um fiasco de vendas, a produtora Time For Fun decidiu reduzir drasticamente os preços dos ingressos que restam para os shows de Madonna no Brasil em dezembro, conforme informações do jornal O Estado de S. Paulo. E bem, ainda restam muitos ingressos. Só não sei o que acontece com quem comprou antes a preços mais caros. É possível que vigore a lógica da liquidação comum às calças jeans & eletrodomésticos. Mas isso é assunto do Procon. Vamos aos fatos que interessam. 

O show de Lady Gaga no Morumbi, no último dia 11 de novembro, tinha de fato muitos espaços sobrando. A razão entre o copo meio cheio e o copo meio vazio depende de outras variantes. A julgar pela política de "pague 1, leve 2" que vigorou por iniciativa do patrocinador master quando os ingressos encalharam, o pior foi evitado. Consideremos também a baciada nos sites de compras coletivas e os cambistas desesperados vendendo ingresso de R$300 por R$40 na porta do estádio.

Boa parte do público comemora com "bem feito!" frente aos produtores que, até 2011, esgotavam ingressos a preços caros com direito a confusão nos postos de vendas e reclamações sobre panes nos sistemas de e-commerce, além de uma versão peculiar das pistas VIPs com serviços bem mais chinfrins do que seus equivalentes europeus/americanos.

Mas trata-se de dois big shows que, pelo menos em partes, aglutinam os mesmos consumidores. E eles desembarcam no Brasil com intervalo de menos de 30 dias e durante a baixa temporada do hemisfério norte, onde se concentra o faturamento grosso das turnês. Madonna tem quase 30 anos de vantagem sobre sua nova rival, com uma marca mais consolidada, dezenas de clássicos musicais e imagéticos do pop, maior influência cultural e comportamental, além de um público fidelizado nos moldes massivos da indústria do disco.

Apesar dos hits e da forte influência de Gaga nos últimos 5 anos, seus "little monsters" têm média de idade inferior. Boa parte concentra-se entre colegiais e universitários com menos autonomia e poder aquisitivo, dependendo dos pais para comprar ingresso e viajar  para assistir shows. Conforme apurei em reportagem para o Valor Econômico, o share de turistas nos grandes shows internacionais pode ultrapassar 40% do público em cidades como São Paulo, Recife e Rio de Janeiro.   

A Time For Fun representa com exclusividade no Brasil a promotora Live Nation, maior do mundo. A Live Nation possui contratos para gerir as turnês de Lady Gaga e Madonna, além de nomes mega-rentáveis e ultra-lucrativos como o U2. No caso de Madonna, um contrato "360°" com vigência de 10 anos foi firmado em 2007.  Inclui seus álbuns, singles, licenciamento de produtos, merchandise oficial e turnês. As turnês são superproduções. Superproduções são caras. E no fim das contas, a Live Nation morde 10% do que Madonna arrecada. Mas deve pagar US$120 milhões à cantora ao longo destes 10 anos independente do que ela arrecadar.

Apenas em 2012, estima-se que a Rainha já tenha recebido entre US$30 e US$40 milhões pela parceria. Fazendo uma conta de quitanda, é como se ela tivesse virado uma "empregada de luxo": precisa cumprir a agenda de shows estipulada pela Live Nation para atingir suas metas de lucro. Em sua última turnê, a "Sticky & Sweet" (2 shows no Rio e 3 em São Paulo, 2008), Madge se estafou com o calendário abarrotado de apresentações.

Acontece que apesar da apresentação triunfal de Madonna no intervalo do Superbowl (evento de maior exposição e receita publicitária dos EUA), em fevereiro, o kickoff das vendas do disco ficou abaixo do esperado pela Live Nation. Aí você pensa: "ok, ninguém vende mais discos". Só que a perna da turnê "MDNA" numa Europa em recessão também não rendeu o suficiente. O empresário dela, Guy Oseary, chegou a pressionar a Live Nation para reduzir os preços e aumentar a venda de ingressos. Tanto Madonna quanto Lady Gaga não fizeram shows na Austrália, com um mercado de entretenimento habitualmente forte, mas saturado nesta temporada. A suposta má fase do setor em todo o mundo foi uma das justificativas da diretoria da Time For Fun para a baixa procura neste fim de ano.

Enquanto isso, o Rock In Rio comemora a venda de 80% dos ingressos para sua edição 2013 já na largada e sem confirmar todo o lineup, mas tendo como headliners nomes rentáveis do rock n' roll, como Bruce Springsteen e o Metallica, com público fiel. Capitaneada pelo Pearl Jam e agendada para março de 2013, em São Paulo, a segunda edição do festival Lollapalooza ainda não esgotou nenhuma de suas 3 datas com ingressos R$330 por dia, mas esgotou o primeiro lote com rapidez.

Alguém aposta que os preços dos ingressos cairão nos próximos anos? Que os festivais ganharão protagonismo e a era dos megashows solo pode estar no fim? Que a cauda longa gerará cada vez menos artistas com tamanho suficiente para as superproduções e grandes arenas? Um mapeamento inicial para fomentar a discussão foi publicado na New Yorker em 2009, mas ainda é válido. Leia aqui.

Leia também:

domingo, 9 de setembro de 2012

Criança

CRIANÇA

A vida sem cobranças
Suave como esta tarde

Inventaremos cidades e trocaremos
seus postes por gigantescos
girassóis
e árvores que gesticulam
como bonecos de posto de gasolina

Seremos benção e beleza
Tocaremos os sinos em horas
flexíveis
Levaremos sopros vitais
para todas as direções

Eu, você -- seu brilho faiscante

Viveremos um pacto sutil de amor & sorte.

(Renata D'Elia, setembro de 2012). 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Os Dentes da Memória na Revista da USP

Saiu na Revista USP, edição de maio, um artigo do professor Wilson Alves-Bezerra (UFSCar) sobre meu livro com a Camila, "Os Dentes da Memória - Piva, Willer, Bicelli, Franceschi e Uma Trajetória Paulista de Poesia" publicado pela Azougue Editorial. 

Reproduzo abaixo as páginas, ainda que numa resolução mediana mas suficiente para a leitura -- não consegui comprar a revista a tempo. Cortesia dos amigos Fernando Neumayer e Marino Mirante.